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Em abril, as emissões poluentes atingiram um mínimo histórico, mas a queda foi temporária

dpa/picture alliance via Getty Images

Em abril, as emissões poluentes atingiram um mínimo histórico, mas a queda foi temporária

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A Covid-19 não acabou com o aquecimento global. Os gráficos que mostram o regresso das emissões poluentes /premium

Apesar do otimismo, o cenário era previsível: após queda histórica motivada pelo confinamento, emissões de CO2 estão de novo perto dos valores pré-pandemia. Veja os gráficos sobre Portugal e o mundo.

Primeiro surgiu o otimismo: devido à pandemia da Covid-19, cerca de um terço da população mundial chegou a estar sujeita ao confinamento domiciliário, os aviões ficaram em terra, as cidades esvaziaram-se e uma grande parte da indústria parou. Como consequência, as emissões poluentes em todo o mundo, incluindo em Portugal, caíram a pique. Na China, o maior poluidor do planeta, as emissões chegaram mesmo a descer 25%. Os ambientalistas, porém, moderaram o otimismo generalizado com uma certeza: com o desconfinamento, as emissões poluentes regressariam aos valores de anteriormente. Restaria saber que lições tirar do período do confinamento sobre o impacto humano no planeta e aproveitar a paragem para relançar a economia de forma sustentável.

Agora chega a resposta concreta: depois de uma queda acentuada durante o confinamento, as emissões de dióxido de carbono estão a regressar aos valores de 2019. Em alguns países e setores, os valores já retomaram a normalidade; noutros, como Portugal, as emissões estão já muito perto dos valores anteriores. A conclusão é de um estudo publicado em maio na Nature Climate Change por um conjunto de cientistas do Reino Unido, Estados Unidos, Noruega, Países Baixos, Austrália, França e Alemanha, a partir de uma base de dados mundial própria, entretanto atualizada com números até ao dia 11 de junho sobre as emissões de dióxido de carbono em todo o mundo, por país e por setor de atividade.

Este estudo permite agora perceber, concretamente, o impacto da pandemia no ritmo da poluição. De acordo com os dados compilados pelos cientistas (com base em múltiplas fontes, incluindo registos de atividade, dados sobre as emissões e informações sobre normas adotadas pelos governos), as emissões de dióxido de carbono a nível global atingiram o mínimo nos primeiros dias de abril, altura em que se estima que o mundo tenha emitido uma média diária de 83 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Trata-se de uma redução de cerca de 17% relativamente aos números de janeiro, em linha com os valores de 2019, de cerca de 100 milhões de toneladas de dióxido de carbono por dia.

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Contudo, no dia 11 de junho, último momento para o qual há dados disponíveis, as emissões diárias mundiais de dióxido de carbono já rondavam as 95 milhões de toneladas. A redução, que começou a ser sentida com maior expressão no final de janeiro, começou a reverter-se no final de abril. Durante o mês de maio, altura em que praticamente todo o mundo começou — em diversos moldes — o desconfinamento, as emissões subiram a uma velocidade quase igual àquela a que tinham descido. Neste momento, os valores globais estão praticamente iguais aos do início do ano.

Os autores do estudo calculam que este período de confinamento, em que as emissões sofreram uma redução significativa, poderá ter um impacto nas emissões poluentes do ano 2020 entre os 4% e os 7%. O primeiro valor representa o impacto médio estimado para um cenário em que as condições pré-pandemia sejam restabelecidas a partir de meados de junho. O segundo valor tem em conta a possibilidade de se manterem restrições que impeçam a normalidade até ao final do ano.

17%

Nos primeiros dias de abril, a média diária de emissões de dióxido de carbono para a atmosfera a nível mundial foi cerca de 17% inferior aos números registados no ano passado.

Transportes foram principal fonte de redução de emissões

De acordo com os cientistas que compilaram esta base de dados — até agora, a mais detalhada e abrangente sobre o impacto da pandemia nas emissões poluentes —, o setor que mais contribuiu para a redução das emissões de dióxido de carbono durante o período do confinamento foi o dos transportes de superfície. Segundo o estudo, praticamente metade da redução das emissões deveu-se a este setor, em que os autores da investigação contabilizaram toda a circulação rodoviária (incluindo, além dos carros ligeiros, os transportes de mercadorias e os transportes públicos) e também a circulação de navios de mercadorias a nível global. Os dados foram calculados com base em fontes como os indicadores de mobilidade da Apple e informações governamentais sobre o trânsito.

No início de abril, este setor estava a emitir, a nível mundial, menos 7,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono por dia em relação aos valores do início do ano. É uma redução mais de três vezes maior do que a provocada pela paralisação do transporte aéreo a nível mundial: no início de abril, o setor da aviação emitia menos cerca de 2,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera todos os dias.

A descida nas emissões de dióxido de carbono verificou-se em praticamente todos os setores. No que diz respeito ao consumo de energia, os autores do estudo estimam que tenha sido responsável pela emissão de menos cerca de 3,1 milhões de toneladas de CO2 por dia na primeira semana de abril. Para este indicador, os cientistas tiveram em conta os valores verificados nos EUA, num conjunto de países europeus e na Índia — e tiveram ainda de normalizar os valores tendo em conta as variações de temperatura e consequente alteração nos consumos energéticos para o aquecimento.

No que diz respeito à indústria, estima-se que no início de abril o setor tenha emitido a nível global menos 4,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Por seu turno, o setor público — categoria em que os autores incluíram os edifícios de serviços públicos e todo o tipo de estabelecimentos de comércio e serviços — contribuiu com menos 800 mil toneladas de dióxido de carbono por dia. Em sentido inverso, mas também expectavelmente, o único setor em que as emissões poluentes aumentaram foram as habitações, que passaram a estar ocupadas durante todo o dia: no início de abril, as casas estavam a emitir mais 150 mil toneladas de CO2 por dia.

No conjunto da União Europeia e Reino Unido, o mínimo das emissões de dióxido de carbono foi atingido nas duas primeiras semanas de abril, período durante o qual o bloco emitiu menos cerca de 2,6 milhões de toneladas de CO2 para a atmosfera por dia, uma redução de cerca de 27% face aos números médios registados nos últimos anos, de cerca de 9,6 milhões de toneladas por dia. Com grande parte das fronteiras internas e externas fechadas e com as grandes cidades praticamente paralisadas, os setores da aviação, dos transportes, da indústria e do comércio levaram a uma queda significativa nas emissões — mas que, entretanto, já foi praticamente revertida. Em junho, a UE e o Reino Unido estavam a emitir apenas menos 758 mil toneladas de CO2 por dia para a atmosfera.

Nos Estados Unidos, a redução foi maior: em meados de abril, o país chegou a emitir menos cerca de 4,5 milhões de toneladas de CO2 por dia, uma quebra de cerca de 30% relativamente aos valores dos anos anteriores, que apontavam para uma média de 14,5 milhões de toneladas por dia. Em junho, as emissões norte-americanas já estavam apenas um milhão de toneladas abaixo do normal diário, em sentido crescente.

O setor que mais contribuiu para a redução das emissões de dióxido de carbono durante o período do confinamento foi o dos transportes de superfície, que inclui transporte rodoviário e marítimo. Foi responsável por perto de metade da quebra de emissões.

Na China, país responsável por mais de um quarto das emissões de CO2 do planeta e ponto de origem da pandemia, a redução foi de cerca de 5,9 milhões de toneladas por dia e registou-se mais cedo do que no resto do mundo: o mínimo foi alcançado logo em meados de fevereiro. Ali, a redução foi de cerca de 22% face aos valores de cerca de 26,8 milhões de toneladas de CO2 que o país emitia por dia antes da pandemia. Mas os cientistas estimam que a China já tenha retomado as emissões aos níveis de anteriormente pelo menos desde meados de maio.

Portugal chegou a emitir menos 50 mil toneladas por dia, mas voltou a subir

Em Portugal, o padrão é o mesmo. De acordo com os autores do estudo, as emissões totais de dióxido de carbono em Portugal começaram a baixar ligeiramente no dia 9 de março, uma semana depois de terem sido confirmados os primeiros dois casos de Covid-19 no país. Três dias depois, o Governo português declarava o estado de alerta e anunciava as primeiras medidas de restrição; no dia seguinte, foi a vez do encerramento das escolas, que deu início a uma sucessão de medidas, cada vez mais restritivas, que colocaram Portugal sob confinamento, pararam a indústria e o comércio e levaram o país ao valor mínimo de emissões de dióxido de carbono.

Durante o mês de abril, estima-se que Portugal tenha emitido menos 50 mil toneladas de dióxido de carbono por dia relativamente aos números registados no início do ano e no ano passado — um número em linha com aquele que a associação ambientalista portuguesa Zero já tinha estimado em abril. Porém, as emissões voltaram a subir a partir do início de maio e têm acompanhado o processo de desconfinamento: em meados de junho, Portugal já estava a emitir apenas menos 10 mil toneladas de dióxido de carbono por dia face aos números do ano passado, com o país a manter a trajetória ascendente.

Também no caso português, o setor que mais pesou na redução foi o dos transportes de superfície. Segundo o estudo, durante o mês de abril, altura em que as emissões atingiram o mínimo no país, a circulação rodoviária e os transportes marítimos de carga estavam a emitir menos cerca de 23 mil toneladas de dióxido de carbono por dia, quando comparadas com os valores do início do ano e do ano passado. Em meados de junho, porém, o setor já emitia apenas menos 5,5 mil toneladas de CO2 por dia face ao habitual, estando a subida das emissões a acompanhar o desconfinamento.

O setor da aviação, por seu turno, teve as emissões no mínimo durante mais tempo: entre meados de março e o final de maio, os cientistas estimam que os transporte aéreos em Portugal tenham sido responsáveis por menos 8,5 mil toneladas de dióxido de carbono por dia, relativamente aos valores normais. Esta redução das emissões é consequência direta do cancelamento de praticamente todos os voos comerciais no país e na Europa. Em junho, porém, as emissões já se encontravam novamente a subir.

A nível mundial, o setor da aviação foi um dos mais afetados pela pandemia e muitas companhias aéreas, incluindo a TAP, estão ainda a negociar com os governos diferentes pacotes de ajuda financeira que lhes permitam sobreviver. O setor ambientalista, por seu lado, tem insistido para que os pacotes de apoio sejam condicionados ao cumprimento de metas ambientais, incluindo o uso de combustíveis mais sustentáveis.

Noutros setores, registou-se um decréscimo semelhante das emissões de dióxido de carbono. No consumo de eletricidade, estima-se que em Portugal tenham sido emitidas menos 9,6 mil toneladas de CO2 por dia para a atmosfera durante o mês de abril, mas em junho o valor já tinha regressado aos valores de janeiro. A indústria, por seu lado, emitiu durante o mês de abril menos 7,5 mil toneladas diárias de CO2, valor que em junho já era de apenas menos 2 mil toneladas por dia.

No mesmo período, os edifícios públicos e o comércio foram responsáveis pela emissão de menos 1.900 toneladas de CO2 por dia, com os valores a já terem regressado praticamente ao normal em junho, na sequência da reabertura progressiva do comércio e dos serviços. O único setor a registar um aumento das emissões foi, tal como aconteceu a nível global, o das habitações: em Portugal, as emissões das casas começaram a subir em meados de março, tendo chegado ao máximo durante o mês de abril. Durante o período do confinamento, as casas dos portugueses emitiram mais cerca de 200 toneladas de CO2 para a atmosfera face aos números habituais.

“Ainda temos os mesmos carros, fábricas e indústrias”

Em declarações ao jornal norte-americano The New York Times, os autores do estudo afirmaram estar surpreendidos com a rapidez com que as emissões voltaram, praticamente, aos valores do ano passado — embora reconheçam que a retoma era inevitável. “Ainda temos os mesmos carros, as mesmas fábricas e as mesmas indústrias que tínhamos antes da pandemia“, afirmou a investigadora franco-canadiana Corinne Le Quéré, da universidade britânica de East Anglia, que liderou o estudo internacional.

Sem grandes mudanças estruturais, é muito provável que as emissões regressem“, acrescentou a investigadora. Mas os autores do estudo acreditam que o período do confinamento pode dar um contributo relevante para a redução das emissões de dióxido de carbono e para o cumprimento das metas da descarbonização assumidas no Acordo de Paris. “Uma mudança de 5% nas emissões globais é enorme. Nunca vimos uma redução como esta desde, pelo menos, a II Guerra Mundial“, disse ao mesmo jornal o investigador Robert B. Jackson, cientista da Universidade de Stanford (EUA) e um dos co-autores do estudo.

"Uma mudança de 5% nas emissões globais é enorme. Nunca vimos uma redução como esta desde, pelo menos, a II Guerra Mundial"
Robert B. Jackson, Universidade de Stanford (EUA), co-autor do estudo

No entender dos investigadores, o estudo mostra ainda, de forma evidente, como a redução das emissões de dióxido de carbono pode ser diretamente influenciada pelas políticas implementadas pelos governos. A União Europeia, que é responsável por 17% das emissões de dióxido de carbono em todo o mundo, já anunciou um programa abrangente de relançamento da economia no pós-pandemia que coloca perto de 25% do orçamento comunitário em rubricas relacionadas com a sustentabilidade. De facto, as projeções mais recentes mostram que a sustentabilidade do processo de recuperação da crise será mais relevante para o ambiente do que a redução temporária sentida durante a pandemia — e que, com as medidas certas, será possível manter as emissões de CO2 dentro dos limites definidos até 2050.

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