Enquanto não existe um fundo de garantia de depósitos comum à escala europeia, o Mecanismo Único de Supervisão e o Mecanismo Único de Resolução são os dois únicos pilares da União Bancária – mas mostram ter visões opostas sobre como se deve gerir o problema das perdas que os bancos europeus irão, inevitavelmente, ter devido à crise económica provocada pela pandemia. O líder da supervisão única (o italiano Andrea Enria) tinha pedido a criação de um “banco mau” para livrar os bancos comerciais desses créditos perdidos, mas, agora, a alemã Elke König, presidente do mecanismo de resolução, emitiu uma opinião diametralmente oposta: os bancos devem fazer o “trabalho de casa” e resolver os problemas pelos seus próprios meios.

A opinião de Elke König, que lidera o organismo europeu responsável pelos processos de resolução de bancos quando estes deixam de ter viabilidade, é a de que, neste importante debate, “falta sempre uma componente importante, isto é, quem é que paga a fatura“. Em entrevista ao Financial Times, publicada esta quarta-feira, a responsável considerou que “parece, por vezes, que estamos a falar de um sistema mágico, onde as perdas supostamente se evaporam por magia – isso não vai acontecer“.

Em vez de se falar – como falou Andrea Enria – em transferir todos os créditos falhados para um suposto veículo especial, ou vários, na ótica da alemã o que os bancos devem fazer é trabalhar no sentido de obter uma “transparência total” sobre a qualidade dos ativos, sendo certo que é impossível prever a dimensão que este problema terá porque não é conhecida a gravidade da crise. “Os bancos têm de ser capazes de separar uma parte da carteira de créditos e explicar como é que estão a planear geri-la, qual é que é a sua ideia sobre como pretendem lidar com ela”, diz Elke König.

Esta é um visão que contrasta claramente com aquilo que defendeu o líder da supervisão. Também no Financial Times, neste caso num artigo de opinião, Andrea Enria tinha alertado que num cenário “grave, mas plausível” esta crise pandémica poderia provocar nos bancos europeus um total de 1,4 biliões de euros em créditos improdutivos, créditos que estão concedidos a empresas e famílias que deixarão de conseguir cumprir devido ao impacto da crise.

A confirmar-se esse valor, seria um montante superior em perdas àquele que se verificou na crise que começou em 2008, por isso, o italiano defendia que seria decisivo para a retoma que os bancos não estivessem a fazer a difícil digestão destes problemas – a sua capacidade de fazer novos créditos e de financiar a recuperação ficaria em risco. Subjacente a esta visão está a ideia de que depois teria de haver algum tipo de mutualização das responsabilidades a nível europeu, ou seja, uma partilha dos custos por todos os países europeus.

Mas König riposta que, nesta fase, é impossível dizer qual será a dimensão real deste problema porque, neste momento, as moratórias e as linhas de crédito com garantia estão a funcionar como um “escudo”. Mas é um facto, concorda a alemã, que estes ativos podem começar a transformar-se em créditos problemáticos (non performing loans, ou NPL) já a partir do primeiro e segundo trimestres do próximo ano – e, recorde-se, vários estudos apontam Portugal como um dos países onde este risco é maior.

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Por isso, o que os bancos devem fazer desde já é “reconhecer que os NPL vão surgir e que a melhor coisa a fazer é resolvê-los rapidamente – para depois se poder continuar a conduzir no meio do nevoeiro”. Na prática, Elke König defende que os bancos devem começar já a vender esses créditos, pelos seus próprios meios, ou então reforçar os capitais dos bancos para que esse capital fresco possa servir ser consumido no registo de perdas e imparidades.

No próximo mês de dezembro a Comissão Europeia vai apresentar um conjunto de propostas para responder àquilo que o comissário Valdis Dombrovskis considerou ser um “provável aumento” dos non performing loans nas carteiras dos bancos europeus.