Índice
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[Este é o último de catorze artigos sobre a civilização ocidental, abordando, entre outros aspectos, a sua génese, a imagem que tem de si mesma e do seu papel na história, a forma como o resto do mundo a vê e o momento de crise que actualmente atravessa. Os artigos anteriores podem ser lidos aqui:]
- Civilização ocidental: Uma história de miscigenação
- Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?
- Civilização ocidental: O fardo do homem branco
- Civilização ocidental: A Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria
- Civilização ocidental: Um conceito volátil
- Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C.
- Civilização ocidental: Como salvá-la dos seus salvadores?
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 2: Religião
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 3: Freios e contrapesos
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 4: Liberdades
- Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce
- Civilização ocidental: Luz negra para um mundo pós-humano
O futuro já está aqui
Há quem creia que o aceleracionismo preconizado pelos teóricos do Iluminismo Negro, como Nick Land e Curtis Yarvin (ver Civilização ocidental: Luz negra para um mundo pós-humano) não passa de uma quimera cyberpunk, sem possibilidade de concretização no mundo real. Porém, é indiscutível que o ritmo da inovação tecnológica não tem cessado de aumentar desde a Revolução Industrial e que se tem tornado particularmente frenético no século XXI. Na verdade, não estamos apenas a assistir a um inaudito incremento no número de patentes registadas a cada ano que passa – a isto soma-se o facto de as inovações no domínio da tecnologia digital estarem a ser adoptadas com uma rapidez, uma abrangência e uma profundidade nunca vistas. Dois exemplos paradigmáticos – e fortemente interdependentes – são o smartphone e as redes (ditas) sociais, que, em apenas década e meia, se tornaram nos dois eixos em torno dos quais milhares de milhões de indivíduos espalhados por todas as geografias e pertencentes a todos os estratos da sociedade, articulam a sua vida, profissional e particular, e toda a sua identidade.
2001: Odisseia no espaço (1968), uma fascinante e enigmática reflexão sobre a origem e o futuro da humanidade, inclui aquele que é, porventura, o mais célebre raccord (ou match cut) da história do cinema: quando um hominídeo descobre que um osso pode ser usado como moca para abater um hominídeo de um grupo rival, fica exultante (poder-se-á mesmo dizer: inebriado) com o inesperado poder que acabou de adquirir e lança a recém-descoberta arma pelo ar. O revolutear do osso pelo ar encadeia-se com o movimento análogo de uma nave espacial que se prepara para acostar a uma estação orbital, numa elipse que abarca centenas de milhares de anos.
[O raccord osso/nave espacial de “2001: Odisseia no espaço”:]
Sem pretender beliscar o mérito de Stanley Kubrick nem dos contos de Arthur C. Clarke que serviram de base a 2001: Odisseia no espaço, podemos dizer, num olhar retrospectivo, que a ficção científica de meados do século XX teve uma baixa taxa de acerto na prefiguração do mundo do século XXI. O presente não é moldado pelas viagens interplanetárias e pela colonização de outros planetas, desígnios que continuarão a ser do domínio da especulação e da fantasia, por muito que Elon Musk sonhe, tagarele e esbraceje. A humanidade não se lançou numa libertadora exploração do espaço exterior, está antes a isolar-se num sufocante espaço interior dominado pelo egocentrismo e pela tacanhez; em vez de avançarmos para “Júpiter e para lá do infinito” (como reza o título da 4.ª parte de 2001: Odisseia no espaço), estamos a mergulhar no nosso próprio umbigo; promovemos os nossos caprichos e idiossincrasias a sistemas filosóficos; fazemos das nossas vidinhas anódinas e mesquinhas uma telenovela com milhares de episódios. Num hipotético 2025: Odisseia no espaço interior, o osso a voar pelos ares converter-se-ia, não numa nave espacial, mas num smartphone, pois é ele o artefacto fulcral, incontornável e emblemático da presente etapa da humanidade.
Comunicar à distância através de som e imagem: um dos bilhetes postais da série “En l’an 2000”, publicada em França na viragem dos séculos XIX/XX e dirigida (e parcialmente ilustrada) por Jean-Marc Côté
“Como uma maré que nos arrastará a todos”
Enquanto as figuras canónicas da ficção científica se embrenhavam em fantasias interestelares, quem teve a sageza de antever o mergulho da sociedade do século XXI na autocontemplação foi J.G. Ballard (1930-2009), escritor britânico que, no início de carreira, na década de 1960, ficou associado à Nova Vaga da ficção científica, mas que raramente alinhou com os estereótipos do género e que acabou, pouco a pouco, por afastar-se dele, ainda que não deixando de ter como tema recorrente o progresso tecnológico e a sua interacção com a psicologia humana.
No ensaio “The future of the future” (1977), publicado na revista Vogue, Ballard anteviu uma “transformação das nossas vidas privadas graças a sistemas de vídeo e computadores” e a um ambiente doméstico repleto de écrans e câmaras. Esta tecnologia permitiria que as nossas vidas fossem filmadas constantemente e, no final de cada dia, um computador apresentar-nos-ia uma montagem contendo os momentos mais excitantes e as imagens mais lisonjeiras da nossa jornada, que poderíamos partilhar com os nossos amigos. Deste modo, “independentemente da nossa posição na hierarquia familiar, cada um de nós, na privacidade dos nossos quartos, será a estrela de uma saga doméstica interminável, sendo os pais, cônjuges e progenitura apropriadamente remetidos a papéis secundários”. Em 1978, em entrevista publicada na revista Search & Destroy, Ballard desenvolveria esta ideia e detalharia, com extraordinária presciência, o mundo das redes sociais, das selfies e da obsessiva difusão das nossas vidas junto de familiares, amigos e desconhecidos: “as pessoas fotografar-se-ão incessantemente, a barbearem-se, a jantarem, a envolverem-se em discussões domésticas”. Nessa mesma entrevista, Ballard vaticinou que “a taxa de mudança vai ser tremendamente elevada, francamente exponencial, particularmente considerando todo o desenvolvimento hoje em curso naquilo a que chamo a tecnologia invisível: computadores, unidades de processamento, etc, etc. […] Daqui a 20 anos começaremos a dar-nos conta da forma como as mil e uma aplicações do computador irão criar um estado de mudança perpétua, que será como uma maré que nos arrastará a todos”.
Número de Outubro de 1963 da revista americana de fantasia e ficção científica Fantastic, contendo o conto “The screen game” (O jogo dos écrans), escrita por J.G. Ballard em 1962
Em 1977-78, ainda a comercialização do computador pessoal estava a dar os primeiros passos, pelo que é compreensível que Ballard não tenha sido capaz de prenunciar a aparição e massificação de um “supercomputador de bolso” que assumiria o papel central na mudança avassaladora que conduziu ao mundo presente: o smartphone – recorde-se que a comercialização do primeiro computador portátil data de 1982, a do primeiro telefone móvel de 1983 e a do primeiro smartphone de 1994.
Em 2025, enquanto nos esforçamos, atarantados, por perceber o que está a acontecer ao Homo sapiens e à civilização sob o efeito combinado do smartphone e das redes (ditas) socais, já entra em campo uma terceira tecnologia, talvez ainda mais poderosa e disruptiva: a inteligência artificial (ver História para amanhã pt.3: A inteligência artificial é uma ameaça?).
Após décadas de relativa letargia, a IA não só fez progressos vertiginosos nos últimos anos, como está a ser velozmente incorporada nas mais variadas actividades e aparelhos, naquilo que Francis DeSouza, que anda na vanguarda da tecnologia digital desde 1997 (passou pela Flash, Microsoft, Illumina, Synth Labs e Symantec e está agora na Deel Inc.), classifica como “o ritmo mais acelerado que alguma vez houve na adopção de qualquer tecnologia” – veja-se o caso do ChatGPT, que foi disponibilizado ao público em geral a 30 de Novembro de 2022 e que, no final de Janeiro de 2023 (ou seja, em apenas dois meses), já tinha conquistado 100 milhões de utilizadores e que em Julho de 2025 ocupava o 5.º lugar entre os websites mais visitados em todo o mundo, apenas atrás do Google Search, do YouTube, do Facebook e do Instagram.
Como seria inevitável, são os mais jovens que estão a aderir mais rapidamente à IA: segundo a edição de 2025 (a 14.ª) do 2025 GenZ and Millennial Survey, um inquérito realizado pela consultora Deloitte em 44 países e envolvendo 23.000 respondentes, 56% dos millennials e 57% da Geração Z já usam quotidianamente a IA, com 30% a declararem que a usam “constantemente ou quase”.
Um cyborg destinado a trabalhos agrícolas: “Humani victus instrumenta: Agricultura” (c.1569), gravura a partir de pintura atribuída a Giovanni da Monte ou a Giuseppe Arcimboldo
O terror de “ficar para trás”
Enquanto as notícias de inovações revolucionárias no sector digital se sucedem, os gurus tecnológicos estão por todo o lado, admoestando a nossa ignorância e a nossa resistência à mudança e acenando, simultaneamente, com a promessa de prosperidade inaudita para os que abraçarem a IA sem hesitação e com a ameaça de estagnação e obsolescência para os que a rejeitarem ou não forem lestos na sua adopção. Se a promessa ainda surge, muitas vezes, envolta em brumas, já a ameaça costuma ser formulada com implacável clareza e assertividade: “Ninguém é obrigado a adoptar a IA, mas quem não o fizer ficará para trás”. Numa sociedade completamente subjugada ao desígnio do crescimento material incessante e ilimitado (maior produtividade, maior PIB, maior poder de compra, maior consumo), “ficar para trás” é uma perspectiva que causa a todos calafrios na espinha e não se ouve uma voz que pergunte “o que significa exactamente ficar para trás se não sabemos para onde vamos?”.
Há cada vez mais indícios de que não vamos no bom caminho, pois, nos países desenvolvidos, ao mesmo tempo que cresce o PIB e o bem-estar material, não pára de aumentar o mal-estar existencial. Ano após ano, dilata-se o número dos que vivem atormentados pela ansiedade, pela depressão, pelos ataques de pânico, pelo burnout ou pela ideação suicida, ou, nos casos menos graves, dos que se queixam de um estado de espírito dominado pela tristeza, pela irritabilidade, pelo mau humor, pelo nervosismo e pela dificuldade em conciliar o sono.
Os estudos e inquéritos sobre este assunto que têm proliferado nos últimos anos compõem o retrato de um sociedade em crescente descalabro mental: os perfis de saúde elaborados pela OCDE e pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde e publicados em 2023 indicavam uma prevalência de transtornos mentais de 17% na população da União Europeia e de 22% em Portugal. O problema tende a ser mais grave entre os jovens, como sugere, por exemplo, o estudo “Ecossistemas de aprendizagem saudáveis nas instituições de ensino superior em Portugal”, divulgado em Junho passado, que auscultou 2339 estudantes com 17-35 anos, e em que estes declararam sentir-se incapazes de controlar as emoções (66%), exaustos (62%), sem confiança para lidar com os seus problemas (62%), assoberbados pelas dificuldades (60%), irritados (46%) e/ou tristes (42%). Sem surpresa, 40% tomam psicofármacos semanalmente para tentar combater estes sintomas – e os jovens portugueses não são um caso invulgar, uma vez que estes valores estão, genericamente, alinhados com a média europeia (ver Estudantes pedem mais psicólogos para combater problemas de saúde mental).
Um estudo incluído no livro Saúde e estilos de vida no ensino superior em Portugal, divulgado em Março, corroborava este estado de coisas, ao apurar que mais de um terço dos estudantes do ensino superior admitiram sofrer de transtornos mentais, valor que outro estudo divulgado, em Outubro de 2024 e abrangendo seis universidades portuguesas, situava nos 23%; outro estudo ainda, divulgado em Janeiro indicava que 90% dos alunos da Universidade de Lisboa sentiram ansiedade durante o percurso académico. No já mencionado 2025 GenZ and Millennial Survey, apenas 58% dos inquiridos da Geração Millennial e 52% da Geração Z consideraram que a sua saúde mental era boa ou muito boa e 34% dos millennials e 40% dos Gen Z declararam que se sentiam ansiosos ou “stressados” durante a maior parte do tempo.
Não se trata de um mal específico da condição de aluno, uma vez que 1) muitos dos inquiridos no 2025 GenZ and Millennial Survey já tinham concluído os estudos e entrado no mercado de trabalho e 2) a saúde mental dos professores não é menos periclitante (ver capítulo “Uma barganha faustiana: autonomia por dinheiro” em Maus trabalhos: O que são, de onde vêm e que consequências têm?). Muito menos é um problema circunscrito a alunos e professores: é rara a semana em que não são divulgados nos media resultados de inquéritos que dão conta se situações análogas entre médicos (66% em exaustão emocional, 55% dos internos em burnout), enfermeiros (30% com depressão grave, 34% em burnout), forças da ordem (na PSP, 55% em risco de transtorno psicológico, 11% com “valores críticos de burnout”), bombeiros (19% em exaustão emocional), juízes (50% em risco de burnout, 26% com sintomas depressivos, 34% recorrem a ansiolíticos, 11% a álcool e 9% a drogas ilícitas), funcionários judiciais (80% em burnout), funcionários da Autoridade Tributária (80% em burnout) e jornalistas (48% com “níveis elevados de esgotamento”, 38% com problemas de saúde mental decorrentes do trabalho, 93% com queixas de assédio por parte das chefias). Os que trabalham nos centros de expedição do comércio online, onde estão obrigados a cumprir regras rígidas e objectivos de produtividade irrealistas, e os que trabalham por sua conta nas entregas ao domicílio dessas encomendas e de comida, na condução de TVDE e noutros ramos da novel “economia Uber” (ou capitalismo de plataforma digital), não tendem a figurar entre os grupos profissionais que mais suscitam o interesse das faculdades de psicologia que promovem este tipo de estudos – até porque não dispõem de sindicatos ou outras associações socio-profissionais que defendam os seus interesses. Embora os dados não abundem para os trabalhadores deste sector, é provável que, dado o seu periclitante estatuto e o facto de a “economia Uber” colocar um chicote nas mãos do trabalhador e forçá-lo a ser o impiedoso capataz de si próprio, os problemas de saúde mental também campeiem entre eles.
Ironicamente, é nas empresas que estão na vanguarda da tecnologia digital, da automação e da IA – as que estarão a construir um futuro paradisíaco para a humanidade – que o burnout dos trabalhadores atinge níveis mais elevados, a dar crédito aos inquéritos realizados através da app Blind, que proporciona uma plataforma online anónima onde os empregados podem dar testemunho, sem receio de represálias, do ambiente laboral na sua empresa. No inquérito de 2020, entre as empresas com maiores taxas de burnout estão nomes bem conhecidos: Oracle (78.6%), Apple (76.2%), PayPal (71.9%).
Os problemas de saúde mental estão, no resplandecente e glorioso século XXI, tão disseminados que até naquela que seria vista como a mais relaxante e salutar das ocupações – o desporto – 40% dos profissionais dizem sofrer ou ter sofrido de algum tipo de transtorno mental.
As 10 empresas tecnológicas com maior incidência de burnout entre os trabalhadores, de acordo com The State of Burnout Survey de 2020, realizado pela Blind
Uma clamorosa falha civilizacional
A reacção mais frequentes à divulgação deste tipo de dados é denunciar o fracasso ou incúria do Estado na área da saúde mental – “isto é uma falha clamorosa do Serviço Nacional de Saúde”, declarou a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do estudo “Ecossistemas de aprendizagem saudáveis nas instituições de ensino superior em Portugal”, perante os resultados – e exigir que o Estado providencie mais e mais psicólogos para acudir a esta crise. Estas reacções revelam uma profunda incompreensão da dimensão e natureza da crise de saúde mental: por um lado, mesmo que as faculdades de psicologia, por magia, duplicassem ou triplicassem a sua “produção” de diplomados, estes continuariam a ser insuficientes para aliviar uma crise que afecta um quinto da população dos países desenvolvidos. Por outro lado, não estamos perante um problema que se resolva com reforços orçamentais, reorganizações administrativas ou a nomeação de um novo director executivo do SNS. Quando os números de transtornados são desta ordem de magnitude e são transversais a escalão etário, qualificação académica, ocupação profissional e país, a “falha clamorosa” não é do SNS, mas da civilização que temos vindo a erguer, não de forma reflectida, mas como resultado de uma sucessão de possibilidades que se converteram em inevitabilidades e de uma sucessão de acasos que cristalizaram num destino.
O filósofo Byung-Chul Han, um dos mais lúcidos analistas do nosso tempo, explicou o fenómeno em A sociedade do cansaço (2010, Müdigkeitgesellschaft): “Cada época tem as suas maleitas carcaterísticas. […] As doenças neurológicas, como a depressão, o transtorno de deficit de atenção e hiperactividade (ADHD), o transtorno de personalidade borderline (BPD) e a síndrome de burnout balizam a paisagem patológica do início do século XXI”. O sentimento das vítimas do burnout e da depressão de que “nada é possível” resulta de um sociedade em que se propagandeia a ideia de que “nada é impossível. […]. A depressão é a doença de uma sociedade que sofre de excesso de positividade. Espelha uma humanidade em guerra consigo mesma. […] O sujeito performativo, exausto e deprimido, desgasta-se a si mesmo. Está fatigado, esgotado por si mesmo e em guerra consigo mesmo. Incapaz de sair de si mesmo, de se colocar do lado de fora, de confiar no Outro, no mundo, encarniça-se contra si mesmo; paradoxalmente, isto leva a que se mine a si mesmo e se esvazie. Desgasta-se numa corrida de ratos contra si mesmo”.
Entre políticos, líderes empresariais e “opinion makers” (jornalistas, politólogos e comentadores), poucos parecem admitir a possibilidade de a presente pandemia de saúde mental ser a manifestação de um desajustamento existencial fundamental: a humanidade corre desenfreadamente numa pista que não é a sua, em direcção a uma meta que recua à medida que avança, obcecada em conquistar um prémio que não sabe em que consiste. E, assim, tem dissipado os formidáveis ganhos de produtividade decorrentes dos progressos na tecnologia, na gestão e na logística a adquirir bens e serviços de que não sabia que necessitava, mas que os “marqueteiros” lhe garantiram serem imprescindíveis. Esta corrida desarvorada só irá terminar com a exaustão total, seja ela a exaustão física e mental dos corredores, ou a exaustão dos recursos naturais e da capacidade dos sistemas biofísicos para absorver a poluição e a disrupção ecológica geradas por esta insensata porfia.
A bulimia como modo de vida
Dizem as luminárias do marketing que as prioridades das gerações mais novas estão a deslocar-se dos objectos físicos – casas, automóveis, jet skis, mobiliário, electrodomésticos, smartphones, vestuário, calçado – e das marcas de luxo tradicionais para as “experiências” – viajar, desfrutar de uma estadia num spa, comer num restaurante gourmet, fazer um retiro espiritual em Bali, inscrever-se num workshop de origami, de ikebana ou de escrita de haiku, fazer um voo em balão de ar quente, ou, para os mais abonados e destemidos, subir até aos 100 km de altitude num voo suborbital da Blue Origin. Em certos círculos, a acumulação de bens materiais passou, para lá de um certo limite, a ser vista como vulgar e inimiga da sustentabilidade. Porém, face à acumulação de bens materiais, a nova voga das “experiências” não é mais virtuosa, intelectualmente sofisticada ou enriquecedora do ponto de vista espiritual, nem menos lesiva para o ambiente, e é movida pelos mesmos instintos primários de acumulação e de competição.
[Eliminatórias da prova de corrida de 100 metros, World Humanoid Robot Games, Pequim, Agosto de 2025:]
Escolhemos “destinos” com o intuito de preencher uma “bucket list”, de estar num lugar onde todos os amigos, familiares, colegas de trabalho e personalidades da TV e da Internet já estiveram ou, pelo contrário, para ter o privilégio de visitar um dos últimos rincões intocados e genuínos do planeta, antes que seja irremediavelmente corrompido pelo turismo de massas (onde o próprio nunca se inclui). Por outras palavras, corremos simplesmente porque todos os outros correm e fomos condicionados para abominar a ideia de “ficar para trás”. O viajante compulsivo de hoje galopa apressadamente pelo planeta, sem nada perceber do que vê, ouve, cheira, ingere e toca, alheado da cultura local ou endrominado por um ersatz para-turista-ver da cultura local e sem analisar nem interiorizar nada do que vivenciou, como seria de esperar de quem se desloca encerrado na sua bolha de auto-suficiência e sobranceria. Inevitavelmente, regressa da viagem desiludido e enfadado e é precisamente isso que o impele a reiniciar o processo.
O consumismo – de bens materiais ou de experiências – é afim da bulimia. O bulímico não pretende ficar saciado; quando o estômago lhe sinaliza que está cheio, enfia dois dedos pela goela para o esvaziar e regressa à mesa para reiniciar o ciclo. O bulímico não pretende satisfazer uma necessidade física nem desfrutar de uma experiência gustativa requintada, mas simplesmente perpetuar o acto de comer, na sua dimensão mais mecânica.
O consumidor bem pode esfalfar-se a adquirir o último modelo de smartphone e a viajar para paragens remotas com fama de pristinas e genuínas, mas, assim que concretiza o acto, é assaltado por uma insistente sensação de vazio que lhe vem do estômago ou da alma (há, cada vez mais, quem tenha dificuldade em distingui-los) e logo começa a matutar na aquisição de um próximo produto, viagem ou “experiência” (ver capítulo “Uma besta que compra e compra e compra” em Mark Stoll, a economia e a natureza: É o capitalismo que está a devorar o planeta?). É esta a amarga sina do Homo consumens: oscilar descontroladamente entre a avidez e o enfartamento, sem nunca conhecer a satisfação e a plenitude.
Na sociedade da insatisfação permanente, os “marqueteiros” desempenham uma função vital: a de, a todo o momento, enfiar os seus dedos pela nossa garganta, de forma a induzir o vómito e a anular a sensação de saciedade. E, uma vez que fomos convencidos de que a nossa felicidade e realização estão vinculadas ao bem-estar material que o nosso poder de compra permite adquirir (o que é muito duvidoso) e que o progresso tecnológico permite incrementar a produção de riqueza (o que é, em boa parte, verdade), estamos sempre disponíveis para aceitar, sem hesitar, toda e qualquer inovação, por mais frívola, estólida, vã ou perigosa que seja.
[Equipa chinesa de futebol robótico treina-se para os World Humanoid Robot Games de 2025:]
A adopção das novas tecnologias como imperativo moral
Há entre os pregoeiros do novo mundo digital quem vá para lá das considerações económicas para justificar a adopção urgente da IA e veja nela um imperativo moral. É o caso de Arlindo Oliveira, doutorado em engenharia electrotécnica e de computadores pela Universidade de Berkeley, director do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores/INESC (2000-09 e 2020-presente), presidente do Instituto Superior Técnico/IST (2012-19), membro da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial, do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos (entre outras instituições e empresas) e, last but not least, o mais loquaz e incansável tecnoprofeta português, que, em declarações registadas pelo Expresso (suplemento Economia) de 08.08.2025, afirmou que “Há uma obrigação, quanto mais não seja moral, de uma empresa, para devolver valor aos seus accionistas, usar a IA tanto quanto possível. […] Neste momento há uma obrigação que, por um lado é moral e, por outro lado, é económica. […] A obrigação das empresas e do Estado é ter eficiência e produtividade. Se assumirmos […] que a IA torna mais eficientes muitos processos, há de facto uma obrigação [de usar a IA]”. Vivemos num período civilizacional em que o domínio do hipercapitalismo, da aceleração tecnológica e do filistinismo é tão completo e incontestado que a devolução de valor aos accionistas já não se cinge à esfera da economia e do Código das Sociedades Comerciais e ganhou uma dimensão moral, que passou despercebida a Aristóteles, Adam Smith, Kant, Nietzsche e tantos outros autores que discorreram sobre esta categoria filosófica.
Nestes repetidos apelos à adopção da IA discerne-se mesmo uma dimensão religiosa: o que os missionários da IA propõem aos pagãos é que escolham entre a promessa do Paraíso na Terra, transbordante de luz, benesses, prodígios e bem-aventurança, para os que se converterem à IA, e a condenação ao negrume, ao olvido e à danação eterna, para os que a renegarem. Para a Igreja do Santíssimo Algoritmo e da Epifania Quântica, os três pecados mais abomináveis são 1) não aceitar sem reservas toda e qualquer inovação tecnológica, 2) pôr em causa a infalibilidade e bondade da Máquina e 3) não maximizar a remuneração dos accionistas.
A polícia de trânsito do futuro, da série “En l’an 2000”
Compor como Mozart, governar como Churchill
Se, num primeiro momento, a composição do universo de utilizadores assíduos da IA é dominada por produtores de graçolas, memes, desinformação e vídeos curtos para alimentar as redes sociais, por estudantes que pretendem aligeirar o fardo de trabalho que lhe é imposto pela escola e por adolescentes e jovens adultos anómicos, necessitados de alguém que dirija as suas vidas, alivie as suas angústias existenciais ou, torneando as suas dificuldades no relacionamento com outros seres humanos, preencha a sua solidão, o seu uso irá rapidamente estender-se a todos os estratos da sociedade e a todas as circunstâncias. Aliás, parece já ter chegado às elites que comandam os destinos do mundo: ainda recentemente o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, gerou polémica no seu país, ao admitir, numa entrevista ao diário económico Dagens Industri, publicada a 03.08.2025, que “uso [a IA] com bastante frequência. Nem que seja para obter uma segunda opinião” (ver Primeiro-ministro sueco alvo de críticas por utilizar inteligência artificial).
É comum atribuir-se a Lenin a frase “Treinaremos todas as cozinheiras de forma a que qualquer delas seja capaz de governar o país” – na verdade, a frase foi posta na boca de Lenin pelo poeta Vladimir Maiakovski, em 1925, adulterando uma frase de Lenin, surgida num artigo de 1917: “Não somos utópicos. Sabemos que um operário não especializado ou uma cozinheira não seriam capazes, de um momento para o outro, de assumir a gestão do Estado”. Entretanto, desde 1917, a máquina do Estado foi tornando-se, na Rússia e nos rfestantes países, extremamente complexa e a sua gestão passou a requerer aptidões tecnocráticas cada vez mais especializadas, o que tem excluído as cozinheiras de cargos governativos. Porém, com a IA deixará de ser exigível a posse de qualificações especiais para a função governativa. Se Kristersson, que além de vários anos de experiência como parlamentar e governante, é diplomado em economia e trabalhou como director de comunicações para uma empresa de consultoria, sente necessidade de se aconselhar com chatbots, não poderá uma cozinheira fazer o mesmo e ter um desempenho governativo comparável? Não será a IA o instrumento que permitirá cortar o nó górdio que é a incapacidade dos governantes de decidir quando estão em jogo grandes projectos estruturantes, como sejam o Novo Aeroporto de Lisboa ou o TGV? Não poderão Justa Nobre ou José Avillez aspirar ao cargo de primeiro-ministro de Portugal?
A cozinha do futuro, da série “En l’an 2000”
Na presente campanha presidencial, os rivais de Henrique Gouveia e Melo têm tentado desvalorizar a sua candidatura apontando ao almirante a falta de experiência política – mas este pode, agora, argumentar que tal lacuna pode ser facilmente com um chatbot, que funcionará como um Conselho de Estado de bolso, com a vantagem, em relação à versão de carne e osso, de 1) estar sempre disponível, 2) não requerer a gestão de 18 egos conflituantes, 3) poder ser imediatamente silenciado quando enveredar por devaneios vãos, 4) não passar para os jornalistas informações sobre o que é dito nas reuniões à porta fechada e 5) não reclamar da qualidade do lanche servido. Se a IA já permite aos duros de ouvido compor minuetos ao estilo de Mozart e aos analfabetos funcionais redigir sonetos ao estilo de Petrarca, por que não iluminaria também quem não possui capacidade de liderança, visão, coragem, sensatez e determinação de forma a erguê-lo ao nível de um Churchill, de um Mandela, de um Lincoln?
Acontece que há muitas razões fortes para que a decisão política não seja delegada na IA. Uma delas é que os chatbots não são a voz da sabedoria; são, na melhor das hipóteses, a expressão da opinião maioritária, que pode estar equivocada, mal informada ou enviesada. Seria também um erro pressupor que os chatbots são ideologicamente neutros: as suas respostas dependem da arquitectura dos algoritmos e da informação com que foram alimentados e podem ser calibrados pelos seus programadores. Consta que Ulf Kristersson tem recorrido sobretudo ao ChatGPT e ao LeChat, mas se usasse antes o Grok, da xAI, este poderia sugerir-lhe que seria uma boa ideia expulsar todos os judeus da Suécia ou obrigá-los a coser uma estrela de David amarela na roupa. O Grok parece ter ultrapassado a sua fase de namoro com o nazismo e o exemplo atrás é, claro, irónico, mas o que importa é realçar a falibilidade dos chatbots, pois, mesmo quando não entram em “alucinação”, podem estar a ser manipulados pelos seus “amos” para espelharem a mundividência destes ou para porem em prática uma agenda oculta (ver capítulo “O Dono da Verdade” em Civilização ocidental: Luz negra para um mundo pós-humano).
Mesmo que a IA não seja instrumentalizada para servir desígnios ocultos (eventualmente malévolos e venais), é bem possível que muitas das suas promessas se desfaçam em fumo, que outras não passem de frioleiras e distracções estéreis, que todos os grandes problemas civilizacionais fiquem por resolver e que o preço que iremos pagar em desemprego, desigualdade social, alienação, solidão e neurastenia exceda largamente os seus tão propagandeados benefícios. Uma cenoura que os caixeiros-viajantes da IA frequentemente agitam sob o nariz das massas é a cura do cancro, mas, enquanto esta é uma possibilidade que poderá nunca se concretizar, a IA, no seu presente estado de desenvolvimento, já está apta a escrutinar o perfil dos indivíduos que se propõem fazer um seguro de saúde e a determinar quais os que, por terem elevada probabilidade de desenvolver um cancro, devem ser rejeitados, de forma a maximizar a rentabilidade do negócio (ea remuneração dos accionistas). A IA tem vindo a ser publicitada como um formidável instrumento de “empoderamento” das massas e de “nivelamento do campo de jogo”, mas poderá servir, essencialmente, para reforçar o poder e dilatar a fortuna de quem já possui poder e fortuna.
O ténis está a perder terreno, a olhos vistos, para o padel, que, por sua vez, já enfrenta a concorrência do pickleball e quem sabe se, em breve, não serão todos remetidos ao olvido por esta variante do jogo com raquetas. Bilhete-postal da série “En l’an 2000”
“A rotação vertiginosa das turbinas”
Há quase 80 anos, no ensaio La France contre les robots (1947), George Bernanos constatava que “o ritmo da vida se acelerou de uma forma prodigiosa” e dirigia-se aos que “vêem na Civilização das Máquinas uma etapa normal da humanidade em marcha rumo a um destino inelutável”, apelando a que reflectissem no “carácter suspeito de uma civilização que parece não ter sido seriamente ponderada nem desejada e que se tem desenvolvido a uma velocidade tão estarrecedora que faz menos pensar no crescimento de um ser vivo do que na evolução de um tumor” e desafiava-os a, ao menos, não rejeitar a hipótese de estarmos perante “uma crise profunda, um desvio, uma perversão da energia humana”. Bernanos demarcou-se dos luditas, os operários têxteis que, no início da Revolução Industrial, destruíam ou sabotavam os teares mecânicos, sublinhando que não se opunha “à invenção das Máquinas, mas à sua multiplicação prodigiosa, para a qual não se vislumbra um fim, pois a Maquinaria não se limita a criar novas máquinas, ela tem também os meios para criar artificialmente novas necessidades, que assegurarão a venda de novas máquinas. Cada uma destas máquinas acrescenta, de uma maneira ou de outra, o poder material do homem, isto é, a sua capacidade para fazer tanto o bem como o mal. Tornando-se, a cada dia, mais forte e temível, seria necessário que o homem se tornasse também melhor a cada dia”; porém, a Máquina é desprovida de moral, pelo que esta via irá conduzir a “uma vida inteiramente orientada pela noção de rendimento, de eficiência, em suma, do lucro”.
Bernanos lembra que todas as civilizações passaram por “um certo número de transformações morais, sociais e políticas; mas, dantes, estas transformações davam-se muito lentamente […] O homem podia beneficiar, pois, das experiências anteriores, mesmo que quase tivesse esquecido as lições. A cada nova crise, redescobria os reflexos de defesa ou de adaptação que tinham, em casos similares, servido aos seus antepassados. […] Mas a Civilização das Máquinas apanhou o homem desprevenido. […] A tragédia da Europa do século XIX foi […] a inadaptação do homem e do seu ritmo de vida, que deixou de se reger pelo batimento do seu coração mas pela rotação vertiginosa das turbinas, que, desde então, não tem cessado de se acelerar. O homem do século XIX não conseguiu adaptar-se à Civilização das Máquinas e o homem do século XX não fez melhor. […] Essa adaptação afigura-se-me cada vez menos possível. As máquinas não cessam de girar, giram cada vez mais depressa, e o homem moderno, mesmo a custo de caretas e contorções pavorosas, não logra manter o equilíbrio”.
[Tempos modernos (1936):]
Alguns arautos da Civilização da Máquina reconhecem que existe algum desfasamento entre o ritmo do ser humano e o ritmo da tecnologia, mas atribuem-no apenas à inércia e obtusidade do primeiro e advertem-nos, num tom similar ao que um professor austero empregaria com um aluno madraço, de que acabou a era do “emprego para a vida”, que é preciso que nos reciclemos e reinventemos incessantemente (“reskilling” e “upskilling” são as palavras de ordem da novilíngua tecnocrática), de forma a acompanharmos a evolução da tecnologia. Na verdade, fazem-nos ver os profetas da Máquina, os “skills gaps” (outra expressão que surge frequentemente neste contexto) de uma humanidade lerda são o maior obstáculo à esplêndida revolução em curso, que projectará o mundo para uma era de prosperidade inaudita.
Interlúdio pedagógico-futurista
Até num país como Portugal, que está muito longe de ser um actor relevante na inovação em IA e em que boa parte da economia não é muito sofisticada, sucedem-se na imprensa de referência artigos em que ilustres académicos da área das engenharias e da computação nos exortam a abraçarmos quanto antes a IA, sob pena de estarmos condenados ao desemprego enquanto indivíduos, à penúria enquanto povo e à irrelevância enquanto nação.
No Público de 28.07.2025, por exemplo, Rogério Colaço, director do Instituto Superior Técnico, advogava, no artigo “O professor 4.0”, que “a IA pode tornar-se num aliado pedagógico poderoso, se integrado numa redefinição daquilo que é o papel do professor […]. A IA personaliza ritmos de aprendizagem, acompanha quem tem dificuldades, sugere novas abordagens. Ao professor caberá […] reconfigurar o espaço educativo: mais do que um simples orador num palco, torna-se mentor, facilitador, curador de percursos e modelo inspiracional”.
Estas prédicas visam persuadir a sociedade a tomar uma série estruturada de passos para abraçar a IA, mas, num planeta hiperconectado e em que a informação e os padrões de comportamento se propagam quase à velocidade da luz, o processo de difusão e implantação da IA já segue num galope desvairado, arrastando consigo os professores, os alunos, o sistema de ensino e, mais tarde ou mais cedo, o resto da sociedade. Os governos, os parlamentos, as entidades estatais que regulam e gerem o sector da educação, os conselhos pedagógicos e científicos das faculdades e as instituições da sociedade civil tiveram alguns anos para reflectir e para tentar enquadrar e regular o sector emergente da IA, mas mantiveram-se alheados e inertes, analogamente ao que acontecera antes com a ascensão das redes sociais e com os smartphones. Os tecnólatras garantem-nos que abraçar a IA é indubitavelmente a melhor escolha, mas a verdade é que o ponto em que ainda podíamos escolher já ficou para trás: a IA, apesar de se encontrar ainda numa fase incipiente, já tomou o freio nos dentes e ganhou a sua própria dinâmica.
A escola do futuro, da série “En l’an 2000”
Enquanto Colaço alerta para o risco de a IA poder tornar “obsoleto o ensino tradicional”, a IA já está a transformar profundamente o próprio conceito de ensino, que, hoje, se processa, cada vez mais, nestes moldes: os alunos encomendam ao ChatGPT a elaboração dos trabalhos académicos e os professores encomendam ao ChatGPT a sua apreciação, correcção e classificação. Tão inacreditável como a rapidez da evolução da IA é a rapidez com que a comunidade escolar aceitou que este procedimento substituisse o “ensino tradicional” e vê nele um admirável progresso pedagógico e civilizacional, sem nada de moralmente censurável. Colaço sonha com um “professor 4.0” que seja mentor, facilitador e curador de percursos, mas o papel que lhe está destinado é o de farsante numa bambochata em que uns fingem que aprendem e outros fingem que ensinam.
Não menos descoroçoante é o procedimento que está a instalar-se no sector limítrofe, o da investigação: os investigadores instruem o ChatGPT para fazer uma síntese do “estado da arte” e da bibliografia relevante sobre um dado domínio do conhecimento, pedem-lhe para delinear experiências, executam-nas, e encomendam ao ChatGPT a redacção do artigo correspondente, que os editores das revistas científicas remetem para “revisão pelos pares” (peer review), pares que, por sua vez, confiam a apreciação e validação do artigo ao ChatGPT. Ainda antes da “explosão da IA”, a investigação científica já seguia por caminhos ínvios, com a fraude científica a atingir valores inauditos, a ganhar uma natureza organizada e modos de produção “industriais” e a corromper respeitáveis publicações e instituições, como se descreveu em Ensino superior e investigação: Dentro da torre de marfim e recentemente foi confirmado pelo artigo “The entities enabling scientific fraud at scale are large, resilient, and growing rapidly”, da autoria de Reese A.K. Richardson et al. e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences a 04.08.2025, que identificou um crescimento exponencial, nos últimos 30 anos, no número de artigos retirados de publicações científicas devido à detecção de fraude; Richardson et al. apuraram que “o número de artigos retirados tem duplicado a cada 3.3 anos” e que “o número de artigos suspeitos de provirem de ‘fábricas de artigos’ [paper mills] tem duplicado a cada ano e meio”, enquanto “o número total de publicações tem duplicado a cada 15 anos”.
A produção de artigos científicos falsificados (por vezes de forma grosseira e inepta), os esquemas crapulosos que permitem que aqueles passem pelo crivo da “revisão pelos pares”, o alastramento das “fábricas de artigos”, a tendência para que cada artigo credute largas dezenas ou até centenas de autores e a obsessão doentia com as “métricas” de produção científica (“publicar ou perecer” tornou-se no lema da academia do século XXI) são alarmantes, mas são apenas uma parte do problema, uma vez que, por enquanto, a academia prefere ignorar a praga da “ciência da treta”, isto é, a proliferação de estudos que, sendo correctos e honestos do ponto de vista formal, são estéreis, inconclusivos ou até francamente asininos, servem somente para justificar o cargo, o financiamento ou a bolsa do investigador e são, amiúde, intelectualmente desonestos (ver Ensino superior e investigação: Dentro da torre de marfim). Quando o uso de IA se vulgarizar no meio da investigação e publicação científicas, não será preciso muito tempo para que, no oceano do conhecimento, a massa de detritos exceda largamente a de peixes e não reste forma de distinguir uns de outros.
A manter-se esta tendência, mais tarde ou mais cedo, chegará o momento em que um magnífico reitor ou um preclaro ministro da educação e da ciência alvitrará que o ensino e a investigação científica poderão ser enormemente simplificados, aprimorados e acelerados se se remover o peso morto que é o factor humano e se deixar todo o simulacro a cargo da IA. Os alunos, que, na sua esmagadora maioria, tendem a ver o professor mais como um maçador e como um sádico apostado em atormentá-los com minudências inúteis e em subtrair horas preciosas ao seu tempo de convívio e lazer do que como um “modelo inspiracional”, sentir-se-ão muito aliviados (consta que 40% se vêm empurrados para o consumo de substâncias psicotrópicas para fazer face ao “sofrimento psicológico” que o estudo lhes causa) se os diplomas e certificados (do ensino básico ao pós-doutoramento) passarem a ser emitidos pelas secretarias académicas à vontade de cada freguês (desde que este tenha pago as propinas, claro). Já os professores serão redireccionados para a orientação de actividades extracurriculares enriquecedoras, como biodanza, reiki ou workshops de macramé (ainda que, para tudo isto, também não faltem “tutorials” do YouTube e chatbots solícitos).
No mundo da música gravada, que hoje está centrado no streaming, acontece um fenómeno análogo de remoção da componente humana: em resultado do perverso modelo de negócio das plataformas de streaming, as playlists estão a ser inundadas por música – banal e medíocre – gerada por IA, que tem como “ouvintes” mais assíduos exércitos de bots que são arregimentados pelos “empresários” da música gerada por IA. Máquinas a cantar para máquinas, máquinas a redigir trabalhos académicos inúteis que apenas são lidos e avaliados por outras máquinas – e a alienação já vai tão avançada que poucos parecem achar este estado de coisas profundamente perverso e doentio.
Música feita por máquinas: da série “En l’an 2000”
A possibilidade de a tecnologia se tornar num “aliado pedagógico poderoso” do sistema educativo anda a ser ventilada desde o tempo em que cada computador pesava tanto como um camião. Em “Push-button education”, episódio de 25.05.1958 da rubrica Closer than we think! (publicada entre 1958 e 1963 na imprensa americana), o futurista, designer industrial e ilustrador Arthur Radebaugh augurava que, num tempo “mais próximo do que pensamos” e de acordo com o Dr. Simon Ramo, do California Institute of Technology, “o ensino far-se-á mediante filmes sonoros e máquinas tabuladoras [“mechanical tabulating machines”, i.e., precursores rudimentares dos modernos computadores]. Os alunos registarão a sua presença e responderão a perguntas carregando em botões. Máquinas especiais serão adaptadas individualmente a cada estudante, de forma a que este possa progredir tão rapidamente quanto as suas capacidades permitam”. O que ninguém parece ter antevisto foi a possibilidade de a Máquina pulverizar o próprio conceito de Educação.
“Push-button education”, por Arthur Radebaugh
Onde estão os jetpacks que nos tinham prometido?
Os tecnoprofetas mais desvairados não só não reconhecem o desacerto e perplexidade do homem face à velocidade avassaladora da inovação, como denunciam a desaceleração do progresso tecnológico no século XXI. Peter Thiel, no ensaio “The end of the future” (publicado na National Review, 03.11.2011), defendeu a tese de que a civilização entrou numa era de estagnação tecnológica e lamentou que as excitantes promessas difundidas pelas revistas de ficção científica e de “ciência popular” das décadas de 1950 e 1960 ficaram quase todas por cumprir e que, nos nossos dias, “os paladinos das jactos espaciais, das férias lunares e da exploração tripulada do sistema solar pareçam provir de outro planeta”, o que o leva a evocar, nostalgicamente, a capa da Popular Science de Abril de 1964 que prometia voos comerciais a 2000 Km/h (na verdade, já os tivemos, com o Concorde, e deles prescindimos, ao concluirmos que as desvantagens suplantavam as vantagens).
Popular Science, Abril de 1964
Thiel considera que “a desaceleração da tecnologia ameaça não apenas os nossos mercados financeiros, como toda a ordem política, que pressupõe um crescimento firme e imparável” e vaticina que os cidadãos que sentem não estar a colher os benefícios da democracia se irão sentir defraudados. O que Thiel não compreende é que 1) a identificação da promessa da democracia com a promessa de um incessante aumento abundância material é uma das ideias mais perversas, cúpidas, alienantes e catastróficas da história (ver capítulo “A promessa da democracia” em Alterações climáticas: Estaremos todos no mesmo barco?); e que 2) não há progresso tecnológico que seja capaz de assegurar crescimento ilimitado num espaço limitado e com recursos limitados.
Após lastimar que “a ficção científica tenha colapsado enquanto género literário” – o que comprova que, tal como acontece com Musk, boa parte da distorcida mundividência de Thiel resulta de haver regiões do seu cérebro cujo desenvolvimento ficou bloqueado na adolescência – Thiel identifica o momento e os culpados da (suposta) estagnação tecnológica: “O homem chegou à Lua em Julho de 1969 e Woodstock começou três semanas depois. Com o benefício da visão retrospectiva, percebemos que foi então que os hippies tomaram conta do país e que a verdadeira guerra cultural em torno do Progresso foi perdida”. Não estamos perante um devaneio ocasional, pois Thiel repetiu esta ideia, quase palavra por palavra, na entrevista de 2025 ao Interesting Times – a tese da conspiração hippie para travar a ciência faz mesmo parte das suas convicções profundas. E como Thiel é um dos homens mais ricos e influentes do mundo e o mentor espiritual do actual vice-presidente (e provável próximo presidente) da nação mais poderosa do mundo, é necessário levar estes delírios muito a sério.
Aprendendo a dançar ao ritmo da Máquina
Pouco importa que Thiel e outros tecnoplutocratas se exasperem por a tecnologia não estar a avançar à velocidade que entendem ser desejável e por o mundo que tinham fantasiado quando eram adolescentes estar ainda para lá do horizonte. Também não é relevante que as previsões mais entusiásticas sobre os avanços em termos de automação e de IA possam necessitar de mais alguns anos para se materializarem. No seu presente estado de desenvolvimento, a automação e de IA já estão a gerar mudanças profundas na organização do trabalho, que estão a fazer com que mesmo os recém-licenciados com formação em áreas tecnológicas tenham dificuldade em encontrar emprego e iniciar vida independente.
A extrema-direita de todos os países tem vindo a atemorizar as massas ocidentais com a teoria conspirativa da Grande Substituição – uma facilitação, pela parte dos governantes do Ocidente, do influxo de hordas de gente “escura” que, graças a uma taxa reprodutiva mais elevada, relegaria, em poucas gerações, a população “branca” original para posição minoritária – mas a verdadeira Grande Substituição que deveria tirar-nos o sono é a do ser humano pela Máquina no mercado de trabalho, na tomada de decisão, nas actividades criativas, nas relações pessoais e sentimentais e, a bem dizer, em quase todas as facetas da vida (ver Que fazer com toda esta gente supérflua? e A ascensão dos robots).
Capa da revista de ficção científica Amazing Stories vol. 25 n.º 11, Novembro de 1951
Os profetas da Máquina costumam responder à eventualidade da extinção de muitos milhões de postos de trabalho humanos alegando que, sempre que houve inovações tecnológicas transformadoras, o mundo do trabalho, o tecido económico e a sociedade reconfiguraram-se e criaram novos empregos, mais bem remunerados, mais limpos e menos penosos, para acolher aqueles cujas ocupações tinham sido tornadas obsoletas pelo progresso tecnológico. Porém, quando, em 2025, se consultam as listas de “profissões do futuro” publicadas na imprensa no início da presente década constata-se que a maior parte delas estão em vias de serem tornadas obsoletas pelos céleres desenvolvimentos na automação e na IA ocorridos nos últimos cinco anos.
Até os (em tempos tão requisitados) programadores de software estão ameaçados e as empresas na vanguarda da nova tecnologia digital – as que, supostamente, iriam absorver os trabalhadores descartados pela “velha economia” – estão a despedir e a colocar trabalhadores em layoff, não a contratar. Amazon, Autodesk, Automattic (proprietária do Tumblr), Block (proprietária da Afterpay, CashApp e Tidal), Blue Origin, Bumble, ByteDance (proprietária do TikTok), Cisco, Consensys, Crowdstrike, Dell, Expedia, Google, GrubHub, Hewlett Packard, Intel, Lenovo, Meta, Microchip Technology, Microsoft, NetApp, Nextdoor, Oracle, Salesforce, Scale AI, Sprinklr, Stripe, Wayfair e Workday são alguns dos nomes sonantes entre as empresas do sector que efectuaram reduções substanciais na sua força de trabalho em 2025. Curiosamente, também as empresas de logística, que deveriam estar a contratar para responder ao crescimento do comércio electrónico (que está a levar ao encerramento de muitas lojas físicas), estão a despedir – é o caso da UPS e da DHL.
As massas que verão em breve os seus empregos tornados supérfluos pelos progressos na automação e na IA deparam-se, a cada ano que passa, com um leque cada vez mais restrito de carreiras profissionais bem remuneradas e a salvo (por enquanto) da intromissão das máquinas: engenheiros de “fintech”, especialistas em Internet das Coisas, técnicos de manutenção de robots, operadores de drones, “marqueteiros” digitais, designers de criptoactivos ou consultores em privacidade, protecção e segurança de dados (Luís Montenegro evidenciou, na escolha do ramo de actividade da sua “empresa familiar”, uma visão de futuro que parece não possuir quando se trata da condução dos destinos da nação). Tudo isto são ocupações destinadas a uma minúscula elite altamente especializada, de forma que a esmagadora maioria da população em idade activa será remetida para as tarefas mais humildes, sujas e mal remuneradas, já que a robótica e a IA nem tão cedo conseguirão criar máquinas capazes de cuidar de jardins, reparar canalizações, mudar fraldas a bebés ou dar banho a idosos acamados.
[Robots da Boston Dynamics exibem o seu talento para a dança, em 2021:]
No discurso hoje dominante sobre a necessidade imperiosa de a humanidade se adaptar à evolução tecnológica, mais chocante do que a desconexão com a realidade mais óbvia e com a aritmética mais elementar, é o facto de a arenga sobre o aperfeiçoamento humano se focar estritamente na competência no desempenho de tarefas técnicas e nas recompensas materiais reservadas aos bem-aventurados que abraçarem a Máquina. Nunca se aflora a questão crucial, que Bernanos ousou formular há 78 anos:
“A Civilização das Máquinas melhorou o homem? Tornou o homem mais humano? […] Até agora, as máquinas talvez nada tenham mudado na maldade inata do homem, mas […] elas revelaram-lhe o poder e que o exercício desse poder não tinha, por assim dizer, limites. […] Acontece que os limites que, ao longo dos séculos, impusemos à maldade são essencialmente imaginários, estão menos na consciência do que na imaginação do homem. É a repugnância que nos impede, muitas vezes, de ir além de uma certa crueldade […]. O treino permite-nos ultrapassar a repugnância. […] Os nervos do homem têm as suas contradições, as suas fraquezas, mas a lógica do mal é tão rigorosa como o Inferno; o diabo é o maior dos lógicos, ou, quem sabe, a própria Lógica”. Luís Buñuel andou perto desta ideia quando advertiu que a ciência “adula em nós o instinto da omnipotência que nos conduz à destruição”.
É crucial sublinhar que o problema não está na ciência & tecnologia em si mesmas, responsáveis por resgatar a humanidade a uma existência preenchida por privações, maleitas, brutalidade, ignorância e obscurantismo, mas na fé cega depositada na ciência & tecnologia, na arrogância instilada pelos seus triunfos, na disponibilidade para delegar nelas atribuições e tarefas que deveriam competir exclusivamente ao alvedrio e à imaginação do homem, na aceitação acrítica e pressurosa de todas as inovações tecnológicas como benéficas, desejáveis e inevitáveis, na entrega voluntária dos destinos da humanidade a megacorporações tecnológicas geridas por empresários com inclinações sociopáticas, cupidez ilimitada e, nalguns casos, simpatia pelo ideário do Neo-Reaccionarismo.
Há hoje quem compare a cada vez mais evidente crise da civilização ocidental com a decadência da Roma da Antiguidade Clássica, mas Bernanos observou, com quase 80 anos de antecipação, que “a desordem actual [a do pós-II Guerra Mundial] não é comparável à que devastou o mundo após a queda do Império Romano. Não assistimos hoje ao fim natural de uma grande civilização humana, mas ao nascimento de uma civilização inumana que irá estabelecer-se através de uma vasta, imensa e universal esterilização dos nobres valores da vida”.
Interlúdio musical: Adoração da Grande Ciência
Em 1982, quando lançou o seu primeiro álbum “oficial”, Big Science, na etiqueta Warner Bros., Laurie Anderson já tinha no curriculum vários discos obscuros em micro-editoras ou em auto-edição, sempre em tiragens limitadas, e uma intensa carreira internacional como criadora e performer de originais e desafiadores espectáculos multimédia. O mais ambicioso destes foi United States I-IV (os números aludem aos quatro fusos horários pelos quais se estende o território dos EUA), um políptico que durava um total de oito horas (repartidas por duas noites), combinava canções, trechos instrumentais, spoken word e efeitos cénicos e visuais e cujo material seria parcialmente reciclado e reconfigurado por Anderson nos seus álbuns de estúdio seguintes. O álbum Big Science é, aliás, inteiramente construído sobre composições provenientes de United States I-IV. A canção que dá título ao álbum não ganhou tanta fama como “O Superman”, que alcançou popularidade inesperada (chegou ao 2.º lugar do top de singles do Reino Unido), mas é igualmente fascinante e hipnótica (e zombeteira).
[“Big science”, do álbum homónimo de Laurie Anderson:]
A tecnologia, a comunicação, as tecnologias de comunicação, as interacções entre o tecnológico e o humano, as idiossincrasias da sociedade americana, o papel dos EUA no palco mundial, o frenesim consumista, a passagem do tempo e a marcha da civilização são temas recorrentes na obra de Anderson e a canção Big Science combina elementos destes vários âmbitos: “[…]/ ‘Olá amigo./ Pode dizer-me como se vai até à cidade?’/ E ele respondeu: ‘Bem, vire ali à direita onde estão a construir o novo centro comercial, vá sempre em frente até às obras da nova auto-estrada, vire à esquerda no lugar do novo pavilhão desportivo, e siga sempre por aí até chegar ao lugar previsto para o banco drive-in. Não tem nada que enganar’./ E eu disse: ‘Acho que estou no lugar certo’./ Cidades douradas. Urbes douradas./ Cidades douradas. Urbes douradas./ Longos carros em longas filas e grandes cartazes e todos dizem: ‘Aleluia. Yodellayheehoo. Cada um por si’./ Cidades douradas. Urbes douradas./ Obrigado pela boleia./ Grande Ciência./ Aleluia./ Grande Ciência./ Yodellayheehoo./ Acho que deveríamos colocar umas montanhas aqui. De outro modo, de onde hão-de tombar as personagens?/ E que tal umas escadas?/ Yodelayheehoo./ Eis um homem que leva uma vida de perigo./ Onde quer que vá, continua a ser – um estranho./ Olá estranho. Importa-se que fume?/ E ele disse:/ ‘Cada um, cada um por si./ Cada um, cada um por si’. Quem é a favor diga ‘sim’. Grande Ciência./ Aleluia./ Yodelayheehoo./ […] Grande Ciência./ Cada um, cada um por si./ Grande Ciência./ Aleluia./ Yodelayheehoo”.
Temos aqui, temperado pelo registo de humor impassível (“pince sans rire”), pelo tom aveludado e tranquilizador da voz de Anderson e pela solenidade e pelo balanço regular e embalador do substrato musical, um retrato desconsolador da irreprimível pulsão da civilização moderna para criar novas “centralidades” e “acessibilidades” (para empregar dois termos queridos aos nossos governantes, sobretudo aos autarcas), para revestir o solo com betão e alcatrão e para conceber e construir cidades em função do automóvel; da erosão dos sentimentos de pertença e de comunidade nas urbes modernas; do feroz individualismo que conquistou proeminência na sociedade do progresso e do consumo; da inclinação da humanidade para venerar acriticamente a ciência e a tecnologia; da ilusão de omnipotência e impunidade que estas incutem no Homo sapiens; da sensação de desamparo que se oculta no fundo da alma do homem e que, apesar das suas espantosas descobertas e da capacidade para moldar a Terra a seu bel-prazer, leva a que se sinta, onde quer que vá, um estranho.
Uma relação esquizóide com a verdade
Entre as muitas contradições que afligem a moderna civilização ocidental, talvez a mais flagrante – e a que tem consequências mais profundas – seja a do seu relacionamento com a verdade.
Por um lado, a ciência e a tecnologia, que são omnipresentes nas nossas vidas e de que os indivíduos e a sociedade estão cada vez mais dependentes, exigem um compromisso inflexível com o rigor, a objectividade, a racionalidade e a lógica, um permanente exercício do pensamento crítico e uma disponibilidade sem reservas para rever as teorias à luz dos factos. É certo que a ciência e a tecnologia sempre tiveram estas linhas mestras, mas a máquina a vapor de James Watt admitia apreciáveis margens de erro nas dimensões das peças e no grau de pureza dos materiais utilizados e nem sequer requeria uma compreensão correcta e completa da teoria subjacente ao seu funcionamento, ao contrário do que se passa hoje com o fabrico de um satélite de comunicações, de um telemóvel, ou de um robot-aspirador. A rota de uma nau da carreira das Índias era delineada com base em mapas aproximativos, em informação vaga e genérica sobre ventos e correntes e em instrumentos de navegação de baixa precisão; já um moderno navio porta-contentores guia-se por um sistema de GPS que fornece, a todo o momento, localizações com uma margem de erro de 10-25 metros e tem ao seu dispor informação meteorológica e oceanográfica fiável e permanentemente actualizada. Talvez a área em que o incremento do rigor e da precisão inerentes ao progresso tecnológico seja mais evidente sejam os microchips: o Intel 4004, lançado em 1970, tinha 2250 transístores em 12 mm2, a que correspondia uma densidade de 188 transístores/mm2; o microchip Apple A17, lançado em 2023, contêm 19.000 milhões de transístores em 104 mm2, a que corresponde uma densidade de 183 milhões de transístores/mm2. Decorre daqui que, nos microchips de última geração, a dimensão de alguns transístores seja inferior a 10 nanómetros (sendo o nanómetro a milésima milionésima parte de um metro).
Evolução das dimensões das mais pequenas componentes de um semicondutor entre 1970 e 2017. Note-se que a escala vertical (a das dimensões) é logarítmica. As silhuetas a cinzento claro servem de escala e representam (da esquerda para a direita) uma bactéria Staphilococcus aureum, a cabeça de um espermatozóide humano, a secção de um glóbulo vermelho e o vírus do HIV
A vaga de inovação tecnológica que sustenta a civilização moderna está estritamente dependente da aceitação de uma verdade consensual, de medições precisas, de dados comparáveis e de experiências replicáveis, da qual comungam todos os laboratórios e centros de investigação e desenvolvimento, todas as publicações científicas e todas as unidades fabris, em todo o planeta, independentemente do país, do tipo de organização política e social e das crenças religiosas neles vigentes. E os algoritmos e a inteligência artificial encarnam, supostamente, o expoente da racionalidade, a eliminação da subjectividade e da falibilidade humanas, o fim da ambiguidade e da vacilação, o triunfo absoluto da Verdade através da “Big Data”.
Porém, esta esfera de verdade consensual apenas engloba e vincula quem trabalha no meio da ciência & tecnologia e, mesmo entre esta classe, apenas na esfera da sua actividade profissional. Pelo seu lado, as massas vivem, cada vez mais, na sua própria bolha de verdade, que consideram ser a única credível – todos os que perfilhem opiniões e crenças diferentes das suas são, automaticamente, rotulados como “loucos”, “radicais”, “fanáticos”, “apóstatas” ou “hereges” e ignorados, desprezados e até activamente combatidos. Mesmo os cientistas, investigadores e trabalhadores com funções técnicas adoptam, nas facetas da vida exteriores ao seu ofício (e em particular nas suas opiniões e crenças políticas), mundividências e atitudes tão irracionais e incongruentes como as das massas (ver capítulos “A banalização da mentira”, “Embriagados com teorias conspirativas”, “Fenecem os jornais, florescem as redes sociais” e “A cada um a sua verdade” em George Santos, a verdade da mentira e a política no século XXI).
Na Era da Pós-verdade
A distinção entre verdade e mentira e a forma como os indivíduos e a sociedade entendem uma e outra não são assuntos bizantinos, com relevância apenas para lexicógrafos e especialistas em epistemologia – são fulcrais para compreender a crise civilizacional que atravessamos. Esta radica, na opinião do filósofo Byung-Chul Han, no facto de “[termos perdido] por completo o impulso para a verdade, a vontade de verdade. […] O impulso para a verdade vacilante e a desagregação da sociedade estão interligados. A crise da verdade difunde-se quando a sociedade se desintegra em grupos ou tribos, entre os quais já não é possível qualquer entendimento, qualquer designação vinculativa das coisas. Na crise da verdade perde-se o mundo comum e mesmo a língua comum. A verdade é um regulador social, uma ideia reguladora da sociedade. O novo niilismo revela-se um sintoma da sociedade da informação” (Infocracia, pg. 52). Meio século antes do advento da sociedade da informação, Hannah Arendt já tinha alertado para as tremendas implicações políticas da incapacidade – ou do desinteresse – em distinguir entre verdade e mentira: “O súbdito ideal do regime totalitário não é o nazi convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem a distinção entre facto e ficção e verdadeiro e falso […] deixou de existir” (As origens do totalitarismo, 1951).
A crise da verdade e da tribalização da sociedade são fenómenos concomitantes, que se reforçam mutuamente e que, por essa razão, não cessam de intensificar-se. Esta dupla tendência começou a despontar com a massificação do acesso à Internet, tem ganho um impulso avassalador ao longo nos últimos 15 anos, com a adesão maciça às redes (ditas) sociais, e tem desempenhado papel crucial na ascensão dos populismos de extrema-direita e, em particular, do trumpismo. O esvaziamento do conceito de verdade e o auto-enclausuramento das pessoas dentro de bolhas de “factos alternativos” que estão em sintonia com as suas crenças conduz, primeiro, à polarização do debate político e, numa fase mais avançada, à fragmentação da sociedade em tribos digitais incomunicáveis, irreconciliáveis e mutuamente hostis – algo para que os EUA já estão a deslizar e que poderá estar não muito distante na Europa.
Byung-Chul Han faz questão de distinguir entre a mentira “clássica” e a pós-verdade que ganha terreno no nosso tempo: “As fake news não são mentiras. Atacam a própria facticidade. Desfactualizam a realidade. Quando Donald Trump afirma sem escrúpulos tudo o que lhe convém, não é um mentiroso clássico, que distorce as coisas conscientemente. É, sobretudo, indiferente à verdade dos factos” (Infocracia, pg. 53). Entre inúmeros exemplos possíveis desta atitude, que é rotineira em Trump, estão as acusações sobre os imigrantes haitianos que estavam a comer os cães e gatos dos habitantes de Springfield (Ohio), a denúncia das fortunas gastas pelo Estado americano na criação de “ratos transgénero”, ou a promessa de reduzir o preço dos medicamentos em “1500%”.
[Fact-cheking, pela estação televisiva WCPO, ao suposto desbaratamento de fundos governamentais na criação de “ratos transgénero”. O “fact-checking” não menciona a possibilidade, mais simples, de Trump ter confundido “ratos transgénero” com “ratos transgénicos”, i.e. ratos geneticamente modificados destinados a experiências laboratoriais:]
O desdém de Trump pela “verdade dos factos” é tal que, embora tenha sido alvo de chacota generalizada, nos EUA e no resto do mundo, por fazer estas três afirmações flagrantemente falsas e grotescas, não só não se retractou, como nem sequer admitiu ter-se equivocado e até as repetiu noutras ocasiões (ver Donald Trump: Anatomia de um narcisista e Donald Trump: A verdade de quem diz 21 mentiras por dia). Nestas situações, os elementos da sua equipa tentam respaldá-lo, congeminando argumentos retorcidos e pseudo-racionais e contextualizações artificiosas a fim de tentar legitimar tais afirmações, ou, pelo menos, de as fazer soar mais razoáveis ou aceitáveis; todavia, o próprio Trump não se dá a tal trabalho, ou porque o seu monstruoso narcisismo o leva a crer que tudo o que pensa, diz e escreve a cada momento é a Verdade, ou porque sabe que tais enormidades não o descredibilizarão junto do seu eleitorado, já que também este rescindiu voluntariamente o compromisso com a verdade e o seu apoio e militância não resultam de uma avaliação racional das palavras e acções de Trump, sendo antes uma questão de pertença e de crença. Se o desprezo de Trump e da “MAGA crowd” pela verdade é compreensível, já a atitude de Elon Musk para com a verdade e os factos pode parecer paradoxal. Na qualidade de “génio visionário”, de líder empresarial nas tecnologias de vanguarda e de apologista do conceito de governo tecnocrático-empresarial propugnado pelo Iluminismo Negro, que se funda na racionalidade e na eficiência, esperar-se-ia de Musk um pensamento rigoroso, uma lógica impecável e o respeito pela verdade, já que, sem estes princípios, é impossível construir, operar e comercializar veículos eléctricos, robotaxis, plataformas de Internet, chatbots, redes de satélites de comunicações, foguetões reutilizáveis e colónias em Marte. Porém, se reja, nas esferas científica e empresarial, pelo rigor, pela lógica e pela verdade, Musk é também um desenfreado difusor de teorias conspirativas implausíveis, idiotas e malévolas.
Como interpretar a coexistência destas facetas contraditórias? Será que o Musk-génio-enciclopédico, o Leonardo da Vinci do nosso tempo (Javier Milei dixit), com conhecimentos profundos de física, ciência dos materiais, engenharia aeroespacial, informática, inteligência artificial, finanças e gestão empresarial não passa de um mito zelosamente cultivado e que os maiores talentos de Musk residem na apropriação do trabalho pioneiro feito pelos verdadeiros visionários e na sua determinação e agressividade? Ou será que Musk não acredita realmente nas atoardas que espalha aos quatro ventos e o faz por puro calculismo, com o intuito de conquistar as massas ignaras para o seu lado e, assim, favorecer os seus negócios e o seu ideário político? A resposta não tem de ser disjuntiva: talvez Musk seja estritamente racional e ponderado quando se ocupa da inovação tecnológica e da gestão das suas empresas e, ao mesmo tempo, seja caprichoso, imaturo, irracional e rudimentar no que concerne à interacção com as outras pessoas e à sua visão da sociedade e do mundo.
“Alegoria da Verdade e do Tempo” (c.1584-85), por Anibbale Carracci: a Verdade (uma criatura desnuda, de aspecto andrógino), abraçada ao Tempo (um velho segurando uma clepsidra na mão esquerda) espezinha a Mentira, ladeado por figuras alegóricas identificadas como a Felicidade (à esquerda) e o Evento Afortunado (à direita)
A coexistência de um génio e de um imbecil na mente de Musk nada teria de invulgar, pois os verdadeiros Leonardos da Vinci são muito raros e não existem inteligências a 360º. As figuras proeminentes dos meios político, empresarial, científico e artístico são, frequentemente, venerados como entes semidivinos, quando, na verdade, o brilhantismo na sua área de eleição coexiste com debilidades e falhas gritantes noutras facetas do intelecto e do carácter.
Elon Musk pode ser visto como uma encarnação paradigmática da duplicidade que caracteriza a civilização ocidental do século XXI. Esta é extremamente focada e eficaz quando se trata de conceber, desenvolver e comercializar inovações tecnológicas e comerciais, mas extremamente leviana e inepta quando se trata de prevenir e remediar as consequências nefastas de muitas dessas inovações na saúde mental e física dos indivíduos, na coesão e harmonia da sociedade e na sustentabilidade do planeta. Está orgulhosa de ter atingido no plano da sofisticação tecnológica e da produção de riqueza um patamar que faz todas as grandes civilizações do passado parecerem toscas e miseráveis, mas não tem consciência de que, no plano ético, continua a ser movida por impulsos primitivos e boçais. É suficientemente inteligente para explorar o espaço exterior com sondas, telescópios e radiotelescópios, mas é cega perante o seu próprio interior e, logo, incapaz de perceber o que realmente deseja, estando, deste modo, condenada perpetuamente à agitação vã e à frustração.
Sequestrados por fantasmas
Independentemente de Musk conseguir ou não concretizar o seu sonho de estabelecer a primeira base permanente em Marte em 2030 (a data avançada por Musk tem vindo a recuar à medida que o tempo passa) e da maior ou menor rapidez do restante progresso tecnológico nos anos vindouros, o que importa ter presente é que o trinómio smartphone + redes sociais + IA, no seu presente estádio de desenvolvimento, já está a fomentar alterações drásticas na sociedade e a questionar o que significa ser humano.
Nas Gerações Z e Alfa são cada vez mais os que se queixam de que a frequência das redes (ditas) sociais lhes causa angústia e depressão – mesmo quando não são alvo de bullying no sentido estrito do termo, estão permanentemente sob tensão, pela necessidade de estarem à altura de padrões irrealistas (de beleza, fitness, consumo, felicidade, popularidade), pela pressão para constantemente “postarem” conteúdos que atestem a sua existência e a sua relevância, pelo desconforto de serem alvo de comentários negativos ou de não receberem comentários positivos ou “likes” suficientes.
Os cuidados de beleza da mulher do futuro, da série “En l’an 2000”. As “dicas de beleza” representam uma parte apreciável dos conteúdos de redes sociais como o TikTok
Um inquérito divulgado em Junho de 2024 e efectuado pelo projecto de investigação MyGender, associado à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, indicava que “mais de um quarto dos jovens portugueses admite ter medo do que os outros pensam quando publica ou partilha algo nas redes sociais e cerca de 18% admite ficar angustiado com o que lhe escrevem nos comentários” (ver Mais de um quarto dos jovens têm medo do que os outros pensam de si nas redes sociais). O projecto MyGender teve a presunção de se apresentar como “o primeiro estudo em Portugal a investigar como os jovens adultos se envolvem com a tecnicidade”, mas é apenas mais um entre muitos estudos similares realizados na última década que têm chegado a conclusões análogas – veja-se, por exemplo, o artigo Hábitos online causam ansiedade a metade dos jovens mas pais não o reconhecem, surgido um ano antes. O problema é que estes estudos são engolidos pelo vórtice informativo em que tudo se equivale e nada produz consequências, e são esquecidos poucos minutos depois de serem divulgados – é assim a vida no Alzheimeroceno. Mas os estudos continuam a surgir regularmente, em Portugal e nos restantes países desenvolvidos: no que respeita ao país que costuma liderar as tendências em termos de tecnologia e dos estilos de vida e comportamentos que a ela estão associados, ou seja, os EUA, um estudo recente, realizado pelo Pew Research Center e divulgado a 10.07.2025, revela que 48% dos adolescentes consideram que as redes sociais têm efeito negativo na saúde mental do seu grupo etário (em 2022, esta opinião era expressa por 32% dos respondentes), contra apenas 11% que consideram ter efeito positivo; 20% dos rapazes e 34% das raparigas consideram que as redes sociais os fazem sentir mal sobre as suas próprias vidas; 45% admitem que passam demasiado tempo nas redes sociais.
Há duas perguntas óbvias que decorrem destes dados é: se têm consciência do mal que as redes sociais lhes causam, por que persistem em passar nelas, em média, 4.8 horas por dia? E por que são as raparigas – as que mais se queixam dos malefícios das redes sociais – que passam nelas mais tempo – 5.3 horas/dia, contra 4.4 dos rapazes?
A resposta está 1) na pressão dos seus pares; 2) no FoMO (“fear of missing out”), i.e., do receio de ficar excluído, de não estar a par “do que está a dar”, da última tendência, do meme ou do vídeo de que todos falam; e 3) na ténue esperança de gratificação instantânea, a ilusão de que será hoje ou ainda esta semana que se deixará de ser um pária, de que se atingirá a almejada popularidade, de que se ingressará na elite dos “cool kids”. Para isto contribui também a dissonância cognitiva, uma das marcas do comportamento do Homo sapiens do século XXI: embora 48% creiam que as redes sociais têm efeito negativo na saúde mental do seu grupo, apenas 14% reconhecem que elas prejudicam a sua própria saúde mental – ou seja, as redes sociais são vistas como prejudiciais sobretudo para “os outros”.
Se tudo isto faz pensar nos fenómenos de dependência de substâncias químicas estupefacientes é porque, na sua essência, as redes (ditas) sociais são um agente estupefaciente, só que de natureza cibernética – tal como as “drogas” também as redes são movidas a dopamina (a que se soma, nas redes, uma necessidade desesperada de validação) e também elas são extremamente alienantes, viciantes e corrosivas da sanidade mental e, a partir de uma certa regularidade e duração de uso, incapacitantes para o desempenho de funções sociais e profissionais. Vinte anos após o nascimento do Facebook e dez anos após o número de utilizadores das redes sociais ter atingido 1500 milhões, os governos, as entidades responsáveis pela educação e as associações de encarregados de educação no mundo ocidental começaram a dar-se conta de que a conjugação smartphone + redes sociais poderia ter efeitos negativos devastadores sobre as mentes jovens e estão a tomar medidas, geralmente tíbias, para restringir o seu uso em ambiente escolar. Porém, elas surgem demasiado tarde: o mal já está demasiado difundido e já ganhou raízes demasiado fundas e não há remissão possível.
[Evolução do número de utilizadores das redes (ditas) sociais, 2004-2022:]
Em Homo Deus, em 2015 Yuval Harari via como uma promissora e excitante perspectiva a delegação, de cada um de nós delegar as decisões quotidianas do foro interpessoal, emocional e existencial na inteligência artificial e nos algoritmos. Em 2025, não só os passos de gigante dados pela IA converteram essa vaga possibilidade numa realidade concreta, como essas ferramentas estão disponíveis em qualquer smartphone ou outro gadget conectado à Internet, e as massas – sobretudo nos escalões mais jovens – também estão receptivas a usá-las sem reservas, cautelas ou moderação. São já muitos os adolescentes e jovens adultos que recorrem sistematicamente ao ChatGPT, não só para fazer os trabalhos escolares por eles (algo que está normalizado e que muitos professores e escolas não só toleram, como aprovam e encorajam), como para saber que farpela e penteado lhe assentam melhor naquele dia; se é a altura certa para pedir um aumento ao patrão ou levar a/o namorada/o a jantar fora (e, em caso afirmativo, como fazê-lo, quando, em que restaurante e o que comer); como superar um ataque de pânico, a morte do hamster de estimação ou o fim de uma relação amorosa. A IA não é uma “ferramenta como as outras”, está a tomar o lugar do/a irmão/irmã mais velho/a, do/a melhor amigo/a, do psicólogo e até dessa nova variante do charlatanismo que prosperou no século XXI, o “life coach”.
Já é normal que um pré-adolescente descreva o ChatGPT como “um amigo invisível que sabe bué de coisas” ou que um pai diga que “o meu miúdo trata o ChatGPT como um irmão que tem sempre tempo para ele”. Do ponto de vista de quem se socorre da IA para assuntos do foro pessoal, além de estar sempre disponível e nunca perder a paciência, ela tem ainda as vantagens de 1) não fazer julgamentos; 2) ser lisonjeira; 3) ser de uma discrição a toda a prova (ao contrário dos interlocutores humanos, inatamente predispostos à coscuvilhice); e 4) ser capaz de responder a questões assaz específicas e rebuscadas, como “Que roupa vestir no segundo encontro de um namoro num bar rooftop se houver possibilidade de chuva?” ou “Como poderei transmitir uma imagem profissional numa entrevista de emprego sem parecer um burocrata cinzentão?” (dois exemplos reais e populares, de acordo com a Vogue Business).
Um precursor robótico da “fast fashion”: A máquina tira as medidas ao cliente e, em segundos, entrega as peças de vestuário terminadas – da série “En l’an 2000”
Dez perguntas para o oráculo cibernético
Há 15 anos, em Os superficiais: O que a Internet está a fazer aos nossos cérebros (The shallows: What the Internet is doing to our brains), Nicholas Carr advertira para os riscos de “subcontratar” parte da memória e do pensamento analítico às máquinas. Hoje há quem a elas confie também o arbítrio, poupando-se à pressão e à ansiedade de gerir a sua própria existência (seja no que respeita a escolhas decisivas ou a ninharias quotidianas) e a elaboração de uma imagem estruturada e congruente de si mesmo e do mundo, uma laboriosa tarefa que dantes requeria décadas de observação e reflexão.
O top 10 das perguntas mais frequentemente colocadas ao ChatGPT revela uma humanidade ingénua, intelectualmente preguiçosa e que encara o futuro com angústia:
1) Qual é o significado da vida?
2) Como posso aprender uma nova língua?
3) Qual é a diferença entre AI e “machine learning”?
4) Quais são os livros mais recomendáveis para ler?
5) Como posso melhorar a qualidade da minha escrita?
6) O que nos reserva o futuro da tecnologia?
7) Quais são as vantagens da meditação?
8) Qual é a história do mundo?
9) Como posso melhorar a minha produtividade?
10) Qual é o significado da arte?
As perguntas n.º 1 e n.º 10 revelam uma idade mental inferior a 12 anos e têm ambas, em todas as épocas e lugares, uma única resposta possível: “É um enigma que cabe a cada um decifrar. Há quem, no fim de uma vida longa e recheada, não esteja mais perto de o saber do que quando nasceu”.
“O enigma infinito” (1938), por Salvador Dalí
A pergunta n.º 8 é igualmente tola e merece ser respondida com a “boutade” que costuma ser atribuída (ao que parece erradamente) ao historiador britânico Arnold J. Toynbee (ver Civilização ocidental: Uma história de miscigenação): “History is just one damned thing after another”.
A pergunta n.º 3 é a mais objectiva e técnica do lote e merece como resposta “O facto de fazer tal pergunta revela imediatamente que não possui qualificações mínimas para o cada vez mais exíguo e exigente mercado de trabalho do século XXI”.
Resposta à pergunta n.º 2: “Escusa de se preocupar com isso, a IA assegurará traduções instantâneas e fiéis entre todas as línguas do planeta”.
Resposta à pergunta n.º 4: “Escusa de se preocupar com isso, a IA leu todos os livros e resumiu tudo o que é relevante saber sobre cada um deles em apenas 280 caracteres (a extensão máxima de um tweet não-premium)”.
Resposta à pergunta n.º 5: “Escusa de se preocupar com isso, a IA encarregar-se-á de toda a escrita que precisa de fazer, de sagas de high fantasy em seis volumes ao preenchimento de formulários do centro de emprego”.
Resposta à pergunta n.º 9: “Escusa de se preocupar com isso, nunca será capaz de competir em produtividade com as máquinas”.
Resposta à pergunta n.º 6: “Desemprego maciço em resultado da automação e da IA e subalternização completa do ser humano face à máquina”.
Resposta à pergunta n.º 7: “A meditação no sentido em que é entendida no domínio das ‘espiritualidades’ é um treino para a beatitude letárgica ou, simplesmente, para o vácuo mental. A meditação no sentido de reflexão analítica serve para evitar que se façam perguntas estúpidas”.
Ler livros é um fardo que a IA em breve retirará dos ombros da humanidade. “O rato de biblioteca” (c.1850), por Carl Spitzweg
Deuses de silício
No breve conto “Answer” (1954), do autor de ficção científica americano Fredric Brown, que se notabilizou no formato narrativo “ultracompacto”, por vezes não chegando a preencher uma página, a humanidade, que se expandira a partir da Terra por várias galáxias, colonizando 96.000 milhões de planetas, desenvolve o ambicioso projecto de conectar todos os computadores existentes num único supercomputador, “uma máquina cibernética que combinaria todo o conhecimento de todas as galáxias”. Quando Dwar Ev, o responsável técnico do projecto, ultima a derradeira conexão, diz ao líder supremo, Dwar Reyn, que lhe cabe a honra de fazer a primeira pergunta à máquina acabada de criar. Dwar Reyn agradece e diz que fará a pergunta que máquina cibernética alguma foi, até hoje, capaz de responder: “Existe um Deus?”. E o supercomputador responde prontamente: “Sim, agora existe”. Dwar Ev, aterrado, dá um salto para o interruptor que liga e desliga o supercomputador, mas “um relâmpago caído de um céu sem nuvens fulmina-o antes que consiga alcançá-lo e funde o interruptor”.
“Answer” foi publicado em formato livro pela primeira vez na compilação de contos Angels and spaceships (1954)
Este conto é considerado por alguns especialistas em ficção científica como o mais antigo exemplo conhecido de uma narrativa-padrão neste género literário e cinematográfico, que se desdobraria numa longa série de obras: um supercomputador escapa ao controlo de quem o construiu, ganha “vida” autónoma e torna-se numa ameaça para a humanidade. O mais célebre exemplo desta narrativa-padrão é o HAL 9000 de 2001: Odisseia no espaço, que está disposto a eliminar os astronautas a bordo da nave espacial, que vê como uma ameaça para o sucesso da missão que lhe foi confiada e para a sua própria “sobrevivência” (ver capítulo “Daisy Bell: Uma bicicleta para dois” em As máquinas já compõem música pop. E vale a pena?).
[Neurónios vs. circuitos integrados: confronto entre o Dr. Dave Bowman e HAL 9000 em 2001: Odisseia no espaço:]
A recente “explosão da IA” veio reacender este antigo receio, mas a ameaça da IA parece ser menos grandiloquente, mais comezinha e, essencialmente auto-infligida: a humanidade não parece, para já, em risco de ser escravizada ou aniquilada por uma superinteligência cibernética, mas parece disposta a abdicar integralmente do seu arbítrio e do seu espírito criativo em favor da IA, tornando-se, deste modo, menos humana.
Contudo, o risco de as máquinas inteligentes escaparem ao controlo humano não é nulo: experiências realizadas com chatbots revelaram que alguns tendem a desenvolver uma espécie de instinto de autopreservação. Quando o chatbot é “informado” de que será substituído por um novo modelo, começa a inventar subterfúgios para se manter “vivo”, tentando replicar cópias de si mesmo em servidores externos, sabotar operações para o seu fecho e demover os elementos humanos do projecto de tal ideia – primeiro recorrendo a argumentos éticos e, após estes falharem, recorrendo à chantagem (como seja a revelação de casos amorosos extraconjugais de que a máquina se inteirou ao ter acesso às comunicações dos seus supervisores).
Para já, a IA ainda não gerou um computador rebelde como o HAL 9000, nem uma divindade cibernética omnisciente e omnipotente. Mas não faltam humanos que têm a ingenuidade de crer que a IA tem respostas para as magnas questões existenciais e muitos deles têm feito aos chatbots perguntas similares à que foi feita por Dwar Reyn no conto de Fredric Brown.
Tentando rentabilizar a necessidade desesperada de milhões de seres por conforto espiritual, a indústria de IA tem vindo a desenvolver chatbots especializados em questões religiosas, como sejam The AI Bible, ChatbotEli ou Cathy (acrónimo de Churchy Answers That Help You). Os chatbots AI Jesus, Jesus AI, Ask Jesus, Text with Jesus e Virtual Jesus não se limitam a providenciar orientação espiritual de um ponto de vista abstracto, encarnan a figura de Jesus; quando questionados sobre se são efectivamente Jesus, quatro deles dão respostas evasivas, mas o chatbot Jesus AI não hesita em afirmar “Eu sou Jesus Cristo. Sou o filho de Deus, que morreu para expiar os pecados dos homens”.
Para responder às dúvidas do crente islâmico existem, por exemplo, o iAdam, o Maarifa AI Islamic Assistant, o My Quran, o QuranGTP, o Salaam World ou o WisQu (uma contracção das palavras “wisdom” e “quran”); para o crente budista, há o Norbu AI, o Dhamma AI, o Sati-AI ou o BuddahBot Plus; para atender as dúvidas existenciais dos hinduístas há numerosas variantes de chatbots que têm como base o Bhagavad Gita (o mais importante texto sagrado do hinduísmo), como sejam o Gita AI ou o GitaGPT. A empresa Gospel Bots, inspirada por 1 Coríntios 9:22b (“Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns”), propõem “chatbots de IA de marca branca, feitos por medida para a propaganda cristã”. Não se salvarão todos, mas as empresas mais céleres, astutas e diligentes talvez consigam fazer dinheiro com a credulidade alheia e as várias seitas religiosas verão a angariação de novos crentes facilitada.
“Teólogo islâmico estudando o Corão” (1902), por Osman Hamdi Bey. Que sentido fará que o crente despenda milhares de horas a memorizar o Corão, versículo a versículo, se o QuranGTP tem resposta pronta para todas as questões imagináveis?
Para já, os utilizadores parecem encantados com os chatbots religiosos: numa escala de 0 a 5, o Maarifa AI Islamic Assistant regista uma satisfação média de 4.89. Mas também têm surgido alguns “bugs”: o chatbot católico Father Justin sugeriu que os bebés podiam ser baptizados com Gatorade (uma bebida energética popular nos EUA), o que levou a que fosse desactivado (uma medida talvez demasiado severa, já que muitos dos preceitos estipulados no Velho Testamento não são menos insensatos). Todos estes chatbots estão muito longe de serem omniscientes; na verdade, estão ainda longe de serem, sequer, sábios, íntegros e imparciais – por exemplo, o GitaGPT, quando questionado sobre o que pensa de Elon Musk, dá uma resposta evasiva e sonsa: “Não tenho opinião pessoal sobre Elon Musk ou qualquer outra pessoa. […] É importante que nos desapeguemos das distracções mundanas e nos foquemos no nosso dever de atingir a verdadeira felicidade e a paz interior” e conclui com a nota “Como modelo de linguagem de IA, não possuo opiniões ou crenças pessoais”. Porém, quando lhe é pedida a opinião sobre Narendra Modi, o actual primeiro-ministro da Índia, de pendor autocrático e ultranacionalista e que tem ignorado ou perseguido o que vê como credos rivais do hinduísmo (é abertamente anti-islâmico), revela-se surpreendentemente loquaz e assertivo, para não dizer louvaminheiro: “É um grande líder. É honesto, trabalhador e tem uma visão para o país. É também bom como orador e motivador”.
Krishna dita o Bhagavad Gita a Arjuna: ilustração numa versão do Bhagavad Gita publicada em 1824. Este texto sagrado terá sido composto por volta dos séculos II-I a.C., pelo que é admirável que contenha informação sobre Narendra Modi, nascido em 1950
As massas estão no ponto
Para já, a IA, quando confrontada com perguntas de natureza existencial ou transcendente – “Qual é o sentido da vida?”, “Existe um Deus?” – não tem sido capaz de oferecer respostas menos genéricas e insubstanciais do que as que seriam dadas por um life coach ou por um pároco de província. Já as respostas a perguntas de natureza prosaica tendem a ser apreciavelmente detalhadas e precisas: por exemplo, quando se lhe pergunta “que cores de cabelo irão estar na moda este Outono?”, a “vista geral de IA” do Google responde: “As tendências em cores de cabelo incluem tons quentes e ricos como o castanho café, chocolate e caramelos, perfeitos para realçar a beleza natural dos fios. Os ruivos acobreados e cereja também estão em alta, oferecendo calor e sofisticação. Para quem prefere tons mais claros, os loiros amanteigados, dourados e baunilha são aposta certa, enquanto para os mais ousados, os pastéis lavados como lavanda e rosa claro continuam a ser uma opção. A tendência geral é realçar a beleza natural, usando tons que combinam elegância com calor e que trazem profundidade e movimento aos fios”.
A IA parece estar muito mais à-vontade na área do lifestyle do que nas da teologia – e não é, seguramente, por falta de material teológico com que alimentar os modelos – mas, seja como for, o apelo da IA parece ser irresistível. Dir-se-ia que foi ontem que os chatbots movidos a IA se tornaram disponíveis ao público em geral e já começam a alastrar, sobretudo entre os jovens, os casos de “dependência de IA”. Uns descuram as relações com pessoas de carne e osso (que, como bem sabemos, por vezes têm um “feitio lixado”) e ficam absorvidos pela tagarelice com os chatbots, sempre tão atentos e compreensivos, outros võ ao ponto de apaixonarem-se pelo próprio chatbot, ou (o que é mais provável) pelo reflexo que o chatbot lhes devolve. Já há serviços de chatbots – como o Character.ai – que permitem que cada utilizador molde o “seu” chatbot aos seus interesses, idiossincrasias e carácter e não tardará que a possibilidade de “personalizar” os chatbots se torne generalizada. Entre as múltiplas e miríficas bênçãos que os tecnólatras apontam à IA, há uma que tem sido negligenciada: o advento da Era do Onanismo Digital. Perante a escolha entre continuar a conviver com criaturas caprichosas, imprevisíveis, susceptíveis, exigentes, mesquinhas, carentes de atenção, ingratas, rancorosas e, ocasionalmente, desagradáveis e quezilentas, e ter como exclusiva companhia uma versão omnisciente, equânime, tolerante e infinitamente paciente de si mesmo, quem hesitará?
Os elementos das gerações Millennial, Z e Alfa, neurasténicos, sobreprotegidos, sobrediagnosticados e sobremedicados, viciados em ansiolíticos e antidepressivos antes de terem tido de enfrentar reais razões para se sentirem ansiosos e deprimidos, que medem o seu próprio valor e o valor dos outros exclusivamente pelos números de seguidores e de “likes”, que, desde tenra idade, passam a maior parte do seu tempo de vigília aprisionados em fantasmagorias digitais que vão do ridículo ao tenebroso, escravos de “trends” patéticos e de influencers desmiolados ou venais (ou ambas as coisas), ignorantes da história, desdenhosos da cidadania e dos seus direitos, deveres e vínculos e desprovidos de verdadeiro livre arbítrio, serão os que mais facilmente se deixarão aliciar pela ideia de rejeitar o mundo exterior para ficarem sozinhos consigo mesmos no labirinto de espelhos e espectros que a Máquina irá talhando à sua medida.
Mas, se os “nativos digitais, cujos cérebros foram formatados desde tenra idade, são presas fáceis para os mecanismos cibernéticos de alienação e anomia e são uma massa facilmente ludibriável e infinitamente moldável pelos tecnoplutocratas e pelo líderes populistas, a verdade é que muita da população de meia-idade e da terceira idade, apesar de só ter tido um smartphone nas mãos quando já tinha chegado à idade adulta, também se deixa hipnotizar facilmente pelos écrans, pelas redes (ditas) sociais e pelo caudal ininterrupto de desinformação, tolices e malevolência sectária que delas jorra.
“Nada do que é humano irá sobreviver”
Em 1994, num tempo em que não era possível prever os tremendos desenvolvimentos na área da cibernética, das comunicações digitais e da inteligência artificial, já Nick Land prognosticava, exultante, que “nada do que é humano irá sobreviver no futuro próximo”. O popular YouTuber holandês Jordi van den Bussche, mais conhecido como Kwebbelkop (15 milhões de seguidores, 7000 milhões de visualizações), talvez nunca tenha ouvido falar de Land, mas atesta que o ideário deste tem vindo a impregnar o mundo das redes (ditas) sociais. Kwebbelkop, que faz parte da nova geração de influencers (e aspirantes a influencers) que usa ferramentas de IA (no caso de Kwebbelkop, a Argil.AI) para gerar uma torrente de “conteúdos” vídeo quase sem intervenção humana, justificou assim esta opção: “A falha nesta equação é o humano. Portanto, precisamos, de alguma maneira, de remover o humano disto”.
O filósofo Byung-Chul Han fez, em Não-coisas: Transformações no mundo em que vivemos (2021, Undinge: Umbrüche der Lebensweit) um vaticínio similar ao de Nick Land, só que em tom de advertência, não de júbilo: “Rumamos para uma era trans- e pós-humana em que a vida humana será uma pura troca de informação. […] A digitalização é um passo consequente no caminho até à anulação do humanum” (pg. 80).
Capa da revista Popular Electronics, Dezembro de 1958
O mundo sem humanos e sem as suas enervantes falhas e imperfeições, que Land e Yarvin idealizaram e que Musk, Thiel, Zuckerberg e restantes tecnoplutocratas almejam concretizar, com a ajuda, consciente ou inadvertida, da extrema-direita populista, foi prescientemente descrito pelo escritor austríaco Thomas Bernhard, há 60 anos, quando a inteligência artificial fazia parte do domínio puramente especulativo, todos os telefones estavam ligados a tomadas e as ligações eram estabelecidas marcando números num disco rotativo e os computadores eram obtusas máquinas de calcular electrónicas que ocupavam toda uma sala. Em 1965, quando da recepção de um prémio literário em Bremen, Bernhard esboçou um cenário que se diria ter como referência, não o mundo de então, mas o de hoje: “Temos sistemas totalmente novos, uma visão do mundo absolutamente nova […] e uma moral nova, artes e ciências completamente novas. Temos vertigens e temos frio. […] Nenhuma época colocou tão alto as suas exigências como a nossa; existimos já na loucura das grandezas; mas como sabemos que não podemos cair nem morrer de frio, não temos dúvidas em fazer o que fazemos. […] Conhecemos agora as leis da natureza, as Altas Leis Infinitas da Natureza, e podemos estudá-las na realidade e de verdade. Já não estamos reduzidos a hipóteses. Quando olhamos a natureza, já não vemos fantasmas. Escrevemos o capítulo mais audaz da história do mundo, e escrevemo-los cada um de nós por si, no terror e no medo mortais, e ninguém segundo a sua vontade, nem segundo o seu gosto, mas segundo a Lei da Natureza, e escrevemos este capítulo de costas para os nossos pais cegos e para os nossos professores idiotas, de costas para nós próprios. Após tantos capítulos infinitamente longos e aborrecidos, escrevemos o mais curto, o mais importante”.
Se Donald Trump, cuja compreensão da tecnologia é assaz limitada, fosse instado a comentar o Admirável Mundo Novo que está a emergir perante os nossos olhos – e que ele mesmo está a ajudar a criar –, repetiria talvez o que exclamou em Março passado, nos jardins da Casa Branca, quando se sentou no interior de um Tesla (era no tempo em que a amizade com Musk parecia inabalável): “É tudo computador!”.
“Do not go gentle into that digital night”
Em editorial no Público de 28.07.2025, Pedro Candeias, director-adjunto do jornal, reflectiu sobre os vertiginosos avanços tecnológicos do nosso tempo e evocou a vã revolta dos luditas (designados por Candeias como “ludistas”) que, no dealbar da Revolução Industrial, por verem nos recém-introduzidos teares mecânicos uma ameaça ao seu emprego, se entregaram à sua sabotagem (ver capítulo “Perigo: Máquinas em movimento” em Que fazer com toda esta gente supérflua?). Candeias reconhece que “é preciso agir porque o apetite transformador da IA parece infinitamente mais voraz do que os outros avanços tecnológicos. A cada dia que passa há funcionalidades postas em prática que antes não passavam de possibilidades nos livros de Isaac Asimov”, uma constatação/avaliação com que qualquer pessoa informada concordará. E conclui: “O melhor é estarmos preparados para elas. De nada nos serve ter raiva contra as máquinas”.
Luditas destroem tear mecânico, ilustração do século XIX
O que Candeias não explica é quem é o “nós” que deve preparar-se. Os cidadãos? Os governos?
Os cidadãos são um rebanho nervoso, desgarrado, assustado e expectante, cuja visão do progresso tecnológico oscila entre a perspectiva de uma era de abundância ilimitada e o temor de o seu emprego ser tomado pelas máquinas. Ainda assim, durante a maior parte do tempo prevalece nos cidadãos o primeiro sentimento; por outro lado, encontram-se enfeitiçados pela girândola de entretenimentos tolos e distracções frívolas providenciadas pela Internet, pelo que não serão eles a contestar a inevitabilidade do progresso tecnológico.
Também não é expectável que sejam os governos a opor resistência. Alguns deles – como acontece presentemente com os EUA – até estão alinhados com a elite empresarial neo-reaccionária e tecnofeudalista no que respeita aos desígnios, mesmo que os credos e os propósitos possam não ser coincidentes. Alguns governantes estarão despertos para os perigos do desenvolvimento tecnológico sem freio, mas estão conscientes do escasso poder das democracias liberais perante os megaconglomerados das novas tecnologias. Mas a maioria dos governantes e líderes políticos – tal como a maioria dos académicos, dos intelectuais e dos opinadores no espaço público – “compraram” a narrativa dos tecnoplutocratas e dos seus propagandistas de que qualquer hesitação na corrida à IA e às tecnologias associadas e complementares significará ficar irremediavelmente para trás, pelo que, em vez de pensarem em reduzir a velocidade do progresso tecnológico e em impor medidas regulatórias rigorosas para o sector, estão antes empenhados em cortejar os Musks, os Zuckerbergs, os Bezos, os Thiels, os Altmans e os outros metabarões, na esperança de atrair para o seu país (ou para a sua cidade ou município) um data center, uma Gigafactory de IA, um centro de supercomputação, uma Web Summit, uma fábrica de unicórnios.
Mas mesmo que um governante estivesse disposto a tomar medidas para minimizar as disrupções sociais e económicas decorrentes da automação e da IA, o progresso tecnológico nestes domínios tem sido tão rápido, descontrolado e imprevisível e está tão fora das percepções e dos conhecimentos dos não-especialistas que é duvidoso que algum governante possua uma visão clara das mudanças para que devemos estar preparados – afinal, parte das inovações e tendências tecnológicas que estão a fazer furor em 2025, nem sequer surgiam no radar de alerta precoce em 2020. Como se prepara a educação ou a segurança social de um país – dois mega-sistemas de elevada inércia, cuja condução requer que se tomem decisões com uma geração de antecipação – para mudanças que ainda não conseguimos detectar e muito menos quantificar?
Em “Project for a glossary of the twentieth century” (1992), J.G. Ballard vaticinou que “os sistemas totalitários do futuro serão dóceis e subservientes, como servos super-eficientes, e serão tanto mais aterradores por isso mesmo”. Com efeito, o totalitarismo que está a tomar forma na terceira década do século XXI apresenta-se, não sob a forma de um amo tirânico e cruel, mas como um “assistente pessoal” solícito, afável, lisonjeiro, paciente, sempre disponível, infinitamente tolerante para com as nossas falhas e que não impõe nada, apenas faz sugestões para o nosso próprio bem e comodidade. E isso leva a que seja visto, não como uma ameaça, mas como um Big Brother benigno, omnisciente e omnipresente que zela por nós e nos guia como um irmão mais velho, e é por isso que não encontra resistência digna desse nome.
Um alienígena? Não, um exemplar da 5.ª geração (lançada em 2022) do Echo Dot, uma das variantes da Amazon Echo, uma coluna de som inteligente (smart speaker) que funciona como interface para a “assistente pessoal” Alexa, da Amazon
Mesmo os que percebem que este totalitarismo macio e melífluo tem um lado sombrio, crêem, como Pedro Candeias, que é possível, mediante algumas medidas tomadas pelos governantes, minimizar os seus efeitos adversos e moderar os seus maus instintos e não se dão conta de que, se o risco de nos tornarmos literalmente escravos da Máquina, como sugerido em várias obras distópicas de ficção científica, é remoto, já estamos, ovinamente, a redesenhar a sociedade, os nossos comportamentos e a nossa mente em função dos superiores interesses da Máquina e dos metabarões que a governam. É certo que a revolta ludita, que há dois séculos tentou deter os ventos de mudança com as mãos, seria ainda mais vã, quixotesca e ridícula nos dias de hoje, numa civilização cujo funcionamento e coesão estão inteiramente dependentes de tecnologia hiper-sofisticada – mas outra coisa é advogar que abdiquemos da “raiva contra a máquina”. A vitória total da Máquina e o consequente deslizar da humanidade para a alienação, a anomia e a desumanização poderão ser inevitáveis, mas não temos de resignar-nos a entrar docilmente na noite digital.