O seu território equivale a menos de dois Parques Eduardo VII, em Lisboa, mas, sozinho, o país mais pequeno do mundo — a Cidade do Vaticano — vai receber nos próximos dias milhares, senão dezenas de milhares, de pessoas, entre fiéis, turistas e até somente curiosos, para uma última despedida ao Papa.
Francisco era um dos 882 habitantes (segundo dados de 31 de dezembro de 2024) no Estado cercado por Roma, em Itália. Morava na Casa de Santa Marta, uma das poucas residências permanentes naquele Estado, e o local onde morreu na manhã de segunda-feira. É lá, na capela privada, que o seu corpo está a ser atualmente velado.
No Vaticano, os edifícios são ocupados principalmente por instituições eclesiásticas, museus e lojas de lembranças. O principal destaque é a Basílica de São Pedro, o ponto central para os visitantes. Contam-se ao todo 21 praças e 30 estradas alcatroadas nos 0,44 quilómetros quadrados do total de território.
Dos quase 900 residentes no Vaticano, só 673 têm cidadania concedida e, dos que a têm, só 458 vivem dentro das fronteiras do Estado, número que inclui 120 membros do corpo militar da Guarda Suíça, que garantem a segurança das altas figuras da Igreja Católica.
No site oficial da Cidade do Vaticano destaca-se que cerca de 30% dos cidadãos do Vaticano não residem no interior do Estado, mas noutros países, “sobretudo devido às suas funções específicas, em particular, dos funcionários diplomáticos” que representam a Santa Sé em todo o mundo.
A aquisição e a perda da cidadania, a autorização de residência no território e qualquer outra formalidade relacionada com o acesso ao país são reguladas por disposições específicas, estabelecidas pelo Estado do Vaticano.
Como resultado, o acesso à cidadania do Vaticano não se faz, pelo menos regularmente, pelo nascimento, como é mais comum em todo o mundo. A cidadania é concedida com base em nomeações para trabalhar ao serviço da Santa Sé. Tal estatuto é estendidos aos cônjuges, pais e outros familiares que residam com os cidadãos nomeados, mas uma vez que cessem as funções que motivaram a sua atribuição, a cidadania é destituída.
Nasce, em média, um bebé por ano no Vaticano
Dentro do Vaticano, onde a economia é baseada no turismo e nas receitas dos museus, quase não há nascimentos a registar. Em média nasce apenas um bebé por ano no microestado — habitualmente, filho de um dos 120 guardas suíços.
Aliás, em janeiro de 2025, o Papa Francisco, numa “iniciativa pessoal”, decidiu atribuir um bónus de 300 euros mensais às famílias numerosas no Vaticano, num gesto essencialmente simbólico, já que a população do país mais pequeno do mundo é muito reduzida. Dava assim o exemplo de favorecer a natalidade através de incentivos às famílias, medida que pretendia que fosse replicada pelos líderes mundiais.
Papa Francisco atribui bónus de 300 euros mensais a famílias numerosas no Vaticano
A idade média dos residentes homens no Estado do Vaticano é de 56 anos e a idade média feminina é de 62 anos — ali vivem não só padres e cardeais, mas também freiras. Em média, são registadas anualmente cinco mortes no parco território — em 2024, morreram seis pessoas no Vaticano.
A imagem que reside no imaginário geral de que o Vaticano é um lugar povoado essencialmente por clérigos e figuras religiosas não é ilusória, mas contam-se entre os residentes algumas famílias, com crianças, do corpo militar, bem como de outros membros do staff da Santa Sé ou dos serviços que dão apoio à instituição religiosa.
[Já saiu o sexto e último episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto episódio]
Sem hospital ou prisão, mas com creche, internet e posto de correios
Foi a pensar nestas crianças que nasceu uma creche, a partir da “preocupação do Papa Francisco com as famílias dos funcionários do Vaticano”. A creche “San Francesco e Santa Chiara” foi inaugurada a 14 de abril de 2025, na Via San Luca.
Entrou em funcionamento no dia 1 de abril, há pouco menos de um mês, e acolhe atualmente treze crianças, entre as quais cinco rapazes e oito raparigas, entre os três meses e os três anos. Na creche trabalham três professores e dois diretores e falam-se duas línguas: italiano e inglês. O centro educativo tem uma capacidade total para receber 30 crianças.
▲ Inauguração da creche para filhos dos funcionários no Vaticano
Giuseppe Smacchia
Além disso, os residentes do microestado não têm de pagar impostos locais, mas também não têm acesso a serviços essenciais no Vaticano, como é o caso de hospitais e outros serviços de saúde de cariz público. Também não há uma prisão na Cidade do Vaticano, existem apenas celas de detenção provisória para casos urgentes, sendo os criminosos transferidos depois para prisões italianas.
Entre os serviços públicos disponíveis no país conta-se um posto de correios, serviços de fornecimento de internet e de telecomunicações e uma farmácia. Nesta última, a entrada e aquisição de produtos fica condicionada à apresentação de um documento válido (bilhete de identidade ou passaporte) e uma receita médica para o produto solicitado.
▲ Imagem da Farmácia do Vaticano
Site do Estado da Cidade do Vaticano
Outra curiosidade revelada pelo próprio Vaticano é a de que no país não há, atualmente, residentes com animais de estimação, embora não sejam proibidos.
De uma forma geral, os animais de estimação que cheguem de fora, a acompanhar turistas por exemplo, não são permitidos nos Museus do Vaticano ou na Basílica de São Pedro. São abertas exceções para cães-guia para cegos ou amblíopes e animais de apoio terapêutico certificados. Como se informa nos sites oficiais dos museus, mesmo para estas exceções, poderá ser necessário um aviso prévio, com a apresentação da devida certificação do animal.
O país onde se bebe mais vinho e com a via ferroviária mais curta do mundo
Per capita, a Cidade do Vaticano consome mais vinho do que qualquer outro país do mundo, de acordo com os dados relativos às importações de 2019. Com uma população de mais de 800 cidadãos, o consumo médio per capita é de cerca de 79 litros por ano, ou seja, 99 garrafas.
Vários estudos, citados pelo Instituto da Vinha e do Vinho, defendem que o elevado consumo se deve, em parte, ao número de celebrações de missas, onde a bebida é usada. Por outro lado, o facto de a população ser maioritariamente masculina e de idade mais avançada, aumenta a quantidade de vinho consumido tradicionalmente durante as refeições.
Não só o Vaticano é um dos sítios onde se bebe mais, mas também onde a bebida alcoólica é mais barata, já que o vinho é fornecido num supermercado único, onde surge à venda quase livre de impostos.
Outro ponto de curiosidade para muitos turistas é a presença de uma caixa multibanco com instruções em latim, no recinto do Vaticano, facto que é muitas vezes destacado nas redes sociais.
Apesar de o italiano ser o idioma oficial da Cidade do Vaticano, a Santa Sé usa o latim como língua oficial e daí estar ainda presente num dos pontos de levantamento de dinheiro no Estado.
@everything.explained Would you be able to withdraw from it? ???????? #italy #history #facts #interesting #fyp
Na Cidade do Vaticano também é possível encontrar a linha de ferrovia mais pequena do mundo, embora não seja utilizada atualmente para transportar pessoas, mas apenas mercadorias. Os caminhos de ferro e a estação ferroviária foram construídos durante o pontificado do Papa Pio XI. Os dois trilhos que compõem a estrutura ferroviária têm 300 metros e a sua estação única chama-se Citta Vaticano.
A elevada taxa de criminalidade causada pelos carteiristas
A vida diária, não só de quem reside, mas particularmente de quem visita o Vaticano, é também marcada pela elevada taxa de criminalidade no país. Não crime violento, mas sim pequenos furtos em lojas de lembranças e roubos levados a cabo por carteiristas, no meio das multidões de turistas. Uma vez que a população da Cidade do Vaticano não chega às 900 pessoas, a taxa de crime é particularmente elevada por se registarem mais crimes per capita do que em qualquer país no mundo.
Nos próximos dias, as ruas do país que não chega a ter um quilómetro quadrado vão contar com mais polícia italiana e mais funcionários municipais a prepararem o local para a grande afluência esperada na última despedida ao Papa Francisco — fiéis católicos, jornalistas que já estão a ser direcionados para as ruas adjacentes ao Vaticano, e os turistas regulares, que mesmo antes da morte do Papa já tinham viagem marcada e que, só por si, já deixam muitas vezes o local completamente lotado, como confirmaram os jornalistas do Observador em Roma.
O corpo do líder da Igreja Católica será transferido para a Basílica de São Pedro esta quarta-feira, para que os fiéis possam rezar diante dos seus restos mortais. Depois das cerimónias fúnebres, segue-se o próximo conclave e todo o processo de escolha do novo Papa, que se tornará no novo habitante da Cidade do Vaticano.