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Neste palco, Salgueiro Maia não chegou a tempo e foi preso: como seria o país sem o 25 de Abril?

E se Salgueiro Maia tivesse sofrido um acidente de trânsito no dia da Revolução? O espectáculo "O 25 de Abril Nunca Aconteceu" estreia-se já nesta quinta-feira, 11, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

A peça dura pouco mais de uma hora, e "todas as pessoas são bem-vindas, mesmo as que consideram que a Revolução não devia ter acontecido", segundo o criador do espectáculo, Ricardo Alves
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A peça dura pouco mais de uma hora, e "todas as pessoas são bem-vindas, mesmo as que consideram que a Revolução não devia ter acontecido", segundo o criador do espectáculo, Ricardo Alves

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A peça dura pouco mais de uma hora, e "todas as pessoas são bem-vindas, mesmo as que consideram que a Revolução não devia ter acontecido", segundo o criador do espectáculo, Ricardo Alves

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

O cenário é sombrio, com ruas e casas a preto e branco, escalas monótonas de cinza. Dois homens de aparência discreta encontram-se na noite. “Foste seguido?”, atira um. “E tu, foste seguido?”, pergunta o outro. Cedo se impõe o desabafo: “Eu sei lá se tu não és bufo!”. Estamos no Teatro Carlos Alberto, no Porto, a assistir a um ensaio da peça O 25 de Abril Nunca Aconteceu, do Teatro da Palmilha Dentada. O espetáculo, inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de abril que o Teatro Nacional São João tem em curso, é uma “distopia-homenagem” aos valores da Revolução dos Cravos, assente na ideia de que ela fracassou porque, naquele preciso dia, em 1974, Salgueiro Maia passou um sinal vermelho, colidiu com um camião do lixo e foi preso, tomando a história um rumo completamente diferente.

Nesse Portugal imaginário, continua a haver PIDE, censura, perseguição a comunistas e homossexuais, trabalho infantil, portas fechadas ao exterior e produtos proibidos — como a Coca-Cola (aconteceu mesmo) ou as sandálias Crocs (podia ter acontecido). “Tu já provaste a Coca-Cola? Sabe a quê?”, questiona, a certa altura, um dos dois homens em palco. “Caramelo com gás”, responde o que experimentara essa bebida do lado de lá da fronteira. “Se um dia fosses à Galiza, podias trazer-me uma garrafa de Coca Cola!”, devolve o primeiro. De súbito, surge um terceiro homem, Frederico, perante o qual disfarçam a sua presença ali: estão a passear os cães, alegam, apesar de não se ver animal algum. Andam soltos, dizem, dando azo a uma troca de palavras algo desconfortável sobre as vantagens da liberdade.

Quando a dupla torna a ficar sozinha, chega um terceiro elemento, Rosendo, a indicar a um dos homens que, no dia seguinte, não vai trabalhar para a empresa, e sim a Espanha; alguém lhe fará chegar uma autorização para sair do país. “Sou contra a libertinagem, até dos cães”, comenta ainda Rosendo, antes de virar costas. E só então um confidencia ao outro: “Aquele é que eu acho que é da PIDE”.

“A realidade que me interessava abarcar não é a que está nos livros de história que a gente lê; é o pequeno sentimento que temos no dia a dia: o medo de ser escutado, o medo de ser perseguido"

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

Entretanto, somos apresentados a outras personagens, pai e filha, a braços com umas trouxas brancas: fardos de camisas para Maria Julieta, de apenas 15 anos, coser em casa. É ajudante de cozinheira, mas o dinheiro escasseia, por isso passa os serões a coser punhos para uma fábrica de confeções — além de tomar conta dos filhos dos vizinhos, ao fim de semana. A miúda é quem puxa o assunto das Crocs, pedindo, entusiasmada, que lhe tragam um par de terras espanholas. “Julieta, nem pensar! As Crocs estão proibidas em Portugal!”, ralha o pai. Para logo acrescentar: “Filha, não podes chamar a atenção, tens de ser mais discreta.” Quando abandonam o palco (“Vamos embora, paizinho; ainda queria ver se fazia uns 100 punhos antes de dormir”), surge Ernesto. Descrito como anarco-sindicalista, defensor da queda do regime, mostra-se decidido a pôr uma bomba no Governo Civil. “À bomba é que se desperta consciências”, sustenta, enquanto os outros o tentam dissuadir.

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Eis alguns vislumbres do espetáculo O 25 de Abril Nunca Aconteceu, uma criação de Ricardo Alves e do Teatro da Palmilha Dentada que retrata um Portugal ainda amordaçado pela ditadura. Nesta “fantasia”, para usar a expressão de Alves, “continuámos com o mesmo sistema político, continuámos sem opções, continuámos com medo de que nos batam à porta de noite, com medo de ser interrogados, a homossexualidade continuou a ser fortemente reprimida”. Predomina uma estética ao estilo O Pai Tirano e O Pátio das Cantigas. E somos convidados a conhecer um dia na vida da família Freitas. Nem falta uma empresa que, à semelhança das tipografias no pré-25 de Abril, acolhe uma célula clandestina apostada em fazer circular informação alusiva ao regime.

“A liberdade coletiva começa na individual”

“É uma pergunta que acho que muita gente tem: como seria Portugal se não tivesse havido a Revolução? Como seríamos, como país, sem as colónias, sem grandes riquezas e com as dificuldades económicas que teríamos?”, conta Ricardo Alves.

Mas o que me interessou mais foi como seríamos como pessoas, como seria se tivéssemos continuado a viver com o medo, com uma PIDE que limitava as liberdades e o pensamento? E como seria o crescimento das crianças, o processo da aprendizagem do medo? Isto não é um espetáculo sobre as grandes questões nacionais; é sobre os indivíduos, como cada um de nós se coloca na sociedade em que está e nos medos que tem.”

Alves escreveu a peça a pensar sobretudo naqueles que não viveram sob um regime ditatorial. Ele mesmo tinha 10 anos quando se deu o 25 de Abril e contou com a ajuda de membros do elenco para obter uma perspetiva mais nítida sobre tudo. “Três pessoas tinham a experiência de viver o 25 de Abril já na fase adolescente, pelo menos, o que lhes dá uma leitura completamente diferente das minhas memórias, que eram inocentes. Aos 10 anos, não percebemos se a polícia é boa, se é má; se temos de ter medo do vizinho, se não”, refere o encenador, que chegou à fase de ensaios com o texto em aberto, pronto a ser moldado também pelo cruzamento de diferentes experiências e visões. E foi moldado, inclusive, pela realidade que se interpôs.

Ricardo Alves é o criador de "O 25 de Abril Nunca Aconteceu", para o Teatro da Palmilha Dentada

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

“Tinha pensado um fim um bocadinho mais ridículo e senti necessidade, depois dos resultados das eleições, de o pôr com tons mais carregados”, diz Ricardo Alves, fazendo referência aos resultados das últimas legislativas. Quis deixar “uma mensagem um bocadinho mais agreste, de alerta para os cuidados que devemos ter com as nossas liberdades coletivas e individuais, porque a liberdade coletiva começa na individual”. Esse processo foi, mais uma vez, colaborativo. O ator Mário Moutinho, que tinha cerca de 30 anos quando se deu a Revolução dos Cravos, confirma: “O último ato deixou de ser um ato alegre e passou a ser um ato, não de desencanto, mas de susto”.

O que a experiência de Moutinho trouxe ao espetáculo é simples: “Um conhecimento do que era viver antes do 25 de Abril e a noção exata do que mudou — e também do que faltou mudar, ao nível das mentalidades, do machismo e por aí fora”. No tempo do Estado Novo, além das grandes questões, como a Guerra Colonial, a censura e a perseguição aos antifascistas, “havia coisas muito mesquinhas”, como as raparigas não poderem ir de calças para o liceu. “Essas coisas eram tão ridículas, que a gente até se esquece delas”, recorda o ator, a trabalhar pela primeira vez com o Teatro da Palmilha Dentada. A interpretação está a cargo, ainda, de Beatriz Baptista, Eloy Monteiro, Ivo Bastos, Filomena Gigante, Rodrigo Santos e Valdemar Santos.

Em O 25 de Abril Nunca Aconteceu, Moutinho dá corpo a Rosendo, “fascista por convicção”, segundo o encenador; na vida real, encontra-se no campo oposto. Considera o 25 de Abril de 1974 o dia mais feliz da sua vida.

É um dia em que sinto que se transforma muita coisa. Tudo aquilo que estava reprimido explode, e é possível um mundo melhor, é possível sermos felizes, é possível vivermos tranquilamente, discutirmos uns com os outros, conversar, estarmos de acordo, não estarmos de acordo”, lembra. Em vésperas de comemorar meio século de Revolução, e face à ascensão da extrema direita, dentro e fora de portas, o sentimento é outro: “Estamos numa situação muito complexa e perigosa”.

“Digam-me se, realmente, seria melhor continuarmos assim ou não”

Voltando às Crocs e à Coca-Cola: na peça, esses produtos funcionam como objetos de desejo. “Mais do que o proibido, é o desconhecido”, defende Ricardo Duarte. E continua, com fina ironia: “É a atração do não saber, do querer experimentar. Que é uma coisa fabulosa que temos na democracia: até podemos experimentar partidos fascistas e ver no que é que dá. Nas ditaduras, não se pode; temos de fazer o que nos mandam, bater a bolinha baixa e não fazer ondas, senão acabamos presos e torturados.”

Predomina uma estética ao estilo O Pai Tirano e O Pátio das Cantigas. E somos convidados a conhecer um dia na vida da família Freitas

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

“A realidade que me interessava abarcar não é a que está nos livros de história que a gente lê; é o pequeno sentimento que temos no dia a dia: o medo de ser escutado, o medo de ser perseguido, o medo de se expor, o medo de chamar a atenção”, explica ainda o encenador. “Houve um cuidado especial de levantar perguntas, que é o que o teatro deve fazer — não dou respostas nenhumas, só faço questões. E houve algum perigo de tornar a coisa demasiado ridícula, porque estamos a falar de uma questão muito séria.” Ainda assim, fez questão de não abdicar do humor.

A referência às Crocs pode parecer absurda, mas funciona como símbolo, a seu ver, do quão fechado estava o país antes da Revolução. Isso  mesmo é refiorçado, em dado momento, através da música de Amy Winehouse — uma personagem desconhece que a cantora morreu quando ela tinha oito anos. Afirma Ricardo Alves:

Uma das coisas que havia muito no 25 de Abril era esse nosso isolamento. Os filmes estreavam-se cá com seis anos de diferença em relação a Hollywood, a maior parte das informações não nos chegava, vivíamos numa realidade completamente diferente, se calhar, comparada à que se vive agora na Coreia do Norte”.

O 25 de Abril Nunca Aconteceu tem estreia marcada para esta quinta-feira, 11 de abril, no Teatro Carlos Alberto, onde fica até 27 (no último dia, com direito a tradução em Língua Gestual Portuguesa e áudiodescrição). À quinta-feira e ao sábado, as sessões começam às 19 horas; à sexta-feira, às 21 horas; e, ao domingo, às 16 horas. Os bilhetes custam entre 5 e 10 euros. A peça dura pouco mais de uma hora, e “todas as pessoas são bem-vindas, mesmo as que consideram que a Revolução não devia ter acontecido”, segundo Ricardo Alves. “Estão convidadas a vir, e depois vêm beber uma Coca-Cola comigo e digam-me se, realmente, seria melhor continuarmos assim ou não”, conclui, com um sorriso.

 
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