O menu até podia ser de outro país mas sabiam que o nome saído desse brainstorming num jantar de amigos tinha que ser bem português. “Como o calor é o motor materializador das peças, e permite ao barro passar de matéria-prima a produto final, surgiu, durante esse jantar, a GRAUº“, esclarecem Isac Coimbra e Diogo Ferreira. Do forno começava a sair um projeto com razies na pré-pandemia, quando a ideia de lançar uma marca própria deixou de ser simples atirar de barro à parede para se transformar num caso sério de cerâmica.

“Fomos confrontados com a oportunidade de podermos ter tempo para fazer algo que realmente nos traz prazer e com o qual, simultaneamente, obtínhamos ótimo feedback de terceiros. Pareceu-nos o momento ideal para concretizar a nossa visão”, descreve dupla criativa por trás deste leque de peças com espírito tribal. “No meio da incerteza que se vive, afastámo-nos dos nossos empregos e decidimos dedicar toda a nossa energia à GRAUº.

Isac era arquiteto numa empresa de construção civil, onde trabalhava diretamente com os clientes e fazia a orçamentação dos projetos. Começou a carreira em alguns ateliers e chegou a trabalhar um longo período em Angola, agora a solo. Diogo dedicava-se até aqui à direção criativa na área do design gráfico. Até que uma ocupação a tempo parcial acabou por dominar toda a agenda. Das origens num escape, a GRAUº surgiu como aliciante plano de futuro.”O contacto com o barro surgiu, inicialmente, de uma necessidade básica de expressão criativa, através de um curso, no período anterior a estes novos e estranhos tempos, sendo algo que fazíamos como hobbie“.

© GRAUº

Um entusiasmo que não permitia esquecer a fase que Portugal começava a atravessar em março, com os ânimos a derreterem aqui e ali, nada que refreasse o ímpeto de moldar e ir compondo a galeria de produtos. Pelo contrário, o isolamento e o marasmo generalizado revelaram-se um precioso combustível. “Tornou-se essencial, para nós, encarar este período como uma oportunidade de nos reinventarmos, sem indecisões ou dúvidas, mas com curiosidade e entrega. A liberdade restritiva que todos experimentámos, transformou-se na maior liberdade que pudemos ter, dentro de casa: a criativa. Pôr a “mão na massa” foi literalmente o melhor remédio”.

Foi providencial a lista de compras que esboçaram mal se faziam anunciar as medidas de confinamento mais restritivas no país. Aos bens primeiros de primeira necessidade juntou-se no alinhamento um avio de barro e vidrados. Num ápice, improvisavam um modesto estúdio em casa. “Temos a sorte de poder ter trabalhado a partir deste nosso espaço, até hoje, que, por sorte, apanha imensa luz solar e, fundamentalmente nos permite criar”.

Quanto às obras para venda, pedem desconfinamento total entre quatro paredes, para poderem brilhar em força, com as suas feições inspiradas em outras latitudes e fisionomias de outros tempos, sempre atualizadas por uma interpretação moderna, prevalecendo uma estética minimalista e geométrica.

© GRAUº

“Creio que para ambos, cujas famílias têm raízes em África, fomos apresentados, enquanto crescíamos, ao mundo da arte tribal, e com ele, a inevitável sensação de poder em cada peça. A simplicidade e pureza dos materiais e das formas é algo que nos atrai, de momento, e por agora, estamos a seguir esta corrente”, explicam, notando como as máscaras captaram desde logo a atenção do público. Seguiu-se a progressão natural para os mobiles e outros artigos para o lar, com os vasos, jarros e tablewear a serem igualmente bem recebidos. Comum a cada peça é a mistura de pastas refratárias de diferentes tons, entre preto, terracota e branco, com e sem vidrados, e com complementos em juta e corda. Escusado será dizer que cada elemento é confecionado à mão, desde a amassadura inicial, até à cozedura final. E por falar em graus, as peças são cozidas a temperaturas que rondam os 1300ºC, tornando-se impermeáveis e extremamente resistentes.

Para apreciar com um maior grau de proximidade a textura, escala e mesmo atitude de cada um dos artigos, aproveite a reabertura de alguns espaços e passe pelo café Hello, Kristof, em Lisboa, onde encontra  expostas algumas das peças da GRAUº, com Isac e Diogo a procurarem eventuais novas parcerias com lojas e espaços criativos, que convidem a visitas in loco. Se preferir a rapidez e comodidade de uma compra online, passe pela montra do Instagram, onde a presença tem sido essencial, admitem. Tão relevante que as primeiras reações até vieram de fora. “Surpreendentemente, os primeiros clientes que tivemos foram estrangeiros, com a nossa primeira encomenda a voar para a Suíça. Desde então, já enviámos peças para a Alemanha, Reino Unido e até Estados Unidos”. A nível nacional, enviam para todo o país e na zona de Lisboa e arredores as entregas até são gratuitas.

© GRAUº

O clima de incerteza dificulta previsões a longo prazo e exige que os sonhos sejam domados com a mesma perícia com que disciplinam o barro. Por agora, o foco é partilhar a visão da casa e dar a conhecer a GRAUº ao maior número possível de pessoas e esperar que o espaço de trabalho inicialmente recrutado possa expandir-se numa fusão entre loja, atelier e zona de exposição, que não só permita reforçar o vínculo com os clientes como apresentar o processo de fabrico. “A ideia de fazer a marca crescer, através de parcerias com lojas, pop-up events, feiras e mercados parece-nos incrível e desafiante, no melhor sentido possível. Saber que daqui a um ano, poderemos ter várias peças da GRAUº a complementarem divisões interiores e espaços exteriores por esse mundo fora e, de forma prática, poder trazer alegria a cada cliente é algo que, sem dúvida, nos motiva e inspira”.

Nome: GRAUº

Data: março de 2020

Ponto de venda: Instagram e café Hello, Kristof (R. do Poço dos Negros, 103, Lisboa)

Preços: entre os 50 e os 150 euros

100% português é uma rubrica dedicada a marcas nacionais que achamos que tem de conhecer.