O Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América publicou esta sexta-feira as transcrições do depoimento de Ghislaine Maxwell, namorada e cúmplice de Jeffrey Epstein. Foram duas rondas de entrevistas com o vice-Procurador-geral, Todd Blanche, em dois dias diferentes, que acabaram por vir a público em quatro documentos distintos com mais de 300 páginas no total. A socialite britânica foi condenada por ter auxiliado o empresário norte-americano durante anos de esquemas de tráfico e abuso sexual de menores.

Por concordar em discutir o caso, a Justiça dos EUA atribuiu imunidade limitada a Maxwell e, de acordo com a transcrição, não foram prometidos quaisquer benefícios adicionais em troca do seu testemunho. “O mais importante deste acordo é [definir] que isto não é um acordo de cooperação, ou seja, ao encontrar-se connosco, estamos só mesmo a encontrar-nos”, disse Blanche, reforçando que “não estava a prometer fazer nada”. Logo a seguir à entrevista, no entanto, Ghislaine Maxwell foi transferida para uma prisão federal de menor segurança, no Texas.

Sob ameaça de acusações adicionais caso mentisse, Maxwell concordou com todos os termos da conversa com o representante da Justiça norte-americana. Estando a conversar com o antigo advogado do atual Presidente do país, cujo nome tem vindo a flutuar próximo de Epstein, Donald Trump foi um dos temas abordados na entrevista. “Na verdade, nunca vi o Presidente em qualquer tipo de massagem. Nunca vi o Presidente em qualquer tipo de ambiente inapropriado. O Presidente nunca foi inapropriado com ninguém”, confessa Maxwell.

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Questionada se alguma vez tinha visto algum comportamento “inoportuno” de Donald Trump durante as suas interações com Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell garante: “Absolutamente nunca, em qualquer contexto”. Ainda sobre o atual Chefe de Estado e antigo amigo do seu companheiro, Maxwell diz que “sempre gostou de Trump” e que admira a sua “conquista extraordinária” ao chegar à Casa Branca. Refere, porém, que “esta é a essência” da sua relação com o Presidente, que menciona ter conhecido no início dos anos 90, mantendo contacto durante cerca de uma década.

Sobre a relação que Trump mantinha com Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell revela não conhecer a extensão da amizade, mas acredita que “não eram amigos próximos”. “Acho que eram amigáveis como as pessoas [normalmente] são num contexto social”, acrescenta a socialite. Donald Trump não é o único Presidente mencionado no caso de Epstein e, em declarações passadas em que se distanciou do empresário, Trump lançou mesmo acusações contra um dos seus antecessores.

“Bill Clinton já foi à ilha [de Epstein] 28 vezes”, segundo Trump. No seu depoimento, Ghislaine Maxwell garante que esta afirmação é mentira. “Ele nunca, nunca foi. E tenho a certeza disso porque não há hipótese de ele ter ido à ilha se eu não estivesse lá. Porque não acredito que ele tivesse uma amizade independente com Epstein”, afirma. Refere, assim, que era o único elo de ligação entre Clinton e Epstein, uma vez que o Presidente Clinton era apenas seu amigo, e não do seu namorado.

Não desmente que os dois tenham passado tempo juntos, num avião, mas diz que “não houve qualquer massagem”. Esse momento, que ficou eternizado numa fotografia, teria sido “a única ocasião em que o Presidente Clinton poderia ter recebido uma massagem”. Contudo, Ghislaine Maxwell confirma que também estava presente no voo e nega qualquer envolvimento sexual com menores a bordo deste jato privado. Hilary Clinton também foi envolvida na conversa, mas também não terá tido qualquer “negócio” com Epstein, segundo a britânica. Sendo amiga dos Clintons, revela que a última vez que se encontrou com ex-Presidente foi em 2018, num jantar em Los Angeles.

Uma outra figura mediática que é frequentemente associada a Epstein é o Príncipe André, que já foi alvo de inúmeras queixas e relatos que apontam para o envolvimento do membro da família real britânica nos esquemas de tráfico e abuso sexual de menores. Ghislaine Maxwell estabelece, de início, que não foi a responsável por apresentar Jeffrey Epstein a André.

“Não há qualquer lista. Não tenho conhecimento de qualquer chantagem”

Durante o seu depoimento, Maxwell procurou distanciar-se dos crimes cometidos pelo seu ex-companheiro. Questionada sobre os alegados abusos de menores, a socialite britânica diz que “nunca viu nada”, mas não nega que Epstein o tenha feito”. Assim, reforça que não aceitou falar com o vice-Procurador-geral Todd Blanche para “defender” Jeffrey Epstein, mas para esclarecer que “não participou neste tipo de atividades” com menores.

Epstein morreu na prisão em 2019, tendo sido encontrado morto na sua cela, sozinho. Porém, Maxwell não acredita na tese que o seu namorado se suicidou, como relataram as autoridades na época. “Na prisão onde estou, matam-te ou pagam — alguém pode pagar a um prisioneiro 25$ para te matar”, conta Ghislaine, depois de referir que não sabe quem é que pode ser responsável pela morte de Jeffrey Epstein.

Um outro tema que tem sido levantado múltiplas vezes ao longo destes últimos anos em que o caso está na agenda mediática é a lista de clientes. Um documento que indica os nomes daqueles que usufruíram dos serviços disponibilizados por Epstein — fruto do tráfico de menores. Donald Trump, quando concorria para a presidência pela segunda vez, disse que divulgaria os conteúdos desta lista assim que fosse apurada. Mas quando chegou a hora — e depois de ter surgido rumores a indicar que estaria incluído nesta mesma lista — a decisão foi de não publicar, alegando que não existia qualquer lista.

A justificação de Trump foi agora corroborada por Maxwell. “Não há lista”, afirma a cúmplice de Epstein, que explicou ao representante da Justiça norte-americana que esta “história” surge de um depoimento de um antigo empregado de Epstein. “A verdade é que Alfredo Rodriguez foi deposto duas vezes, uma em julho e outra em agosto. No depoimento de julho, disse que havia notas manuscritas ou um diário”, conta a socialite, referindo que “a narrativa está a ser controlada por cinco pessoas”, gerando confusão na interpretação da versão verdadeira da história.

No fim, conclui: “Não há qualquer lista. Não tenho conhecimento de qualquer chantagem. Nunca ouvi nada sobre isso, nunca o vi nem nunca imaginei”.

Ghislaine nunca viu “nada que se assemelhe às acusações”

Robert F. Kennedy Jr, o atual Secretário da Saúde dos EUA, também tem sido algo associado ao caso de Jeffrey Epstein, com diferentes fotografias a retratar uma suposta relação entre os dois. Questionada sobre a ligação entre Kennedy e Epstein, Ghislaine Maxwell dá uma resposta semelhante à que deu sobre Trump: “Nunca vi nada inapropriado com o Sr. Kennedy“. Efetivamente existia uma relação — que incluiu uma “caça a ossos de dinossauro”.

Quando lhe perguntaram novamente se alguma vez viu RFK Jr. envolvido com uma menor em alguma das propriedades de Epstein, a socialite repete e reitera que “nunca viu qualquer homem a ter comportamentos inapropriados com uma mulher de qualquer idade”. Apesar de reconhecer que o termo “inapropriado” é subjetivo, garante que nunca viu “nada que se assemelhe às acusações” em torno do nome do empresário.

O julgamento começou em 2021, no tribunal federal de Nova Iorque, e Maxwell foi considerada culpada de cinco crimes, incluindo o tráfico sexual de menores. Enfrentando uma pena de 20 anos de prisão, a número dois de Epstein tentou, em múltiplas ocasiões, reverter a decisão da Justiça norte-americana e, agora, garantiu uma sessão extra de esclarecimentos com Blanche, resultando na divulgação dos conteúdos destas entrevistas após a administração de Donald Trump ter enfrentado fortes críticas de falta de transparência relativamente ao caso.