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O envio de militares para Los Angeles pode ter sido o primeiro sinal de força do Presidente norte-americano. Donald Trump já admitiu que pode enviar tropas para “outras partes” do país para responder a todos aqueles que prejudiquem o trabalho dos agentes responsáveis pelas rusgas do Serviço de Imigração e Controlo de Fronteiras (ICE, sigla em inglês) ou que se manifestem contra o seu trabalho. As diretivas do chefe de Estado levantam, no entanto, várias objeções. Uma delas prende-se com a possibilidade de politização das Forças Armadas, isto é, se não estarão a cumprir objetivos políticos, afastando-se da independência que lhes é exigida.
Essa independência deverá ser testada no próximo sábado, no dia que se celebra o 250.º aniversário das Forças Armadas norte-americanas. Será organizada uma grande parada militar em Washington D.C. para celebrar a efeméride, que calha no mesmo dia do aniversário de Donald Trump. Em resposta a este evento — que contará com mais de seis mil soldados, tanques e aeronaves — vários grupos estão a organizar manifestações para o dia 14 de junho, de forma a protestar contra as medidas desta administração.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
O Presidente norte-americano já deixou a garantia que os manifestantes vão enfrentar “muita força” caso decidam perturbar a parada militar, com a qual Donald Trump já sonha desde o primeiro mandato. Isso colocará novamente os holofotes sobre as Forças Armadas, que já estão a enfrentar escrutínio público por causa do que se passa em Los Angeles. “A coincidência infeliz da parada e a federalização da Guarda Nacional da Califórnia não agouram nada de bom”, comenta ao New York Times Kori Schake, que trabalhou no Pentágono durante a administração do ex-Presidente George W. Bush.
▲ Manifestantes contestam Guarda Nacional em Los Angeles
ALLISON DINNER/EPA
Entre os militares, já existe alguma insatisfação. Para alguns setores das Forças Armadas, o envio de agentes da Guarda Nacional e de fuzileiros para Los Angeles representou uma linha vermelha, sobretudo porque as autoridades democratas californianas se opuseram frontalmente à decisão federal. O facto de Donald Trump ter admitido a possibilidade de enviar tropas para outras partes dos Estados Unidos, aliado à realização da parada militar no dia do seu 79.º aniversário, aumenta ainda mais a frustração.
As queixas de alguns veteranos sobre Los Angeles e a defesa da administração
A questão de mobilizar militares para travar protestos já tinha sido uma ideia de Donald Trump durante o seu primeiro mandato. Na sequência das manifestações depois da morte de George Floyd, em 2020, o chefe de Estado esteve prestes a fazê-lo, mas foi travado pelo ex-secretário da Defesa, Mark Esper, juntamente com outros conselheiros do seu núcleo duro.
Em 2025, ainda assim, a situação é diferente. Rodeando-se de aliados políticos na administração, Donald Trump não encontrou qualquer oposição. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, subscreveu as ordens da presidência. Nos bastidores, o chefe de gabinete-adjunto da Casa Branca, Stephen Miller (em que o chefe de Estado confia), está a coordenar todo o processo. “O Stephen tem sido claro em todas as reuniões: mais militares e mais rápido”, contou à Axios um conselheiro do Presidente.
Mas esta intensificação da presença militar em Los Angeles levanta várias dúvidas a alguns militares. Em declarações ao Financial Times, Janessa Goldbeck, veterana dos fuzileiros navais, denuncia a “grande mudança nas normas civis-militares” imposta pela administração Trump, que criou um “precedente perigoso”. “Quando me juntei aos fuzileiros navais, fiz um juramento à Constituição, não a uma pessoa, nem a um partido. Acredito que as Forças Armadas existem no país para defender a nossa república e não para servir as ambições políticas de uma pessoa.”
O mal-estar deve-se essencialmente ao envio de militares pelo poder federal em discordância com o governador da Califórnia, Gavin Newsom. O político democrata garantiu que as autoridades locais estavam a dar conta de recado — e não precisavam de ajuda federal. Ou seja, a administração Trump tomou a decisão unilateralmente. Com isso, iniciou um combate político, nas quais a Guarda Nacional e os fuzileiros se viram arrastados.
“O emprego federal da Guarda Nacional não tendo em conta os desejos de um governador é mau para todos os norte-americanos que estão preocupados com a liberdade e os direitos dos estados”, afirmou Randy Manner, que vice-liderou a Guarda Nacional. Num comunicado enviado à Fox News, o major-general na reforma argumentou que o “governador tem a autoridade e capacidade para responder à perturbação civil dentro do seu estado”.
“Esta é uma politização das Forças Armadas”, sentenciou ao The Guardian o major-general na reserva Paul Eaton, explicando que esta ação dá uma reputação “terrível” às Forças Armadas. “Devem estar na retaguarda, não devem estar à frente dos cidadãos norte-americanos”, afirmou.
Ao Financial Times, Rachel Hicks, que serviu na Guarda Nacional nos estados do Tennessee e no Nevada, frisa que a Guarda Nacional “nunca deveria ser convocada” para esta missão. “Nenhum dos soldados está treinado para motins”, expõe a militar, que lamenta que a presidência norte-americana tenha colocado os militares e a população numa situação “pouco segura e potencialmente fatal”.
Contudo, a presidência norte-americana continua a defender a mobilização de militares para Los Angeles, uma medida que também está a ser aplaudida pela base eleitoral. Numa entrevista à NPR, Tricia McLaughlin, porta-voz do Departamento de Segurança Interna (que controla o ICE), lembrou que a Guarda Nacional e os fuzileiros “estão a controlar multidões” e a “defender edifícios federais”, à porta dos quais, na passada sexta-feira, no dia em que começaram os protestos, várias pessoas se manifestaram.
▲ Kristi Noem, secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, saiu em defesa da ações da presidência
U.S. Immigration and Customs Enf
“Precisamos de mais recursos no terreno. E mais botas no terreno. São mais homens e mulheres num uniforme a garantir que a lei é cumprida, que a nossa propriedade federal está segura, assim como os manifestantes”, prosseguiu Tricia McLaughlin, atirando contra o governador da Califórnia e a mayor de Los Angeles, Karen Bass, por não conseguirem “pacificar” os ânimos.
Ao Politico, um conselheiro e comentador político conservador, Steve Cortes, defendeu as ações do Presidente, que estão a ser bem-recebidas por grande parte do Partido Republicano. “Trump mostra a força certa para proteger as vidas americanas e a propriedade”, defendeu, recordando o que aconteceu em 2020, durante os protestos pela morte de George Floyd, que podem ter ajudado a moldar a resposta do Presidente aos protestos em Los Angeles: “Trump está num caminho muito diferente agora. Na altura, [a resposta] não foi contundente, nem precoce”, avalia.
A parada militar com que Trump sonha desde 2017
14 de julho de 2017. Numa visita oficial a Paris, Donald Trump ficou impressionado pelo desfile militar do Dia da Bastilha. “Foi uma das paradas mais incríveis que vi. Foram duas horas de poderio militar e penso que foi uma coisa incrível para França e para o espírito de França”, admitiu o Presidente norte-americano numa conferência de imprensa ao lado do homólogo francês, Emmanuel Macron. Desde aí, o chefe de Estado ficou com o plano de replicar o que viu em Paris — mas, desta vez, em Washington.
▲ Donald Trump e Emmanuel Macron assistem à parada militar do 14 de julho
Getty Images
No entanto, durante o primeiro mandato, nunca surgiu a oportunidade para fazer uma parada militar da dimensão daquela que Donald Trump viu na capital francesa. Os dirigentes do Pentágono e as chefias militares também demonstravam algum ceticismo; este tipo de eventos nunca foram comuns nos Estados Unidos e eram comparados ao que acontece na Coreia do Norte e na Rússia.
Em 2025, o Presidente norte-americano pôde finalmente dar corpo à ideia que tinha na gaveta há vários anos. Ainda assim, a iniciativa partiu das Forças Armadas. Para comemorar o 250.º aniversário, desejavam um evento maior; tradicionalmente, havia um discreto festival no Museu Nacional do Exército Norte-Americano, no estado da Virginia, mas, este ano, ambicionavam levá-lo até Washington D.C.
“O pensamento foi: vamos levar o festival até ao [parque] National Mall [em Washington D.C.] para que seja mais fácil para o público participar”, referiu ao Washington Post Paul Hadwiger, gestor de eventos ao vivo na divisão das Forças Armadas de Washington. O evento que inicialmente os militares imaginavam seria relativamente modesto, apenas com 300 participantes. Quando apresentaram a ideia à Casa Branca, houve uma recetividade total. Mais: o evento foi “crescendo”.
▲ National Mall em Washignton D.C
AFP/Getty Images
Militares, carros de combate e aeronaves. O pequeno evento transformou-se numa grande parada militar, que pode custar até 45 milhões de dólares (cerca de 39 milhões de euros). Donald Trump assumiu que será uma “grande e bonita parada militar” e que será uma “pechincha”. À NBC, recordou que os Estados Unidos têm “os melhores mísseis do mundo. Os melhores submarinos do mundo. Temos os melhores tanques do mundo. Temos as melhores armas do mundo. Vamos celebrá-lo”.
Apesar da coincidência, Donald Trump assegurou que a parada militar não tem lugar apenas por calhar no dia “do seu aniversário”. Citado pelo Washington Post, o coronel Chris Vitale, responsável pela organização do evento, indicou que esse pormenor “nunca foi discutido” pela Casa Branca e nunca “fez parte do plano”.
Mas muitos militares não concordam — e não conseguem dissociar a data da parada ao aniversário do Presidente. Por exemplo, 25 veteranos que moram no norte da Virginia recusaram fazer parte do evento. Em declarações ao New York Times, Jay Kalner, líder do grupo de veteranos e antigo analista da CIA, explicou porquê: “Se fosse apenas uma questão de celebrar o 250.º aniversário das Forças Armadas, não haveria problemas. Mas sentimos um conflito com o aniversário de Trump e não queremos ser um enfeite nesse evento”.
Até republicanos estão a evitar estar presentes na parada militar. Como conta o Wall Street Journal, nem sequer o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, nem o líder do Senado, John Thune, irão participar. Congressistas e senadores do Partido Republicano manifestaram algumas dúvidas sobre o evento. Por exemplo o senador John Kennedy não se opõe diretamente ao “apelo do Presidente”, mas preferia “ter poupado o dinheiro”.
“Eu penso que os Estados Unidos da América são o país mais poderoso do toda a História. Somos um leão e um leão não tem de dizer que é um leão. Toda a gente sabe que é um leão. Para quê gastar mais de 40 milhões de dólares para dizer às pessoas que somos um leão?”, questionou o senador.
Nas Forças Armadas, persistem também várias objeções. Há alguns defensores: por exemplo, à ABC News, James McDonough, que esteve no Exército durante 27 anos, considera que os soldados que marcharão no sábado “estão a representar toda a História”. “Eles não representam um dia em específico. Eles não representam uma pessoa em específico. É as Forças Armadas que representam, orgulhosas e prontas a defender o nosso país”, disse.
▲ Tanques Abrams estarão na parada militar
Marcin Bielecki/EPA
Ao mesmo canal de televisão, Joe Plenzler, que lutou no Iraque, não consegue dissociar o evento do aniversário do Presidente norte-americano. “É suspeito. Eu adoro as Forças Armadas com todo o meu coração. Mas se o aniversário das Forças Armadas fosse um dia depois, provavelmente não o faríamos. Eu prefiro que 50 milhões de dólares sejam gastos a cuidar dos homens e mulheres que foram para a guerra e que vieram sem braços, pernas ou córneas”, diz.
Em todo o caso, certo é que, no sábado, haverá várias manifestações contra a parada militar. Juntamente com a frustração do envio de tropas para Los Angeles, várias cidades estão a organizar protestos. Organizados pelo coletivo No Kings Day (Não há Dias de Reis, em português), prometem fazer um “dia de desafio” ao poder de Donald Trump. “Estamos a tomar ações para rejeitar o autoritarismo — e mostrar ao mundo o que a democracia realmente é.”
▲ Protestos em Los Angeles
CAROLINE BREHMAN/EPA
Perante tudo isto, o professor de Ciência Política na Universidade de Duke, Peter Feaver, antevê que o “desafio da parada será como celebrar o aniversário das Forças Armadas e evitar a politização que advém do atual ambiente político polarizado. Esse desafio é consideravelmente mais difícil quando alguns militares vão estar na parada, enquanto outros vão estar a policiar um protesto público”.
Neste segundo mandato, seja com uma parada militar, seja com o envio de tropas por questões de política interna, o Presidente norte-americano já mostrou que vai colocar em prática as suas ideias — e que não há quase ninguém que o trave na sua administração. As Forças Armadas podem em breve transformar-se num instrumento para isso, mas muitos militares já demonstraram que estão insatisfeitos com esta politização.