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▲Volodymyr Zelensky e Donald Trump encontraram-se durante a última cimeira da NATO. Presidente norte-americano terá gostado de que o homólogo estivesse vestido "como um ser humano normal"

Anadolu via Getty Images

▲Volodymyr Zelensky e Donald Trump encontraram-se durante a última cimeira da NATO. Presidente norte-americano terá gostado de que o homólogo estivesse vestido "como um ser humano normal"

Anadolu via Getty Images

A frustração com Putin, o relançar da ofensiva e a nova abordagem de Zelensky. O que levou Trump a mudar de posição sobre a Ucrânia?

Trump anunciou um pacote de ajuda a Kiev e ameaçou com sanções à Rússia — algo inédito desde que é Presidente. Entre a intervenção dos aliados e a posição de Putin, até Zelensky usar fato contribuiu.

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“É uma coisa esperta. Se eu for amigável com as pessoas, se puder ter uma relação com as pessoas, é uma coisa boa.” As palavras foram proferidas por Donald Trump acerca da sua relação com Vladimir Putin durante a campanha eleitoral de 2024. Cerca de seis meses depois de ter regressado à Casa Branca e sem um fim para a guerra na Ucrânia à vista, a “amizade” deu lugar à “frustração”, os elogios a Putin deram lugar a ameaças de tarifas e os insultos a Volodymyr Zelensky deram lugar a um pacote de ajuda militar para Kiev.

A mudança de posição foi formalizada esta segunda-feira — data para a qual Trump já tinha prometido um “anúncio muito grande”. Ao lado de Mark Rutte, secretário-geral da NATO, o Presidente anunciou que os países aliados vão comprar armamento aos Estados Unidos, para enviar para a Ucrânia. “Fazemos os melhores mísseis, os países europeus sabem disso. Nós fizemos um acordo [esta segunda-feira] em que nós lhes vamos enviar armas e eles vão pagar por elas. Vamos construi-las e eles vão pagá-las”, declarou.

O envio de armas inclui não só os mísseis Patriot que já tinha prometido na semana passada, mas vários sistemas completos de defesa anti-aérea. Para acelerar este processo — e por sugestão de Mark Rutte, detalhou Trump — alguns países europeus irão começar a enviar os sistemas e mísseis que já possuem para a Ucrânia. Posteriormente, os sistemas que já possuíam serão substituídos por armamento do arsenal norte-americano. “A Ucrânia terá em mãos números enormes de equipamento militar, tanto para defesa aérea, como mísseis e munições”, declarou Mark Rutte esta segunda-feira.

Os dois líderes relataram ainda que o processo será coordenado pela NATO, mas que a maior parte das negociações dentro da Europa foram conduzidas pela Alemanha, que, aliás, já se tinha mostrado disponível para participar neste plano. Neste sentido, o ministro de Defesa alemão, Boris Pistorius, e o secretário norte-americano da Defesa, Pete Hegseth, também se reuniram esta segunda-feira. Para além da Alemanha, a Finlândia, a Dinamarca, a Suécia, a Noruega, os Países Baixos, o Reino Unido e o Canadá já declararam que vão integrar o plano, anunciou Rutte.

epa11961723 US President Donald Trump (R) meets with NATO Secretary General Mark Rutte (L) in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 13 March 2025.  EPA/YURI GRIPAS / POOL

▲ Rutte e Trump coordenaram o novo plano de ajuda à Ucrânia

YURI GRIPAS / POOL/EPA

Ainda que, na conferência de imprensa, Rutte e Trump tenham apresentado poucos detalhes sobre o tipo de armamento que vai ser enviado — para além dos Patriot, falou-se apenas em “mísseis e munições” — o Axios e a Reuters adiantaram que os pacotes que vão rumar à Europa podem incluir mísseis ofensivos de médio e longo alcance, suficientes para atingir alvos em território russo. Mesmo sem detalhes, a decisão é inédita para Donald Trump que, até agora, se limitara a enviar armas que já tinham sido aprovadas pela anterior administração. Em três ocasiões, em menos de seis meses, as entregas chegaram mesmo a ser suspensas pelo Pentágono.

Paralelamente à ajuda à Ucrânia, Donald Trump ameaçou a Rússia com a imposição de “tarifas secundárias a 100%”, caso Moscovo não chegue a um acordo para pôr fim à guerra num prazo de 50 dias. Ao mesmo tempo, voltou a mostrar o seu apoio a um projeto de lei no Senado que pretende impor tarifas de 500% a todos os países que importem urânio, petróleo ou gás natural russo — o que é relevante, uma vez que o líder republicano no Senado já tinha afirmado que só avançaria para uma votação do projeto com o aval do Presidente. Mas, afinal, o que levou Trump a mudar a sua opinião sobre a guerra?

Pressionar Putin a parar com as “tretas”

Os primeiros passos de Donald Trump na sua segunda passagem pela presidência foram dados na direção da Rússia. Entre repetidas chamadas telefónicas com Vladimir Putin e visitas do seu enviado, Steve Witkoff, a Moscovo, Trump procurou cumprir a sua promessa eleitoral de pôr fim à guerra na Ucrânia pela via diplomática e do diálogo com o Kremlin.

Os Estados Unidos chegaram a apresentar propostas para tréguas temporárias que não deram frutos — esta segunda-feira, Trump afirmou que se esteve próximo de um acordo em quatro ocasiões. Quando Kiev insistiu que Putin não estava interessado em pôr fim à guerra, Trump declarou a sua confiança no homólogo russo. “Sempre tive uma boa relação com Putin. Acho que ele quer acabar com a guerra“, afirmou, no início de março, na mesma ocasião em que considerou ser “mais difícil lidar com a Ucrânia”. Quando as negociações não deram frutos, Trump começou a expressar a sua “frustração” com Putin — a frustração com Zelensky já era pública — e deu um passo atrás. “Às vezes, é melhor deixá-las lutar durante um bocado”, afirmou já em junho, comparando os dois líderes a “crianças a lutar num parque“.

Uma chamada entre Trump e Putin que terminou “sem progressos”, no dia 3 de julho, parece ter sido a gota de água para o Presidente norte-americano. Desde aí, as críticas a Putin cresceram de tom. “Putin atira-nos com muitas tretas”; “Ele é sempre muito simpático, mas depois [as palavras] são vazias”; “Ele fala muito bem e depois bombardeia toda a gente durante a noite. Há um pequeno problema aqui”, declarou em várias ocasiões da última semana, ao mesmo tempo em que os ataques noturnos russos contra a Ucrânia se intensificaram.

"Pelo que vi publicamente e ouvi em privado, [Trump] está a reconhecer que Putin está a fazê-lo a ele e aos Estados Unidos passarem por tolos. Acho que ele, com razão, se sente pessoalmente afrontado e que Putin tem andado a arrastar-se e a bloquear os Estados Unidos."
Richard Blumenthal, senador democrata responsável por projeto de lei para tarifas a 500% à Rússia

“Trump está mesmo lixado com Putin“, resumiu Lindsey Graham, senador da Carolina do Sul e impulsionador do projeto de lei para aplicar as tarifas a 500%, ao Axios. Richard Blumenthal, senador democrata que partilha com Graham a responsabilidade por esta proposta, argumentou que a mudança de Trump tem um cunho pessoal. “Pelo que vi publicamente e ouvi em privado, ele está a reconhecer que Putin está a fazê-lo a ele e aos Estados Unidos passarem por tolos. Acho que, com razão, ele se sente pessoalmente afrontado e que Putin tem andado a arrastar-se e a bloquear os Estados Unidos”, comentou à revista New Yorker.

A leitura do senador democrata é partilhada por várias pessoas próximas do Presidente que relataram ao New York Times que este sente que se deixou arrastar por Putin. O mesmo jornal adianta que os conselheiros de política externa de Joe Biden já tinham alertado, várias vezes, os seus sucessores para esta possível jogada de Vladimir Putin. O anúncio desta segunda-feira é, neste sentido, uma resposta direta às suas “tretas”. “[Trump] quer mostrar que está a falar a sério sobre pôr fim à guerra e talvez isto mostre a Putin que é altura de começar a negociar”, avançou um responsável norte-americano à CNN.

Prevenir a ofensiva de verão da Rússia, sem envolver os Estados Unidos

Apesar de a admiração se ter transformado em frustração, os sentimentos pessoais de Donald Trump face a Vladimir Putin não são a única explicação para a mudança de posição formalizada esta segunda-feira. O seu último telefonema para Moscovo, no dia 3 de julho, terá levado o chefe de Estado norte-americano a aceitar os avisos de Kiev, de que Putin não tenciona pôr fim à ofensiva na Ucrânia em breve. “[As conversas com Putin] não significam nada“, declarou esta segunda-feira.

No seu relato da conversa, o conselheiro do Kremlin, Yuri Ushakov, afirmou que Putin deixou claro que a Rússia não irá abdicar dos seus objetivos militares na Ucrânia. Ou, na leitura de Donald Trump: “Ele quer ficar com tudo“. As palavras terão sido ditas pelo líder norte-americano ao Presidente francês Emannuel Macron acerca da conversa com Putin, avançou uma fonte com conhecimento da conversa ao Axios. Vladimir Putin estará confiante na superioridade militar das forças russas no campo de batalha e na sua capacidade de derrotar as forças ucranianas nos próximos meses, relataram duas fontes próximas do Kremlin ao New York Times. O Axios declara que Putin foi ainda mais concreto e terá apontado que a Rússia irá relançar a ofensiva na Ucrânia nos próximos 60 dias.

Além desta conversa, a situação no campo de batalha e a sua cobertura noticiosa, que mostra imagens de cidades ucranianas destruídas depois dos ataques noturnos russos, terão incomodado Donald Trump, motivando-o a agir, relatou uma pessoa próxima do Presidente ao New York Times. A abordagem escolhida procura forçar Putin a negociar, sem envolver os Estados Unidos diretamente na guerra e, se possível, recolhendo benefícios — quer políticos, quer económicos — a nível interno, relataram responsáveis norte-americanos à CNN.

epa09937879 A German soldier looks on as he shows how it works at the launching station of NATO's Patriot missile air defense system operated by German army unit Flugabwehrraketengruppe 26 (Air Defense Artillerie) placed at Sliac airbase in Sliac, central Slovakia, 10 May 2022. A Dutch-German air and missile defence forces deployed Patriot system in spring 2022 to reinforce defence capabilities on Eastern NATO border following Russia's military invasion in Ukraine, as mainly military mission is protection of Sliac air base and additional assets. NATO multinational air missile defence task force Slovakia operate on the site with 240 German soldiers and with 130 Dutch soldiers.  EPA/MARTIN DIVISEK

▲ Os Patriot que estão na Alemanha devem ser os primeiros a ser enviados

MARTIN DIVISEK/EPA

Por um lado, o facto de tratar a entrega de armamento a Kiev como um “negócio”, como o próprio Trump fez questão de sublinhar, trará benefícios económicos — ou pelo menos, não trará prejuízos — aos Estados Unidos. O líder norte-americano garantiu ainda que os países da NATO envolvidos nesta transação iam “pagar a 100%” os equipamentos comprados. Entre esses equipamentos, Trump fez questão de assinalar, várias vezes, um que “eles precisam desesperadamente”: os sistemas de defesa anti-aérea Patriot, que têm sido a defesa mais eficaz contra os mísseis balísticos e de longo alcance lançados pela Rússia.

Por outro lado, a entrega indireta permite que Trump não quebre a sua promessa eleitoral de impor a paz na Ucrânia e não envolver os Estados Unidos em guerras, entende o Presidente. Uma terceira vantagem é o facto de esta opção ser mais rápida: os países europeus podem entregar à Ucrânia os seus equipamentos e comprar, depois, substitutos entre o arsenal norte-americano, tal como explicaram Rutte e Trump em conferência de imprensa.

Na verdade, o plano que Donald Trump anunciou esta segunda-feira já estava a ser discutido entre os membros da NATO desde a cimeira de Haia, no final de junho. Mas o ponto de viragem para o líder norte-americano o ter aceitado terão mesmo sido as chamadas telefónicas com Vladimir Putin e, posteriormente, com Emmanuel Macron.

A nova abordagem de Volodymyr Zelensky e Mark Rutte

O plano para membros da Aliança Atlântica comprarem armas aos Estados Unidos para dar à Ucrânia pode ter sido discutido com os representantes norte-americanos na cimeira da NATO em Haia. Mas, na Europa, trabalhava-se neste plano desde a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de novembro de 2024. Os líderes europeus temiam que, depois das críticas ao apoio de Biden à Ucrânia, o novo Presidente tivesse uma abordagem diferente e planearam nesse sentido, relataram vários responsáveis europeus ao New York Times.

O plano viria a revelar-se útil. Porém, ao longo dos últimos meses, os aliados europeus somaram a esta estratégia uma outra: a lisonja a Donald Trump. Inicialmente, Vladimir Putin também jogou com este baralho e desdobrou-se em elogios e prendas ao seu homólogo. Contudo, quando a estratégia deixou de funcionar e a frustração subiu de tom, a lisonja da Europa tornou-se mais apelativa.

"Zelensky apareceu como um ser humano normal, não [como] louco, e estava vestido como alguém que devia estar na NATO. Ele tinha um grupo de pessoas com ele que também não pareciam loucas."
Responsável norte-americano sobre o encontro entre Trump e Zelensky na cimeira da NATO

Esta estratégia foi principalmente visível nas palavras de Mark Rutte durante a cimeira da NATO, destaca o Politico. Desde ter chamado Trump de “daddy” a ter levado os aliados a aprovarem a meta de 5% do PIB para investimentos em Defesa, tal como Trump desejava, os elogios do secretário-geral da NATO ao líder norte-americano foram visíveis. E parecem ter resultado. “Acho que ele gosta de mim“, declarou Trump sobre o encontro. Esta segunda-feira, o tom elogioso entre os dois líderes manteve-se.

Mas Mark Rutte não foi o único líder europeu que descobriu a chave para lidar com Donald Trump. Depois de uma relação atribulada e de uma discussão na Sala Oval, Volodymyr Zelensky alterou a sua postura e conseguiu encontrar uma forma de obter o apoio que tanto desejava. Em Haia, os dois líderes já tinham discutido a compra de Patriots, numa conversa que foi relatada como positiva por ambas as partes. A análise repetiu-se sobre uma chamada no início deste mês, logo a seguir à chamada “sem progressos” entre Putin e Trump.

Mas a discussão na Sala Oval parece continuar a ser a pedra de toque para a relação entre Kiev e Washington. E, depois de ser criticado por JD Vance por não ter utilizado um fato nesse dia, Zelensky redimiu-se durante a cimeira da NATO, onde participou pela quarta vez consecutiva — mas esta foi a primeira em que vestiu um fato. “Zelensky apareceu como um ser humano normal, não [como] louco, e estava vestido como alguém que devia estar na NATO. Ele tinha um grupo de pessoas com ele que também não pareciam loucas”, avaliou um responsável norte-americano ao Axios.

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