Em 2001, não poderia ser aquele o ponto de encontro. A Ponte das Lavadeiras, onde um ministro e um autarca esperavam o Presidente da República, havia ruído há 18 anos. Por falta de manutenção, o dique que segura o rio Mondego na margem habitada, a de Montemor o Velho, também cedeu em 2001. E nessa altura, ainda não tinha atingido a capacidade máxima. Desta vez, ultrapassou o limite de 2 mil metros cúbicos por segundo.

A rutura de dois diques provocou cheias em Montemor-o-Velho, onde várias zonas foram evacuadas e uma grande área, incluindo muitas plantações, estradas e o Centro de Alto Rendimento, ficou submersa.

Este sábado, é nessa ponte que Emílio Torrão, presidente da Câmara de Montemor o Velho, e João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente, esperam Marcelo Rebelo de Sousa. As referências não demoram e foi o presidente da Câmara de Soure, Mário Rodrigues Nunes, chegado entretanto, o mais rápido a puxar pelas memórias.

“Esta ponte caiu em 2001, mas a tragédia de Entre os Rios absorveu as atenções mediáticas durante meses nessa altura”, relembrou. Depois, foi no ano de 2016 que o Mondego voltou a ficar sem margens. Mas agora, ali sã e salva, a ponte serviu de mote para lembrar que as cheias naquela zona do país do maior rio inteiramente português têm sido mais frequentes e que faltam infraestruturas. O autarca de Soure assinalou as diferenças.

Em 2016 a cheia passou só pelo lado esquerdo do rio e a linha do Norte — a principal linha ferroviária do país — esteve cortada oito dias. Desta vez, isso não aconteceu e a margem direita também foi afetada. Tive de evacuar restaurantes, cafés, pastelarias, pessoas idosas. Não se trata de fazer uma escolha entre esquerda e direita, trata-se de resolver um problema de fundo a jusante”, alertou Rodrigues Nunes.

Daquela ponte é notório ainda o nível alto da água. “Impressionante, passados tantos dias. Só vendo é que se tem a noção exata daquilo que pela televisão já impressiona muito”, garantia Marcelo Rebelo junto da população, que cedo e com a memória fresca de algumas noites em branco, deixou de ter medo de se queixar.

Na rua Poço de Cale, junto a uma margem do rio Mondego, Antónia Rodrigues ainda não tinha almoçado quando recebeu o Presidente.

– “Foi um grande susto. Muito grande. Tenho a minha casa toda de pantanas”

– “Eu sei, eu sei, eu sei”, anuía Marcelo Rebelo de Sousa, num abraço.

Com o filho enfermeiro em Faro, a bombeira estava sozinha na noite em que o Mondego galgou as margens. “Foram momentos muito complicados. Não vai dar para esquecer isto tão depressa”

Antónia não chegou a ter água a entrar-lhe em casa, “mas as possibilidades eram todas essas, não fossem aquelas pedras que o senhor presidente da Câmara ali pôs. Nesse aspeto, foi um grande homem”.

Também foi Emílio Torrão a ir pessoalmente ter com Antónia dizer-lhe que o dique poderia rebentar, na tarde de domingo. “Mandou-me sair, com os documentos e uma muda de roupa e eu disse que não saía, que ia para a minha eira”. E foi? “Não. Estive sempre firme, até às 4h30 da manhã”. Andou rua abaixo, rua acima a olhar para o rio. Ia até ao cimo da Ponte das Lavadeiras, com uma lanterna, ver o nível da água. Recorda agora, uma semana passada, que “foi uma noite para esquecer”.

No centro das atenções do Presidente da República, embora sendo apenas uma entre vizinhos a receberem-no à hora de almoço, Antónia lança um recado para o ministro do Ambiente.

-“E não é o senhor ministro vir dizer que a gente tem de sair daqui… Vamos para onde?”

-“Mas o senhor ministro já esclareceu isso…”, lembrava Marcelo Rebelo de Sousa.

– “Pois mas devia ter pensado duas vezes naquilo que estava a dizer.”

Mas naquela rua, a Poço de Cale, a casa de Laurinda Fabrício é a que corre mais perigo, porque “enquanto as outras casas sobem um degrau para cima, a minha desce dois para baixo”, explicou ao Observador.

Laurinda Fabrício (no centro), explicava aos vizinhos a localização do dique que rebentou.

Tem uma moradia antiga, à qual faltou acompanhar a subida do nível da estrada e “ficou lá no fundo”. “É a primeira ‘a beber’”, caso o rio galgue aquela margem. Daí a indignação da moradora a apontar junto de vizinhos de ruas próximas para o local onde o dique rebentou. “Em 2012 foram detetadas fissuras nos diques, nas margens. E daí para cá não se fez mais nada. Foi falta de manutenção”, aponta.

Uma semana depois, não se distingue a praia na Ereira

Em quase quatro horas de visitas — e seis paragens — era obrigatório visitar a praia fluvial da Ereira. Assim o considerou Emílio Torrão. E lá havia meia aldeia à espera do Presidente da República. Até António, com apelido igual ao do presidente e quase com a mesma idade.

De longe, uma voz: “Presidente, é da minha idade.”

-“Ai é? Eu tenho 71.”

-“E eu também. Faço a oito de dezembro.”

-“Em dezembro também? Então é mais velho quatro dias. Somos sagitários. É boa gente”, considerou Marcelo Rebelo de Sousa.

António Sousa não viu a água entrar-lhe em casa. Também para este morador, é impossível não comparar os estragos provocados pelas depressões Elsa e Fabien com os efeitos das inundações de há 18 anos. “Em 2001, esteve pertinho mas não tive de abandonar a casa. Este ano a coisa correu melhor”.

Com quase dois metros de altura, na parede, este azulejo é a marca da altura a que chegou a água nas inundações de 2001, na localidade de Ereira.

Ali, junto à praia da Ereira, um azulejo com quase dois metros de altura, preso na parede branca, lembra o nível a que a água chegou nesse ano, com as mesmas cheias que fizeram cair a Ponte das Lavadeiras. Foi o último grande fenómeno semelhante a afetar aquela região, deixando na altura centenas de pessoas desalojadas.

“Há grande necessidade de fazer algo diferente, algo melhor”, sublinha o presidente da Junta de Freguesia da Ereira, Vasco Martins. “Não queremos enterrar o passado mas também estamos cá para pensar o futuro”. Para isso, o autarca diz ser essencial “arranjar engenheiros que conheçam um pouco da história das aldeias. Vamos tentar alterar o paradigma de tratar das coisas em Lisboa com regra e esquadro”.

Ordem dos engenheiros contra “remendo”. Ministro insiste e Marcelo desmarca-se

Vasco Martins não se posicionou acerca do que disse a Ordem dos Engenheiros, em Coimbra, no dia anterior, quando defendeu como única resolução para o problema das inundações do Mondego a construção de mais barragens, nomeadamente a de Girabolhos — travada pelo Governo de António Costa em 2016.

Marcelo também não se quis posicionar, “porque não cabe ao Presidente”, embora tenha querido saber qual o funcionamento da única bomba, de seis, que funciona na estação de bombagem da Foja, responsável por escoar a água quando o leito do rio sobe demasiado; e de ter visto com os próprios olhos as obras de recuperação de um dos dois diques que rebentaram, começadas na passada sexta-feira, ao som das críticas da Ordem dos Engenheiros, que as apelida de “remendo.”

A obra, que serve para artificializar o caudal do rio, não chega para as exigências das mudanças causadas pelas alterações climáticas, segundo a Ordem dos Engenheiros. “Temos de construir [a barragem de] Girabolhos”, afirma o engenheiro especialista em hidráulica e recursos hídricos Alfeu Sá Marques.

Mas este sábado o ministro do Ambiente, Pedro Matos Fernandes, já fez saber que quer soluções naturais para regularizar os caudais dos rios. Por meio natural, a regularização do rio Ceira vai ajudar a normalizar o problema das cheias no Mondego, assume o ministro, que discorda, assim, da solução artificial encontrada pela Ordem dos Engenheiros.

No fim, Marcelo tenciona “vir cá mais vezes. Não me esqueço”

À sexta paragem e já com o sol a querer esvair-se no dia que se afigurou quase de primavera em Montemor o Velho, era imperativo para Emílio Torrão levar o Presidente da República à estação de Alfornelos ainda de dia. Mas antes disso, Marcelo teve de ouvir José Pimentel.

Com 64 anos fiquei agora sem nada. Sem chão, sem camas, sem colchão, sem roupeiros, sem nada”, descreve o morador.

Com uma casa junto à estação ferroviária de Formoselha, chegou a ver água a um metro de altura, na segunda vez que lhe entrou o Mondego pela casa adentro. Em 2001, foi um metro e meio. Hoje, com os colchões cá fora, lamenta a situação, “quando se pode resolver muito facilmente. É pôr duas bombas junto à estação de Alfarelos para bombear o rio Ega [um afluente do rio Mondego] e isso nunca foi feito”. Vive ali há 64 anos. “Quando era miúdo, descia para o rio três ou quatro metros e agora vou a direito”.

“Eu vivo aqui há 64 anos. Quando era miúdo, descia para o rio três ou quatro metros e agora vou a direito”, diz José Pimentel, morador afetado pelas inundações em Montemor o Velho.

“Estou a reter, estou a reter”, retorquiu o Presidente da República. Em declarações finais aos jornalistas, concluiu que a situação no Mondego “não é um problema local nem regional, mas nacional.” Por isso cabe ao poder central olhar para ele, como o regional tem feito, e repensar as soluções “pensadas para os anos 80 e 90”, porque “o que está a acontecer é diferente, é mais exigente do que isso”.

Como promessa, Marcelo diz que tenciona voltar. “Já prometi”, assume. Quer “acompanhar aquilo que vai sendo feito. Tenciono vir cá mais vezes. Não me vou esquecer”, diz. Tal como os moradores não se esqueceram do dilúvio de 2001.