Numa noite, a primeira de três, em que eram esperadas manifestações em Torre Pacheco, na região de Múrcia, no Sul de Espanha, as autoridades conseguiram evitar novos distúrbios. Às 20h locais (menos uma hora de Lisboa), mais de 130 agentes da polícia de choque espanhola tinham sido mobilizados para a praça em frente à Câmara Municipal do município, onde o protesto não autorizado deveria decorrer.
Com os manifestantes, que eram cerca de uma centena, a serem obrigados a desmobilizar face à forte presença policial (que, inclusive, pediu aos presentes para abandonarem o local), relata o 20 Minutos, pequenos grupos começaram a formar-se em ruas adjacentes. Com o hino espanhol a tocar repetidamente como som de fundo, ouviram-se palavras a favor da segurança e contra o “crime de rua” e a imigração. Embora não existam registos de distúrbios de maior, há relatos de jornalistas ameaçados, acusados de manipulação, vaiados e perseguidos.
Segundo o mesmo jornal espanhol, embora o número de manifestantes nas ruas esteja a diminuir à medida que as horas avançam, os gritos contra a imigração, a comunicação social e o governo sobem de tom. Não foram, até ao momento, efetuadas novas detenções.
A manifestação tinha sido convocada nas redes sociais por grupos organizados ligados à extrema-direita, segundo o jornal ABC. Paralelamente, o movimento “Deport Them Now” (“Deportem-nos já”, em português), cujo líder terá sido detido, também tinha pedido a “patrulhas de bairro” para perseguirem “magrebinos delinquentes” durante os próximos três dias.
Em resposta ao anúncio de “três dias quentes”, que poderão ser marcados por violência, Fernando Grande-Marlaska, ministro da Administração Interna de Espanha, anunciou que tinha sido pedido o reforço das medidas de segurança em Torre Pacheco. Os conflitos começaram na região após um suposto ataque, por parte de imigrantes, a um homem de 68 anos.
Desde a passada quinta-feira, dia 10 de julho, que os habitantes de origem magrebina, que representam um terço da população de Torre Pacheco, se opõem a grupos de militantes da extrema-direita, que assumiram o objetivo de “caçar” imigrantes e os seus descendentes.
Dois dos três detidos por suspeitas de serem os autores da agressão ao homem de 68 anos foram esta terça-feira à tarde libertados. Foi-lhes, segundo o jornal ABC, imposta uma providência cautelar, estão obrigados a comparecer em tribunal de 15 em 15 dias e estão proibidos de sair do país.
O terceiro suspeito, que foi detido quando estava a tentar fugir para França, ficou em prisão preventiva, sem fiança.
Os três detidos são marroquinos e, avança o jornal El Mundo com base em informações obtidas junto de fontes da investigação, não moravam em Torre Pacheco.
Detido no País Basco terceiro suspeito da agressão a idoso em Torre Pacheco
Perseguição e insultos de manifestantes a jornalistas
No entanto, os jornalistas foram visados por cerca de uma centena de elementos da extrema-direita, que perseguiram e insultaram profissionais da comunicação social na última noite em Torre Pacheco. Os insultos, segundo a agência Efe, foram particularmente intensos contra Esther Yáñez, jornalista da estação TVE, que teve de ser escoltada pela Guarda Civil, durante a manifestação contra a agressão a um residente da cidade espanhola, alegadamente, por três jovens do Magrebe.
Os membros das forças de segurança presentes tiveram de pedir a Yáñez que parasse de fazer reportagens para não incitar a multidão a continuar o assédio, enquanto alguns jornalistas tiveram de retirar as esponjas dos microfones para que não ficasse claro qual o meio de comunicação social que representavam, por medo de represálias.
Embora fontes próximas das forças armadas citadas pela Efe tenham inicialmente indicado que os polícias estavam a incentivar os participantes a abandonar o local, onde se concentraram dezenas de pessoas sob o lema “Só o povo salva o povo”, o protesto acabou por juntar cerca de 100 pessoas.
Por volta das 22:00 de terça-feira (21:00 de terça-feira em Lisboa), não se registava qualquer movimento no bairro predominantemente habitado por magrebinos, a cerca de 10 minutos a pé do centro e que estava protegido por numerosos polícias de choque das forças armadas. O protesto aumentou a presença de agentes da Guarda Civil neste dia, com mais de 100 elementos de forças especiais, na expectativa de mais uma noite de tumultos, semelhante aos dos últimos dias.
Os distúrbios e os confrontos entre grupos alegadamente de extrema-direita e residentes em Torre Pacheco, onde 30% da população de 40 mil pessoas é imigrante ou de origem estrangeira, ocorreram nas últimas quatro noites e surgiram após um homem de 68 anos da localidade ter sido agredido por jovens sem razão aparente, segundo contou a própria vítima, na quinta-feira passada, a meios de comunicação social.
Segundo as autoridades, três dos 13 detidos nos últimos dias estão relacionados com esta agressão e os restantes são por suspeitas de crimes de ódio, agressões e desordem pública.