João Cotrim de Figueiredo lançou um mistério sobre um eventual de Passos Coelho à sua candidatura. Em declarações aos jornalistas esta tarde, na sequência de uma visita à Liga dos Combatentes, manteve este diálogo enigmático:

— Acredita que era a si que Passos Coelho apoiava, se tornasse um apoio público? 

— É evidente.

— Teme que ele ainda venha a falar ou espera que ele ainda venha a declarar alguma apoio nestas eleições? 

— Não tenho expectativa de que o faça.

— Mas tiveram alguma conversa informal nesse sentido? 

— As conversas que são informais vou mantê-las privadas.

— Mas foi recentemente? 

— São privadas, não vou sequer dizer quando foram.

— Houve um almoço secreto?

— Não.

Mais à frente, para clarificar esta questão, assegurou que Passos Coelho não lhe disse que o iria apoiar. Mas frisou que gostaria muito de ter o apoio do ex-primeiro-ministro do PSD. Não referiu qualquer encontro em concreto com Passos Coelho, mas o facto de não o ter negado taxativamente e de referir que ia manter as conversas privadas abre espaço a esta ideia de que possam ter falado sobre esta candidatura.

O ex-presidente da Iniciativa Liberal voltou a elogiar o governo de Passos Coelho, reafirmando a sua admiração pelo antigo chefe de governo, mesmo que isso lhe custe votos entre eleitores pensionistas — que tem agora tentado captar.

Cotrim Figueiredo foi nomeado presidente do Turismo de Portugal em 2013 quando Passos Coelho era primeiro-ministro. O ex-líder do PSD já afirmou em Outubro que não se sente amarrado à obrigação de apoiar ninguém nesta campanha.

Elogio aos governos de Cavaco. Mas “o melhor presidente foi Eanes”

O ex-presidente da Iniciativa Liberal respondeu ainda ao artigo de Cavaco Silva no Observador, onde era um dos três candidatos visados por se apropriar do legado de Sá Carneiro. Cotrim acabou por elogiar o espírito reformista dos governos de Cavaco Silva, o que mostra mais uma vez o cuidado para não hostilizar eleitorado da AD.

“Não vou falar do que é ou não é tolerável para o professor Cavaco Silva. Lembro-me também dos seus consulados, quer como Primeiro-Ministro, quer como Presidente da República e, sobretudo, como Primeiro-Ministro, a forte carga reformista que tiveram os seus governos e a forma como Portugal se desenvolveu nessa altura”, afirmou o eurodeputado. “Prefiro guardar a memória desse tempo e tenho a certeza que a memória desse tempo, repito, está mais representada na minha candidatura do que noutras”, acrescentou.

Reforçou ainda a ideia dizendo que “as pessoas que trabalharam e fizeram política com Sá Carneiro discordam” do que escreveu Cavaco Silva — e vincou o direito de escolher as pessoas que o inspiram: “Há coisas na maneira de estar na política, na verticalidade, na frontalidade, na forma arrojada, na falta de medo que Sá Carneiro tinha. Revejo-me nisso.”

Ao contrário de Marques Mendes, que apontou Cavaco Silva como o melhor presidente do regime democrático, Cotrim de Figueiredo considera que o melhor chefe de Estado desde o 25 de Abril foi Ramalho Eanes, no primeiro mandato, entre 1976 e 1981.

Henrique de Freitas, ex-PSD e ex-Chega: “Não acredito que Ventura vá à 2ª volta”

As declarações de Cotrim Figueiredo foram feitas depois de um encontro com a direção da Liga dos Combatentes, em Lisboa, numa tentativa de captar eleitorado sénior e simpatizantes do CDS e do Chega. Ao lado do candidato surgiu um apoiante-surpresa: Henrique de Freitas, ex-secretário de Estado da Defesa no Governo de Durão Barroso (2002-2004), ex-deputado do PSD e do Chega.

Henrique de Freitas desfiliou-se do Chega em Novembro, ao fim de menos de dois anos de militância, com críticas públicas à forma como o partido estava a tratar a função presidencial. “Com ‘conversas da treta’ estamos a transformar em ‘bandalheira’ a mais nobre eleição em Portugal. É muito triste este afrontar das instituições”, escreveu Henrique de Freitas numa carta enviada ao presidente da Mesa Nacional do Chega, João Lopes Aleixo, então citada pela agência Lusa.

“Não, não aderi ao Chega para ver espezinhada a dignidade da função presidencial”, escreveu o antigo deputado do PSD e do Chega, depois de André Ventura ter anunciado a sua candidatura à Presidência da República, com críticas ao que chamou “cartazes primários que apontam culpados a dedo”.

Em declarações ao Observador, Henrique de Freitas diz: “Não acredito que André Ventura vá à segunda volta.” E garante que muitos simpatizantes do Chega lhe dizem que vão votar Cotrim: “Eles acham que o André Ventura não quer ser Presidente da República. Acham será um bom Primeiro Ministro, não um bom Presidente da República.”

Henrique de Freitas não voltou a falar com André Ventura desde que saiu do Chega. E assegura que não admite filiar-se na Iniciativa Liberal: “Nunca”.

A campanha de João Cotrim Figueiredo segue esta quarta-feira para norte, começando em Pedrógão Grande, um ponto acrescentado à agenda, e que implicou o cancelamento da visita ao mercado de Cascais.