Dos pequenos presentes aos projetos de decoração chave na mão, a capital tem oferta para todos os bolsos e necessidades. Que o digam os decoradores e designers que, por estes dias, apanham a boleia de um setor imobiliário em expansão e de uma atenção, cada vez maior, aos detalhes e ao conforto. Há quem diga que voltámos a valorizar a casa como há décadas não acontecia. E, enquanto uns se concentram em equilibrar design e bem-estar, como se fossem as duas variantes base na hora de conceber um ambiente e um espaço, outros trabalham para fazer valer o produto nacional. Há lugar para todos, sobretudo nesta amostra de cinco novas lojas em Lisboa. Visitámo-las a todas.

Casa do Passadiço

Avenida da Liberdade, 166. 21 584 6973. De segunda-feira a sábado, das 10h às 13h e das 15h às 19h

Durante os últimos 26 anos, foi a partir de Braga que esta empresa familiar desenvolveu os seus projetos, aquém e além-fronteiras. É a história de uma mãe e de duas filhas, Cláudia e Catarina Soares Pereira, a quem o gosto requintado valeu um verdadeiro império da decoração. Depois de um solar do século XVIII, que continua a ser a sede, a Casa do Passadiço rumou a sul e abriu em plena Avenida da Liberdade. Ir para a capital era uma necessidade cada vez mais premente e encontrar o poiso certo foi uma questão de tempo e paciência.

Ao longo de seis salas, os ambientes destacam peças estrela, estrategicamente colocadas para brilharem. Falamos sobretudo de obras de arte e antiguidades — dois contadores indoportugueses, uma cómoda francesa setecentista, uma gravura assinada por Almada Negreiros, sofás Kagan estofados de fresco e um aparato de Joana Vasconcelos na reta final de um percurso cheio de requintes. Apesar do fausto, o trio garante que há projetos para todos os orçamentos, do palacete ao T0. Ao mesmo tempo, a nova loja também traz uma seleção de pequenos objetos, entre eles livros, velas e cerâmicas, também a pensar em presentes rápidos e listas de casamento.

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No portefólio, a Casa do Passadiço reúne trabalhos muito diferentes. A empresa já projetou mais de 20 espaços para a italiana Aquazzura, incluindo lojas e a sede no Palazzo Corsini, em Florença, residências em Londres e Nova Iorque, mas também a mais recente geladaria do Cais do Sodré, pertencente à marisqueira Ibo. Lá fora, a arte de decorar cada espaço à medida é também a de promover o made in Portugal. A produção é feita a norte e supervisionada pelas três mulheres que se mantêm ao leme do negócio. É como elas dizem: “não há um parafuso que não seja português”.

Ding Dong

Rua da Imprensa à Estrela, 17. 21 396 1079. De terça-feira a sábado, das 12h30 às 19h30

Há sete anos, este estúdio de decoração começou a dar os primeiros passos na Rua da Cerca, Porto. Os primeiros projetos, destinados a amigos e a amigos de amigos, funcionaram como rastilho e o passa palavra acabou por ser o derradeiro cartão de visita. O negócio cresceu e a Ding Dong construiu uma identidade própria — uma aversão à monotonia e uma harmonia que resulta da miscelânea de diferentes elementos. Há uma semana, abriram o primeiro espaço em Lisboa, uma loja aberta ao público, ao contrário da sede na invicta, onde a equipa continua a trabalhar à porta fechada.

A nova loja, junto aos jardins do Palácio de São Bento, segue o mood criado pelos três sócios: Michael Miranda, Davide Gomes e Maria João Gonçalves. Uma curadoria caótica (no bom sentido) de antiguidades, papéis de parede, pequenos móveis, tecidos, objetos de estacionário e ainda peças com um toque de exotismo. Ao fundo da sala há uma estante que cobre a parede. Nela, espreitam o chamados coffee table books, com títulos de design, moda, interiores e de lifestyle. É uma área que pode facilmente isolar-se do resto da loja, de forma a receber clientes e outros contactos  que exijam alguma privacidade.

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Atrás do balcão, a Ding Dong esconde um segredo — uma pequena cozinha onde expõe peças de levar à mesa, como é o caso dos pratos da Hermès, mas também de uma divertida esponja de loiça, o artigo mais barato da loja. Custa cinco euros. Ao abrir este novo espaço em Lisboa, o estúdio também quis contornar o lado mais intimidante de um espaço à porta fechada. Sem terem de tocar à campainha, como acontece no Porto, os clientes entram, mexem e sentam-se. Afinal, nem toda a gente têm de sair com um projeto de decoração debaixo do braço, embora continue a ser esse o serviço com mais saída. Depois de um apartamento em Nova Iorque, o atelier tem agora em mãos um ambicioso projeto residencial em Miami.

Porventura

Rua Prior do Crato, 1 D. 93 931 4302. De segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h às 19h, e sábado, das 10h às 14h

A história de Filipe Ventura é também a de uma mudança de vida radical. Deixou o emprego de contabilista para aprender marcenaria, na Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, curso que terminou em 2012. Juntou-se ao pai, Jorge, e montou uma pequena oficina ali para os lados da Graça. As ideias eram promissoras, mas a escala demasiado pequena para vingar num mercado onde a concorrência é feroz e, sobretudo, industrializada. Em 2017, nasceu a Porventura, marca que abriu por estes dias a primeira loja, recheada de mobiliário português.

Assim que entramos, damos de caras com uma peça estrela. Torta, a secretária desenhada por Miguel Soeiro, tem o nome desde logo explicado. A construção inclinada faz com que seja o centro das atenções, mas não o único. Icon é a reinterpretação da mais portuguesa das cadeiras, também conhecida por Gonçalo, Rule é a estante multifacetada, desenhada por Filipe ainda nos tempos da velha oficina, e Alto é o banco de bar com o charme de outros tempos.

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A colaboração com designers é uma das frentes da Porventura. Tudo é produzido em Portugal, mais precisamente em Paços de Ferreira, mas a criatividade não tem de ser exclusivamente nacional. Miguel Soeiro tornou-se o designer residente, mas para o próximo ano a marca já tem algumas parcerias na manga, com criativos de Israel, Grécia e Coreia do Sul. Quanto ao produto português, ninguém tem dúvidas — a qualidade é-lhe cada vez mais reconhecida, enquanto uma cultura de design começa agora a querer fortalecer-se dentro do país.

Atualmente, 80% da produção da Porventura destina-se à exportação. Os Estados Unidos são o principal mercado, logo a seguir surgem os países do centro da Europa, conquistados pela mistura de minimalismo e tradição que caracteriza a marca. Muitos clientes pediam um sítio onde pudessem ver as peças de perto, Filipe fez-lhes a a vontade, abriu uma loja e ainda juntou à oferta de decoração outras marcas portuguesas. É o caso da &Blanc, marca assinada pelo próprio Miguel Soeiro, dos candeeiros vendidos pela Normo e da Sugo, com os seus tapetes portugueses que incorporam cortiça.

Casanova Store

Rua das Praças, 82 A. 21 589 4883. De terça-feira a sábado, das 10h30 às 19h

Pode ter aberto há quase um ano, mas continua a ser um dos segredos mais bem guardados da Lapa. A Casanova Store não é só mais uma loja de decoração em Lisboa, é uma oportunidade de espreitar o universo estético de uma designer de interiores que, até há bem pouco tempo, trabalhava à porta fechada. Com o atelier à distância de uma porta, Lígia Casanova é a curadora de serviço. É precedida pelo próprio estilo, algo que construiu ao longo dos últimos 26 anos. Hoje, os ambientes harmoniosos e confortáveis, bem como o balanço de cores fortes em bases neutras, são uma imagem de marca. Na Casanova Store, Lígia reúne sobretudo pequenas peças, potenciais presentes de Natal e cenários dignos de revista.

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Entre posters, caixas de arrumação, mantas, almofadas, frascos, castiçais e uma seleção de peças em cerâmica, o objetivo foi proporcionar uma seleção de objetos alcançáveis. A designer tem uma visão particular do que uma casa deve ser — não um fruto de tendências, porque essas vêm e voltam, mas um espaço concebido à medida de quem lá mora e, sobretudo, um espaço para ser vivido — e isso reflete-se na loja, fragmentada em pequenas salas, uma delas especialmente exposta a quem passa na rua. Chama-lhe pop-up window e adota um novo mood todos os meses. O sonho é um dia rechear a loja só com produtos portugueses, um caminho, para já, inviável.

No atelier, trabalham cinco pessoas e o ambiente é leve e descontraído. Não há mãos a medir, mesmo quando a maioria dos projetos se destina ao mercado nacional. Atualmente, os que cruzam a fronteira representam uma fatia que não vai além dos 15%. Para a estatística contribuem, naturalmente, os estrangeiros que se mudam para Lisboa. Lígia Casanova é, muitas vezes, uma referência que já trazem. Em 12 anos, o nome da designer figurou em dez edições da Andrew Martin. A publicação anual é considerada a bíblia do design de interiores, reunindo os melhores ateliers do mundo na sua seleção. Ainda assim, este continua a ser um estúdio com os pés na terra, mãos na cor e e confortavelmente instalado numa pacata rua lisboeta.

QuartoSala

Rua de O Século, 171. 21 441 1110. De segunda a sexta-feira, das 11h às 19h, e sábado, das 11h às 17h

Nos últimos três anos, Pedro d’Orey e Clemente Rosado abriram duas lojas na Grande Lisboa. E vão três, porque há uma nova QuartoSala no Príncipe Real, por sinal, um bairro que já estava servido pela curadoria dos dois sócios. Durante mais de uma década, a marca remeteu-se aos projetos de decoração — era um serviço e não uma loja. Pé ante pé, nos últimos cinco anos, redefiniu a estratégia. Com o mercado brasileiro aos solavancos (a empresa instalou-se lá em 2012), estava na hora de focar atenções no lado de cá do Atlântico. Um showroom em Paço de Arcos que abriu portas em 2006, um segundo espaço dentro da Casa Pau-Brasil, com uma seleção cuidada de designers e marcas brasileiras e, há um ano, uma loja na Rua da Boavista. Há clientes para todas lojas? Parece que sim, sobretudo porque, a cada abertura, a QuartoSala ajusta o posicionamento.

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No novo espaço, são 500 m2 preenchidos com algumas das mais proeminentes marcas de mobiliário do mundo. A fasquia é posta ao nível do luxo em resposta ao bairro que é paradigma da internacionalização e da cosmopolização da cidade. Os sofás da italiana Minotti, as cadeiras da Knoll, as peças dos anos 40 e 50 assinadas por Finn Juhl e agora revisitadas e a mesa de Noé Duchaufour Lawrence, designer francês agora a viver em Lisboa — de repente, a QuartoSala é uma montra de clássicos, embora haja também lugar para apostar em novas marcas, incluindo portuguesas. É o caso da Útil de Manuel Amaral Netto, cujas pequenas peças de mobiliário, bem como os novos módulos Plié fazem parte dos ambientes recriados.

Daqui não saem apenas projetos chave na mão. A loja foi organizada a pensar também em clientes ocasionais. Além de uma secção dedicada à iluminação, há uma série de fotografias de Fernando Guerra feita exclusivamente para a QuartoSala e uma seleção de peças em cerâmica. A cultura de design é algo inerente a esta casa, seja ele escandinavo, ao estilo italiano ou mesmo português.