Quarta-feira foi dia para arrumar assuntos no PS, com José Luís Carneiro a reunir a direção, o grupo parlamentar e a Comissão Política para analisar resultados autárquicos e fechar a posição no Orçamento. Pelo meio também lançou o tema presidenciais e o apoio a António José Seguro e, nem de propósito, acabou o dia a lembrar esse mesmo antigo líder ao cunhar a expressão “abstenção exigente” quando explicou o que o PS pretendia fazer na votação do Orçamento do Estado para 2026.
O qualificativo faz lembrar outro momento em que o PS também quis adjetivar uma abstenção num Orçamento para justificar porque avançava por esse caminho de viabilização da proposta do Governo. Na altura, em 2011 e com vista ao Orçamento do ano seguinte em plena troika, o líder Seguro chamou-lhe “abstenção violenta” e o resto da história dessa liderança é bem conhecida: foi do desconforto interno com a falta de uma oposição firme ao Governo de Passos Coelho para a crítica interna e daí para um desafio à liderança protagonizado por António Costa, dois anos depois.
OE. “Abstenção exigente” de Carneiro deixa Governo “sem desculpas”
Agora Carneiro volta ao método da adjetivação e explica que o que o PS fará é uma “abstenção exigente, a expressão de uma oposição firme, mas construtiva e responsável.” Argumentou a favor da abstenção sobretudo com a necessidade de garantir a “estabilidade política” e também “a conclusão da execução do PRR” — “para não dar desculpa ao Governo”. E já deu a entender, na declaração que fez aos jornalistas, que a abstenção que foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Política do partido, já de madrugada, valerá para a primeira votação no Parlamento, na generalidade, e pode ir até à votação final global.
Questionado pelos jornalistas sobre se será assim, o líder socialista disse que “a abstenção é para o conjunto do Orçamento“. Ainda assim, também disse que “vai depender da forma como o Governo olhar para o partido na sede de especialidade”. Mas, na verdade, a votação final só será diferente da primeira se entretanto “forem desvirtuados” os “valores e orientações” que são as condições colocadas pelo PS, detalhou.
E que condições foram essas que permitiram a viabilização? O Governo manteve fora do Orçamento as questões laborais, como o PS pediu. “O Orçamento corresponde às exigências que o PS colocou para podermos contribuir para a estabilidade política que o país deseja”, declarou Carneiro lembrando as tais “exigências”: que “não fosse instrumento para recuo na legislação laboral e de novas medidas de natureza fiscal, bem como garantir a salvaguarda do SNS e da segurança social públicos.”
Carneiro disse que a proposta do Governo “cumpre condições básicas” e que “cumpridas essas exigências, o PS deverá honrar a palavra dada aos portugueses não se constituindo um factor de instabilidade política.” Ainda assim, fez questão de repetir por mais do que uma vez, aos jornalistas, que “este não é o Orçamento do PS” e que o “Governo da AD é o único responsável”. E estabeleceu uma lista de prioridades para as negociações na especialidade: apoio ao rendimento das famílias, minimizar o aumento dos custos de vida, evitar pensões mais baixas reduzidas no próximo ano, apoiar custos de produtos alimentares e habitação, apoiar antigos combatentes e “uma taxa liberatória reduzida no IRS para prestações de serviço complementar dos bombeiros”.
Dúvidas sobre caminhos futuros no OE. E interiorização da narrativa de Carneiro nas autárquicas
Do partido, sobre Orçamento, tinha acabado de ouvir preocupações sobre o futuro, nomeadamente que a linha da abstenção “não pode ser uma doutrina eterna“, como diz diz fonte socialista ao Observador sobre o que alguns dirigentes disseram na reunião do órgão de direção alargada. Ou seja, esta abstenção é importante para o PS dar tempo ao tempo, mas não pode durar para sempre. E pelo caminho, o partido terá de ocupar espaço na oposição e definir uma linha de ação para o futuro.
Carneiro defendeu uma posição contida, em que o PS tem de escolher bem o momento para atacar. Quanto ao trabalho dos próximos tempos, foi colocada responsabilidade no grupo parlamentar.
Na reunião da tarde, no Parlamento, o líder da bancada Eurico Brilhante Dias já tinha orientado o grupo a marcar a agenda política a partir do Parlamento. A ideia usada pelo presidente da bancada parlamentar socialista foi a de deixar o líder ficar com os “violinos”, enquanto a bancada terá de seguir com “os bombos”. É uma tentativa de divisão estratégica de papéis em que o líder conduz na primeira linha, mas a bancada tem de sustentar com ritmo e intensidade de trabalho.
Na reunião da noite, da Comissão Política Nacional, o líder socialista ouviu ainda análises aos resultados eleitorais, com o PS que marcou presença a mostrar-se confortável com a leitura que Carneiro fez no domingo sobre os resultados eleitorais. Uma discordância de relevo surgia, no entanto, à hora a que a reunião se desenrolava no Largo do Rato, com o influente Duarte Cordeiro a contrariar o otimismo do líder.
A aceitação da narrativa do líder foi vista por alguns dos presentes na reunião com quem o Observador falou como uma questão de sobrevivência, depois de uma legislativas traumáticas. A expectativa era de derrocada e a manutenção em jogo — num tabuleiro que continua dividido com o PSD (e não também com o Chega) — é vista como satisfatória.
Carneiro voltou a repetir como “facto muito positivo” das autárquicas o PS “ter alcançado 1.800 mil votos, o equivalente ao número de votos de 2021”. Quando foi questionado pelos jornalistas sobre as declarações de Duarte Cordeiro, Carneiro disse que “há 3o maneiras de olhar para os resultados e de umas eleições autárquicas” e garantiu que entre quem esteve na reunião do grupo parlamentar e quem esteve na reunião Comissão Política “foi unânime o reconhecimento dos grandes resultados, ou melhor, dos resultados positivos do PS no contexto nacional e no cenário adverso” de que vinha.
Entre os socialistas existem, no entanto, algumas dúvidas sobre o embandeirar em arco com um resultado em que o partido deixa de estar ao comando nos cinco municípios mais populosos, deixa de ter a ANMP (objetivo que tinha sido definido pelo próprio Carneiro) e perde influência nas duas grandes áreas metropolitanas. Mas Duarte Cordeiro acabou por ser o único socialista que, nesta noite, verbalizou essa discordância face a Carneiro — embora longe da sala da reunião (não integra este órgão).
PS com “balão de oxigénio”, mas Carneiro pressionado com “reflexão” e críticos
Na reunião da noite houve ainda um ajuste de contas. O autarca reeleito em Loures com maioria absoluta, Ricardo Leão, dirigiu-se diretamente a Porfírio Silva e a Elza Pais para criticar ambos os socialistas pelas críticas que fizeram à sua gestão na câmara de Loures — Leão esteve no centro de várias polémicas e críticas de vários socialistas ao longos do último ano. De acordo com várias fontes presentes na reunião, Leão terá mesmo dito o seu número de telemóvel para, em situações futuras, quem discordasse dele pudesse dizê-lo diretamente.
Na mesma linha de acerto de contas passadas, Leão atirou à candidata que concorreu pelo PS a Lisboa, Alexandra Leitão (que não faz parte deste órgão e não estava na reunião) para pedir “ilações”, segundo apurou o Observador, sobre a incapacidade de conquistar Lisboa nesta altura. Leitão tinha sido uma voz crítica da ação de Leão em Loures no passado, chegando mesmo a sair da federação da Área Urbana de Lisboa por causa disso, quando o autarca de Loures ainda a liderava — até se demitir na sequência de algumas dessas declarações polémicas.