Ganhou o primeiro torneio WTA 1.000 em Doha, chegou aos oitavos de Roland Garros, foi à final do Open de Londres, nem por isso estaria entre as principais favoritas a chegar à decisão em Wimbledon. Pela lógica do ranking poderia entrar quase no top 10 de apostas, pelo longo trajeto apesar dos 23 anos nem por isso. No entanto, com muito mérito à mistura apesar de algumas tremideiras pelo meio em jogos que pareciam estar ganhos, chegou às meias-finais de um Grand Slam apenas pela segunda vez na carreira. Aos 17 anos, a versão 1.0 de Amanda Anisimova chegou ao top 4 de Roland Garros após eliminar a campeã em título Simona Halep. Aos 23 anos, a versão 2.0 de Amanda Anisimova chegava ao top 4 do Major londrino tendo pela frente a número 1 do mundo, Aryna Sabalenka. Depois de passar tantas montanhas, chegava “a” montanha.

A norte-americana chegava como 13.ª cabeça de série ao torneio que foi fazendo uma autêntica razia entre quase todas as potenciais favoritas. Depois de uma primeira paragem na carreira pelo impacto da morte do pai por uma paragem cardíaca e de uma segunda ausência do circuito para proteção da sua saúde mental, a jogadora voltou mais leve, mais capaz e até mais feliz com o que fazia em campo. “Tenho lutado com a minha saúde mental desde o verão de 2022. Agora, tornou-se insuportável estar em torneios de ténis. Neste momento, minha prioridade é meu bem-estar mental e fazer uma pausa por um tempo”, anunciou. “Foi agradável tirar um descanso do estilo de vida caótico de uma tenista e restabelecer-me como ser humano. Esse intervalo e ter mais de duas semanas de descanso pela primeira vez na minha vida foi revigorante. Recuperei muita energia e felicidade”, explicou depois do regresso aos courts no ano passado.

Diminuir o ritmo da minha vida foi algo que realmente precisava. Cresci e amadureci no último ano, quero fazer tudo certo. Vou dar o máximo e esforçar-me ao máximo porque quero dar o melhor de mim todos os dias. Era difícil equilibrar-me mas sinto que agora posso fazer mais.”

Era assim que Anisimova chegava a Wimbledon, depois de uma derrota precoce na Austrália frente a Emma Raducanu e um desaire nos oitavos diante de Aryna Sabalenka. Agora havia essa hipótese de “vingança”, com a garantia de que iria entrar no top 10 do ranking mundial. “Sempre soube, dentro de mim, que ia voltar ao circuito, independentemente do tempo de descanso que precisasse. Sentia que havia muitas coisas que ainda queria alcançar e ganhar um Grand Slam é uma dessas coisas. Não queria ir-me embora tão cedo depois de ter sacrificado grande parte da minha vida. Descobri uma nova paixão pelo ténis. É uma paixão que não sentia antes, nem sequer quando era adolescente”, admitiu a norte-americana depois da vitória alcançada nos quartos de final diante da russa Anastasia Pavlyuchenkova por 6-1 e 7-6 (9).

“Foi importante ter-me mostrado tão honesta e vulnerável sobre um tema que, talvez, ainda seja um pouco estigmatizado. Consegui que outras pessoas olhassem para este assunto com uma perspetiva diferente: é possível sofrer de problemas de saúde mental. É tão importante como a saúde física, sobretudo quando falamos de um desporto e quando isto é a tua profissão. O estilo de vida pode ser muito diferente se não encontrares o equilíbrio certo. Tudo se torna muito solitário. Já vimos muitos jogadores a sofrer. Muitas equipas técnicas estão a começar a perceber o que é necessário para trazer felicidade à vida das jogadoras e tenho visto muitas equipas a fazer um excelente trabalho com as suas atletas”, destacou Amanda Anisimova.

Agora, lutava por mais. Agora, conseguiu mais. Num encontro atípico e com várias mudanças no domínio do encontro, a norte-americana ganhou o primeiro parcial depois de salvar quatro break points no 4-3, perdeu o segundo set apesar de ter também evitado mais quatro break points no 5-3 e conseguiu dar a volta no parcial decisivo após perder o primeiro jogo de serviço e sofrer novo break quando podia ter fechado com 6-3. Quer isso dizer que tudo foi tranquilo? Não, longe disso. Em mais uma partida marcada pelas interrupções por haver espectadores a passarem mal pelo calor nas bancadas, Anisimova continuou a deixar muito mais sinais de desalento quando fazia erros diretos do que mostras de alegria quando sacava de winners mas soube gerir da melhor forma os pontos decisivos para forçar bolas pouco comuns de Aryna Sabalenka, que voltou a falhar a primeira final da carreira em Wimbledon apesar das seis em Grand Slam que leva desde o ano de 2023 (com vitórias no Open da Austrália em 2023 e 2024 e no US Open em 2024).

A mão de Amanda acabou por agarrar mesmo aquilo que a cabeça estava a ceder mas essa seria mesmo a única surpresa do dia. Após eliminar Ekaterina Alexandrova e Mirra Andreeva, Belinda Bencic não conseguiu prosseguir com o autêntico conto de fadas em Londres apenas 15 meses depois de ter sido mãe. Antiga campeã olímpica em Tóquio-2020, após vencer Markéta Vondrousova, a suíça de 28 anos admitiu que ouviu muitas críticas por ter interrompido a carreira tão nova pela maternidade, assumiu que estava preparada para qualquer cenário depois do regresso e mostrou que tem ainda muito ténis para mostrar mas, na segunda meia-final de um Grand Slam da carreira (tinha ido às meias do US Open de 2019), cruzou-se com a melhor versão de Iga Swiatek, antigo número 1 que se soltou por completo de todos os fantasmas que tinha em relva para chegar à sexta decisão de um Major… após ganhar as primeiras cinco finais disputadas. Com uma entrada demolidora a 3-0, a polaca ganhou o primeiro set por 6-2 e o segundo por 6-0 em 1h11.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]