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Entre as qualidades em que o Homo sapiens suplanta os restantes animais não está certamente o sentido de orientação. Os nossos instintos não nos permitem regressar, em adultos, precisamente ao lugar onde nascemos com base apenas em pistas olfactivas – como fazem os salmões – nem encontrar o caminho de volta para casa, seja onde for que sejamos largados, usando como referência o campo magnético da Terra – como fazem os pombos-correios. Até entre os insectos, que arrumamos sem cerimónia nos “animais inferiores”, há espécies com poderosos dotes de orientação, como é o caso da borboleta-monarca (Danaus plexippus), cujas populações no Sul do Canadá voam para sul, para passarem o Inverno nas montanhas do centro do México, a cerca de 3000 km de distância, e regressam na Primavera ao local de origem.

Na falta de um sentido inato de orientação, o Homo sapiens concebeu referenciais de orientação e desenvolveu mapas e instrumentos capazes de suprir essa lacuna. E não se deu mal, como comprova o facto de, já há vários milhares de anos, ter logrado colonizar boa parte do planeta, incluindo lugares tão remotos como a Ilha de Páscoa (Rapa Nui), que fica a mais de 2500 km da ilha habitada mais próxima (Pitcairn) e a 3500 km da costa da América do Sul.

Em Four points of compass: The unexpected history of direction, surgido em 2024 e agora editado em Portugal pelas Edições 70, com tradução de Miguel Martins, com o título Os quatro pontos cardeais: A inusitada história da orientação, Jerry Brotton, historiador britânico com relevantes e recomendáveis obras publicadas no domínio da cartografia (como é o caso de História do mundo em 12 mapas – ver De Ptolemeu ao Google Earth: Como os mapas reflectem e moldam a percepção do mundo), tomou a história da orientação no espaço como tema.

Porém, o foco de Brotton não está nas tecnologias e nos métodos de orientação, mas nos conceitos e preconceitos associados aos pontos cardeais, que, naturalmente, têm variado consoante os tempos e as culturas: “Os quatro pontos não são apenas direcções – têm sido fundamentais para as visões cosmológicas, a moral, a vida religiosa e a economia política de sociedades em todo o mundo” (pg. 32). “É essa dimensão imaginária […] que faz com que a história [deste livro] seja composta tanto por ficção e poesia como por ciência, geografia e história” (pg. 34).

Com efeito, a ficção, a poesia, a ideologia, a religião e a etimologia têm papel relevante em Os quatro pontos cardeais e estão habilmente entretecidas com a história das civilizações, das explorações e dos contactos entre povos.

A capa de “Os Quatro Pontos Cardeais”, de Jerry Brotton, pelas Edições 70

Para onde devemos virar-nos quando rezamos?

A adoração do Sol como fonte de calor, luz e vida está disseminada por todo o mundo e conduziu, inevitavelmente, a que muitas civilizações da Antiguidade, dos egípcios aos incas, dos aztecas aos chineses da dinastia Shang (c.1200-1045 a.C.), dos japoneses aos romanos, dessem papel proeminente ao Este, a direcção onde o astro-rei nasce. Compreensivelmente, “as religiões monoteístas como o judaísmo e o cristianismo tentaram distanciar-se daquilo que encaravam como a veneração idólatra do Sol e dos deuses greco-romanos com eles relacionados, como Apolo e Héracles/Hércules, a favor de uma só divindade” (pg. 66-67). Apesar de o cristianismo ter rejeitado e combatido activamente o culto solar, não impediu de privilegiar o Este entre os pontos cardeais: o Jardim do Éden foi situado a Oriente e o Evangelho segundo S. Mateus anunciava que, no Segundo Advento, o Messias também viria de Oriente. Consequentemente, “os grupos cristãos que rezavam em casa viravam-se para este […] [e] à medida que a religião se desenvolveu, foram construídas igrejas com esta mesma prescrição de estarem viradas para oriente” (pg. 69-70).

“Mapa de localização do Paraíso Terrestre e das regiões habitadas pelos Patriarcas, concebido para proporcionar uma melhor compreensão da História Sacra” (c. 1700), mapa gravado por Pierre Mortier em livro de Pierre-Daniel Huet; o mapa situa o Paraíso no Iraque, na planície dos rios Tigre e Eufrates, não muito longe do Golfo Pérsico

Escreve Brotton que “a Reforma inglesa do século XVI levou a […] Igreja de Inglaterra a virar, literalmente, as costas à prática católica do ad orientem” (pg. 70), mas os crentes mais tradicionais resistiram em adoptar esta nova prática. Os conflitos quanto à orientação do culto na Igreja de Inglaterra recrudesceram em meados do século XIX e obrigaram à intervenção do parlamento. Escreve Brotton que o culto ad orientem “acabou por ser proibido pela Lei da Regulamentação do Culto Público de 1874” (pg. 70), o que transmite a ideia de que o ad orientem ficara, assim, definitivamente suprimido na Igreja de Inglaterra.

Ora não foi isso que se passou: a tentativa de fazer cumprir a lei de 1874 (que também visava suprimir práticas ritualistas na Igreja de Inglaterra) através da coacção, com processos judiciais contra os clérigos que se recusavam a cumpri-la, causou clamor público e embaraçou a Igreja de Inglaterra, sobretudo quando alguns clérigos desobedientes foram condenados a penas de prisão. Em 1906, a Lei da Regulamentação do Culto Público foi esvaziada, na prática, por uma Comissão Real que deliberou a favor do pluralismo no culto anglicano, ainda que a revogação formal da lei só tivesse lugar em 1963.

O judaísmo poupou-se a estas bizantinas querelas este/oeste, uma vez que substituiu a direcção do nascimento do Sol por Jerusalém: “A diáspora oraria virada para Israel, onde quer que estivesse. Quando estavam em Israel viravam-se para Jerusalém e, caso vivessem na Cidade Santa, oravam virados para o Templo” (pg. 68-69).

Na origem do islamismo, quando Maomé e os seus seguidores estavam em Medina, tomaram Jerusalém como referência espacial (qibla) para a oração, mas, em 623 (o segundo ano da Hégira), esta norma foi alterada e passou a ser “exigido que as mesquitas estivessem viradas para a Caaba, um edifício de pedra no centro do local mais sagrado do Islão, a Masjid al-Haram [a Grande Mesquita de Meca]” (pg. 70) e que as orações tivessem também esta orientação. Segundo Brotton, este “foi um momento crucial para a criação de uma identidade muçulmana distinta do judaísmo e do cristianismo” (pg. 77).

Yasser Bakhsh

A Grande Mesquita de Meca, com a Kaaba no centro

É impossível não reparar no paradoxo que é as três “Religiões do Livro”, que postulam que Deus é único, omnipotente e omnipresente, serem tão exigentes e miudinhas quanto à orientação espacial do culto e dos templos, como se Deus fosse um ancião duro de ouvido, incapaz de ouvir as preces se os crentes e os templos não estiverem perfeitamente alinhados com as suas orelhas.

Tabela com indicação da qibla consoante a latitude e a longitude em que o crente se encontre. A tabela, datada do século XIV, foi compilada por Shams al-Cin al-Khalili, astrónomo da Mesquita Omíada de Damasco e fornece direcções para 2880 coordenadas diferentes

O Oriente: de direcção a identidade

O historiador grego Heródoto (c.484-c.425 a.C.) terá sido o primeiro a estabelecer explicitamente uma “oposição binária entre o Oeste civilizado e o Este bárbaro” (pg. 87). Esta oposição foi sendo lentamente consolidada durante o período de expansão ultramarina europeia, a partir do final do século XV e, no final do século XVIII, à medida que a superioridade tecnológica europeia (nomeadamente no domínio da artilharia, dos navios e dos métodos de orientação) se impôs, “começou a surgir uma nova perspectiva geopolítica [que] estabeleceu a Europa como ponto de referência do ‘Oeste’ e do ‘Norte’ e também de um conjunto de associações civilizadas, inventivas e prósperas. Estas opunham-se aos valores atribuídos ao Este (e, por extensão, ao Sul) e aos seus habitantes: bárbaros, exóticos e empobrecidos” (pg. 84).

Esta perspectiva foi ganhando força ao longo do século XIX e tornou-se num eixo da mundividência ocidental, um processo que, segundo Brotton, teve um momento particularmente significativo em 1835, com a publicação de “Minute on Indian education”, da autoria do historiador e político britânico Thomas Macaulay. Macaulay, que então era alto funcionário do Governo britânico da Índia, propunha que a educação dos súbditos indianos passasse a fazer-se em moldes europeus e em inglês, rejeitando o tradicional ensino em árabe e sânscrito. Embora admitisse não compreender nenhuma destas línguas e ter tido conhecimento das obras nela redigidas através de traduções, Macaulay argumentava que, entre os eruditos ocidentais versados nas línguas e culturas do Oriente, “nunca encontrara um só deles que conseguisse negar que uma só estante de uma boa biblioteca europeia valia toda a literatura nativa da Índia e da Arábia” (pg. 86).

Thomas Macaulay (1800-1859), retratado por John Partridge

Brotton apresenta uma síntese da evolução da visão sobranceira do Ocidente em relação ao Oriente – que passa, nomeadamente, por Friedrich Hegel e Rudyard Kipling – e da reacção dos eruditos provenientes do mundo oriental a essa visão – nomeadamente com o livro Orientalismo (1978) de Edward Said. Esta parte de Os quatro pontos cardeais tem pontos de contacto com temas tratados em O mundo criou o Ocidente (2024), da historiadora britânica Josephine Quinn (ver Civilização ocidental: Uma história de miscigenação e Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?), e que foram abordados também nos artigos Civilização ocidental: O fardo do homem branco, Civilização ocidental: A Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria e Civilização ocidental: Um conceito volátil.

Cerdos meridionais e cisnes nórdicos

Numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine, em Março de 2017, Jeroen Dijsselbloem, então ministro das Finanças da Holanda e presidente do Eurogrupo, afirmou: “O pacto na Zona Euro baseia-se na confiança. Na crise do euro, os países do euro do Norte demonstraram solidariedade com os países [do Sul] em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade extremamente importante. Mas também temos obrigações. Não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda. Este princípio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu”.

“Quadro satírico da Europa ou As nações como elas são” (1817), gravura pelo francês Louis-François Charon. O português (canto inferior direito), parece ter como ocupação fazer serenatas às beldades femininas, o que não anda longe da visão de Dijsselbloem; o holandês (em cima, a meio) é descrito como “parcimonioso e avarento” e apreciador de cerveja

Estas palavras suscitaram indignação e comentários azedos em Portugal e nos outros países da Europa meridional que se sentiram visados, mas esta agitação era escusada, uma vez que a entrevista de Dijsselbloem foi apenas uma manifestação tardia e extemporânea de um preconceito que fora expresso amiúde por políticos, opinadores e órgãos de comunicação social “nortenhos” durante a Crise Europeia das Dívidas Soberanas, que teve lugar entre 2019 e 2014 e afectou os países “sulistas”, como Portugal, Itália, Grécia e Espanha, que combinavam um tecido económico pouco robusto com um rácio elevado entre dívida pública e PIB. Os europeus meridionais, que julgavam terem sido reconhecidos como pares pelos europeus setentrionais da União Europeia, descobriram, chocados, que os segundos tinham deles uma imagem análoga àquela que eles mesmos tinham dos povos do Levante e do Norte de África (ou até de toda a África e da América Latina) e que até tinham cunhado um acrónimo depreciativo para os designar conjuntamente: PIGS.

Estas percepções estereotipadas dos outros povos costumam ter bases pouco sólidas e facilmente são contraditadas pela marcha do tempo: em 2025, a revista britânica The Economist distinguiu a economia portuguesa como “Economia do Ano”, entre as 36 economias mais ricas do mundo, e atribuiu o 4.º lugar a Espanha, que tinha sido a “Economia do Ano” de 2024. Poucos dias depois, Kyriakos Pierrakakis, o ministro das Finanças da Grécia, país que estivera à beira de ser expulso da Zona Euro durante a Crise das Dívidas Soberanas, foi eleito pelos seus pares para presidir ao Eurogrupo. No ranking 2025 de The Economist, a Grécia surge em 6.º lugar; nos 10 últimos lugares (de 36) encontramos o Reino Unido (27.º), a Suécia (28.º), a Noruega (29.º), a Lituânia (32.º) e a Finlândia (35.º). Vale a pena recordar que, durante a Crise das Dívidas Soberanas, parte substancial da opinião pública finlandesa e, em particular, o partido Verdadeiros Finlandeses manifestaram enfaticamente a sua oposição ao resgate financeiro dos países meridionais pela União Europeia.

Pode concluir-se daqui que, em apenas década e meia, os PIGS se metamorfosearam em cisnes e que os nórdicos industriosos perderam a sua alva plumagem e estão condenados a fossar na pocilga? Talvez seja mais sensato assumir que a imagem dos europeus meridionais como irresponsáveis sempre prontos a dissipar os seus proventos “em mulheres e álcool” é tão volúvel, enviesada e subjectiva como os rankings de economias elaborados pelos “sábios” de The Economist e que a visão “essencialista” dos povos é um empecilho à compreensão do mundo.

“Reunião de mendigos”, quadro de meados do século XVIII por Francesco Sasso, um genovês que fez carreira em Espanha

O Sul como terra de calaceiros

A visão estereotipada do Norte sobre o Sul não nasceu com a Crise das Dívidas Soberanas nem se circunscreve a ela: é antiga, está profundamente enraizada na Europa e também tem amplo curso ao interior dos próprios países do Sul. Brotton cita o filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (natural da Sardenha, o que talvez não seja despiciendo), que, já em 1926 denunciava, no ensaio “A questão meridional”, os “estereótipos do Sul [como] um mito ideológico e político concebido para mascarar conflitos económicos mais profundos existentes em Itália: ‘o Sul é a bola e a corrente que impede que o desenvolvimento social de Itália progrida mais rapidamente: os sulistas são, por um destino natural, seres biologicamente inferiores, semibárbaros ou bárbaros completos; se o Sul é atrasado, a culpa não reside no capitalismo ou em qualquer outra causa histórica, mas sim na natureza, que fez os sulistas preguiçosos, incapazes, criminosos e bárbaros’” (pg.100).

O Mezzogiorno como alfobre de vadios e subsidiodependentes: um jovem pedinte napolitano retratado em 1642 por José de Ribera, um valenciano que fez carreira em Itália

Gramsci não o poderia adivinhar – e Brotton não o menciona – mas o estereótipo que separa os italianos entre os diligentes do Norte e os madraços do Sul é tão vincado que, em 1989, esteve na origem da Lega Nord per l’Independenza della Padania, partido político que propugnava a secessão das regiões mais industrializadas e prósperas de Itália – Veneto, Lombardia, Piemonte, Liguria, Emilia-Romagna e Toscana – e a constituição da república independente da Padania, nome derivado do Rio Po, cuja bacia hidrográfica é partilhada pelas quatro primeiras regiões acima mencionadas. Na sua origem, sob a liderança de Umberto Bossi, que foi secretário do partido até 2012, a Lega Nord advogava a libertação do Norte industrioso da tirania da “Roma Ladrona”, i.e., o centralismo romano que espoliava a riqueza produzida pelo Norte para sustentar os parasitas do Sul. Como seria de esperar, o partido, embora relativamente popular no Norte e Centro-Norte de Itália, não conseguiu atrair eleitores do Mezzogiorno, pelo que o seu melhor resultado nas eleições legislativas ficou-se pelos 10.8% (em 1996). Sob a liderança de Matteo Salvini, iniciada em 2013, o partido descartou (ou ocultou ou suavizou) as pretensões independentistas, passando a reivindicar apenas a autonomia para a Padania; deixou cair o “Nord” no seu nome; e focou o discurso nos temas usuais da extrema-direita europeia: exaltação do nacionalismo, hostilidade à União Europeia, prioridade ao combate à imigração e ao crime (e, sobretudo, ao crime cometido por imigrantes). Nesta nova encarnação, a Lega conseguiu aliciar eleitores também entre os madraços do Sul e obteve os seus melhores resultados de sempre: 17.4% nas eleições legislativas de 2018 (em que foi o 2.º partido mais votado) e 34.3% nas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 (em que foi o partido mais votado).

Rendimento per capita em Itália, em 2015, em euros

Em Espanha, os movimentos independentistas da Catalunha (e do País Basco) costumam invocar argumentos de índole histórica e cultural, mas também assentam na ideia de que o espírito empreendedor do Norte é coarctado pelo centralismo da capital e que os frutos do labor do Norte são desviados para alimentar as regiões pouco produtivas do país, que estariam maioritariamente no Sul. Em Portugal, entidade muito mais antiga e homogénea do que Espanha e Itália, não existem partidos nem movimentos secessionistas dignos de relevância, mas é frequente que os “nortenhos” (alguns deles em cargos públicos e empresariais de responsabilidade), reivindiquem serem os sustentáculos da produção nacional e possuírem uma ética de trabalho superior à dos portugueses mais meridionais. Quem sabe se parte destes conceitos estereotipados em Itália, Espanha e Portugal não são influenciados pelo facto de os “nortenhos” passarem, frequentemente, as suas férias no Sul e projectarem, quiçá inconscientemente, o ócio de que aí gozam no Estio na sua percepção da natureza intrínseca dos “sulistas”.

O Sul: onde a civilização estiola

Ao preconceito da Europa do Norte em relação à Europa do Sul sobrepõe-se um preconceito da Europa em geral em relação a todos os territórios situados a Sul dela, uma visão que, segundo Brotton, começou a desenvolver-se na Idade Média, quando o Sul começou a ser visto “como estando povoado por povos incivilizados, nómadas, beligerantes (e, contudo, simultaneamente, indolentes) e por criaturas fantásticas” (pg. 110). É disto exemplo o Mapa de Ebstdorf (c.1234-40), atribuído a Gervásio de Ebstdorf (identificado por alguns medievalistas com o jurista e escritor inglês Gervásio de Tilbury), em que a parte meridional de África surge infestada por selvagens seminus e animais ferozes e venenosos.

“Mapa de Ebstdorf”: como era frequente na Idade Média, o Este está no topo e o Sul está para a esquerda

No século XIX, o Sul – e, em particular, a América do Sul – começou a contestar a perspectiva sobranceira do Norte e o seu domínio político e económico e a tentar forjar “uma nova identidade meridional, opondo-se ao Norte colonialista” (pg. 120). Esta pulsão “sulista” acicatou alguns pensadores “nortenhos” a redobrar a sua campanha de difamação do Sul. Brotton ilustra esta reacção com um elucidativo trecho do escritor norte-americano Charles Fort (1874-1932): “Foi nas partes setentrionais desta Terra que cresceram as civilizações que persistiram, estendendo-se depois, colonialmente, para sul. A História, tal como a América do Sul e África, afunila-se para Sul. Não existem quaisquer ruínas de templos, pirâmides ou obeliscos na Austrália, na Argentina ou na África do Sul […] A vida murcha em direcção ao Sul” (pg. 120). Fort não parece dar-se conta de uma falha óbvia na sua teoria: os habitantes pré-colombianos dos EUA e do Canadá encontravam-se num estádio civilizacional similar ao dos seus congéneres da Amazónia ou da Patagónia e nitidamente inferior ao das civilizações azteca e maia (no México e Guatemala) e inca (Peru, Equador e Bolívia).

De qualquer modo, a argumentação de Fort nada tem de invulgar num tempo em que o preconceito da superioridade das raças europeias era dominante entre intelectuais e governantes europeus e norte-americanos e era usado para justificar, explícita ou tacitamente, os empreendimentos coloniais. Entre os mais notórios e inflamados advogados – que Brotton não menciona – da superioridade da raça europeia sobre as raças meridionais estiveram o francês Arthur de Gobineau (1816-1882), o britânico Herbert Spencer (1820-1903), o anglo-germânico Houston Stewart Chamberlain (1855-1927) e o americano (e membro do Ku Klux Klan) Lothrop Stoddard (1883-1950). Na verdade, estes pensadores levavam a discriminação contra o Sul ainda mais longe, pois estabeleciam distinções dentro da Europa: para eles, a “raça nórdica” (escandinavos, germânicos, etc.) era mais dotada do que as raças meridionais. Estas ideias exerceram influência decisiva no desenvolvimento do “racismo científico” dos nazis, elaborado por ideólogos como Alfred Rosenberg (1896-1946) e Hans F.K. Günther (1891-1968), que trataram, como os seus precursores, de ignorar as realizações pioneiras das civilizações da Europa mediterrânica, do Levante, da Mesopotâmia e do Egipto, ou de inventar justificações rebuscadas e inverosímeis para esses milénios de florescimento meridional.

Seria preciso esperar pelo final do século XX para que surgissem dois sólidos contributos para uma “teoria geral das civilizações” assente nos factos, na ciência e em argumentos racionais: Guns, germs and steel: The fates of human societies (1997), por Jared Diamond, que explica o diferente desenvolvimento das sociedades humanas espalhadas pelo planeta entre o Neolítico e o ano 1000 d.C., e The wealth and poverty of nations: Why some are rich and some are poor (1998), de David S. Landes, que explica a crescente divergência entre a Europa e o resto do mundo que teve lugar entre o final da Idade Média e o século XX.

Segundo Diamond, o facto de os europeus terem sido capazes de explorar e conquistar as Américas, África, boa parte da Ásia e a Oceânia não resultou de serem inerentemente mais inteligentes e determinados, de perfilharem uma moral superior ou de terem sido inspirados pela fé cristã, mas de uma conjugação de circunstâncias fortuitas, boa parte delas de natureza geográfica e biogeográfica, determinadas muitos milhares de anos antes do despontar das primeiras civilizações. Se na Austrália, na Argentina e na África dos Sul não foram erguidos templos, pirâmides ou obeliscos não foi por os aborígenes australianos, os patagões e os zulus serem “raças inferiores”.

“Gigantes da Patagónia” (i.e. membros do povo Tehuelche, do Sul da Argentina) exibidos como atracção exótica na Exposição Universal de St. Louis de 1904

Quando o Norte e o Ocidente se confundem

A progressiva emancipação das colónias ultramarinas europeias, após o termo da II Guerra Mundial, alterou drasticamente a perspectiva Norte-Sul – e também o equilíbrio de forças na Assembleia Geral das Nações Unidas – e na década de 1970 tornou-se evidente que o futuro da humanidade dependia do estabelecimento do “Diálogo Norte-Sul”. O documento que cristalizou essa percepção do mundo foi o relatório Norte-Sul: Um programa de sobrevivência, produzido em 1980 pela Comissão Independente para Assuntos de Desenvolvimento Internacional, dirigida pelo ex-chanceler alemão Wily Brandt – o que faz com que o documento seja também conhecido como Relatório Brandt.

O relatório incluía um mapa-mundo dividido por uma linha sinuosa – que ficou conhecida como Linha Brandt – separando os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos. Estes dois grupos, que também eram designados como Primeiro Mundo e Terceiro Mundo, foram, no século XXI, rebaptizados como Norte Global e Sul Global, expressões que tinham sido cunhadas originalmente em 1969, por Carl Ogelsby, um activista político de esquerda americano, num artigo publicado no jornal Commonweal, em que alertava para o facto de o continuado domínio do Norte sobre o Sul conduzir a uma “ordem social insustentável”, de que a Guerra do Vietnam, então ao rubro, seria uma manifestação.

A Linha Brandt

Brotton observa que a Linha Brandt “criava uma divisão que tanto utilizava a geografia como ignorava as distinções latitudinais entre o Norte e o Sul; o Sul era caracterizado mais como uma ideia do que como um local” (pg. 125). Se excluirmos do Norte Global tal como definido pelo Relatório Brandt a Rússia e os países nascidos das repúblicas asiáticas da antiga URSS (que se desagregaria 11 anos depois do Relatório Brandt), aquele acaba por não divergir, em termos territoriais, do conceito alargado de Ocidente, que costuma englobar, além da Austrália e da Nova Zelândia, o Japão e a Coreia do Sul.

A Linha Brandt tem vários aspectos contestáveis. Uma das limitações é ser a fotografia do estado das coisas em 1980. Neste ano, poderia justificar-se arrumar a Coreia do Sul no Sul Global, uma vez que o PIB per capita do país era então de 1745 dólares/ano, o que a colocava um pouco abaixo da Jordânia e da Costa do Marfim. Hoje, porém, a Coreia do Sul é um dos mais avançados países do mundo, dando cartas nas áreas da electrónica de consumo (smartphones, electrodomésticos), dos microchips, dos automóveis, do fabrico de aço, da construção naval e do material bélico e o seu PIB per capita de 2024 foi de 35.000 dólares, o que a coloca no 37.º lugar do ranking mundial e, sem sombra de dúvida, no Norte Global. Já o seu vizinho do Norte registou, em 2024, um PIB per capita de c.1200 dólares (inferior ao da Coreia do Sul em 1980) e posiciona-se sistematicamente no fundo dos índices internacionais de e-governação, de liberdade económica, de segurança alimentar e de desenvolvimento humano, pelo que faz sentido mantê-lo no Sul Global. Que a Coreia do Norte faça parte do Sul Global e a Coreia do Sul faça parte do Norte Global comprova que estes dois conceitos servem mais para gerar confusão do que para entender o mundo.

Alfred Zirkel

Seul em 1954

www.flickr.com/traveloriented

Seul em 2014

Outro aspecto ambíguo é a distinção entre países ricos e países desenvolvidos. Em 1980, as petromonarquias do Golfo Pérsico já eram “ricas”, mas como a sua única actividade económica relevante era a extracção de petróleo e gás natural, seria compreensível não as classificar como “desenvolvidas”. Desde então, estes países têm usado as fabulosas receitas geradas pelos combustíveis fósseis para projectar uma imagem de poderio económico, sofisticação, cosmopolitismo e modernidade, bem patente em cidades como Riyadh, Dubai, Abu Dhabi, Doha ou Kuwait, e para, através dos seus fundos soberanos, organizar eventos de grande aparato no seu território e para adquirir participações em entidades prestigiadas um pouco por todo o mundo. Todavia, a natureza teocrática e totalitária dos seus regimes, a organização algo arcaica e arreigadamente misógina das suas sociedades e o pouco respeito pelos direitos humanos (que, no Ocidente, costumam adjectivar-se de “universais”, mas que muitos países olham com desconfiança e consideram incompatíveis com a sua cultura e o seu modo de vida) justificam a relutância em contabilizá-las no Norte Global – na verdade, no imaginário ocidental estes países continuam a estar vinculados à imagem de “Oriente”.

Oriente ou Ocidente? Vista sobre Doha, capital do Qatar, a partir do resort de 5 estrelas Marsa Malasz Kempenski, na ilha artificial The Pearl

Independentemente de algumas mudanças de campo ao longo do tempo e de algumas zonas cinzentas, é impossível não reconhecer que o “Norte Global” acaba por coincidir, quase exactamente, com o “Ocidente”, o que comprova (se tal fosse necessário) que ambas as expressões, tal como o “Sul Global”, têm uma relação ténue com os pontos cardeais e que são, sobretudo, designações de natureza geopolítica e cultural (ver capítulo “Onde ficam as fronteiras da civilização ocidental?” em Civilização ocidental: Um conceito volátil). Como escreve Brotton, “O Sul Global é mais uma relação do que uma localização. […] É mais um estado de espírito do que uma direcção” (pg. 130).

O Sul Global como alternativa ao Norte Global

Atendendo aos desenvolvimentos mais recentes na política internacional, pode dizer-se que o estado de espírito que une o Sul Global é:

1) O ressentimento contra os últimos dois ou três séculos de domínio do planeta pelo Ocidente/Norte Global e a persistente sub-representação do Sul Global nas grandes instituições e fóruns globais (apesar de o Sul conter 3/4 da população mundial);

2) A aspiração a estilhaçar esse domínio e a cortar definitivamente as amarras com as antigas nações colonizadoras, que, a seu ver, têm continuado a manipular e explorar as antigas colónias, agora não pela força mas pela insídia e por acordos comerciais assimétricos.

Os BRICS, fundados em 2009 pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, têm vindo a dilatar o seu poderio económico e a sua influência nos destinos do mundo e revelam cada vez maior capacidade e disposição para fazer frente ao Norte Global/ Ocidente, o que tornou a adesão aos BRICS apetecível para outros países do Sul Global. Em 2024, a organização reforçou-se com o Egipto, a Etiópia, o Irão e os Emirados Árabes Unidos, fazendo com que a população somada dos BRICS atingisse 3300 milhões de pessoas – contra 800 milhões do G7 – e o seu PIB (em paridade de poder de compra) atingisse 51.6 biliões de dólares – contra 48 biliões do G7. Entretanto, em 2025, a Indonésia (285 milhões de habitantes e o 8.º maior PIB do mundo, ajustado em função da paridade do poder de compra) também foi admitida como membro.

Evolução dos PIBs do G7 e dos BRICS como percentagem do PIB global

As adesões de 2024-25 sugerem que, perante o comportamento errático, arbitrário e agressivo do actual presidente dos EUA, os sinais de debilidade económica e vacilação política vindos da União Europeia e a crise demográfica que ameaça a prosperidade e a coesão social da maioria das nações do Norte Global, os BRICS tenderão a congregar, senão todo o Sul Global, pelo menos as suas nações mais populosas e/ou economicamente mais pujantes.

Hoje há brechas inquietantes no Norte Global: os EUA deixaram de ser, aos olhos dos seus usais aliados, um parceiro fiável em termos de segurança; o Reino Unido escolheu desacoplar-se, política e economicamente, da Europa continental; alguns países da União Europeia (como a Hungria) adoptaram um comportamento disruptivo e perspectiva-se que surjam mais dissidências se a extrema-direita populista e anti-europeísta chegar ao poder noutros países. Mas, por outro lado, é inquestionável que os BRICS não passam de uma coligação oportunista, que é incapaz de disfarçar antigas rivalidades (é o caso do par Índia/China) e tensões religiosas (o que pensarão os membros islâmicos das políticas anti-islâmicas da China em Xinjiang?), que tem vários membros atolados em crises estruturais de difícil resolução (é o caso do Egipto, do Irão e da Etiópia) e que, em muitos casos, ainda tem uma parte substancial dos seus cidadãos a viver na pobreza. Assim sendo, não é seguro que os BRICS venham a ser capazes de concretizar com actuação efectiva e consequente a sua ambição de se constituírem como alternativa política, económica e social ao vilipendiado Ocidente/Norte Global.

A peste vinda do Oeste

No pós-II Guerra Mundial, ao mesmo tempo que os povos do Sul Global se libertavam do jugo colonial europeu e contestavam as perspectivas paternalistas, eurocêntricas e, nalguns casos, racistas, que até aí tinham estruturado a história, a antropologia e outras ciências sociais, foi ganhando forma entre “os políticos e escritores de África e da Ásia”, uma “estratégia” que Brotton descreve como “uma impressionante inversão da tradição ocidental do Orientalismo”, envolvendo a “estereotipagem dos modernos povos ocidentais e das suas sociedades como sendo ora materialistas ora decadentes, descrentes e violentos” (pg. 212).

Entre as figuras pioneiras do “Ocidentalismo”, Brotton destaca o iraniano Jalāl Āl-e Ahmad (1923-1969), que, em 1962, publicou o ensaio Gharbzadegī, título que é usualmente traduzido nas línguas ocidentais como Ocidentose, Ocidentalite, Ocidentoxicação, ou algo similar. Nele, Āl-e Ahmad descrevia o Ocidente como uma “peste”, “uma infecção que esvaziava os recursos e a identidade colectiva do Oriente” (pg. 213). O trecho de Ocidentalite que Brotton escolheu transcrever é elucidativo: “‘Oriente’ e ‘Ocidente’ já não são, para mim, conceitos geográficos ou políticos. Para um europeu ou um americano, Ocidente significa a Europa, a América, e Oriente, a URSS, a China e as nações da Europa de Leste. Mas, para mim, estes conceitos são económicos. O Ocidente compreende as nações saciadas e o Oriente as nações famintas”. A divisão, por Āl-e Ahmad, do mundo entre Ocidente saciado e Oriente faminto revelou-se particularmente infeliz, já que, se excluirmos os micro-estados insulares (um caso especial) do ranking mundial de obesidade, este é hoje dominado pelas petromonarquias do Golfo Pérsico, com o Qatar em 2.º lugar, o Kuwait em 3.º e a Arábia Saudita em 5.º.

Zona ribeirinha da cidade de Doha, no Qatar, em 1904. A “peste do Oeste” ainda não tinha chegado e a população dependia exclusivamente da pesca e da apanha de pérolas

Steven Byles

Zona ribeirinha da cidade de Doha (a ilha artificial conhecida como The Pearl) em 2011

O conceito na base do livro de Āl-e Ahmad, “gharbzadegī”, tinha sido cunhado na década de 1940 pelo filósofo iraniano Ahmad Fardid, mas foi Āl-e Ahmad quem o popularizou e desenvolveu. Embora Brotton não o faça, é oportuno contextualizar a irrupção deste acirrado discurso anti-ocidental no Irão de meados do século XX. O moderno Irão orgulha-se de ser herdeiro de uma das mais antigas e poderosas civilizações do mundo, que atingiu o auge do seu poder e extensão territorial no século VI a.C., com o Império Aqueménida, numa altura em que a Europa Ocidental não passava de uma manta de retalhos de tribos que viviam em aldeolas de cabanas construídas com lama e ramos. Porém, após, no século XIX, ter visto parte substancial do seu território abocanhado pelo Império Russo, e de, na década de 1920, a Grã-Bretanha ter tentado transformar o país num protectorado, em 1941 o Irão passou pela humilhação suprema de ser ocupado por forças soviéticas e britânicas, situação que se prolongou até 1946. Recuperada a independência, o Irão voltou a ser vítima da prepotência ocidental em 1953, quando um golpe de Estado organizado pela CIA derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh por este pretender colocar a indústria petrolífera do país sob controlo iraniano (ver capítulo “Irão, 1953” em A história dos EUA enquanto polícia do mundo).

“A europeização do mundo”: Mapa incluído em The Harmsworth Atlas & Gazetter (1908): sombreado, sob controlo europeu; amarelo, sob controlo de descendentes de europeus; azul, sob controlo dos povos indígenas

A ocidentalidade tóxica

Noutras parte do mundo, o ressentimento anti-ocidental tinha outras razões e outro discurso: em África, nas Caraíbas, na América Central e do Sul e nas comunidades étnicas minoritárias da Europa e dos EUA, a denúncia do Ocidente passava pelo racismo, pela escravatura, pelo extractivismo, pelo genocídio dos povos indígenas e pela supressão da cultura e das línguas indígenas e da imposição das culturas e línguas das potências coloniais (ver Escravatura: Culpa, ressentimento e histórias mal contadas e O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos).

Na viragem dos séculos XX/XXI, este movimento começou a ter o apoio entusiástico de parte significativa do meio académico ocidental, em particular dos departamentos de humanidades e dos centros de estudos sociais (ver O wokismo: A ideologia que nasceu na universidade para se espalhar pelo mundo e “Todos os brancos são racistas”: O wokismo na América): Pela mesma altura, muitos políticos e activistas do Sul Global começaram a exigir ao Norte Global pedidos formais de desculpas, devoluções de objectos artísticos e restos mortais albergados em museus e instituições científicas ocidentais e até vultosas reparações monetárias. Estas ideias foram fazendo o seu caminho e hoje, em muitos países ocidentais, a extrema-esquerda, alguma esquerda e, nalguns casos, até políticos e governantes de centro-direita, interiorizaram numerosos elementos da retórica anti-ocidental e apoiam algumas destas reivindicações e estão, genericamente, de acordo com a ideia de que o homem branco está obrigado expiar os muitos pecados cometidos pelos seus antepassados desde o dealbar da civilização.

“A guarda avançada da civilização”: Grã-Bretanha, EUA e Alemanha como carrascos do Tibete, das Filipinas e do Sudoeste Africano Alemão, respectivamente. Cartoon por Bob Satterfield, publicado a 18 de Abril de 1904

É tentador estabelecer uma analogia entre o conceito de “masculinidade tóxica”, emanado dos círculos feministas e que postula, na sua versão mais extremada, que os rapazes e os homens possuem uma propensão inata para o bullying, para o abuso sexual e para a violência sobre as raparigas e as mulheres, entendimento que tem conquistado lugar proeminente no espaço público, e o conceito de “ocidentalidade tóxica”, ou seja, a ideia de que, ao longo da história da humanidade, o homem branco (nascido na Europa ou nas suas ramificações coloniais) tem propensão inata para ser o bully, o violador e o agressor dos povos não-brancos. Nesta fantasiosa versão da história da humanidade, os povos do Sul Global viviam num estado edénico, em harmonia com a natureza, subsistindo, frugalmente, do que a terra lhes proporcionava; desconheciam a guerra e eram naturalmente amistosos, generosos, ingénuos e incapazes de hipocrisia. E, de súbito, caíram sobre eles os exploradores, os soldados, os torcionários, os capatazes, os feitores, os “escravocratas” e os inquisidores vindos do Ocidente.

Perder a tramontana

Coroando um esforço de milénios no aperfeiçoamento das tecnologias de orientação, temos hoje no bolso um smartphone capaz de situar-nos, com uma margem de erro de cinco metros, na superfície do globo. Conduzimos veículos cujo sistema de navegação não só sugere a rota mais curta para irmos do ponto A ao ponto B, como produz estimativas do tempo necessário para chegar ao destino e sugere alternativas em função do volume de tráfego e das condições meteorológicas ou das obras rodoviárias. Se os nossos cônjuges, amantes, familiares, amigos, funcionários ou colegas de trabalho consentirem, podemos saber, através do Google Maps ou do WhatsApp, qual a sua localização precisa a cada momento – para sermos rigorosos, apenas podemos saber a localização do seu telemóvel, mas quem, nos dias de hoje, não tem uma ligação umbilical com o seu telemóvel?

A dependência destes gadgets e a vida em ambiente urbano poderá estar a contribuir para atrofiar o nosso – já de si nada excepcional – sentido de orientação, levando a que muitos de nós tenham dificuldade em encontrar, no parque de estacionamento do centro comercial, o lugar onde deixámos o automóvel.

GettyImages-1149449364 Future via Getty Images

A dependência destes gadgets e a vida em ambiente urbano poderá estar a contribuir para atrofiar o nosso – já de si nada excepcional – sentido de orientação

No capítulo final de Os quatro pontos cardeais, Brotton aborda o tema do Google Maps, dos sistemas de posicionamento global e das apps cartográficas. E, embora exalte as vantagens destas tecnologias, também lembra que “alguns neurocientistas acreditam que, em resultado de entregarmos a aparelhos electrónicos a nossa aptidão para nos orientarmos no espaço à nossa volta, talvez estejamos também a reduzir […] aquela parte do cérebro que parece impulsionar a percepção espacial”, as “chamadas ‘células do lugar’, neurónios dentro e à volta do hipocampo” (pg. 221).

Estas descobertas na neurociência nada têm de inesperadas, pois, nesta vertente, o cérebro comporta-se como um músculo. Tal como um músculo se atrofia se deixarmos de o usar, também quando transferimos uma tarefa mental para um dispositivo tecnológico os neurónios que a executavam irão definhar, ou ser realocados a outras operações, como o acompanhamento do Preço Certo, da liga saudita de ludopédio, das oscilações na cotação da Dogecoin e da conta de Instagram de Margarida Corceiro.

Nas últimas décadas, a conjugação Internet + smartphones + apps + inteligência artificial tem vindo a aliciar-nos, a pretexto de “facilitar-nos a vida” e de ser “conveniente” (no sentido da palavra inglesa “convenient”), a uma crescente delegação de funções mentais. Por outro lado, o progresso tecnológico ganhou uma aura de bondade inata e de inevitabilidade que nos leva a aceitar automaticamente todas as inovações sem nos determos um momento a ponderar as suas vantagens e inconvenientes (ver Civilização ocidental: O capítulo mais audaz da história do mundo).

Sei exactamente onde estás

Veja-se o caso da partilha de localização (location sharing) através do smartphone, que Brotton não aborda no seu livro. Esta funcionalidade é indiscutivelmente útil em situações de emergência, em deslocações a lugares inóspitos e no exercício de certas profissões de risco, e certamente já contribuiu para salvar muitas vidas. Porém, quando usada por empresas e instituições para controlar o paradeiro dos seus funcionários, é mais um contributo para colocar o Capital numa posição de vantagem em relação ao Trabalho, já de si desequilibrada em favor do primeiro. Por outro lado, o uso da partilha de localização pelas pessoas comuns com os seu familiares e amigos, “by default”, 24 horas por dia, tem implicações sociológicas, antropológicas e filosóficas que, provavelmente, não afloram à mente de quem adere a tal prática.

Aplicada ao dia-a-dia da burguesia urbanita, a partilha de localização torna cada utilizador, simultaneamente, no prisioneiro e no carcereiro de um megapanóptico digital e sujeita a vida íntima a um escrutínio análogo ao do regime totalitário imaginado por George Orwell no romance distópico 1984, mas em que o Big Brother são as pessoas mais próximas. Poderá argumentar-se que ninguém é obrigado a consentir na partilha de localização, mas, uma vez que, por inércia, falta de sentido crítico e deslumbramento frívolo por gadgets, a prática já se vulgarizou, a recusa de consentimento logo desperta a suspeita de que se tem algo a esconder.

Desenho do arquitecto Willey Reveley, datado de 1791, para a prisão panóptica concebida por Jeremy Bentham

A disseminação da partilha de localização é mais um retumbante triunfo da batalha da Big Tech pela instauração de uma sociedade absolutamente transparente. Ora, como escreveu Byung-Chul Han em A sociedade da transparência, em 2012 – cinco anos antes de a Google Maps e a Snap Map (da Snapchat) terem disponibilizado esta funcionalidade pela primeira vez –, “numa sociedade que assenta na confiança, não se afirma qualquer exigência penetrante de transparência. A sociedade da transparência é uma sociedade da desconfiança e da suspeita, que, devido ao desaparecimento da confiança, assenta sobre o controlo. A força da exigência de transparência indica precisamente que o fundamento moral da sociedade se tornou frágil, que os valores morais como a honradez e a lealdade, perdem cada vez mais a sua significação”. No limite, argumenta Han, “esta vigilância total degrada a sociedade transparente até a transformar numa sociedade de controlo inumana. Cada um e todos controlam todos e cada um”.

Só um grupo de entidades consegue furtar-se ao dever de transparência universal, total e ininterrupta: as firmas da Big Tech, que lucram com a venda, para fins comerciais e políticos, da informação fornecida (voluntária ou involuntariamente) por todos os que interagem com as plataformas e gadgets geridos pela Big Tech. Numa excepcional combinação de maquiavelismo e hipocrisia, as empresas que promovem e exploram a transparência alheia, estão blindadas pela opacidade dos seus algoritmos, cujos pressupostos, critérios e reais propósitos só são conhecidos dos seus proprietários e operadores.

É verdade que hoje dispomos de um poder que todas as gerações que nos precederam só poderiam arrumar na categoria do sobrenatural: a cada momento das nossas vidas, sabemos exactamente onde nos encontramos sobre a superfície do planeta e também onde se encontram as pessoas do nosso círculo. Porém, não só estamos a perder as poucas capacidades que tínhamos para nos orientarmos, sem ajuda tecnológica, no meio natural, como estamos cada vez mais confusos sobre a nossa posição no espaço conceptual. De pouco serve saber precisamente onde estamos, se nos esquecemos de onde viemos e do caminho que fizemos para aqui chegar, e se não fazemos a mais remota ideia do lugar onde pretendemos ir, ou se o destino que julgamos ter nascido do nosso livre alvedrio, foi insidiosamente inculcado na nossa mente por entidades que apenas querem o nosso dinheiro, ou o nosso voto, ou que, de algum modo, tiram vantagens da nossa alienação e do nosso desnorte.

A Terra Australis, continente lendário cuja existência foi primeiro postulada por Cláudio Ptolemeu, no século II d.C., e que surge, com as mais diversas formas e dimensões, em vários mapas dos séculos XV a XVIII: Na imagem, a versão de Jacques de Vaux, 1583

Apêndice: à nora na Antárctida

Num livro que dá mostras se se estribar em conhecimento robusto e em raciocínios ponderados e cuja exposição é clara e rigorosa, é inesperado encontrar, por alturas da pg. 116, quando se trata do extremo sul do planeta, várias falhas e imprecisões em meia dúzia de linhas.

● “[A Antárctida] é um continente constituído por gelo com 2700 quilómetros de profundidade”. A espessura média do gelo que cobre a Antárctida é de 2200 metros, atingindo um máximo de 4800 metros.

● “[A Antárctida] eleva-se 2800 metros acima do nível do mar”. Seria conveniente explicitar em que consiste exactamente esta elevação: a altitude média do continente é de 2500 metros e é de 2800 metros no Polo Sul. Seria também pertinente clarificar que a altitude média inclui os 2200 metros de espessura (média) da calota de gelo, o que implica que, se não se contabilizar o gelo, parte apreciável do continente fica abaixo do nível do mar. Este facto não impede que existam imponentes formações rochosas, como é o caso do Maciço Vinson, que, com 4892 metros, é o ponto mais elevado do continente.

● “Com as temperaturas, no Inverno, a chegarem, por vezes, a menos 136 graus Fahrenheit [–93º C], a Antárctida é, em média, três vezes mais fria do que o Árctico”. Este trecho encerra vários problemas. Antes de mais, Brotton não explicita em que temperaturas se baseia para chegar a esta conclusão, apenas indica uma temperatura extrema registada na Antárctida. Numa mesma região, as temperaturas diferem consoante o local (costumam ser mais amenas junto ao mar) e a estação do ano em que são medidas, pelo que o cálculo da temperatura média numa região requer a ponderação dos registos de temperatura de todas as estações meteorológicas dessa região. Isto leva-nos a outro problema: o da delimitação das regiões que Brotton pretende comparar. Enquanto a Antárctida é um continente com limites definidos, o conceito de Árctico engloba partes dos continentes americano e eurasiático, numerosas ilhas e o Oceano Árctico e seus mares adjacentes, e nem sempre é claro que áreas se enquadram no conceito. A opção corrente é considerar que o Árctico inclui a área do globo a norte do Círculo Polar Árctico (60º N), mas, nesse caso, a comparação legítima seria com o Antárctico, isto é, a área do globo a sul do Círculo Polar Antárctico (60º S), que não coincide com o continente da Antárctida.

Árctico

Antárctico

Mas o mais desconcertante é que Brotton parece não compreender que a temperatura não é uma grandeza física aditiva, ao contrário da massa ou do comprimento. Quando a uma pedra com 2 kg de massa juntamos uma pedra com 2 kg de massa ficamos com uma massa total de 4 kg, mas se juntarmos duas pedras, ambas a 20º C, a temperatura do conjunto não sobe para 40º C. Decorre daqui que, se é correcto afirmar que a massa de uma pedra de 2 kg é duas vezes maior do que a massa de uma pedra de 1 kg, já não o é afirmar que uma temperatura de 2º C é duas vezes maior do que uma temperatura de 1º C, ou que uma temperatura de 20º C é 20 vezes maior do que uma temperatura de 1º C. O disparate torna-se ainda mais evidente quando recorremos a diferentes unidades de medida: em graus Fahrenheit, 1º C e 2º C convertem-se em 33.8º F e 35.6ºF, respectivamente, e 35.6 não é o dobro de 33.8. Todavia, a proporção entre as massas de pedras de 1 e 2 Kg mantém-se inalterada se exprimirmos essas massas em onças, libras, stones ou arrobas.

● Outro momento de desorientação, menos relevante e, provavelmente, imputável à tradução, ocorre na pg. 133. Ao discorrer-se sobre a relatividade do conceito de “Norte”, mencionam-se várias regiões (counties) no norte das Ilhas Britânicas – uma delas é Humberside, que “fica nos Países Baixos”. O antigo county de Humberside fica no Nordeste de Inglaterra e corresponde maioritariamente a planícies costeiras situadas poucos metros acima do nível do mar, nas margens do estuário do Rio Humber; poderão ser “terras baixas”, mas não são, seguramente, “os Países Baixos”.