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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

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A “derrota pessoal” de Cotrim. E as sombras no futuro da IL, que pondera processar a ex-assessora

Cotrim não apela ao apoio a Seguro nem a Ventura, “uma péssima escolha”. E fecha à porta à liderança da IL, que agora tem de decidir se apoia alguém. E se processa a ex-assessora que alegou assédio.

João Cotrim Figueiredo teve de responder  na noite de domingo, no seu discurso, à pergunta sobre se apoia André Ventura ou António José Seguro na segunda volta. Há uma semana tinha dito que não excluía ninguém, no que terá sido o primeiro momento controverso do fim da campanha, por ter juntado comentários sobre a moderação de Ventura. Agora, quando chegou ao fim a sua corrida, não se colocou ao lado de nenhum dos dois candidatos que passaram à segunda volta, considerando que os portugueses estão confrontados com uma “péssima escolha” e vincou que os eleitores devem decidir livremente.

Depois de Luís Montenegro ter ignorado na campanha a carta aberta e o apelo público para deixar cair Marques Mendes e desafiar o eleitorado da AD para votar no eurodeputado Liberal, que já ia à frente de Mendes nas sondagens, Cotrim de Figueiredo dirigiu violentos ataques ao presidente do PSD. “Embora hoje exista uma maioria de centro direita no país, é possível que tenhamos um Presidente da República socialista. Tal fica a dever-se a erro estratégico da liderança do PSD”, acusou o candidato.

“Apesar das evidências e do apelo que lhe fiz, Luís Montenegro não pôs os interesses do país à frente do interesse do partido”, reforçou. E terminou a invocar uma última vez o nome do fundador do PSD, tantas vezes referido ao longo da campanha: “[Luís Montenegro] não esteve à altura do legado de Francisco Sá Carneiro.”

Caso a IL apresente uma queixa contra a ex-assessora, será um processo à parte em relação ao de João Cotrim de Figueiredo. Fontes do partido ouvidas pelo Observador esperam que esse processo avance mesmo, para defender a honra do partido. E admitem que se afinal for demonstrado que houve denúncias, a Iniciativa Liberal ficaria numa situação muito complicada.

Cotrim fecha a porta a um regresso à liderança da IL: “Está bem entregue”

João Cotrim Figueiredo sempre disse que seria uma derrota não passar à segunda volta e este domingo à noite assumiu os resultados como “uma derrota pessoal”. Mas frisou que houve uma vitória “da ideia de que precisamos de renovar a nossa democracia e a nossa classe política”.

Aventou mesmo que o terceiro lugar pode ajudar a abrir caminhos que outros possam trilhar. Não ele, pelo menos no imediato. Fechou a porta a um regresso à liderança da Iniciativa Liberal, apesar de ter conseguido mais do que triplicar a votação do partido, com um sucinto: “Está bem entregue”.

▲ Depois do discurso, um apoiante pediu um autógrafo no livro de Cotrim de Figueiredo

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Recorde-se que durante a campanha apostou um almoço em Amarante com Jorge Pinto, candidato apoiado pelo Livre com quem se cruzou na feira da fruta das Caldas da Rainha, em como não voltaria à liderança da Iniciativa Liberal — mas apenas nos próximos dois anos, o que reforça a sua própria sombra em relação à liderança do partido.

Minutos antes, Mariana Leitão, a presidente da Iniciativa Liberal, tinha sido confrontada com esta sombra que poderia passar a sentir, de Cotrim de Figueiredo valer o triplo da IL e poder ter outras ambições. E respondeu:  “Sobre as ambições de João Cotrim Figueiredo terá de perguntar ao próprio. Sobre valer mais do que a Iniciativa Liberal é algo que me deixa extremamente contente”.

“Eu ficaria preocupada se fosse ao contrário, como se verificou já que há vários candidatos que valem bastante menos do que os partidos que os apoiaram”, respondeu ainda Mariana Leitão, numa alusão evidente a Marques Mendes.

IL estuda processo-crime contra a ex-assessora que alegou assédio

Mariana Leitão esteve com João Cotrim de Figueiredo no hotel de Lisboa usado como sede de campanha. Conseguiu falar brevemente aos jornalistas, enquanto ainda não era oficial que o seu candidato não ia à segunda volta, o que lhe permitiu fugir à pergunta sobre o que faria a IL entre Seguro e Ventura.

Um dos seus assessores encaixou-se entre as câmaras que a filmavam de frente, para fazer o sinal para parar as declarações muito pouco tempo depois do início. Conseguiu assim não responder a nenhuma pergunta sobre as alegações de assédio na IL.

Mas estas são duas questões que terão seguramente desenvolvimentos nos próximos dias. Em relação à alegação de assédio, o partido está a ponderar se também processa judicialmente a ex-assessora que disse em comunicado que tinha reportado internamente a sua acusação.

O partido negou que tenha havido qualquer denúncia interna. Mas entretanto o DN noticiou a existência de um grupo de whatsapp criado entre algumas funcionárias do partido para partilharem episódios em que se tenham sentido assediadas.

Caso seja apresentada uma queixa, será um processo à parte em relação ao de João Cotrim de Figueiredo. Fontes do partido ouvidas pelo Observador esperam que esse processo avance mesmo, para defender a honra do partido. E admitem que se afinal for demonstrado que houve denúncias, a Iniciativa Liberal ficaria numa situação muito complicada.

▲ Mariana Leitão e a cúpula da IL vão decidir nos próximos dias se processam a ex-assessora que alegou assédio. E se recomendam voto na 2ª volta

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O dilema dos liberais entre Ventura e Seguro

Mariana Leitão vai ouvir a direção do partido para decidirem a posição a tomar sobre esta segunda volta das presidenciais. Ninguém se atravessa com uma opção. Há membros influentes do partido que distinguem já três planos: o que vão fazer na cabine de voto, o que vão dizer publicamente e a posição oficial do partido.

O partido sentiu a reação negativa de apoiantes de Cotrim de Figueiredo às suas hesitações sobre não excluir um voto em Ventura na segunda volta. Toda a história da IL foi feita a erguer linhas vermelhas contra o Chega.

Um eventual apoio a Ventura agora desagradaria a muitos dos seus militantes e dirigentes. E poderia ter custos eleitorais imprevisíveis, ao dar ainda mais força a um adversário do partido que disputa muitas vezes um eleitorado próximo.

Claro que um apoio ao candidato do PS também não será feito sem desconforto, tendo em conta que representa um dos principais adversários ideológicos do partido. Mas nem toda a gente na IL está disponível para equiparar Seguro e Ventura, como fez Cotrim de Figueiredo ao falar em “péssima escolha”. Mário Amorim Lopes, vice da IL e líder parlamentar, já assumiu na RTP que votará Seguro: não o considera uma ameaça à democracia, ao contrário do que vê em André Ventura.

O sabor agri-doce do resultado de Cotrim, depois de uma semana negra

Quando saía do elevador para a sala onde o esperavam uns 300 apoiantes, João Cotrim de Figueiredo parou por instantes no percurso ao ver uma mesa ser arrastada e partir-se um pequeno vaso de vidro em estilhaços no chão.

A imagem encaixa na perfeição no que alguns mais próximos acham que aconteceu à sua campanha, que acusam de ter sido feita em estilhaços pelos jornalistas na reta final.

Em causa a forma como foi confrontado numa conferência de imprensa com a alegação de assédio partilhada numa story privada, questão que continua a ser vista como responsável por o candidato não ter ido mais além. Cotrim invocou a preocupação com esse tema, que já conhecia desde a véspera, como tendo ajudado a “toldar o raciocínio” quando respondeu à pergunta sobre quem apoiaria numa segunda volta em que não estivesse presente.

Ao dizer que não excluía ninguém e ao sublinhar a moderação de André Ventura nos 4 dias anteriores, Cotrim de Figueiredo iniciou uma polémica que o levaria depois a desdizer-se, a garantir que não queria Ventura na presidência, e que não sabia o que lhe tinha passado pela cabeça ao dar a primeira resposta — tudo isto foi aproveitado pelos adversários.

A forma como foi respondendo à alegação de assédio e a fúria com que se dirigiu aos jornalistas no penúltimo dia de campanha também podem ter tido consequências eleitorais. A dificuldade ou inabilidade (pouco presidencial) com que geriu a crise podem ajudar a explicar a diferença entre os 21% que chegou a ter nas sondagens e o resultado final.

Tirando o próprio Cotrim, que mostrou desde o início confiança numa passagem à segunda volta, qualquer liberal teria comprado cegamente estes 16% quando começou a corrida. Ficar em 3.º lugar, à frente do almirante e de Marques Mendes, pareceria um sonho para qualquer simpatiizante dos liberais, que nunca foram além de um quarto lugar nem passaram os 5% dos votos.

O problema é que, à entrada da última semana de campanha, Cotrim aparecia nas sondagens em segundo lugar, Marques Mendes estava a ficar irremediavelmente para trás, e a equipa do candidato acreditou que afinal seria mesmo possível passar à segunda volta.

Depois de se ter sentido tão perto da glória, a pensar se seria o presidente da esperança ou do otimismo, Cotrim de Figueiredo não pode não sentir uma certa amargura. Reforçou o mito de caçador de votos que já vale mais do triplo da Iniciativa Liberal. Mas, além de ter perdido a eleição, viu a sua reputação posta em causa, num processo que perdurará para lá desta campanha.

▲ João Cotrim de Figueiredo com a filha Catarina, no elevador, no fim da noite

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