A morte de Umo Cani no Amadora-Sintra trouxe de volta o tema do acesso à informação clínica dos utentes do SNS em tempo real. Além deste hospital da periferia de Lisboa, outras quatro unidades continuam sem concluir o processo: as ULS Amadora-Sintra, de Santa Maria, de Loures-Odivelas e também o IPO do Porto são as quatro entidades do SNS que não têm ainda a informação clínica dos utentes integrada, o que impede os médicos de terem acesso ao historial dos doentes de forma automática. Doze anos depois do início do processo, a migração dos sistemas nestas unidades de saúde ainda decorre.
Ao Observador, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde referem que “o processo de migração dos sistemas de cuidados hospitalares de suporte ao serviço administrativo e clínico para a Suite Hospitalar (inclui a versão 2 do SONHO e o SClínico) está em curso, atualmente, nas Unidades Locais de Saúde (ULS) Amadora/Sintra, Loures-Odivelas e Santa Maria”. O organismo diz esperar que “estes trabalhos fiquem concluídos em 2026”. Ou seja, das 39 ULS e três IPO do país, a migração dos sistemas só não está concluída em quatro.
Contudo, as três ULS em que a mudança ainda não foi feita são das maiores do país. Em causa estão mais de 1,1 milhões de utentes: 570 mil cobertos pela ULS Amadora/Sintra, 310 mil pela ULS de Santa Maria e 240 mil pela ULS de Loures/Odivelas.
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O tema da migração da informação clínica para uma única plataforma (um processo iniciado no SNS em 2013, confirmou fonte oficial dos SPMS) voltou à ribalta devido à falha de informação da ULS Amadora-Sintra sobre a grávida que acabou por morrer depois de lhe ter sido detetada uma hipertensão ligeira durante uma consulta de obstetrícia no hospital Fernando Fonseca. Na sexta-feira, a ministra da Saúde assegurou, na Assembleia da República, que Umo Cani “não teve acompanhamento até à data em que entrou pela primeira vez no Hospital Amadora-Sintra já com 38 semanas” de gestação — informação que fora transmitida a Ana Paula Martins pela ULS Amadora-Sintra e que o próprio Conselho de Admininistração da ULS viria a corrigir no domingo.
Afinal, às 20 semanas de gravidez, Umo Cani foi atendida pela primeira vez na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) de Agualva no dia 14 de julho. A 6 de agosto, fez a ecografia do segundo trimestre; a 14 desse mês, foi de novo atendida no centro de saúde e referenciada ao Hospital Fernando Fonseca. A primeira consulta no hospital Amadora-Sintra dá-se a 17 de setembro e a segunda a 29 de outubro.
O presidente do Conselho de Administração do hospital, Carlos Sá, assumiu a responsabilidade pela falha na informação sobre o acompanhamento da grávida no SNS e demitiu-se esta segunda-feira. A ministra aceitou-a, por reconhecer que a informação que havia veiculado “não era a informação total” e que a situação era uma “falha grave”. Segundo o hospital, a falha na informação transmitida teve origem na “inexistência de um sistema de informação clínica plenamente integrado, que permita a partilha automática de dados e registos médicos entre os diferentes serviços e unidades”.
Em causa está a falta do SClinico, que, se estivesse já operacional, teria permitido que, no caso de Umo Cani, um médico do Hospital Fernando Fonseca pudesse consultar a informação existente sobre a grávida na base de dados correspondente ao centro de saúde de Agualva-Cacém, onde foi atendida antes do hospital. Nesta consulta, poderia ter acesso aos resultados integrais de todos os exames e análises ali feitas.
Sem esse sistema, os médicos têm de recorrer ao Registo de Saúde Eletrónico — Área do Profissional, que, explicam os SPMS, “é constituído por dados clínicos recolhidos eletronicamente para cada cidadão, produzidos por entidades que prestam cuidados de saúde – sejam cuidados primários ou hospitalares”.
Com as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência, os SPMS estão a desenvolver uma “nova versão da Visão Clínica Integrada (VCI), que deverá substituir o Processo Clínico Eletrónico e a Área do Profissional”, sendo que ainda não há datas definidas para a mudança. Quando estiver instituído, o novo sistema vai permitir aos profissionais de saúde “obter, de forma rápida e mais intuitiva, uma visão abrangente e completa das condições de saúde do utente”, acedendo “a um resumo integrador da informação e, no mesmo ecrã, pode consultar os sinais vitais, alertas, histórico de cirurgias, consultas, internamentos, diagnósticos, alergias, entre outras informações sobre o utente, provenientes de todo o SNS”.