Um discurso digno de protocandidato a Belém. Luís Marques Mendes esteve este sábado em Ovar, abençoado por Luís Montenegro, rodeado por autarcas sociais-democratas e ovacionado pelas bases do partido, para apresentar uma espécie de manifesto eleitoral para as próximas eleições presidenciais. O comentador e conselheiro de Estado falou sobre o país e a chaga da pobreza, mas também sobre o plano internacional e os desafios que se colocam em matéria de investimento na Defesa, excluindo, ainda assim, que essa aposta seja feita à custa do Estado Social.

De resto, e mesmo depois de se ter esforçado por esvaziar qualquer segunda leitura que se pudesse fazer sobre a sua presença neste evento partidário, Luís Marques Mendes acabou por ouvir de Luís Montenegro mais um incentivo para avançar — recorde-se que o primeiro-ministro e líder do PSD já assumiu que o conselheiro de Estado, de quem é muito próximo há décadas, tem perfil para ser o candidato apoiado pelo partido.

Enquanto discursava, num auditório em que Luís Marques Mendes estava sentado na primeira fila, Montenegro sublinhou que a solução de apoio do PSD a um candidato presidencial estava “perto”, provocando risos na plateia. “Não é assunto para nos preocupar. Não é assunto para provocar, aqui, nenhuma intranquilidade. Sabemos que a solução está perto”, provocou o líder social-democrata.

“Será uma boa solução, vai mobilizar o país e vai dar ao país aquilo que o país precisa, que é ter, na Presidência da República, alguém que modere os poderes soberanos, que garanta a relação da política com a sociedade e não nenhum projeto pessoal ou político-partidário”, prometeu Luís Montenegro.

Antes de elencar que a solução do PSD estava perto, Luís Montenegro já tinha dito que o partido definiu uma estratégia, com a moção de estratégia apresentada no congresso de Braga que indicava que o candidato devia ser um militante do partido, e vai “executá-la”. “Temos a plena confiança de que apesar destas eleições serem eleições eminentemente unipessoais, dependentes da vontade de cada candidato se apresentar a sufrágio, de apresentar as suas ideias, de apresentar o seu projeto, estamos muito tranquilos”, garantiu o também primeiro-ministro.

Mendes diz que Portugal precisa de potenciar estabilidade

Antes, no seu discurso, Luís Marques Mendes defendeu que o país precisa de potenciar as condições que vive atualmente de estabilidade, credibilidade e atratividade, para resolver as questões da pobreza, nomeadamente daquilo que chamou de pobreza empregada.

“Nós precisamos de potenciar, consolidar, desenvolver aquilo que temos de estabilidade, credibilidade e atratividade, para resolver as questões da pobreza envergonhada, dos sem-abrigo, da pobreza em geral, sobretudo da habitação que é dos maiores dramas da sociedade portuguesa”, começou por defender Luís Marques Mendes, durante o 5.º Encontro Nacional de Autarcas Social-democratas.

Ovacionado de pé quando entrou na sala do Centro Cultural de Ovar, Marques Mendes chegou a recordar que foi autarca pela primeira vez aos 19 anos, tendo desempenhado o cargo de vereador e vice-presidente da Câmara de Fafe, entre 1977 e 1985, num claro piscar de olho ao aparelho social-democrata. “Desde esse momento fiquei com a ideia que ser autarca numa freguesia ou município é sacerdócio e verdadeiro serviço público”, afirmou o ex-presidente do PSD.

No seu discurso, Marques Mendes realçou que face aos desafios que a Europa enfrenta atualmente, Portugal vive “um tempo de exceção”, sendo, ao contrário de muitos países europeus, um país com estabilidade, para além de ser “altamente credível” e beneficiar de uma tendência de atratividade.

“Olhando para o Estado de Europa e do Mundo, é importante valorizar isto que temos. Porque isto não é tanto importante do ponto de vista do político A ou B, isto é importante do ponto de vista das pessoas. Quando há estabilidade, credibilidade, atratividade para investimento, a vida das pessoas tende a melhorar. Quando não há estabilidade, credibilidade e atratividade, a vida das pessoas fica mais difícil.”

O ex-presidente do PSD alertou, contudo, para um problema que surgiu no país nos últimos anos a que chamou de “pobreza empregada”, que afeta milhares de portugueses. “Estamos a falar de pessoas, muitas pessoas, de Norte a Sul do país, que têm um emprego, às vezes dois empregos, mas que chegam ao fim do mês e o seu salário não dá para pagar todas as despesas da família, por causa do aumento do custo de vida que aconteceu nos últimos anos, e que foi forte, e por causa, sobretudo, dos preços insuportáveis da habitação. Isto é pobreza”, sublinhou.

Num ano em que o país vai disputar as eleições autárquicas, Marques Mendes disse ainda que é preciso “introduzir a ideia de ambição com mais força na sociedade portuguesa”. “Às vezes perdemos esta ambição, valorizamos o que vem de fora e desvalorizamos o que fazemos cá dentro. Nós temos a todos os níveis exemplos notáveis de sucesso. Temos é que os valorizar e, acima de tudo, mudar o nosso ADN. Uma nova ambição de facto para Portugal começa na freguesia, continua no município, acaba no país”, concluiu.

No final, questionado pelos jornalistas, Marques Mendes recusou-se a falar sobre a sua eventual candidatura à Presidência da República, tendo acrescentado que hoje “já tinha falado de mais”.

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