O rei Felipe VI decidiu não propor qualquer candidato para formar Governo, depois da investidura falhada de julho. Espanha está, assim, mais perto de novas eleições — as quartas em quatro anos. Há, porém, ainda uma possibilidade de evitá-las: a dissolução do parlamento só se torna efetiva na próxima terça-feira, o que significa que os partidos têm uma semana para chegar a uma solução de governo, com um eventual acordo de última hora.

Na reação à decisão do rei, porém, o socialista não quis pôr essa possibilidade em cima da mesa. Sánchez culpou os partidos da oposição e lamentou que um acordo não tenha sido possível. “Tentei tudo, mas não me deixaram”, garantiu, dizendo que “não há bases suficientes para pôr em marcha uma investidura que vai falhar”. Sobre se ainda é possível chegar a um acordo, o líder do PSOE disse que “é importante que não se gerem falsas expectativas” e apontou para as eleições de novembro.

Duas forças políticas conservadoras e uma força política de esquerdas decidiram bloquear a formação do Governo que os espanhóis pediram. (…) Espero que os espanhóis deem a maioria parlamentar ao Partido Socialista para que não haja mais bloqueios a partir de 10 de novembro”, concluiu.

A possibilidade de um acordo in extremis até terça-feira resulta do artigo 99 da Constituição espanhola, que diz que o parlamento só é dissolvido — e novas eleições convocadas — quando tiverem passado “dois meses a partir da primeira votação da investidura”. O El País explica que essa primeira tentativa foi feita a 23 de julho, o que significa que o prazo só acaba a 23 de setembro, se nenhum candidato conseguir a confiança do parlamento. Só nessa altura, diz a lei fundamental de Espanha, “o rei dissolverá ambas as Câmaras e convocará novas eleições”.

Uma eventual tentativa de ainda evitar eleições teria, porém, de ser feita em contra-relógio: as regras da investidura de um presidente do Governo implicam que haja duas votações, separadas por 48 horas, e um debate sobre a escolha. O que significa que, a acontecer, Sánchez teria de, pelo menos, assegurar a abstenção de PP e Ciudadanos até quinta-feira, para depois comunicar ao rei que tem condições para formar governo, podendo os deputados avançar com os discursos e votações durante o fim de semana.

Maior obstáculo que isso será a forma como o líder socialista criticou os adversários. Sánchez foi particularmente duro quanto ao Unidas Podemos, dizendo que Pablo Iglesias é recordista a vetar governos de esquerda, algo nunca visto no Europa.

Todos os partidos políticos vão ter de se explicar, principalmente Unidas Podemos. Os cidadãos percebem perfeitamente a minha posição. Espanha precisa de um Governo duradouro, estável e único”, insistiu.

Pablo Iglesias respondeu no Twitter. O líder do Unidas Podemos diz que foi Sánchez que não quis usar o mandato que tinha para formar governo, acusando o socialista de “arrogância e desprezo pelas regras básicas de uma democracia” e dizendo que isso impôs-se à sensatez.

Pedro Sánchez comete um erro histórico de enormes dimensões ao forçar outras eleições por uma obsessão pelo poder absoluto que os espanhóis não lhe deram. Faz falta um presidente que entenda o multipartidirismo. Espanha mudou e não vai voltar atrás.”

Até agora, a única brecha na oposição veio de Albert Rivera. Depois do encontro com o rei, o líder do Ciudadanos criticou duramente o socialista, por querer apoios sem moedas de troca, mas abriu ainda a porta a um entendimento de última hora. “Ainda há tempo, se Sánchez retificar a sua posição”, disse aos jornalistas depois do encontro com Felipe VI.

Sánchez quer que os outros partidos lhe entreguem os seus votos sem nenhuma condição em troca. É algo nunca visto. Se Sánchez forçar eleições, os problema deste país chamar-se-á Pedro Sánchez”, concluiu, repetindo o apelo a um acordo que evite novos votos.

O PSOE não chegou a responder a este repto.

A decisão de não apontar um candidato foi tomada pelo monarca depois da segunda ronda de encontros com os partidos com representação parlamentar, a propósito da formação do governo espanhol.

Sua Majestade constatou que não existe um candidato que conte com os apoios necessário para que o Congresso dos Deputados lhe entregue a sua confiança”, diz a Casa Real em comunicado, e por isso “não formula uma proposta de candidato à presidência do Governo”.

Este cenário parecia ser o mais provável, depois de o PP e o Ciudadanos terem prometido votar, pela segunda vez, contra um governo de socialista. Pablo Casado foi o penúltimo a ser recebido por Felipe VI, antes de Pedro Sánchez. Ao jornalistas falou de uma sensação “agridoce”, insistindo que fez tudo o que foi possível para chegar a um acordo, mas que o socialista não o queria.

Este era o desfecho que Pedro Sánchez queria desde o dia 28 de abril”, assegurou o líder do PP.

Com um entendimento aparentemente impossível com a direita, para pouco contaria a abstenção do Unidas Podemos, que também não chegou a acordo com o PSOE.

Nem à esquerda, nem à direita. Negociações só afastaram os partidos

A primeira tentativa de investidura aconteceu em julho, mas falhou com a abstenção da esquerda e os votos contra do PP e do Ciudadanos. Na altura, a negociação com a coligação liderada por Pablo Iglesias — sempre apresentada como “parceiro preferencial” dos socialistas — teve vários avanços e recuos, chegou a estar anunciada como muito próxima de estar fechada, mas acabou por nunca chegar a um aperto de mão entre os dois líderes.

Depois do chumbo no parlamento, Pedro Sánchez viu-se forçado a apelar de novo ao apoio da oposição, para evitar novas eleições. As posições entre PSOE e Podemos acabariam, porém, por tornar-se ainda mais distantes: Iglesias insiste em ter lugares de relevo no Governo, algo que Sánchez nunca aceitou. Esta terça-feira, o líder do Podemos disse mesmo que o PSOE “prefere Rivera” e lamentou que os socialistas não tenham “predisposição” para negociar.

A referência a Rivera surge depois de se ter vislumbrado uma espécie de geringonça de centro-direita, logo no início da semana, quando o líder do Ciudadanos propôs uma abstenção conjunta com o PP em troca de três condições. Se o Governo de Pedro Sánchez prometesse não subir impostos, não indultar os independentistas catalães presos e prometesse romper com o governo de Navarra, poderia contar com essa não oposição à sua investidura.

De imediato, o PSOE desafiou Rivera a abster-se, garantindo que as três condições, afinal, já estavam a ser cumpridas. Mas depois, por carta enviada ao líder do Ciudadanos, Pedro Sánchez foi mais específico: concordou com o não aumento de impostos, admitiu a aplicação do artigo 155.º na Catalunha, se for necessário, mas recusou afastar já a possibilidade de indultos ou romper com o governo de Navarra, garantindo apenas que é um governo “constitucionalista”.

Albert Rivera diz que viu na resposta um desrespeito pelos espanhóis e reafirmou o voto contra a investidura. Já antes se tinha percebido que dificilmente esse acordo com a direita seria possível, uma vez que estava obrigatoriamente vinculado ao PP, que não aceitou a proposta.