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Esta “quarta violação do espaço aéreo” em 2025 foi “uma escalada perigosa”, numa ação que faz “parte do padrão mais amplo de provocações russas contra os seus vizinhos”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) estoniano esta segunda-feira. Margus Tsahkna falava na reunião de emergência do conselho de segurança das Nações Unidas, a primeira convocada em mais de trinta anos de participação na ONU, depois de a Rússia ter invadido o espaço aéreo da Estónia, na semana passada.
“Estamos aqui hoje [esta segunda-feira], porque este incidente preocupa não só a Estónia, mas toda a comunidade internacional”, afirma o chefe da diplomacia estónio, referindo que as ações “imprudentes” de Moscovo representam “uma escalada desestabilizadora que aproxima toda a região de um conflito como nunca se viu nos últimos anos”.
Foi assim que o governante estoniano acabou a leitura de uma declaração apoiada por 50 países e pela União Europeia, com um apelo direto à Rússia. “Cessem, sem atraso, a vossa guerra de agressão contra a Ucrânia”, exclamou, pedindo também “o fim de todas as provocações e ameaças contra a soberania e a integridade territorial dos seus vizinhos”.
A resposta do representante russo na reunião não se fez esperar. Dmitry Polyanskiy negou a entrada de três caças MiG-31 ao mesmo tempo que acusava Talin de “histeria russofóbica”.
A Europa que existia durante o Renascimento “foi-se para sempre”, “Voltaire, Rousseau e Kant” transformaram-se em “Von der Leyen, Kallas e outros “russofóbicos mesquinhos e tacanhos”, disse o diplomata russo.
Dmitry Polyanskiy acusou a liderança europeia de instalar um “ódio primitivo” à Rússia, com o objetivo de “pintar Moscovo como a maior ameaça para a segurança pan-europeia”. “Todos os eventos são imediatamente interpretados através de um prisma anti-russo”, acrescentou.
Olhando para o tema desta reunião convocada de emergência, a representação russa afirmou que as acusações sobre a invasão de drones em território polaco foram avançadas “sem qualquer prova”, referindo que a narrativa avançada pela Estónia faz parte “do espectáculo chamado ‘culpar a Rússia de tudo’”.
Insistiu, assim, que os caças russos nunca atravessaram o espaço aéreo da Estónia, referindo que se dirigiam para Kaliningrado — enclave russo no Mar Báltico —, mas que o voo foi feito “de acordo com as regras do espaço aéreo internacional” em “águas neutras”.
Dmitry Polyanskiy continuou: “Se querem entrar em histeria, fermentar e continuar a lançar acusações infundadas, vão em frente, mas façam-no sem a nossa participação. Não vamos participar neste teatro do absurdo, e vocês não precisam de nós aqui. Quando decidirem que querem participar numa discussão séria sobre a segurança europeia, sobre o destino do nosso continente comum, sobre como tornar este continente próspero e seguro para todos, estaremos prontos, sabem onde nos encontrar”.
Em resposta direta à intervenção russa no Conselho, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia acusou Moscovo de “mentir novamente”, ao negar qualquer invasão do seu espaço aéreo, referindo que os caças russos em questão estavam “prontos para combate”.
O chefe da diplomacia estoniana apresentou mesmo imagens de radar que, na sua versão, confirmam a entrada dos caças em espaço do seu país.
“A violação é evidente e a Rússia está a mentir novamente, como já fez antes”, denunciou Margus Tsahkna, recordando a ocupação de regiões da Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia em 2014 e a invasão da Ucrânia em 2022.
“A impunidade, o apaziguamento e novas concessões apenas encorajariam Putin e levariam a novos crimes”, continuou o MNE da Estónia descrevendo a Rússia como “uma verdadeira ameaça à paz e segurança global”.
A Roménia, também alvo de recentes incidentes, interrogou-se até onde Moscovo poderá ir se a comunidade internacional, especialmente o Conselho de Segurança, não reagir a tempo. A inação da comunidade internacional “poderá encorajar futuras provocações” lamentou a ministra dos Negócios Estrangeiros romena.
Já a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros (UE) — e antiga primeira-ministra da Estónia — criticou o “cinismo” da Rússia enquanto membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao violar os princípios da organização com incidentes como a incursão de caças no espaço aéreo de países com a Estónia, a Polónia e a Roménia.
“Digo isto abertamente ao representante russo nesta sala. As ações do seu Governo são imprudentes, perigosas e vão contra os próprios princípios das Nações Unidas”, afirmou Kallas, sublinhando que a resposta europeia será “unânime e firme”, assegurando que o bloco europeu não hesitará em apoiar a Ucrânia e reforçar o seu flanco leste.
Kaja Kallas referiu que a “violação do espaço aéreo da Estónia não tem precedentes tanto em escala como em imprudência. Foi uma provocação deliberada que poderia ter acabado com resultados devastadores”.
Em resposta aos sucessivos desmentidos que têm sido apresentadas por Moscovo, Kallas respondeu: “Não é possível que a Rússia tenha violado acidentalmente o espaço aéreo europeu três vezes nas últimas duas semanas”. Mas, “se foi um erro acidental, houve tempo suficiente para a Federação Russa pedir desculpa e dizer que cometeu um erro”, destacou. “Em vez disso, vemos um padrão. A Rússia está a testar as fronteiras da Europa, questionando a nossa determinação e minando a segurança de toda a Europa”, repetindo o que dissera na semana passada: a Rússia está a “testar as fronteiras europeias”. E “ vai continuar a provocar enquanto a deixarmos”, concluiu.
EUA: estas ações “potenciam um confronto armado entre a NATO e a Rússia”
Antes da Estónia, a Polónia foi a primeira a denunciar estas incursões russas pelo espaço aéreo da NATO. No Conselho de Segurança da ONU, o ministro polaco dos Negócios Estrangeiros assegurou que não “se vão deixar intimidar” pela tentativa da Rússia de “reconquistar a Ucrânia”, e deixou um aviso:
“Se um míssil ou avião [russo] entrar no nosso espaço sem autorização — deliberadamente ou por engano — e for atingido e os destroços caírem em território da NATO, não se venham para aqui queixar. Foram avisados”.
Neste registo, Radosław Sikorski sublinha que os países da Aliança têm dado um “desconto” à Rússia no passado em circunstâncias semelhantes, e que nunca ouviram um pedido de desculpas, “apenas mentiras”.
Acusou-a de “não querer saber do direito internacional” e de “ser incapaz de viver em paz com os seus vizinhos”. “O vosso nacionalismo insano contém um desejo de dominância que não cessará até que percebam que a era dos impérios já acabou e que o vosso não será reconstruido”, terminou o polaco.
Mike Waltz, o representante da missão norte-americana nas Nações Unidas, aproveitou para relembrar que o órgão esteve reunido há duas semanas, quando surgiram as acusações sobre drones russos terem entrado no espaço aéreo polaco e que, apesar de se ter feito um apelo direto à Rússia nesta ocasião, Moscovo “voltou a violar o espaço aéreo de outro país da NATO”.
“Os EUA e os nossos aliados vão defender todos os centímetros de território da NATO. A Rússia tem de parar urgentemente com este comportamento tão perigoso”, sublinhou Waltz, dizendo que espera que Moscovo “procure formas de desescalar, e não agravar” o conflito.
A ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido mencionou que a Rússia continua a “violar as suas obrigações mais básicas à luz da Carta das Nações Unidas” — seja pelos persistentes ataques contra a Ucrânia e pelas “imprudentes” invasões do espaço aéreo da Polónia, Roménia e Estónia.
“Estes últimos atos são perigosos e imprudentes. Na pior das hipóteses, são uma tentativa deliberada de minar a integridade territorial de nações soberanas e a segurança europeia. Arriscam-se a erros de cálculo e abrem a porta a um confronto armado direto entre a NATO e a Rússia”, afirmou Yvette Cooper.
Disse, também, que o compromisso da aliança em “defender a paz e a segurança” é “inabalável”, e que “a força combinada dos países da NATO não tem comparação”. Numa declaração dirigida ao Presidente da Rússia, Cooper avisa que estas ações “potenciam um confronto armado entre a NATO e a Rússia”.
“A nossa aliança é defensiva, mas não se iludam. Estamos prontos para tomar todos os passos necessários para defender os ceús e o território da NATO. Estamos alerta. Estamos decididos e, se for necessário, enfrentaremos os aviões que estiverem a operar no espaço aéreo da NATO sem autorização”, remata.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, assumiu também a palavra para avisar que a Rússia não se vai limitar pelos episódios recentes, e que provavelmente irá, num futuro próximo, provocar outros países europeus.
“O que vem a seguir? Que outra reunião de emergência vamos ter de organizar nas próximas semanas? Quem será o próximo país a ter de lidar com as provocações russas?”, questiona retoricamente Andrii Sybiha.
“Nenhum destes desenvolvimentos foi acidental. Moscovo faz isto de propósito”, continua o chefe da diplomacia ucraniano, referindo que “a Europa não está em guerra com a Rússia, mas que a Rússia está em guerra com a Europa”, apelando à “força e união” como “única forma de salvaguardar a paz”.