Anahita (nome fictício) perdeu pelo menos um olho, talvez os dois. Na casa dos 20 anos, é uma das 64 pessoas feridas por balas de chumbo disparadas pelas forças do regime iraniano, todas atendidas num hospital de uma das principais cidades do país numa única noite de protestos recentes. As imagens de exames médicos (radiografias, TAC’s e angiografias) que realizaram foram analisadas e verificadas por uma investigação conjunta entre a plataforma de verificação de factos Fact Nameh e o The Guardian.
Os registos, avança a investigação, revelam um padrão consistente de disparos feitos a curta e média distância, atingindo sobretudo o rosto, o peito e os genitais, numa única noite de repressão levada a cabo pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) contra manifestantes e transeuntes. Trata-se de uma prática já observada durante os protestos de 2022 sob o lema “Mulheres, vida, liberdade”, segundo o jornal britânico.
Hoje, Anahita tem “constelações” nos olhos, no queixo, na testa, nas maçãs do rosto, no cérebro. As radiografias dos feridos analisadas mostram pontos brancos cintilantes, pequenas esferas de metal (de 2 a 5 mm de tamanho) que foram disparadas do cano de espingardas e reveladas pelos raio-X. Estes projéteis, que são conhecidos por “chumbo grosso”, a uma curta distância podem fraturar ossos, perfurar tecidos moles do rosto e atingir o globo ocular.
Embora cada projétil de chumbo, isoladamente, seja menos destrutivo do que uma bala convencional, o impacto pode ainda assim ter consequências devastadoras. Médicos que estiveram no terreno relatam ferimentos de extrema gravidade e dizem ter realizado dezenas de cirurgias para remover olhos irreversivelmente danificados, incluindo em adolescentes e crianças.
“As pessoas pensam que chumbo de caça é menos letal do que munição real. Não é”, explica Rohini Haar, médica do serviço de urgências, professora adjunta da Universidade da Califórnia, Berkeley, e consultora médica da organização Médicos pelos Direitos Humanos. “Quando atiradas à queima-roupa, todas aquelas esferas de metal penetram – são como 100 balas minúsculas”, afirma, acrescentando que podem causar “desfigurações graves”.
Há muito que médicos e manifestantes denunciam uma estratégia deliberada das autoridades de “atirar a matar”. Em vez de métodos convencionais de controlo de multidões, os guardas terão passado a recorrer a espingardas e armas de assalto de grande calibre, capazes de provocar ferimentos devastadores e potencialmente mortais, mesmo quando há intervenção cirúrgica imediata.
A médica Rohini Haar alerta ainda para o facto de as imagens clínicas disponíveis representarem apenas uma pequena parte do total de feridos daquela noite. Os exames analisados pelas duas publicações dizem respeito apenas aos feridos que chegaram ao hospital em condições de serem tratados. Muitos dos atingidos mais gravemente, sobretudo na cabeça, não terão sobrevivido tempo suficiente para realizar quaisquer exames.
Os ferimentos observados nos manifestantes que foram tratadas naquele serviço de urgência, naquela noite de protestos, eram típicos de cenários de guerra, com disparos no tórax feitos com armamento militar e com recurso a munições que não são as balas pequenas que se costumam ver em operações policiais nos EUA, afirmaHaar: “São armas de um nível completamente diferente”. “Se está a disparar com esse tipo de arma em pessoas, está a tentar matá-las.”
[O acampamento mais importante do ano. O concurso de Miss com biquinis minúsculos. E o obscuro ritual tântrico em grupo. Ouça o quarto episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro]