Portugal detetou, pelo menos, três novas variantes do vírus SARS-CoV-2, em novembro, que não estavam presentes na primeira fase da pandemia. No Reino Unido os novos casos estão a ser dominados por uma variante que acumula um conjunto de mutações. E na África do Sul a nova variante é mais frequente nas pessoas mais novas.

O SARS-CoV-2 já sofreu milhares de mutações, muitas delas não ficaram para contar a história, mas outras originaram novas variantes. Ainda que estas modificações possam ser identificadas em termos genéticos, o que permite seguir as viagens do vírus, não há ainda prova de que provoquem uma doença diferente, que sejam mais infeciosas ou que se transmitam com mais facilidade. Sem ter variantes que tenham comportamentos realmente diferentes das demais não podemos falar de novas estirpes.

Que variantes foram detetadas em Portugal?

O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) revelou, esta quarta-feira, que desde novembro detetou 78 alterações nos aminoácidos que compõem a proteína spike — a proteína que funciona como chave para entrar dentro das células humanas. O relatório refere ainda que a larga maioria dos genomas do SARS-CoV-2 sequenciados (analisados) neste período pertencem à variante 20A.EU1, a mesma surgiu entre os agricultores espanhóis e se espalhou pela Europa graças aos turistas que estiveram em Espanha no verão.

Esta variante tornou-se dominante em alguns países, mas não necessariamente por se transmitir mais rapidamente: os investigadores consideram que isso se pode justificar com o facto de muitos turistas terem transportado os vírus para casa, em momentos diferentes.

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Dos 402 genomas analisados desde novembro, 72% correspondem à variante 20A.EU1, 9% à variante 20A.EU2 (comum a nível internacional) e 4,7% a uma variante que é mais comum na Bélgica e Holanda. Estas três variantes, detetadas desde novembro, nunca tinham sido encontradas em Portugal, mas os investigadores do Insa sugerem que terão sido responsáveis pela segunda vaga da pandemia no país.

Pelo contrário, uma das variantes que mais marcou a primeira vaga da pandemia em Portugal, a “mutação de Ovar” como ficou conhecida, não foi detetada nos genomas analisados a partir de novembro. “Isto sugere que medidas de saúde pública implementadas terão mitigado a continuação da sua transmissão”, lê-se no relatório. Esta variante teve origem em Itália e foi encontrada noutros países, mas em nenhum se tornou tão comum como em Portugal, nomeadamente na região de Ovar e no distrito de Viseu.

Não se sabe porque se tornou tão comum em Portugal, mas terá sido a cerca sanitária imposta em Ovar que controlou a disseminação desta mutação.

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Desde o início da pandemia, o Insa já analisou 2.234 genomas de SARS-CoV-2 e em todo o mundo já foram identificados milhares de mutações. O que significam estas mutações e o impacto que têm no funcionamento do vírus é largamente desconhecido.

A variante no Reino Unido transmite-se melhor?

No final de outubro, a variante 20A.EU1 representava 80% das infeções no Reino Unido, mas há uma nova variante (VUI 202012/01) a dominar as infeções no país: foi conhecida em setembro e em poucas semanas passou a representar 60% das infeções no país.

“Individualmente, quando olhamos para as principais mutações que ocorreram nesta variante do Reino Unido, não há propriamente nada de novo, porque essas mutações apareceram já noutras variantes espalhadas pelos quatro cantos do mundo”, diz João Paulo Gomes, investigador no Insa, à rádio Observador. “O problema é que esta variante junta todas essas mutações no seu genoma.”

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Que implicações pode ter? Os investigadores britânicos dizem que o facto de a frequência desta variante estar a aumentar tão rapidamente pode significar que será mais eficaz a infetar as células e a transmitir-se. Marc Veldhoen, virologista no Instituto de Medicina Molecular, no entanto, diz que isso ainda não é certo e aponta outras possibilidades: “Pode ser dominante por coincidência — como graças ao efeito fundador ou por ter sido disseminada por supertransmissores [80% das transmissões são provocadas por 10% dos infetados] —, ou pode replicar-se melhor, ou pode sobreviver melhor fora do corpo, etc. Ainda há muito trabalho para ser feito”.

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Vincent Racaniello, professor de Virologia na Universidade Columbia (Nova Iorque), explica o que é o efeito fundador num vídeo no YouTube. Das muitas mutações do vírus que ocorrem dentro das células de uma pessoa, pode acontecer que só algumas sejam transmitidas e que, por isso, se vão tornado mais frequentes (ainda que não tenham qualquer vantagem evolutiva). Por outras palavras: imagine que está a tirar maçãs de dentro de um saco; tem vários tipos diferentes, mas acaba por tirar sempre as que têm pintas roxas e são essas que oferece às pessoas à sua volta. A frequência de maçãs com pintas roxas naquele grupo vai aumentar, não por serem melhores, mas por mero acaso.

As várias mutações na proteína spike na variante VUI 202012/01 “podem ser uma indicação de alguma vantagem potencial desses vírus”, mas, esta alegação “precisa ser verificada e não significa necessariamente uma mudança na gravidade clínica ou eficiência de transmissão”, refere o site da iniciativa Gisaid, para partilha rápida de informação sobre os vírus da gripe e o SARS-CoV-2. “Os efeitos reais precisam ser medidos e verificados experimentalmente.”

“Não se podem usar dados epidemiológicos para provar um efeito biológico na mudança de um aminoácido num vírus. É preciso fazer a experiência”, explica Vincent Racaniello. O professor critica o Grupo de Aconselhamento sobre Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes (NERVTAG) britânico por dizer que o aumento do Rt é causado pela variante. “É um argumento falacioso. Não é assim que fazemos ciência.”

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João Paulo Gomes, responsável pela unidade de bioinformática do Departamento de Doenças Infecciosas do Insa, também questiona as conclusões do NERVTAG, nomeadamente no que diz respeito às crianças. “Não me parece que haja provas inequívocas disso. Pensamos que possa ser um fenómeno social, não mais do que isso, acima de tudo por envolver um enorme número de casos”, disse à Lusa.

Se este aumento no número de casos com esta variante é causado pela própria variante ou por estar mais espalhada ainda não se pode saber. “Penso que é cedo para fazer essa avaliação”, diz João Paulo Gomes.

Variante ou estirpe: qual a diferença?

De cada vez que o SARS-CoV-2 se multiplica dentro das células humanas podem ocorrer várias mutações: umas são neutras (não têm qualquer impacto para o vírus), outras são prejudiciais e o vírus não consegue vingar (transmitir-se, infetar uma célula ou replicar-se), mas há outras que trazem vantagens ao vírus.

Até agora, com o SARS-CoV-2, os impactos [ainda que benéficos] têm sido mínimos. Ainda não vi nenhum que realmente tenha mudado o curso da doença”, diz Vincent Racaniello, professor de Virologia na Universidade Columbia (Nova Iorque), num vídeo no YouTube.

“Se tivéssemos alguma [mutação] que mudasse as propriedades [do vírus] seria chamada de estirpe, mas não temos nenhuma nova estirpe”, diz o professor de virologia. Vincent Racaniello considera que se tratam apenas de novas variantes.

Uma ou mais mutações podem tornar o vírus suficientemente diferente em termos genéticos para se dizer que se trata de uma nova variante, mas só quando as propriedades biológicas do vírus são alteradas — por exemplo, se provocasse uma doença diferente — é que se pode falar numa nova estirpe. Até ao momento não foi identificada uma nova estirpe de SARS-CoV-2.

A vantagem de identificar mutações e variantes, ainda que estas não alterem as funções do vírus, é usá-las como marcadores para fazer o rastreio de contactos. Seguindo vírus geneticamente idênticos é possível saber, por exemplo, se um surto numa fábrica foi causado por um único vírus, levado por um dos trabalhadores, ou se houve múltiplas introduções com origens diferentes.

Estas sequências genéticas são úteis para entender a emergência e disseminação do vírus, mas a falta da caracterização funcional de alto rendimento correspondente significa que a especulação ultrapassou os dados experimentais quando se trata de compreender as consequências fenotípicas das mutações”, escreveram os investigadores da Universidade de Washington (Seattle), num artigo da Cell.

Também é graças a estes marcadores genéticos que o Reino Unido conseguiu identificar que a variante que se tornou dominante na África do Sul na segunda fase já entrou no país. O que não se pode dizer é que impacto isso terá no país.

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Que tipo de mutações podem acontecer?

“Os genomas dos vírus estão sempre em mutação”, refere Vincent Racaniello. Mais precisamente, as mutações acontecem sempre que uma molécula de material genético se multiplica, o que não quer dizer que todas permaneçam ou venham a ter impacto. Mais, as células têm mecanismos para corrigir essas alterações — como o corretor automático num computador.

As mutações são alterações no material genético, ou seja, nos ácidos nucleícos (no ADN ou no ARN), e implicam que haja uma adição, deleção ou substituição dos nucleótidos. Dito de outra forma: se considerarmos que o ADN (ou ARN) são uma frase com a nossa informação genética, as mutações serão a alteração (adição, subtração ou substituição) de letras dessa frase.

Nas frases do material genético estão as indicações para a produção de proteínas que vão determinar todas as funções do organismo, da bactéria ao ser humano. Uma mutação (ou várias) pode fazer com que a frase que dá instruções para o fabrico da proteína seja alterada e que a proteína produzida seja diferente do que era suposto. Imagine que tinha uma lista de compras e que as letras dos produtos apareciam trocadas, o resultado final podia ser um carrinho de compras cheio de produtos indesejados.

Se fosse lá em casa, podia já imaginar a cara de quem lhe encomendou o serviço, mas no mundo das proteínas as letras trocadas podem resultar em vários tipos de alterações — das que não mudam nada, às que mudam tudo. São apenas quatro as letras com que se escreve a informação no ADN ou ARN, que se combinam em sequências de três para dar origem aos 20 aminoácidos que compõem as proteínas (basicamente, as peça de que são feitas).

Alterar uma letra não implica, necessariamente, uma mudança no aminoácido produzido. Portanto, esta mutação (troca de uma dessas letras) não teria qualquer impacto nem no aminoácido, nem na proteína. Como mostrado na tabela, em que a troca do último A (adenina) por um G (guanina) continua a originar o aminoácido arginina.

Cada aminoácido (círculo) é definido por três letras presentes no ADN ou ARN, mas diferentes sequências podem dar origem ao mesmo aminoácido — © 2014 Nature Education

Quando a troca de letra dá origem a um aminoácido diferente, a proteína será naturalmente diferente, mas isso não quer dizer que tenha uma função alterada. Voltando à nossa lista de compras: até pode ser que a palavra na sua lista esteja mal escrita, mas mesmo assim acertar no produto que tinha de comprar.

Na história da lista de compras há ainda outras hipóteses: a mudança nas letras criou um produto que não consegue encontrar (ou seja, a alteração na proteína perdeu a função que devia ter e foi prejudicial para o vírus); ou, as letras trocadas levaram-no a comprar um produto diferente (ou seja, a alteração da proteína muda-lhe a função, mas pode conferir uma vantagem para o vírus). Um vírus que tenha mais facilidade em transmitir-se é um exemplo de produto trocado (função alterada da proteína com vantagem para o vírus).

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“Este tipo de evolução e de mutações são bastante comuns”, disse Michael Ryan, desvalorizando a nova variante do Reino Unido. O diretor executivo do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde continuou: “A questão, como tivemos mais recentemente com as variantes do vison na Dinamarca e outras variações anteriores, é: Isso torna o vírus mais sério? Isso permite que o vírus se transmita mais facilmente? Isso interfere de alguma forma no diagnóstico? Isso interferiria de alguma forma na eficácia da vacina? Nenhuma dessas questões foi respondida ainda.