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Os elogios, as prendas e a mesma visão "cínica" da ordem internacional. Como Putin quer conquistar Trump

Presidente russo faz elogios, promessas de acordos económicos e entrega prendas a Trump. Os analistas dividem-se: há quem fale em "bajulação" e quem ache que é um entendimento de "almas gémeas".

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Quando o enviado norte-americano Steve Witkoff regressou de Moscovo, no final de março, trazia consigo uma prenda do Presidente russo para Donald Trump: uma pintura do momento em que foi vítima de uma tentativa de assassinato. Foi apenas a segunda vez que Witkoff se deslocou à Rússia e a primeira que se encontrou frente a frente com Vladimir Putin. Este mês voltaram a reunir-se em São Petersburgo e têm um terceiro encontro marcado para esta semana.

Apesar da frequência dos encontros e dos relatos positivos de ambas as partes, estas negociações não se traduziram no fim da guerra na Ucrânia. Em vez disso, os diálogos têm-se focado principalmente na relação bilateral entre Rússia e Estados Unidos e em como esta pode ser aprofundada, incluindo através de parcerias económicas. Ao mesmo tempo, o Kremlin mantém uma postura “graciosa” para uns, como Witkoff, ou “bajuladora”, segundo vários críticos: entrega prendas (como o quadro do segundo encontro) faz elogios e chama Trump de amigo.

Contudo, “a Rússia está a fazer um bluff enorme”, argumenta Alexey Kovalev ao Observador. Kovalev era editor de investigação do jornal russo Meduza e, como muitos outros jornalistas independentes e críticos do Kremlin, abandonou o país em 2022. Estes profissionais parecem ser unânimes numa opinião: Vladimir Putin não tem qualquer interesse real em pôr fim à guerra na Ucrânia. Em vez disso, procura manter Donald Trump ocupado com outros temas, enquanto prolonga os ataques militares. Kovalev fala em “bluff“, pois afirma que a Rússia está a fazer promessas aos Estados Unidos que não tenciona cumprir — tanto na questão da paz, como dos acordos económicos.

"Qualquer que seja o efeito que [Putin e Trump] estão a ter um no outro, está claramente a funcionar melhor para Putin, porque Trump está fascinado com ele."
Alexey Kovalev, jornalista independente russo no exílio

A estratégia parece estar a dar resultados, tendo em conta que, apesar das sucessivas tréguas que os Estados Unidos propuseram terem sido violadas, Washington não impôs mais sanções e norte-americanos e russos continuam a encontrar-se. “Qualquer que seja o efeito que [Putin e Trump] estão a ter um no outro, está claramente a funcionar melhor para Putin, porque Trump está fascinado com ele”, argumenta Kovalev.

A “bajulação” de Vladimir Putin, que muda a política anti-americana de Moscovo

“Putin tem uma visão: ele, um Presidente norte-americano e um líder chinês sentados a uma mesa a dividir o mundo. E Donald Trump é o único Presidente americano que encaixa nesta visão”. A imagem foi desenhada por outro jornalista russo exilado, Mikhail Zygar, em entrevista à CNN. Segundo esta lógica, o grande desejo do Presidente russo é a reorganização da ordem internacional. E Putin está a utilizar as negociações sobre a guerra na Ucrânia para procurar chegar a esse objetivo maior.

Para se assegurar que Donald Trump continua sentado à mesa, Vladimir Putin não hesita em recorrer aos elogios. A estratégia já tinha sido utilizada no passado, quando o Presidente russo repetiu as declarações de Trump de que as eleições norte-americanas de 2020 tinham sido manipuladas. Com o regresso do republicano à Casa Branca, voltou a recorrer ao mesmo estratagema: “Não posso não concordar que se ele fosse Presidente, se a sua vitória não tivesse sido roubada em 2020, talvez a crise na Ucrânia em 2022 não tivesse acontecido”, afirmou dias depois da tomada de posse.

A postura lisonjeira manteve-se quando se encontrou com Witkoff no final de maio. O conteúdo da pintura oferecida nunca foi partilhado, mas um famoso artista russo relatou ter sido contratado pelo Kremlin para retratar o Presidente norte-americano. O retrato final mostra Donald Trump depois da tentativa de assassinato do verão passado, de punho erguido e com o rosto coberto de sangue. O pintor afirmou ainda que Putin lhe agradeceu pessoalmente por ter ajudado a melhorar as relações entre Washington e Moscovo com o seu trabalho. No mesmo encontro, Putin garantiu a Witkoff que tinha rezado por Trump depois dessa tentativa de assassinato.

“Toda a gente sabe que o Presidente dos Estados Unidos é muito suscetível à lisonja e Putin excedeu-se“, argumentou Carl Bildt, antigo primeiro-ministro da Suécia e atual diretor-adjunto do European Council on Foreign Relations, num artigo de opinião publicado esta semana, em que elenca estes vários exemplos.

▲ Putin entrega uma bola de futebol a Trump durante a sua primeira administração

ALEXEI NIKOLSKY / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA

Mas Putin não é o único a implementar esta estratégia: o seu círculo próximo também se desdobra em elogios a Donald Trump. Esta semana, Vladimir Medinsky, antigo ministro da Cultura e conselheiro do Kremlin, anunciou que os livros escolares russos iam passar a incluir “os esforços extraordinários da nova administração norte-americana em resolver o conflito na Ucrânia”. “Aqui, podemos dizer que Trump fez História”, rematou. Abbas Gallyamov, antigo redator de discursos de Vladimir Putin, que se tornou crítico e se auto-exilou, criticou a medida: “Vejam como as autoridades russas bajulam Trump sem vergonha. Há um ano, estavam a pendurar estandartes em Moscovo com frases de Xi Jinping e agora vão incluir Trump nos livros de História”, escreveu no seu canal de Telegram.

Kovalev e Zygar mencionam igualmente como a aproximação a Trump representa uma mudança abrupta na política russa, que, desde que Putin chegou ao poder (e também pela herança soviética da Guerra Fria), tem sido marcada pelo anti-americanismo. “É preciso desfazer magicamente 20 anos de propaganda, que se baseava na ideia de que o Ocidente malvado estava a tentar cercar-nos”, explica Kovalev ao Observador.

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A Torre Trump e os acordos dos minerais e de exploração do Ártico: os incentivos económicos

No dia 11 de novembro de 2013, Donald Trump fez a primeira referência pública a um desejo profissional. “Aras Agalarov, tive um fim de semana ótimo contigo e com a tua família. Fizeste um trabalho FANTÁSTICO. A TORRE TRUMP EM MOSCOVO vem a seguir“, escreveu no X (à data, Twitter). O acordo para construir um arranha céus na capital russa, semelhante ao edifício com o mesmo nome em Nova Iorque, chegou a ser assinado por Trump com Agalarov, um multimilionário russo do ramo do imobiliário. Mas o sonho de Trump nunca saiu do papel.

Agora, a proposta fará parte do baralho do Kremlin para aliciar Donald Trump, avançou o Moscow Times. A construção da Torre Trump não apela apenas ao culto de personalidade que o chefe de Estado norte-americano gosta de cultivar, mas ao seu passado como empresário imobiliário e à sua visão das negociações para a paz como uma transação económica.

A Casa Branca já tinha falado sobre a possibilidade de uma parceria económica entre Rússia e Estados Unidos ser utilizada para incentivar as negociações. Contudo, os incentivos económicos vão além de um projeto para a construção da Torre Trump: podem passar por um acordo de minerais e outro no Ártico, assim como acordos com empresas estratégicas russas.

"De acordo com as pessoas com quem falei, Putin está a seguir uma dupla estratégia desde o início: ter discussões separadas sobre as relações Estados Unidos-Rússia -- principalmente de natureza económica -- e manter a Ucrânia como um assunto separado."
Mikhail Zygar, jornalista russo no exílio

A questão económica é o segundo ramo da estratégia russa para negociar a paz na Ucrânia com os Estados Unidos (ou evitar fazê-lo). “De acordo com as pessoas com quem falei, Putin está a seguir uma dupla estratégia desde o início: ter discussões separadas sobre as relações Estados Unidos-Rússia — principalmente de natureza económica — e manter a Ucrânia como um assunto separado”, escreveu Mikhail Zygar, num artigo de opinião no New York Times onde sublinha o apelo “ao sentido de negócio de Trump”.

Segundo uma das fontes do Moscow Times, o objetivo desta estratégia é obter o máximo de dinheiro possível de Trump, enquanto a Rússia continua a utilizar o cessar-fogo como “uma cenoura” para o aliciar. Mas, dada a personalidade impaciente de Donald Trump, os projetos devem ser marcados pelos valores que o Presidente valoriza: “Rapidez, impacto e ostentação”.

A questão é que estas promessas económicas parecem ser meras promessas vazias, sem valor económico real, alerta Alexey Kovalev ao Observador. Vladimir Milov, secretário de Estado da Energia no primeiro executivo de Vladimir Putin, que passou para a oposição, faz a mesma análise. Num artigo de opinião, o economista desconstrói a possibilidade de a Rússia fazer acordos de minerais e do Ártico — para além do facto de os ter criticado noutras ocasiões.

A primeira falha desta estratégia, escreve Milov, é o facto de a economia russa nunca ter tido uma particular ligação económica aos Estados Unidos. Pelo contrário, o grande parceiro económico da Rússia no Ocidente sempre foi a União Europeia. Tornar a economia russa atrativa para investidores norte-americanos não exigiria apenas regressar ao estado pré-guerra, mas reformular totalmente as relações económicas russas, argumenta.

No que toca especificamente ao Ártico, Milov destaca que os projetos podem não ser economicamente viáveis, dada a distância, a falta de infraestruturas e o clima da região, que já levou outros projetos a serem abandonados. Os problemas são os mesmos no que toca à extração de minerais, particularmente de terras raras — um conjunto de 17 minerais essenciais para desenvolvimentos tecnológicos e que a Ucrânia também tem e está a utilizar como moeda de troca com Washington. “Apesar de a Rússia ter reservas, os depósitos são longe das infraestruturas existentes, tornando a sua viabilidade económica altamente questionável”, escreve Milov.

Dadas estas características, o antigo secretário de Estado de Putin remata: “Toda a conversa sobre uma potencial parceria de recursos entre Trump e Putin parece, portanto, não ser nada mais do que especulação”. E uma dose de manipulação por parte do Kremlin, segundo os jornalistas independentes russos.

Russian President Vladimir Putin visits Franz Joseph Land in Arctic

▲ As propostas económicas para o Ártico podem ser economicamente inviáveis

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A influência internacional russa: a aposta menos credível

Os analistas da Rússia concordam que a estratégia de Vladimir Putin para bajular Donald Trump é dupla: por um lado, o recurso aos elogios pessoais; por outro, os incentivos económicos. Mas o Moscow Times admite um terceiro instrumento: a Rússia pode utilizar a sua influência internacional para favorecer os Estados Unidos e os seus aliados.

Os dois grandes pilares desta estratégia seriam o Irão e a Coreia do Norte, países que estão na lista de prioridades de Donald Trump. No Irão, a Rússia pode ter influência nas negociações nucleares entre Washington e Teerão, tendo em conta a colaboração russa e iraniana na produção e exportação de combustível nuclear. No que toca a Pyongyang, a possibilidade seria a Rússia interromper a colaboração militar com a Coreia do Norte.

Contudo, o jornal reconhece que estas iniciativas são ainda menos credíveis do que a construção de um arranha céus ou a exploração de minerais, já que a Rússia não parece disposta a abdicar da sua esfera de influência internacional. As iniciativas plausíveis neste tema seriam apenas “gestos simbólicos“, nota o jornal, como missões humanitárias na Faixa de Gaza apoiadas pelas infraestruturas russas na Síria ou colaboração informal com os Estados Unidos e a Arábia Saudita sobre os mercados de petróleo.

Um responsável russo relata ao jornal a diferença entre uma proposta com possibilidades de ser bem-sucedida e uma proposta irrealista: o facto de ser adaptada a Donald Trump, à sua personalidade e à sua forma de fazer política. “Sem isso, é ingénuo esperar progressos”, conclui.

Ao Observador, Alexey Kovalev realça que algumas iniciativas podem não refletir uma vontade pessoal de Vladimir Putin e das “duas dezenas” que constituem o seu círculo fechado e serem apenas preferências de pessoas com ligações ao Kremlin — mas sem proximidade a Putin — que procuram utilizar as negociações como forma de alavancarem os seus próprios interesses.

"Estamos a falar de duas pessoas que vivem completamente dentro das suas próprias cabeças. Putin está completamente isolado e só fala com o seu reflexo no espelho. O outro tipo tem de estar sempre num palco, rodeado de câmaras."
Alexey Kovalev, jornalista independente russo no exílio

O foco do círculo fechado são as promessas vazias de incentivos económicos. Porém, se estas estratégias parecem ser suficientes para manter Donald Trump sentado à mesa — tendo em conta o destaque que a Casa Branca tem dado às mesmas — por que é que Vladimir Putin insiste nos elogios pessoais ao seu homólogo norte-americano?

“Cínicos, delirantes e destrutivos”: o que aproxima Putin e Trump

“Putin vê Trump como uma alma gémea“. A leitura é feita pelo jornalista Mikhail Zygar. As semelhanças estão na forma como ambos veem o mundo: “Uma visão cínica e não ideológica”. Se Vladimir Putin quer ver o fim da ordem internacional assente nas organizações internacionais atuais, o facto de Donald Trump também ter uma visão crítica das mesmas — como a NATO e as agências da ONU — torna-o num aliado de Moscovo.

Alexey Kovalev concorda que os dois partilham o “cinismo”. Mas revela-se preocupado com o facto de ambos partilharem também uma postura “delirante” e “destrutiva”. “Estamos a falar de duas pessoas que vivem completamente dentro das suas próprias cabeças. Putin está completamente isolado e só fala com o seu reflexo no espelho. O outro tipo tem de estar sempre num palco, rodeado de câmaras”, elabora, em tom crítico.

O jornalista identifica o “delírio” de Putin na sua insistência em achar que a ofensiva militar na Ucrânia continua a ser uma vitória para a Rússia. Isto apesar de milhares de soldados russos já terem morrido, de o Exército continuar sem controlar qualquer cidade ucraniana chave — e as que controla ficaram reduzidas a ruínas — e as forças ucranianas continuarem a resistir. “Eu sei isto e muita gente sabe isto. Mas será que Putin e Trump sabem?”, questiona Kovalev.

epa12001278 A still image taken from an undated handout video provided by the Press Service of the Russian Ministry of Defence on 31 March 2025 shows Russian soldiers operating a 152 mm self-propelled gun 2S5 'Giatsint-S' before firing toward Ukrainian positions at an undisclosed location in Ukraine.  EPA/RUSSIAN DEFENCE MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT -- MANDATORY CREDIT -- BEST QUALITY AVAILABLE -- HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Vladmir Putin continua a pintar a ofensiva no terreno como uma vitória

RUSSIAN DEFENCE MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

A análise é repetida por especialistas militares nos canais críticos do Kremlin: Putin não está a ganhar a guerra; pelo contrário, esta tornou-se num dos seus pontos fracos e num sorvedouro de fundos. No entanto, há um ponto de discórdia. Alguns analistas argumentam que Moscovo sabe que o cerco se está a fechar e que, por isso, se aproxima de Donald Trump num ato de desespero. Outros consideram que a longa liderança de Vladimir Putin lhe deu um sentimento de impunidade que lhe permite tentar manipular os Estados Unidos, mesmo quando as suas cartas se esgotam.

Quando elogios, prendas, negociações e incentivos económicos já não tiverem efeito em Donald Trump e as opções do Kremlin se esgotarem, o baralho russo pode ter um último trunfo, escreve o Moscow Times: culpar Kiev pelo falhanço das negociações.

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