Os amigos não acreditam e até fazem apostas de almoços e jantares em sentido contrário, mas Marcelo Rebelo de Sousa jura a pés juntos que vai mesmo cumprir a promessa de ficar em silêncio assim que deixar Belém, daqui a pouco mais de uma semana. E sem escrever memórias. Na despedida das instituições europeias, num périplo por Bruxelas, o Presidente da República cessante prometeu saber “sair do palco”, cedendo o lugar às próximas gerações.
Num discurso na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, em Bruxelas, onde chegou acompanhado por António Costa e falou para cerca de 700 funcionários portugueses nas instituições europeias, Marcelo falou sobre a necessidade de deixar a política para os próximos: “Eu termino agora a história que tinha a escrever. Agora, o resto da história é escrito por vós”.
Reconhecendo que é “uma coincidência” terminar o mandato e ao mesmo tempo a atuação cívico política, o atual Presidente lembrou que também se faz civismo e política de outra maneira, em atuações educativas, sociais, culturais…”. “Bom, mas política pura terminada”, garantiu, destacando que a sua geração via na Europa “um sonho enorme”, que conseguiu cumprir.
Agora, resta às próximas gerações aproveitar o “futuro enorme” que têm pela frente, pedindo-lhes que não “desaproveitem a ocasião” e “assumam a responsabilidade” de continuar a construir a Europa.
“A minha geração assumiu e venceu. Assumimos e vencemos. Não vencemos tudo o que queríamos (…), mas vencemos coisas essenciais. Agora está nas vossas mãos vencerem guerras ainda mais difíceis, que é pegarem nestes ideais e nunca os deixarem morrer”, afirmou, frisando que as vitórias nunca são adquiridas indefinidamente. “Cabe-vos, cada dia, pensar se estamos a ganhar ou a perder a guerra. Não há empates. Em matéria de realização de ideais, não há empates. Empatar é estar a perder”, avisou.
Neste discurso, de cerca de meia hora, feito em tom bem-humorado, Marcelo Rebelo de Sousa gracejou ainda que está “perto do fim do percurso da vida” enquanto António Costa anda “com um ar de quem vai gozar a vida duradouramente”. “É difícil assim não ser otimista irritante. Comparativamente, é uma vantagem enorme”, disse, provocando risos.
Aos jornalistas, lá fora, Marcelo continuaria a explorar a sua ideia do que deve fazer enquanto ex-Presidente da República, a partir de dia 9 de março. Desde logo, não comentar nada sobre política: “Uma vez cessadas funções a minha ideia é fazer silêncio em termos de intervenção política”. Mesmo voltando a ser militante do PSD — porque a sua militância esteve suspensa durante o seu tempo em Belém — não vai ter uma vida ativa nesse sentido: vê “com alguma dificuldade que se queira acabar a vida política e depois se vá a reuniões partidárias, e que se pode ser de um partido sem “exprimir politicamente o que quer que seja”.
“O Presidente cessante deve saber cessar. Sair do palco, e não permanecer no palco”. Marcelo revelou até que tem amigos que até queriam “fazer apostas de jantares e de almoços” e que garantiam que o seu silêncio será “sol de pouca dura”, mas acha que “vai durar” porque corresponde ao que acha que deve ser um ex-Presidente e porque está na cena pública desde 1965 — “61 anos”, lembrou. “Nos jornais, na rádio, na televisão, como protagonista político, e deve ceder-se o lugar a outros”.
E quis acrescentar ainda que não escreve memórias porque seriam “autojustificativas”, porque quem escreve quer “sair bem no retrato”, e não quer autoavaliar-se. Aos jornalistas, recordou viagens em que teve longas conversas com a Rainha de Inglaterra ou a última conversa de Fidel Castro com um político, além de conhecer dois Papas. E confirmou que ainda irá presidir à última reunião do Conselho de Ministros antes de cessar funções, como já é tradicional, a 5 de março, além de ter na agenda uma despedida das Forças Armadas e uma de posse de chefias militares.
Depois será altura de aproveitar um pouco do tempo livre disponível: dia 10 de março, adiantou, irá a um concerto em Lisboa, e dias depois uma peça de teatro fora de Lisboa. Para o concerto, que é gratuito, descobriu entretanto que terá de “ir para a fila” para tentar “conseguir bilhetes”. Também disse ter muitos convites para eventos com temas jurídicos, religiosos, entre outros. De política é que não — a não ser que os amigos de Marcelo acabem por ganhar as apostas.
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