Antes de o Papa morrer, os argentinos já o tinham deixado ir uma vez. “Bergoglio deixou-nos para se tornar Francisco”. Agora, dizem tê-lo perdido novamente. Em 2013, Jorge Mario Bergoglio era Arcebispo de Buenos Aires, saiu da capital argentina enquanto cardeal para participar no conclave do Vaticano em que foi eleito como sucessor do Papa Bento XVI. Desde que o fumo branco saiu da chaminé da Capela Sistina, Francisco nunca mais voltou a casa.
O não regresso daquele que se tornou o primeiro Papa sul-americano às origens deixou muitos argentinos de coração pesado. Na segunda-feira, em reação à morte de Francisco, Jorge Ignacio García Cuerva, o atual Arcebispo de Buenos Aires, admitiu, citado pela BBC, que a sua paróquia acabara de ficar “órfã de um pai que amava profundamente o seu país e que teve de aprender a tornar-se o pai do mundo inteiro”.
Mesmo que por uma causa maior — a de assumir as dores da parentalidade de um mundo inteiro — Cuerva admitiu que o facto de o Papa nunca ter voltado à terra natal “custou um pouco aos argentinos”. Ao longo de 12 anos, Francisco visitou 68 países diferentes. Em setembro de 2024, quando o seu estado de saúde já era frágil, fez mesmo uma longa viagem de 12 dias pelo sudeste asiático e pela Oceânia.
“É uma pena. É doloroso. Difícil de entender”, disse Mónica Andrada, de 65 anos, na Catedral de Buenos Aires, sobre o não regresso de Francisco, que quando era Jorge trabalhou ao lado da mulher num refeitório comunitário na capital argentina, segundo contou ao New York Times.
Joel Acuña, de 34 anos, também falou ao jornal norte-americano e comparou uma possível visita papal, que já não se vai realizar, à euforia que tomou conta do país quando a seleção nacional venceu o Mundial de Futebol de 2022. “Ele teria dado ao povo argentino algo que nos falta“, disse Acuña, após participar numa missa em homenagem ao Papa num bairro pobre de Buenos Aires, na mesma igreja que Francisco frequentava quando lá vivia. “Esse tipo de alegria é algo de que realmente precisamos”, rematou.
Quando Francisco se tornou papa, a sua ascensão foi celebrada nas ruas de Buenos Aires, quase como uma vitória da casa no futebol, mas depois disso a popularidade do pontífice foi caindo a pique. Se logo após se tornar Papa, em 2013, 98% dos católicos argentinos tinham uma visão positiva de Francisco, de acordo com Pew Research Center, esta percentagem caiu a pique, para 74%, em 2024.
O Papa nunca deu uma resposta explícita quando era questionado sobre a decisão de não retornar enquanto chefe da Igreja Católica ao seu país natal. “Passei 76 anos na Argentina. Já chega, não é?“, repetiu várias vezes em jeito de brincadeira. Com esta decisão, sacrificou mesmo a vida pessoal, já que não tornou a ver a própria irmã. Maria Elena, ou Mariela, a irmã mais nova de Francico nunca o visitou no Vaticano, devido aos vários problemas de saúde. O Papa costumava ligar-lhe todos os domingos, mas nunca mais se encontraram presencialmente.
Alguns especialistas justificam, no entanto, a não deslocação ao país com uma forma de o chefe da Igreja Católica evitar que a visita fosse colada a uma determinada ideologia e, principalmente, aproveitada politicamente.
[Já saiu o sexto e último episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto episódio]
Francisco sentia “desejo de voltar”, mas “polarização profunda” terá chegado para afastá-lo
Guillermo Oliveri, secretário de assuntos religiosos da Argentina de 2019 a 2023, admitiu que a não visita do Papa à Argentina é uma “pergunta para um milhão de dólares”. Citado pelo New York Times, Oliveri diz, com base em inúmeras conversas que teve com Francisco, acreditar que o real motivo está na “famosa divisão política” do país entre a esquerda e a direita.
Não foram, aliás, poucas as vezes em que o Papa ficou incomodado com a forma como as suas ações eram analisadas e comentadas na Argentina.
Além disso, a “polarização cada vez mais profunda” que se sentiu na vida política dos últimos anos no país fez com que preferisse manter a distância, revelou Roberto Carlés, um advogado que teve laços estreitos com o Papa durante anos a fio e que foi embaixador da Argentina em Itália de 2020 a 2023.
O atual líder da Argentina, Javier Milei, chegou a referir-se a Francisco, durante a campanha eleitoral das presidenciais, como o “representante do mal na terra”, a dizer que era “imbecil” e um “filho da puta que prega o comunismo”, tudo devido à acérrima defesa da justiça social feita por Francisco nos seus 12 anos de pontificado.
Acabou por desculpar-se, mais tarde, já após ser eleito Presidente da Argentina e encontrar-se mesmo com o Papa, em 2024. Milei está confirmado na lista de líderes mundiais que vão ao funeral, no sábado.
Com os anteriores Presidentes argentinos, Francisco manteve uma relação distante, mas cordial. Cristina Fernández de Kirchner estava no meio de sua segunda presidência quando o argentino chegou a Papa, em 2013. Acabou por ser a Presidente argentina que mais o visitou no Vaticano, deixando para trás o conflito que tinham tido quando Bergoglio era arcebispo e Kirchner fez aprovar a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Francisco encontrou-se, depois, duas vezes com o sucessor, Mauricio Macri, mas nunca deixou de o criticar publicamente, pelas políticas de direita implementadas na Argentina durante o seu mandato.
No dia 31 de janeiro de 2020, Francisco recebeu o sucessor de Macri, Alberto Fernández, no Vaticano. Depois do encontro, o Papa Francisco pediu a Fernández para nunca se esquecer de ser um “mensageiro da paz”.
Segundo Roberto Carlés, o Papa “sofreu” por causa da instabilidade política na Argentina. “Ele sofreu, porque o que se passava representa exatamente o oposto do que ele promoveu ao longo de sua vida”, afirmou, revelando também ao New York Times, citando relatos do próprio Papa, que, mesmo assim, ele “sentia desejo em voltar”. “Não deu certo, mas eu sei que ele queria“, garantiu.
Já Fortunato Mallimaci, sociólogo e especialista em religião, professor da Universidade de Buenos Aires, disse ao mesmo jornal que, embora a política argentina possa ter sido um motivo para Francisco evitar visitas no início de seu papado, mais tarde, prosseguiu com a intenção de não voltar à Argentina porque, acima de tudo, “queria ser lembrado mais como Francisco do que como Bergoglio”.