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“Restabelecer condições de estabilidade dentro da Europa e de estabilidade estratégica com a Rússia“. São estas as palavras que definem a principal prioridade norte-americana em relação à Europa, segundo a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos das América (EUA), publicada pela Casa Branca na madrugada desta sexta-feira. O documento de 33 páginas, dado a conhecer uma vez em cada mandato presidencial, levanta o véu sobre a política externa da atual administração Trump, com destaque para o tom duro que utiliza em relação aos aliados europeus e neutro em relação à Rússia.
O tom do documento é digno de destaque por se tratar de uma inversão em relação à política externa norte-americana das últimas décadas — incluindo a estratégia da primeira administração Trump. A Europa, aliada de longa data, é reconhecida como tal, mas alvo de duras críticas, que incluem uma acusação de que o “velho continente” irá estar “irreconhecível nos próximos 20 anos ou menos” devido à “perspetiva realista e gritante de um apagamento civilizacional“. Pelo contrário, a Rússia, historicamente o maior adversário geopolítico de Washington, perde o lugar para a China, que ganha um lugar cimeiro na estratégia norte-americana.
Já Moscovo é mencionado apenas no âmbito do capítulo “Promover a grandeza europeia”. A prioridade em relação aos russos, como visível no objetivo anteriormente mencionado, é “reestabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia”. No entanto, o documento reconhece que esse objetivo só será possível pondo fim ao pomo da discórdia que divide os aliados europeus e a Rússia: a guerra na Ucrânia. O “fim célere das hostilidades na Ucrânia” é, por esse motivo, classificado como “um interesse chave dos Estados Unidos”.
O fim da guerra na Ucrânia é um desejo partilhado com muitas das nações europeias. Porém, enquanto os líderes norte-americanos enfatizam a “celeridade” da paz, os líderes europeus — incluindo o Presidente ucraniano — focam-se na sua “justiça”, ao mobilizar repetidamente o conceito de “paz justa e duradoura”. Esta dissonância entre os desejos para a Ucrânia dos dois lados do Atlântico é reconhecido no texto do documento, onde se pode ler que “a administração Trump se encontra em conflito com os responsáveis europeus que têm expectativas irrealistas em relação à guerra”.
A dificuldade em trabalhar em sintonia também é reconhecida pelos líderes europeus, que numa reunião na passada segunda-feira terão ido ainda mais longe e expressado desconfiança em relação aos parceiros norte-americanos. O sentimento incidiu em particular sobre os enviados especiais de Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner que, no dia a seguir a esse mesmo encontro dos europeus, se encontraram com Vladimir Putin na Rússia. O Presidente francês, Emmanuel Macron, terá mesmo expressado receio de uma “traição” dos norte-americanos à Ucrânia, segundo transcrições da reunião privada divulgadas pelo Der Spiegel. Contudo, publicamente, Macron negou as declarações e insistiu: “A união entre americanos e europeus no assunto ucraniano é essencial”.
Críticas em privado e mobilização de ativos russos. O “momento decisivo” que “define o futuro da Europa”
No espaço de quase um ano desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, o Presidente dos Estados Unidos tem mantido uma postura no mínimo errática no que toca à guerra na Ucrânia. Quando tomou posse, o chefe de Estado trazia da campanha a promessa de pôr fim ao conflito em poucos dias. A promessa rapidamente se verificou difícil de cumprir e, ao longo dos últimos meses, Trump tentou várias abordagens para fazer frente à guerra: ora pressionou Moscovo, ora Kiev; ora se aproximou de um, ora de outro.
Os desenvolvimentos mais recentes culminaram com a apresentação de um plano de 28 pontos, em meados de novembro, que foi depois revisto em negociações com os ucranianos, que recusaram as exigências que eram feitas, dada a sua proximidade com a posição russa. Enquanto Estados Unidos, Rússia e Ucrânia protagonizavam mais uma ronda de tensas (e pouco produtivas) negociações, também a Europa desempenhava o mesmo papel que tem mantido ao longo deste ano: o de negociador excluído da mesa que tenta provar a sua importância.
Fora da mesa das negociações, resta à Europa consolidar-se como o principal apoio da Ucrânia, em duas dimensões: política e económica. O apoio político passa principalmente pela defesa de Kiev, em particular de Volodymyr Zelensky, junto dos Estados Unidos, funcionando como contrapeso da influência russa junto da Casa Branca. Prova disso é a videoconferência desta segunda-feira, em que sete chefes de Estado e de Governo da Europa se juntaram ao secretário-geral da NATO, Mark Rutte, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, para fazer um ponto de situação e ajudar o Presidente ucraniano durante a mais recente ronda de negociações.
▲ O plano da Comissão Europeia procura contornar limitações para mobilizar ativos russos congelados
RONALD WITTEK/EPA
Para além dos alegados avisos de Macron sobre a possibilidade de “os EUA traírem a Ucrânia [na questão dos] territórios, sem clareza sobre as garantias de segurança”, Friedrich Merz, o chanceler alemão, terá aconselhado Zelensky a “ser muito cuidadoso”. “[Os norte-americanos] estão a jogar jogos com vocês e connosco”, terá alertado. O Presidente finlandês, Alexander Stubb, terá ido ainda mais longe, ao dizer que “não podemos deixar a Ucrânia e Volodymyr sozinho com estes tipos”, uma declaração que terá contado com o apoio de Rutte, que expressou a necessidade de “proteger Volodymyr”.
A reunião privada é mais uma prova do cerrar de fileiras dos líderes europeus em volta de Volodymyr Zelensky. Mas, esta semana, a União Europeia (UE) procurou passar das palavras de apoio aos atos e propôs avançar com o financiamento dos esforços de guerra da Ucrânia com recurso aos ativos russos congelados em empresas belgas. A proposta, discutida há muito dentro do bloco, não é unânime, mas a estratégia apresentada pela Comissão Europeia procura contornar estes limites recorrendo a uma votação de maioria simples. A principal oposição continua a ser a Bélgica, que detém os ativos e que exigiu, por isso, uma reunião de última hora com os líderes comunitários, marcada para esta sexta-feira ao final do dia.
Também a nova proposta de financiamento surgiu em resposta aos desenvolvimentos mais recentes nas negociações, em particular ao plano de 28 pontos, que não continha qualquer referência a reparações de guerra, antes mencionava investimentos conjuntos entre a Rússia e os Estados Unidos. “Não podemos deixar para Estados não-europeus a decisão sobre o que acontece aos recursos financeiros do Estado agressor que foram legalmente congelados dentro da jurisdição do nosso Estado de direito e na nossa própria moeda”, argumentou Merz numa coluna de opinião num jornal alemão no mesmo dia em que Von der Leyen anunciou o plano da comissão. “As decisões que tomarmos agora vão definir o futuro da Europa“, rematou o chanceler.
A importância do atual momento também é destacada por analistas. “É um momento decisivo para a Europa e para a importância da Europa no palco global”, considerou Daniel Hegedüs, diretor regional do German Marshall Fund ao New York Times. “Se a Europa não for capaz de apresentar resultados, a Ucrânia pode ser forçada a aceitar um acordo de paz desvantajoso”, rematou. O mesmo alerta foi deixado pelos especialistas do think tank European Council on Foreign Relations numa carta aberta destinada aos “líderes europeus”, em que destacam que estes devem encontrar forma de criar um “cofre de guerra para Kiev” seja através da mobilização dos ativos congelados ou por outros meios.
Independente da estratégia escolhida, os especialistas europeus também alertam que o momento é decisivo. E que, ao contrário de outras alturas, Bruxelas não pode ser influenciada pela política externa do outro lado do Atlântico. “As discussões arrastaram-se indesculpavelmente durante meses, muitas vezes distraídas pela esperança de uma mudança positiva em Washington, pela necessidade de combater outras crises políticas ou, por vezes, pela simples inação burocrática”, rematam.
▲ Sem lugar à mesa, os líderes europeus continuam a cerrar fileiras em torno de Zelensky
PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT/EPA
“Apagamento civilizacional”: as críticas da Casa Branca à Europa que cimentam a “batalha pelo Ocidente”
Além das videoconferências privadas, das reuniões dos norte-americanos com Putin na Rússia e dos ucranianos em Miami, uma outra reunião também teve lugar esta semana, entre responsáveis militares norte-americanos e europeus em Washington. Durante esse encontro, os norte-americanos informaram os seus pares de que a Casa Branca quer que a Europa assuma a maior parte das capacidades de defesa convencional da NATO até 2027, avançou esta sexta-feira a Reuters.
Apesar do prazo ser “irrealista”, como classificaram alguns dos responsáveis europeus, o desejo vai ao encontro da tendência crescente de a UE e a Europa autonomizarem a sua defesa dos Estados Unidos e da NATO, uma preocupação que é indissociável do conflito na Ucrânia, às portas do bloco comunitário. Mas esta decisão da Casa Branca, transmitida pelos responsáveis do Pentágono também vai ao encontro da Estratégia de Segurança Nacional norte-americana, entretanto tornada pública.
Neste documento, a administração Trump deixa duras acusações ao continente europeu e às dificuldades financeiras que vários dos Estados enfrentam. No entanto, “o declínio económico é eclipsado” por aquilo que os norte-americanos consideram ser a possibilidade de “um apagamento civilizacional“. A acusação prende-se principalmente com a política migratória — mobilizando a teoria de índole racista da “grande substituição” — e com o combate à ascensão da extrema-direita a que se tem assistido na Europa — que o documento classifica como “censura da liberdade de expressão e supressão da oposição política”. Estas tendências, escreve a administração, contribuíram para a “perda de identidades nacionais e autoconfiança”.
Então, qual a relevância da Rússia e da guerra da Ucrânia neste contexto político? A Casa Branca considera que o conflito é um sintoma desta “perda de autoconfiança” dos Estados europeus. O desenrolar da guerra no continente, argumenta, é prova de um declínio civilizacional europeu, pois, apesar de “ter uma vantagem de poder militar sobre a Rússia em quase todas as dimensões, exceto armas nucleares”, “as relações europeias com a Rússia estão agora profundamente atenuadas e muitos europeus consideram a Rússia como uma ameaça existencial”. Ora, é este cenário que a política externa norte-americana de Trump pretende alterar, repondo a estabilidade política — e consequentemente económica — no continente, tanto entre os aliados europeus, como na Rússia.
▲ O "impasse" nas negociações e as divergências entre Europa e EUA beneficiam Putin
ALEXANDER KAZAKOV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
Apesar das duras críticas às políticas europeias, a Casa Branca não deixa de reconhecer que “a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos” e ainda que “a América está, compreensivelmente, ligada sentimentalmente ao continente europeu“. É por esse mesmo motivo, justifica, que os Estados Unidos querem “trabalhar em conjunto com países alinhados que querem restaurar a sua antiga grandeza”.
Alguns líderes europeus não hesitam em aproveitar esta porta aberta para manterem o diálogo com Donald Trump, independentemente de todas as críticas. Exemplo disso são as palavras deixadas por Mark Rutte e Emmanuel Macron esta semana, dias depois das alegadas críticas aos norte-americanos na videoconferência privada. Na China, Macron negou todas as declarações e afirmou que Europa e Estados Unidos precisam de “trabalhar em conjunto” para alcançar a paz — recusando criticar Trump, mas destacando a necessidade de uma relação bidirecional entre as duas margens do Atlântico. Em Bruxelas, Rutte aproximou-se ainda mais de Trump ao classificá-lo como a única pessoa no mundo capaz de quebrar o impasse nas negociações.
“Estamos numa batalha pelo Ocidente“, declarou um conselheiro sénior europeu ao The Economist sobre estas fissuras na aliança transatlântica. Mas enquanto europeus e norte-americanos travam as suas batalhas, Vladimir Putin aproveita o novo impasse para visitar a Índia, um dos dois maiores compradores de petróleo russo e, por isso, parceiro económico essencial de Moscovo. E foi a partir da capital indiana que o Presidente russo deixou claro que a mais recente ronda de negociações não deixou o fim da guerra mais próximo. “Tudo se reume a isto: ou libertamos esses territórios [do Donbass] pela força das armas ou as tropas ucranianas vão sair desses territórios e parar de lutar”, declarou.