“Muitas vezes há gente, nas empresas, que não está alinhada, que não puxa carroça” e “temos uma lei que protege, por vezes, aquele que não quer fazer nada”. Em plena negociação da reforma laboral, João Pedro Oliveira e Costa, presidente do BPI, defende a proteção dos “mais desfavorecidos” mas pede mudanças que deem mais flexibilidade ao mercado de trabalho – ou “plasticidade”, nas palavras de outro banqueiro, Miguel Maya, do BCP.
Quatro responsáveis do setor financeiro participaram, nesta terça-feira, numa conferência organizada pelo Jornal de Negócios onde se debateu o futuro da banca. E, embora não tenham querido comentar as propostas concretas em cima da mesa na área da legislação laboral, os vários banqueiros sublinharam que seriam bem-vindas algumas alterações.
Salientando que é preciso “garantir que as pessoas têm uma certa previsibilidade nos seus rendimentos”, João Pedro Oliveira e Costa defendeu que também “é muito importante que as empresas possam renovar os seus quadros, seja contratando pessoas mais jovens ou mais competentes”.
“Muitas vezes nas empresas há gente que não está alinhada, que não quer, não puxa carroça, e temos uma lei que protege, por vezes, o que não quer fazer nada”, atirou o presidente da comissão executiva do BPI, acrescentando que “todos nós temos de ser mais produtivos”.
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O que se deve fazer, em concreto? Oliveira e Costa diz que “há vários modelos que é possível implementar”, como, por exemplo, “em países muito desenvolvidos, como na Suíça, posso conseguir suspender um posto de trabalho pago e é a própria empresa que paga o subsídio de desemprego, não é o Estado”.
Questionado acerca do mesmo tema, Miguel Maya corroborou que “não podemos estar simultaneamente a dizer que o mundo está mais imprevisível, mais instável, e depois não ter mecanismos que nos permitam ter essa flexibilidade nas empresas”.
O banqueiro salientou que aquilo que se deve alterar “depende do nível de ambição”. “Se quisermos que o país continue a crescer no patamar de 1% a 2% é uma coisa, mas se acreditarmos que podemos transformar Portugal, temos de ler as mudanças do mundo e antecipar-nos e fazer melhor do que os outros”.
Miguel Maya defendeu que “o contrato social que hoje temos põe um ónus muito grande sobre as empresas”. “E a minha preocupação, enquanto gestor, é que as empresas precisam de maior flexibilidade mas temos, por outro lado, de criar redes de suporte mais robustas. Não podemos fazer uma ou outra coisa, temos de fazer as duas coisas”, acautelou.
“Temos de ser capazes de garantir que as empresas têm maior flexibilidade e podem recrutar mais em tempos de crescimento e, noutras alturas, ter a plasticidade de poder ajustar”, argumentou, salvaguardando que para “as pessoas que perdem o emprego tem de se garantir que têm condições de vida dignas”.
Sobre o mesmo tema, Francisco Cary, vice-presidente da comissão executiva da Caixa Geral de Depósitos, afirmou que, tendo tido nos últimos anos na CGD a área do crédito a empresas, “o feedback que se recebe das empresas é que é preciso um maior equilíbrio na legislação laboral e uma flexibilização que lhes permita serem mais competitivas”.
“A maior parte das empresas compete num mercado mais global e essa flexibilidade irá trazer mais crescimento para as empresas – e esse maior crescimento acaba por se traduzir em mais crescimento para o país e, no final, todos podemos ganhar com isso”, afirmou Francisco Cary.
Estamos numa situação de quase pleno emprego e não há empresa onde se vá que os dirigentes não digam que uma das maiores dificuldades está nos recursos humanos. É mais fácil fazer reformas quando as coisas estão bem do que à força quando as coisas estão mal”, acrescentou o gestor do banco público.
Já o líder da comissão executiva do Santander Portugal, Pedro Castro e Almeida, salientou que “não colocaria esta questão no topo das prioridades” do país. Essas incluiriam “a habitação, um novo aeroporto seria excelente, além disso as áreas da saúde e educação, tendo em conta que temos uma população que cresceu em um milhão de pessoas no espaço de 10 anos”.
Porém, embora não coloque as mudanças na legislação laboral no topo das prioridades, Pedro Castro e Almeida disse que “vivemos num mundo em que é preciso uma legislação laboral que tem de mudar, tem de evoluir, tem de ser mais flexível”.
“Temos jovens que saem de Portugal para países onde a legislação laboral se adaptou aos contextos de trabalho modernos. O que temos de fazer é dizer exatamente o que queremos mudar, como é que nos comparamos com os países para onde os nossos jovens estão a ir, e depois fazer essa discussão”, atirou Pedro Castro e Almeida.
Porém, “se quisermos ficar como estávamos nos anos 70, é também uma opção”. “E se não queremos sequer discutir o assunto de uma forma correta, dizendo logo que ‘vamos fazer greve’, penso que também não ajuda”, atirou.
Miranda Sarmento antecipa “‘boost’ de crescimento” na economia portuguesa
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No encerramento da conferência, o ministro das Finanças antecipou que se o Governo for capaz de remover os “estrangulamentos” que existem na economia portuguesa será possível ter um “boost de produtividade e crescimento económicos nos próximos anos”.
Apesar de a economia estar a mostrar ter grande “resiliência”, Miranda Sarmento reconheceu que ainda “há um caminho longo de transformação estrutural da economia portuguesa, que continua a ter níveis de produtividade e competitividade relativamente baixos”.
“Nesse sentido, a primeira tarefa é aumentar a capacidade do capital humano, atrair cada vez mais pessoas para trabalhar em todos os setores, qualificar cada vez mais aqueles que trabalham, não há setor da nossa economia que não necessite de mão-de-obra: agricultura, indústria, serviços, tecnologia, etc”, afirmou.
O ministro salientou, também, que “temos de reduzir fortemente a burocracia, temos investimentos em pipeline muito significativos” e há investimentos “que demoram muito tempo a serem aprovados e, por vezes, não são aprovados por questões burocráticas e não questões relacionadas com o mérito intrínseco dos projetos”.
“Não tenho dúvidas de que se conseguirmos eliminar estes dois estrangulamentos teremos um boost [um grande impulso] de produtividade e de crescimento económico nos próximos anos”, rematou.