O Governo avançou na semana passada com um pacote de alterações legislativas na área da imigração e o líder do PS veio esta terça-feira avisar que algumas delas não terão a aprovação do seu partido no Parlamento. “Como está, não tem condições para ter o voto favorável do PS”, disse José Luís Carneiro quando questionado sobre a iniciativa do Governo, depois de uma reunião com o Presidente da República.
O socialista não diz que pontos concretos o PS contesta e remete a questão para a bancada parlamentar, ao mesmo tempo que pede ao Governo que “abra a possibilidade de poder haver uma discussão sobre as matérias que estão em apreço. Há matérias mais sensíveis, há matérias menos sensíveis, nós também entendemos que é possível aperfeiçoar determinadas matérias, agora há dimensões da legislação em curso que naturalmente não podem contar com o voto favorável do Partido Socialista”, repete o novo líder.
Carneiro fala em concreto dos cidadãos dos países de língua oficial portuguesa e da comunidade dos países de língua portuguesa, para defender que, “até por razões que têm a ver não apenas com a relação histórica, que vem desde 1976, e por razões que têm a ver com princípios fundamentais da política externa, devem ter um tratamento que seja merecedor dessa reciprocidade, de que também somos beneficiários nesses países”.
O líder do PS tinha acabado de sair de uma audiência com o Presidente da República a quem garantiu que o PS será “um partido responsável e construtivo, e que está aqui para afirmar uma alternativa política ao Governo”. Carneiro garante que o PS estará “para cooperar e para desenvolver um diálogo construtivo naquilo que tem a ver com matérias fundamentais do Estado”, mas que também noutras, como o Orçamento do Estado, que já mostrou disponibilidade para aprovar sem negociação prévia. Neste capítulo, o socialista repete que o PS tem “a expectativa de que o Governo compreenda quais são os alicerces no Estado Social que estamos capazes de construir” e que fará “oposição clara a tudo quanto coloca em causa esses alicerces do Estado Social e a defesa de valores fundamentais da vida em sociedade”.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 7.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui]
Em Belém, Carneiro já sabia que ia encontrar um Presidente pessimista com o caminho que este líder do PS terá pela frente — o próprio tinha feito o pararelismo com o seu tempo da liderança da oposição, entre 1996 e 1999 –, mas aos jornalistas tentou desdramatizar. “Sempre desempenhei funções com missões bastante difíceis. Quem me conhece, sabe que quando fui secretário de Estado das Comunidades Portuguesas tive que vencer dificuldades muito grandes que tínhamos com a comunidade portuguesa na Venezuela. E não foi tratar com um Estado, foi tratar com 23 estados”, sublinhou.
“Sempre estive investido de funções e de responsabilidades que exigiram uma grande entrega, um grande sentido de serviço público e é isso que eu continuarei a fazer”, garantiu à saída do encontro com Marcelo Rebelo de Sousa.
Marcelo considera que Carneiro está em “posição muito difícil”
Só não quis entrar em alguns pontos mais quentes do momento, nomeadamente dentro do seu próprio partido onde está a tentar órgãos de direção que incluam elementos do passado, mas sem sucesso. Sobre a diversidade de opiniões interna no PS, Carneiro prefere chamar-lhe “pluralidade”. “É muito natural que haja pessoas que têm posições diferentes”, diz assumindo como “dever” garantir que “todos quantos queiram participar de forma ativa, de forma construtiva, possam fazer”. “A pluralidade, a diversidade de pontos de vista do PS é das suas maiores riquezas”, afirma sobre o ambiente interno que terá de enfrentar numa altura sensível para o PS, após a derrota nas legislativas.
Quanto às questões relativas às obrigações declarativas do primeiro-ministro e à oposição de Luís Montenegro à consulta pública dos clientes da Spinumviva, Carneiro apenas disse esperar que as “instituições que administram a Justiça cumpram escrupulosamente os seus deveres nas exigências que fazem, nem mais nem menos, mas as exigências que decorrem do cumprimento da lei e do respeito pela legalidade”.