Título: A Fúria e Outros Contos
Autora: Silvina Ocampo
Editora: Antígona
Páginas: 240
Preço: 16,50€

Mais de 60 anos após a primeira edição, chega a Portugal o volume A Fúria e Outros Contos, pela Antígona. Com 34 histórias breves, o livro é inquietante. A voz é potente, o universo alucinado. Por nenhum texto dá para passar com indiferença.

Ocampo nasceu em 1903 e morreu aos 90 anos, em Buenos Aires. Escritora, contista e poeta, acabou por ser ofuscada pelo seu meio. Irmã de Victoria Ocampo Aguirre, casada com Adolfo Bioy Casares e amiga de Jorge Luis Borges, perdeu espaço público, ainda que já na altura contasse com a admiração de Alejandra Pizarnik, Calvino, Bolaño, Lorca ou Cortázar. A sua obra, contudo, é de qualidade maior, e o volume A Fúria e Outros Contos não é excepção, trazendo uma prosa potente e inquietaste.

Parece conter uma fúria omnipresente, uma vontade de chegar ao âmago das coisas, pegar na caneta e escrever como quem agarra o touro pelos cornos. Mesmo que resolvamos abster-nos de comentar a estética, o livro vale já pela atitude de pôr um foco de luz no que é sombrio.

Há um tom onírico que perpassa a obra, e por vezes não se entende se é prosa ou delírio, assim como há uma subversão da normalidade que cria o desconcerto. Para mais, Ocampo explora o que incomoda, escarafuncha o que se esconde, não teme a perturbação. Pelo contrário, adensa-a, usa-a, impõe-na. Aqui, talvez o que mais salta à vista seja a crueldade das crianças, que saltitam entre o papel de vítima e o de perpetrador de perversão, mas Ocampo vai além disso e toca em vários pontos, sempre em cenários que parecem ter um quê de fábula, pese embora o desconcerto. Contudo, aqui, ao invés de os animais assumirem o protagonismo com vista a poderem ser catapultados para uma moral humana, assumem já o comportamento humano, sendo espelho a priori.

A infância, cheia de tragédias, faz apanhar traços de uma ironia autoral, já que tudo parece degenerado de início. Como, apesar dos elementos comuns, o resultado dos pequenos contos é sempre inesperado, a leitura tem de ser ativa e exigente, esperar a surpresa – e saber que existirá não a macula.

Temos amores loucos, a festa de anos de uma jovem paralítica, a influência macabra de uma senhoria sobre a inquilina, e a criança que arde nas mãos de outra criança. Mesmo no que existe fora do real, do mundo palpável conhecido, os contos de Ocampo não chegam ao fantástico, porque o cerne é sempre o do abismo humano. O que existe de sombrio não chega ao sinistro, é antes uma forma de imbuir as personagens de uma densidade psicológica que as faz gente gente viva no papel.

O tom poético-teatral veicula uma secura prosaica. A autora reduziu a prosa ao essencial, tornando cada frase num golpe. Veja-se o seguinte excerto, em que cada elemento sintáctico é imprescindível ao sentido que se quer veicular:

“Começou a gritar. Agarrei-lhe no pescoço. Pedi-lhe que se calasse. Não quis ouvir-me. Tapei-lhe a boca com uma almofada. Debateu-se durante alguns minutos; depois ficou imóvel, com os olhos fechados.

Hesitar é uma das minhas perdições. Durante minutos, que pareceram uma eternidade, repeti: O que farei?

Agora espero apenas que se abra a porta da minha cela, onde ainda estou preso. Sempre fui assim: para não provocar um escândalo, vi-me capaz de cometer um crime.” (p. 122)

Não é caso único, sendo a opção estilística da autora, e é assim que traça cenários em que, partindo do quatidiano – da banalidade, da lassidão –, chega à fantasia. Parecendo apresentar elementos comuns, provoca estranheza. Assim, o normal transforma-se em desconcerto.

Com isto, saltam à vista a voz segura e a prosa maleável, que serve um fim ao invés de se perder em voos de linguagem. A secura que Silvina Ocampo apresenta é o resultado de quem sabe esculpir um texto.

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