Largas dezenas de elementos do Bloco de Esquerda (BE) estiveram reunidos este domingo para preparar uma moção para apresentar na próxima convenção do partido, mas rejeitam estar a criar uma nova tendência ou a preparar uma cisão.

João Madeira, bloquista desde a fundação do partido, explicou aos jornalistas que o movimento designado como “Convergência” reúne aderentes do BE de “diferentes sensibilidades” e que “estão preocupados com a situação” atual do partido.

Oiça aqui as declarações de João Madeira à Rádio Observador.

Apesar dos resultados eleitorais “bastante satisfatórios”, este movimento entende que a direção do BE precisa de maior autonomia e de mais afirmação das propostas do partido, em vez de andar “à procura do entendimento com o PS”.

João Madeira critica ainda a falta de debate interno no partido: “Sentimos as dificuldades que decorrem de muitas vezes não sermos ouvidos nos reparos, nas críticas e propostas que fazemos […]. Há muitas discussões fundamentais, como o programa eleitoral, que não foi discutido dentro do Bloco, ou se foi discutido, foi de forma muito mitigada”.

O movimento “Convergência” entende que é “preciso valorizar as organizações da base até ao topo e ter participação mais ativa e empenhada dos diferentes aderentes”.

Questionado sobre se procuram construir uma tendência dentro do BE, João Madeira rejeitou a ideia de serem um “movimento organizado e com regulamentação própria”.

“Não estamos nessa fase nem equacionamos isso sequer. Assumimo-nos como uma convergência de sensibilidades. Somos um conjunto de aderentes de sensibilidades diferentes e que entendemos que é possível construir uma plataforma de entendimento na qual nós convergimos”, explicou aos jornalistas numa conferência de imprensa durante o encontro que hoje decorreu em Lisboa e que reuniu cerca de 200 aderentes do partido, segundo números dos organizadores.

No encontro foi debatido um manifesto que será transformado numa moção para apresentar na próxima convenção do BE.

“Vamos à convenção apresentar uma moção. As listas não são independentes das moções. A existência de uma moção política implica assumir responsabilidades na apresentação de uma lista. O resultado que obtivermos refletir-se-á na nossa participação dentro das estruturas nacionais do Bloco. Não se trata de disputar o cargo A ou B”, afirmou.

Ou seja, a moção a ser levada à convenção nacional do BE estará associada a uma lista aos órgãos nacionais.

“O que daí resultar traduzir-se-á na nossa influência nos órgãos nacionais. É necessário que o espaço democrático da convenção permita o aparecimento de várias propostas de natureza política e que possa traduzir em repartição proporcional dos lugares”, justificou João Madeira aos jornalistas.

Na proposta inicial do manifesto, o movimento “Convergência” quer, nomeadamente, a afirmação do Bloco de Esquerda “como alternativa ao PS”.

“A afirmação do Bloco como alternativa ao PS, com um programa anti-neoliberal e socialista, ficou comprometida”, refere o documento, lamentando que tenha sido retirada força às propostas eleitorais do próprio partido, que se apresentou como “fazedor de pontes”.