Tudo começa com um homem grande, talvez grande de mais, com cara de bebé gigante, a acompanhar a mãe, já algo idosa, até uma casa de banho comum. Depressa um pai sai do seu quarto, com a filha, para a mesma casa-de-banho. Ao chegar à porta, volta atrás e apanha produtos para limpar a casa-de-banho antes que a filha a use. É um gesto que instala o espectador na sala comum onde toda a ação de “Love” acontece. O gesto de higienização desaparece rapidamente da peça, como símbolo de uma certa conformidade com a realidade e aceitação de que aquele espaço – uma residencial — não será apenas temporário. É também um gesto, entre vários ao longo da peça, que trabalha o humor como ferramenta para humanizar as personagens, nunca para as tirar do seu sítio.

“Love” é a estreia de Alexander Zeldin (n. 1985) em Portugal. O dramaturgo apresenta esta quinta e sexta-feira na Culturgest de Lisboa (pelas 21h00) a sua segunda peça de uma trilogia chamada simplesmente “The Inequalities” (as “desigualdades”, assim apresentada, pela primeira vez, no Vienna Festwochen), do qual fazem parte “Beyond Caring” (2015), trabalho que lhe trouxe muita atenção e diversos prémios, e, mais recentemente, “Faith, Hope and Charity”.

Antes de fazer carreira em Londres no início da década passada, Alexander Zeldin passou pela Rússia, Coreia do Sul, Médio-Oriente e pelo Festival de Nápoles. Foi na East 15 Acting School, ao desenvolver uma série de trabalhos com os seus alunos, que começou a pavimentar um teatro de encontros com as vidas de milhares de pessoas que tendemos a esquecer. Em “Beyond Caring” tudo acontece num encontro noturno entre trabalhadores temporários numa fábrica de carne; em “Love” a ação desenrola-se toda numa sala comum, que tanto serve para as personagens comerem como para transitarem entre espaços.

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