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BEN STANSALL/AFP/Getty Images

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"Diliding, dilidong". É o som do Leicester campeão

Aconteceu algo que talvez nunca mais se repita. O Leicester, que na época passada quase era despromovido, ganhou a Premier League. "É por isto que há tanta paixão no futebol", diz quem já lá jogou.

Diliding dilidong.

Dili ding, dili dong

Imagine o som de um sino a tocar. Pode ser qualquer um, pode estar no topo de uma igreja, na receção de um hotel, até um pequeno badalo ao pescoço de uma vaca. Um som destes é sinal de alerta, como um aviso para se ter atenção a algo que aí vem ou que acabou de acontecer. A 21 de novembro ouviu-se um sino. Era um alarme. O campeonato do futebol espetáculo, dos estádios barulhentos e dos árbitros que apitam pouco tinha um líder inesperado. “Olhem ali o Leicester City, em primeiro lugar da Premier League.” Ouviu-se alto e bom som, embora não fosse tanto um alerta. Era mais um sinal de espanto.

Aquilo não era nada normal. De repente, ao fim de 13 jogos, as restantes 19 equipas do campeonato apenas conseguem avistar o Leicester se olharem para cima. À mesma jornada da época anterior, todos tinham de apontar para baixo — em 2014/15, o clube passa 140 dias na última posição da Premier League, a tremer por todos os lados. Não é normal. Enquanto os clubes fitam o Leicester lá no alto, os adeptos espreitam as estatísticas e veem como a equipa conhecida por the foxes (as raposas, em bom português) é a que menos passes acerta e a terceira que menos tempo tem a companhia da bola. Mais do que não ser normal, é estranho. E o sino toca.

Diliding, dilidong.

As sobrancelhas erguem-se com a surpresa. Qualquer temporada as tem: a equipa que se supera e vai até onde não auguram que ela chegue; o jogador que embala e em vez de bom logra ser muito bom. O Leicester parece sensacional. Torna-se líder com a quinta vitória em seis jogos, após sofrer como a equipa pequena que ainda é, contra o Arsenal, que o vence por 2-5 em casa. Depois engata, que é a palavra que no futebol se costuma usar quando tudo sai e corre bem a uma equipa. Mas há um homem que não se entusiasma e diz apenas “quarenta pontos”. Claudio Ranieri é um senhor e os senhores não têm o hábito de perder a postura.

▲ Claudio Ranieri, o italiano com ar de infeliz que está sempre bem-disposto. Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Laurence Griffiths/Getty Images

Não que o italiano se importe que outros a percam. “Os nossos adeptos podem sonhar. Não faz mal. O futebol tem a ver com sonhos, com dar uma surpresa e inspirar felicidade. Sei que quando o Leicester ganhar os nossos adeptos vão trabalhar com um sorriso na cara”, diz, com os pés enraizados, quando as perguntas o começam a tentar arrancar da terra. O treinador, acautelado pelos 64 anos que leva contados, sabe que ele e o clube estão ali devido ao trabalho. “Temos que jogar como se estivéssemos desesperados. Não em todos os jogos, mas em todos os segundos. Quero esta filosofia. No dia em que os meus jogadores relaxarem, fico maluco. Eles sabem isso”, explica ao The Guardian. Sabem-no, porque é Ranieri quem toca o sino.

Diliding, dilidong.

Dili ding, dili dong

O treinador confirma-o, bem-disposto e sorridente como sempre, depois de Danny Drinkwater revelar a forma como o italiano se faz notar quando os jogadores não lhe fazem caso. Seja no balneário, durante os treinos, ou à mesa para um almoço de equipa, Claudio Ranieri recorre sempre ao mesmo. “Desde o início, quando via que algo estava errado, dizia: ‘Hey, diliding, dilidong! Acordem!’ No Natal até oferecia um pequeno sino aos jogadores e ao staff, uma brincadeira. É a minha filosofia, quero que todos façam o seu trabalho, mas com um sorriso. Não quero ver pessoas tristes à minha volta”, conta aos jornalistas. Quando o faz, ele, os jogadores e o Leicester continuam à frente da Premier League e estamos no início de abril. Tudo o que se passa pelo meio é mais do que um alerta.

É a confirmação de que a equipa é um caso sério. Chegado à liderança, a 21 de novembro, o Leicester sabe que, nos oito jogos seguintes, cinco dos adversários são pesos-pesados do campeonato, equipas que jogam para ganhar títulos no campeonato onde o Leicester apenas se quer manter. Mas, entre Manchester United, Chelsea, Manchester City, Tottenham e Liverpool, apenas o clube da terra dos Beatles vence as raposas. Acontece à 18.ª jornada, que adia o feito que acontece dois jogos depois: Ranieri consegue os 40 pontos. Mas o Leicester está mais que salvo no segundo lugar da Premier League.

▲ O craque do ano em Inglaterra. Chama-se Riyad Mahrez, é canhoto e vai com 17 golos e 11 assistências. Foto: Adrian Dennis/AFP/Getty Images

ADRIAN DENNIS/AFP/Getty Images

As cabeças de quem joga não podem esvaziar-se de objetivos e quem treina sabe disto. Claudio Ranieri, portanto, reajusta a mira e não o faz por menos. Quer fechar a época com 79 pontos. “Fizemos 39 pontos na primeira volta, por isso na segunda vamos tentar 40. Sei que é difícil, mas esta liga é louca. Estamos a salvo, por isso tentamos”, resume, quando janeiro está a arrancar. Aqui já não se ouvem sinos, nada badala, o Leicester já tem todas as atenções centradas em si. Está em segundo, posição em que fica apenas mais duas jornadas, até 16 de janeiro. A culpa é das tantas coisas boas que quem recebe ordens do italiano faz em campo.

O Leicester era, e ainda é, a equipa que mais bolas interceta (21.5), em média, por jogo. É a segunda que mais vezes desarma (22.9) os adversários. Junta-se estas duas estatísticas ao facto de serem a equipa que menos bola tem e menor número de passes faz e fica-se com o estilo que dá frutos ao Leicester. É uma questão de prioridades e a de Claudio Ranieri não é fazer passes para o lado ou ter a bola só por ter. É passá-la pouco, mas rápido e sempre para a frente, para chegar a Rihad Mahrez, o argelino que foi considerado o jogador do ano na Premier League, e a Jamie Vardy, o inglês que por um triz não foi um operário de fábrica e vai com 22 golos marcados no campeonato.

Diliding, dilidong.

O sino toca de novo, porque se o Leicester é um conto de fadas, Vardy é a empregada feia que se tornou em Cinderella. Antes do verão de 2014, o avançado não tem história, devido ao pouco que se escreve quando alguém anda durante anos e anos pelas divisões de baixo de Inglaterra. Os cinco golos que marca na época passada tornam ainda mais inesperado o que consegue em dezembro último: marca em 11 jogos consecutivos (13 golos) e quebra o recorde de Ruud Van Nistelrooy. Passa a ter história e surge o rumor de Hollywood estar a pensar usá-la para um filme. Depois aparecem a seleção inglesa, os dois golos em seis partidas e a mais que provável viagem até ao Euro 2016 (até mudou a data do casamento). “Wow. O que se está a passar na vida?”, chega a dizer, para reagir a tudo o que lhe acontece.

▲ Vinte e três golos no campeonato e outros dois marcados em seis partidas pela seleção inglesa. Época de sonho para Jamie Vardy. Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Laurence Griffiths/Getty Images

A haver um jogador que personifica a forma como o Leicester vê o futebol, chama-se Vardy. Faz tudo rápido, não descansa em campo, é um perseguidor nato de bolas, é o primeiro homem a defender, é a chatice em pessoa para os defesas adversários. “Não é um futebolista, é um cavalo fantástico. Disse-lhe: ‘És livre para correres por onde queiras, mas tens que nos ajudar quando perdemos a bola. É tudo o que te peço. Se começares a pressionar o adversário, todos os teus companheiros te vão seguir”, escreveu Claudio Ranieri, em abril, com a equipa em primeiro e a seis jornadas do final. Não podia ser mais verdade.

Porque de janeiro a abril, a equipa segue-o e até ultrapassa o avançado de 29 anos quando é preciso. Há seis partidas em que Vardy não marca e o Leicester coleciona pontos na mesma. São cinco vitórias e um empate, com uma mão cheia de resultados de 1-0 pelo meio. A equipa é ainda mais cínica a atacar e zelosa a cuidar da sua baliza, como um campeão. Dizem que treme, que a pressão começa a bater à porta da cabeça dos jogadores, que agora é a altura em que os nervos afetam as pernas. Nada se nota. O Leicester joga, corre, luta e trabalha muito, como Ranieri quer e gosta: “Não me interessa o nome do adversário. Só quero que vocês lutem. Se forem melhores que nós, ok, parabéns. Mas têm que nos mostrar que são melhores”. Muito poucos o fazem.

▲ Miguel Vítor fez 17 jogos e marcou três golos durante 2010/11, época em que esteve no Leicester, emprestado pelo Benfica. Foto: Michael Regan/Getty Images

Michael Regan/Getty Images

Apenas o Liverpool e o Arsenal (duas vezes) conseguem derrotar o Leicester. A equipa ganha a quase todos e, nas bancadas, sobretudo em casa, veem-se muitos adeptos a chorar. Miúdos, adultos ou idosos, tanto faz, a emoção toca a todos. A cidade vibra e, em casa, Miguel Vítor vibra com ela. O português está em Salónica, lá longe na Grécia, a jogar no PAOK, mas durante 2010/11 esteve em Leicester, na primeira época em que um investidor tailandês pegou no clube para o fazer ir do Championship, a segunda liga inglesa, à Premier League. Não ficou com o contacto de ninguém do clube, mas tenta estar sempre atento ao que se passa. “Quando os jogos não coincidem com os meus, acompanho. Fiquei com um carinho especial pelo Leicester”, garante, pelo telefone.

O português ainda o nutre, talvez pela forma como as pessoas o trataram — “Lá as pessoas respeitam muito o espaço do jogador, sobretudo quando está com a família. São muito respeitadores no dia-a-dia, abordam o menos possível” –, ou pela maneira como os adeptos, à inglesa, não abandonavam quem estava em campo, a jogar. “Mesmo na altura em que as coisas correram menos bem, estavam sempre pelo menos 20 mil pessoas no estádio. Estavam sempre com a equipa. No final dos jogos, até quando perdíamos, era comum estarem pessoas à nossa espera, a pedirem autógrafos e fotografias”, conta, trocando a saudade pelo riso quando é altura de falar do que hoje se está a passar: “Na, na, na, nem pensar! Nem nos melhores sonhos deles podiam imaginar isto!”.

Diliding, dilidong.

A conversa, depois, faz tocar um sino na cabeça de Miguel Vítor, que em Leicester ainda teve a companhia de Paulo Sousa, que o treinou, e de Moreno e de Ricardo, com quem partilhou o relvado. “Noutro dia até estava a falar com a minha mulher e pensámos voltar a Leicester. Não sei se será este ano ou no próximo, para relembrar velhos tempos, mas sem dúvida que agora seria uma boa altura! Não sei é se vou ter tempo”, lamenta, embora garanta que esse regresso vai acontecer. Miguel Vítor sabe que é este tipo de façanha que “dá outro brilhantismo ao futebol” e “lhe retira um bocado a previsibilidade”. É por isso, continua, que “existe tanta paixão à volta” do que 22 homens fazem a uma bola no relvado.

Laurence Griffiths/Getty Images

Os do Leicester alimentam sonhos. Mostram o quão possível é ter sucesso, ganhar e ser o melhor em campo, quando os outros são melhores em tudo o que há fora dele. No dinheiro, na reputação dos jogadores, nos títulos conquistados, nas probabilidades das casas de apostas. Mas a equipa de Claudio Ranieri trabalha e foi trabalhando, muito, focou-se no antídoto que cura qualquer veneno que faça acontecer o que é previsível. Ninguém esperava que, só nesta temporada, o Leicester passasse mais dias na liderança da Premier League do os que o Tottenham, segundo classificado, já contou em 134 anos de história. Quem diria que o pequeno clube iria estar, para o ano, entre os gigantes da Liga dos Campeões. Vai lá chegar honrando o nome da competição, como campeão e não por ser o primeiro dos últimos. Claudio Ranieri exultou e, claro, tocou o sino para chamar a atenção para o feito.

Diliding, dilidong.

Dili ding, dili dong - Champions League

O italiano que dá um passou-bem a todos os jornalistas quando entra numa sala de imprensa, o treinador que vai às festas de aniversário dos jogadores, o homem simpático que deu um pequeno sino aos futebolistas e técnicos do Leicester no Natal, “como brincadeira”, quis chamar a atenção. A 22 de abril, dias após o empate (2-2) com o West Ham, que garantiu a qualificação direta para a prova dos milhões onde estão jogadores que, sozinhos, valem tanto ou mais que o plantel do Leicester. “É um grande feito. E agora vamos diretos para o título, vamos tentar ganhá-lo. Só falta isso”, admite, pela primeira vez. Cumpriu.

Muitos meses antes, entre desconfiança, sobrolhos erguidos e críticas, apenas prometia uma coisa. “Só tenho uma maneira de lhes devolver a confiança: espremer todas as energias que tenho para dar bons resultados à equipa”, dizia o italiano, no verão passado, quando foi apresentado no clube. “Ranieri? A sério?”, escreveu na altura Gary Lineker, nascido em Leicester, adepto do Leicester e ex-jogador do Leicester (oito épocas), quiçá pensando no passado de eterno segundo classificado do treinador.

Entretanto, há semanas, o antigo avançado, que nunca viu um árbitro mostrar-lhe um cartão, admitiu que merecia uma expulsão pelo que disse. “Quão errado estava, quão maravilhosamente, espetacularmente e felizmente errado”, confessou. Estávamos todos, Gary. Agora ouve o sino.

Diliding, dilidong. É o som do Leicester campeão.

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