No início dos anos 1950, as autoridades dinamarquesas enviaram telegramas aos padres e professores da Gronelândia. Queriam que identificassem as crianças mais inteligentes da ilha com idades entre os seis e os 10 anos. A Dinamarca tinha decidido melhorar as condições de vida no território do Ártico, ainda com o estatuto de colónia, numa altura em que grande parte da população ainda vivia da caça de focas e apenas uma pequena percentagem sabia falar a língua dinamarquesa. Era preciso, acreditavam, criar uma nova elite gronelandesa.
Algumas dessas crianças sentem hoje ter sido usadas para uma experiência social e questionam uma nacionalidade imposta. Aliás, são vários os momentos de tensão na história entre a Dinamarca e Gronelândia que voltam à memória sempre que se questiona, como Trump tem feito, a pertença. Como quando, nas décadas de 60 e 70, médicos dinamarqueses colocaram dispositivos intrauterinos a milhares de mulheres e raparigas inuítes (nativos do território) — muitas vezes de forma forçada — para que a população da ilha não aumentasse.
Rikke Ostergaard é uma académica nascida na Dinamarca há 48 anos que vive na Gronelândia desde os cinco. De momento, está a escrever uma tese de doutoramento sobre as relações entre Dinamarca e Gronelândia que, ao El País, resume como passando por fases “boas e más”. Contudo, diz que ainda hoje se nota alguma condescendência da população dinamarquesa para com os inuítes. Isso poderá a ajudar a compreender a reação dividida dos gronelandeses à vontade do Presidente eleito dos EUA Donald Trump de tornar a ilha do Ártico no 51º Estado norte-americano, não excluindo utilizar a força militar para tal.
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A independência da ilha é uma questão antiga, mas os comentários de Trump têm reacendido a discussão. Na segunda metade do século XX, a desconfiança dos locais para com os dinamarqueses foi especialmente incentivada por dois episódios. O primeiro foi quando, nos anos 50, as crianças prodígio sinalizadas pelos padres e professores foram enviadas para famílias de acolhimento na Dinamarca, onde seriam formadas com uma educação moderna, num projeto organizado da associação de caridade “Salvar as Crianças – Dinamarca”.
Helene Thiesen recorda o dia em que dois homens dinamarqueses, acompanhados por um intérprete de gronelandês, apareceram na sua casa e pediram para falar com a sua mãe. Propuseram-lhe enviar Helene para a Dinamarca, durante seis meses, para que lá pudesse aprender a língua dinamarquesa, alegando que a experiência abriria a porta a um futuro mais sorridente. Segundo Helene, a mãe terá recusado o convite várias vezes, mas após alguma insistência acabou por ceder. Tinham passado três meses desde que o pai dos seus três filhos tinha morrido, vítima de tuberculose, e ela ficou encarregue de cuidar sozinha deles. “A minha mãe pôs-se de cócoras e explicou-me: ‘Vais para a Dinamarca’. Eu disse: ‘O que é a Dinamarca?'”, lembra Helene à BBC.
Helene e outras 21 crianças inuítes que, em maio de 1951, saíram de Nuuk, a capital da ilha, a bordo da embarcação MS Disko. Antes de serem acolhidas por famílias dinamarquesas, tiveram de passar por um campo de verão. Helene afirma que, na verdade, esta primeira paragem serviu de quarentena. “Havia medo que pudéssemos ter alguma coisa contagiosa”, diz. Na altura, o projeto da integração dos gronelandeses era tão prestigiado que a rainha Maria da Dinamarca acabou por visitar o campo. “Dá para ver na foto em que estamos todos à volta da rainha: nenhum de nós está a sorrir”, repara Helene. Em dezembro do mesmo ano, um artigo extenso de uma revista semana dinamarquesa abordou o projeto, declarando-o um sucesso.
Crianças inuítes numa experiência dinamarquesa com a rainha Maria da Dinamarca, em 1971. “Nenhum de nós está a sorrir”, repara Helene Thiesen, umas das crianças
No ano seguinte, 16 das 22 crianças, incluindo Helene, voltaram para a Gronelândia. A “Salvar as Crianças – Dinamarca” tratou da adoção das restantes por famílias dinamarquesas. Helene conta que mal voltou a pisar o chão da imensa ilha de gelo, apressou-se para os braços da mãe. Contudo, enquanto se alongava a contar as vivências no continente, começou a reparar que a progenitora não a compreendia. O mesmo aconteceu quando foi a mãe a responder-lhe. Pensou: “Isto é horrível, eu já não sei falar a minha língua materna”.
E as dificuldades não ficaram por aí. Durante a sua ausência, uma outra associação de caridade, a Cruz Vermelha dinamarquesa, construiu um colégio interno para crianças, em Nuuk. Foi considerado que, tendo vivido com a classe média dinamarquesa, as crianças retornadas, não deveriam voltar para as “piores condições” das famílias biológicas. Foram enviadas para o internato, onde lhes proibido que tivessem aulas da língua gronelandesa, ou que sequer a utilizassem uns com os outros.
Apenas em 1996, quando tinha 56 anos, Helene descobriu que a mãe não tinha concordado em enviá-la para o continente, mas tinha sido forçada a fazê-lo. Os participantes forçados da experiência cresceram para ser um pequeno grupo marginalizado no seio da própria sociedade onde nasceram. Vários tornaram-se sem abrigo ou alcoólicos, alguns dos quais morreram jovens. Helene acabou por se casar com um dinamarquês e voltou para a Dinamarca. Depois de mais de meio século e muita insistência, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederkisen pediu publicamente desculpa pelo sucedido, à frente de seis crianças, agora idosas — as únicas crianças submetidas à experiência ainda vivas. “Fui desumano, injusto e sem piedade”, admitiu, em setembro de 2022.
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O equilíbrio entre investimento e retorno
Uma segunda política imposta na segunda metade do século XX, apelidada de “caso espiral”, também tem forçado recentemente as autoridades dinamarquesas a revisitarem o seu histórico de decisões envolvendo a população gronelandesa. Durante os anos 60 e 70, foram impostas a cerca de 4.500 mulheres e raparigas — alegadamente, metade das mulheres férteis na Gronelândia — medidas grosseiras de controlo da natalidade.
O Estado da Dinamarca ditou que médicos dinamarqueses colocassem dispositivos intrauterinos às mulheres da ilha, muitas vezes sem o consentimento destas, havendo inclusive relatos de algumas que ficaram anos sem se aperceberem que os tinham. A contenção do crescimento demográfico pretendida seria uma estratégia para não aumentar os gastos com o sistema social da ilha. Em setembro de 2022, os governos da Dinamarca e da Gronelândia lançaram uma investigação sobre o programa, cujas conclusões devem ser conhecidas em 2025. Em março do ano passado, 143 mulheres inuítes avançaram com um processo contra o Estado dinamarquês, alegando que as autoridades de saúde violaram os seus direitos humanos. Pediram uma compensação de seja 300 mil coroas dinamarquesas (cerca de 40 mil euros) para cada uma.
Este veio a tornar-se um dos eventos mais traumáticos da história entre Gronelândia e Dinamarca. A ilha tornou-se uma colónia em 1721, estatuto que apenas perdeu em 1973, quando se tornou parte integrante da coroa e passou a ter representação no parlamento, em Copenhaga. Entretanto, na segunda guerra mundial, ficou sob custódia dos Estados Unidos, durante a ocupação alemã da Dinamarca. Em 1979, tornou-se uma região autónoma e, em 2009, passou apenas a delegar questões de política externa e defesa ao Estado dinamarquês.
Desta forma, quando Trump se propôs a anexar o território, de um lado ficaram os gronelandeses que veem o domínio de Washington como uma ameaça e do outro aqueles que olham para a questão como uma oportunidade para se libertarem do jugo dinamarquês. Ainda que as autoridades europeias rejeitem uma possível anexação norte-americana, os comentários do presidente eleito trouxeram à tona a discussão sobre a prometida independência da ilha. Esta quinta-feira, o gabinete da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen revelou que a líder do governo disse a Trump, numa chamada telefónica, que só a população da Gronelândia deverá decidir o seu futuro.
A académica Rikke Ostergaard conta como quando chegou como criança à ilha, os inuítes eram postos em turmas diferentes dos dinamarqueses. De maneira semelhante, a lei estipulava que, desempenhando funções iguais, a população do continente que viesse para ali trabalhar seria paga mais do que os inuítes. “Isso foi abolido, mas agora continua a ser realizado de forma encoberta”, diz Ostergaard. A investigadora considera que as melhores condições económicas da população dinamarquesa — cerca de 7% da população, uma minoria comparada com os gronelandeses que são 88% — faz com que estes criem círculos exclusivos, por exemplo, em escolas privadas.
Em 2019, de acordo com uma sondagem feita à população local, 67,8% das pessoas eram a favor da independência da Gronelândia, num prazo de duas décadas. Contudo, na altura, apenas 38% dos inquiridos assumiram que votariam “sim” se fosse feito um referendo num futuro imediato. Muitos dos habitantes têm receio de que a independência signifique uma pioria das condições de vida, já que cada ano a Dinamarca investe cerca de 600 milhões de euros na ilha de modo a garantir a sustentabilidade do seu sistema social. Na Gronelândia, a prestação de serviços sociais, particularmente médicos, é dificultada, pela vastidão do território — 23 vezes maior que o português — habitado por apenas 57.000 pessoas.
Na segunda-feira, o primeiro-ministro da Gronelândia Múte Egede, do Partido Popular dos Inuítes, disse que ainda não há data para a independência e, simultaneamente, abriu a porta a uma maior cooperação com os Estados Unidos, nomeadamente durante o mandato de Trump. A ilha é rica em petróleo, gás, ouro, ferro e minerais raros necessários para a construção de baterias de carros elétricos ou turbinas eólicas. Contudo, estes recursos ficam em grande medida por explorar, sendo que a pesca continua a ser de longe a principal indústria do país, responsável por 95% das exportações gronelandesas.
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Noutra sondagem, publicada no passado domingo, 57,3% dos inquiridos afirmou ser a favor da Gronelândia se tornar parte dos Estados Unidos, enquanto 37,4% rejeitaram uma potencial aquisição norte-americana. O inquérito, no qual participaram 416 pessoas, foi o primeiro da empresa Patriot Polling fora do território norte-americano e as entrevistas foram conduzidas durante a visita do filho do presidente eleito à ilha — o que assumidamente terá enviesado as respostas. Contudo, este poderá ser um indicador de que, após séculos de uma relação tensa com a Dinamarca, alguns locais olham para a pertença aos EUA como uma hipótese de tornar uma ilha de gelo numa terra de oportunidades.