Estação após estação, Hugo Costa regressa a Paris. A cidade já é praticamente uma segunda casa, é a partir dela, em especial da Semana da Moda Masculina, que comunica a sua marca para o mundo, mesmo que, muitas vezes, a inspiração para criar venha de geografias e culturas remotas. Na Rue Notre Dame de Nazareth, no coração de uma Paris caótica, o criador apresentou Haenyeo, no final da tarde da última terça-feira. Ainda antes de os manequins exibirem as propostas para o próximo verão — não através de um desfile convencional, mas de uma apresentação em que posam demoradamente para as objetivas —, já a cenografia denunciava aquele que poderia ser o imaginário da coleção. Entre caixas, paletes de madeira, boias e redes, o mar e a pesca levaram Hugo Costa a Jeju, uma ilha da Coreia do Sul.

“Sempre tive um fascínio muito grande pelo Oriente, até pelas influências que tenho como designer. Este tema já estava em cima da mesa há umas duas ou três estações. Tinha de ser agora, talvez por estarmos a falar tanto de genderless e de igualdade de género”, explica o criador ao Observador, durante a apresentação. As haenyeo são, na verdade, as mulheres daquela ilha e as responsáveis pelo sustento da família. Mergulhadoras exímias, fazem-se ao mar todos os dias em busca de alimento, enquanto os homens ficam a cuidar da casa e dos filhos. São “forças da natureza”, como lhes chama Hugo Costa, mas também figuras que desafiam uma supremacia pré-histórica do homem como figura cimeira na dinâmica familiar. “Pareceu-me interessante pegar numa inspiração claramente feminina — estas mulheres poderosíssimas — e apresentar o resultado numa semana de moda masculina”, partilha o designer.

© Ugo Camera

Numa rápida pesquisa no Google, entre as primeiras imagens que aparecem destas mulheres, surge uma delas com um fato de mergulho cor de laranja e com um top de alças às flores por cima. “Isto era capaz de dar uma silhueta”, pensou Hugo Costa. A coleção partiu daí e construiu-se a partir do contraste entre materiais robustos, já usados pelo criador, e uma nova seleção de texturas delicadas, como é o caso da popeline e dos impermeáveis extremamente finos —“esses até acabam por dar um aspeto molhado”, repara. A paleta rica, a conjugação de materiais e a aposta nos acessórios marcou cada um dos 16 coordenados. Num deles, um vestido sobreposto a uma camisa. Não é de agora que Hugo Costa explora o conceito de um guarda-roupa sem género, mas desta vez o discurso subiu de tom. “Acho que temos aqui a nossa melhor coleção”, resume. “Pela cor, pela textura, pela silhueta, pelo styling, pela overdose de detalhes, pelos acessórios”, acrescenta.

Os coordenados limpos do designer deram lugar a looks com camadas, a misturas de cores e texturas e a acessórios ruidosos. As opções são justificadas com o imaginário piscatório. “Lembro-me de ver pescadores a saírem com coletes cheios de bolsos. E fez sentido, porque também elas têm essas peças, um cintos feitos com uma espécie de câmara de ar de bicicleta, que lhes seguram a roupa e que enchem de pedras para ajudar no mergulho. Nós temos cintos com acessórios metálicos onde dá para pendurar bolsos. Não posso usar isto de forma literal, mas é fundamental refletir sobre esses pormenores”, esclarece.

© Ugo Camera

Em cima da mesa está também uma nova estratégia para a marca. As sucessivas apresentações em Paris ajudaram o criador a conquistar clientes um pouco por todo o mundo, ainda assim, Hugo Costa anuncia uma reestruturação. “Apresentámos à ANJE [Associação Nacional de Jovens Empresários] uma proposta para nos tornarmos na primeira marca portuguesa de autor a existir apenas no digital”, refere. A transição está a ser feita e a coleção apresentada esta terça-feira será a primeira a não passar pelo retalho físico. Prepara-se agora um estudo de mercado para sondar qual o marketplace ideal para Hugo Costa. Até lá, há sempre a loja online.

Na fotogaleria, veja as imagens da apresentação de Hugo Costa, em Paris.

No mesmo dia, também em Paris, o Showcase Moda Portugal expôs o trabalho de dezenas de designers portugueses no bairro do Marais. A iniciativa foi promovida pelo CENIT (Centro de Inteligência Têxtil) e pela ANIVEC (Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção).

O Observador viajou até Paris a convite do projeto Showcase Moda Portugal.