Um documento, da autoria do grupo de extrema-direita americano Proud Boys, revelou a existência de planos para uma marcha violenta em Nova Iorque, que estaria marcada para o dia 10 de janeiro de 2021 — quatro dias depois do ataque ao Capitólio levado a cabo por apoiantes de Donald Trump.

O memorando de 23 páginas, a que o jornal The Guardian teve acesso, está escrito numa linguagem de teor militar, e revela o planeamento levado a cabo pelo grupo para executar ações violentas de larga escala sem deixar rastos.

A marcha, organizada por um ramo de Nova Iorque dos Proud Boys, acabou por ser cancelada. Estava marcada para apenas quatro dias depois do ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021. Nessa data, um grupo de apoiantes de Donald Trump, incitados pelo próprio num comício a poucos metros do local, forçou a entrada no edifício, onde decorria o ato de certificação dos resultados eleitorais das eleições, vencidas por Joe Biden e que Trump sempre contestou.

Os manifestantes, liderados por vários elementos armados dos Proud Boys, tentaram sem sucesso impedir a certificação dos resultados, e instaurar Donald Trump como Presidente. O ataque levou à morte de nove pessoas, incluindo elementos das forças de segurança destacados para proteger o Capitólio.

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O documento agora publicado contém um “plano estratégico de segurança” para a marcha de Nova Iorque. Nele é possível compreender, em detalhe, a estrutura e linguagem militar adotada pelos Proud Boys.

A marcha começaria em Columbus Circle, com passagem pela Trump Tower, a residência de Trump na Fifth Avenue. O plano envolveria cerca de 60 membros do grupo, divididos em “unidades táticas” de cinco a oito elementos. Contém ainda um mapa onde são identificados pontos estratégicos para o posicionamento das equipas e de “batedores”, com a função de vigiar o perímetro.

A todos os participantes é instruído que venham equipados com material de proteção, como coletes, capacetes, luvas e botas de combate, e que comuniquem entre si via walkie-talkie em frequências próprias, ou através da rede social encriptada Telegram.

É ainda instruído aos participantes que impeçam a participação de apoiantes “normais” de Donald Trump, bem como mulheres, por forma a não comprometer os objetivos da manifestação.

A sua presença põe em risco o bem-estar de todos os envolvidos com a segurança, e não pode acontecer sob nenhuma circunstância!”, pode ler-se.

Fundados entre 2015 e 2016, os Proud Boys têm vindo ao longo dos anos a ganhar notoriedade através da sua participação em atos de violência política, geralmente associadas à figura de Donald Trump. Durante um debate para as eleições de 2020, o ex-Presidente chegou mesmo dar instruções ao grupo: “afastem-se e fiquem a postos”.

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Alguns dos momentos de violência política mais marcantes no passado recente dos Estados Unidos têm membros do grupo no seu centro. Além do já referido ataque ao Capitólio, foi também um Proud Boy quem, em 2017, organizou a marcha supremacista “Unite the Right” (“Unir a Direita”, em português), em Charlottesville, na Virginia, que terminou quando um condutor atropelou um grupo de contra-manifestantes, matando uma pessoa e ferindo 35. Apesar destes e de outros exemplos, o grupo mantém que apenas recorre à violência em situações de auto-defesa.

Descritos como um dos mais violentos gangues políticos norte-americanos, os Proud Boys estão inclusivamente classificados como organização terrorista no Canadá. No entanto, e mesmo com vários elementos fundadores e líderes na prisão, têm registado um crescimento contínuo um pouco por todos os Estados Unidos.

A milícia tem também assumido um papel de “força de segurança” em vários eventos recentes de grupos conservadores, como marchas pró-armas, anti-vacinação e contra o aborto.