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Os miúdos e os livros, uma relação pouco linear que pais e educadores se esforçam por promover e que despertou a atenção de Joana Soares, mãe e veterinária, durante o primeiro confinamento, entre março e abril do ano passado. “Algumas necessidades que não eram tão evidentes tornaram-se mais óbvias”, começa por dizer ao Observador. Leituras à parte, o comportamento do filho em plena clausura fê-la pôr as ações e reações de uma criança de três anos em perspetiva, longe ainda de saber que uma estante de madeira poderia facilitar a vida a todos lá em casa e ainda desembocar num novo negócio português, a Alata.

“A educação tradicional diz-nos que se a criança faz birras tem de aprender a portar-se bem”, continua. O questionar das velhas práticas levou-a a ir mais fundo no método Montessori, assente na autonomia das crianças, tendo em conta o desenvolvimento natural das suas competências físicas, sociais e psicológicas. A conexão com a medicina veterinária está longe de ser óbvia, mas na gestão dos impulsos e emoções dos mais pequenos esta especialista em comportamento felino acabou por encontrar um paralelismo.

As estantes da gama Krakki, que deverá ser lançada até ao final de abril © Rita Tojal Quintela

“É preciso aceitar a criança como ela é, tal como fazemos com os gatos. Nós nunca tentamos mudar o gato, mudamos-lhe o ambiente. E com a criança também é a melhor forma. Ou seja, quando ela faz uma birra ou tem um acesso de energia, é preciso compreender o que isso quer dizer”, explica Joana, imediatamente antes de introduzir os livros na conversa, o elemento pelo qual começou a tentar mudar o ambiente do filho.

A estante encomendada da Polónia revolucionou o dia-a-dia. Porquê? Porque em vez de ter os livros tradicionalmente arrumados numa prateleira, apenas com as lombadas visíveis, a nova estrutura permitiu expô-los com a capa virada para fora. Isto exigiu dos pais uma seleção mais criteriosa dos títulos mais adequados à fase de crescimento e aprendizagem do pequeno Tomé e neste despertou um interesse extraordinário pelas leituras.

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“Houve logo um novo fascínio quando dispusemos os livros de forma diferente — começou a pedir para ler uma história, entra no quarto e consegue perceber se há um livro novo e acabou por desenvolver uma relação muito mais íntima com cada livro”, recorda. A falta de alternativas no mercado nacional levou Joana a despertar para uma oportunidade de negócio. A ela juntaram-se Frederico Carvalho, um homem das medicinas complementares súbita e oportunamente interessado em marcenaria, e a amiga, também veterinária, Sofia Bagarrão, com quem foi trocando impressões sobre a relação entre filhos e livros durante o confinamento.

Os fundadores da Alata: Joana Soares, Frederico Carvalho e Sofia Bagarrão © Divulgação

A Alata chegou em janeiro como um empreendimento a três. Bokkie, a primeira gama a ser lançada, é composta por uma estante frontal em contraplacado de bétula, proveniente de florestas sustentáveis, produzida no norte do país e de montagem fácil, sem parafusos, apenas com encaixes. Existe ainda uma versão mais pequena, a Bookbin, mas que partilha a mesma missão de encurtar a distância entre crianças e livros.

“A nossa ideia base é facilitar a autonomia das crianças até aos seis anos. Nesta fase, elas passam por um desenvolvimento muito acelerado, em que a quantidade de aprendizagens e a intensidade das emoções podem colocar barreiras na harmonia familiar”, acrescenta Joana. Fala não só da facilidade com que os mais pequenos acedem aos livros, mas também da forma como a nova disposição contribui para uma casa arrumada.

“Ele espalhava os livros porque só via as lombadas. De repente, nunca mais tive livros espalhados no chão. A nossa ideia é começar pelos livros e chegar aos brinquedos e assim ajudar na forma como as famílias interagem, de forma a minimizar os conflitos. Acontece com o típico caixote dos brinquedos — quando a criança vai brincar, despeja o caixote criando aquele caos que vai deixar os pais irritados”, explica ainda.

A estante frontal da linha Bokkie, a primeira gama da Alata © Rita Tojal Quintela

Mas a família de produtos vai crescer até ao final de abril, nomeadamente com uma nova estrutura da gama Bokkie que permitirá dispor brinquedos e outros materiais da mesma forma que as estantes exibem os livros. Krakki, uma nova gama de peças e essa sim com parafusos, também deve chegar nas próximas semanas e com dois artigos — uma estante para livros e outra para atividades. Na loja online, o único ponto de venda para já, há também uma seleção de títulos infantis, caso faltem referências para preencher as prateleiras. Mais adiante, o trio quer também desenvolver os seus próprios brinquedos, objetos específicos para trabalhar diferentes competências das crianças.

A curto prazo, também o esquema de produção irá sofrer alterações. “Queremos trabalhar com várias unidades e, sobretudo, com negócios familiares. É onde há histórias para contar e para nós é importante apoiar as pequenas empresas”, remata Joana. Para trás ficam as pesquisas sobre métodos e pedagogias. A Alata quer resumir-se a uma única mensagem: estas estantes funcionam e só têm a ver com o amor pelos livros.

Nome: Alata
Data: 2021
Ponto de venda: loja online
Preços: as duas versões da estante Bokkie custam 164 e 124 euros

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