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A Bienal, que decorre até 30 de junho, tem como tema "O Fantasma da Liberdade", a lançar pontes para os 50 anos da Revolução de Abril
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A Bienal, que decorre até 30 de junho, tem como tema "O Fantasma da Liberdade", a lançar pontes para os 50 anos da Revolução de Abril

Maria João Gala / Observador

A Bienal, que decorre até 30 de junho, tem como tema "O Fantasma da Liberdade", a lançar pontes para os 50 anos da Revolução de Abril

Maria João Gala / Observador

Anozero. A liberdade criativa da Bienal de Coimbra tem o futuro indefinido: "É muito provável que acabe"

Em causa está a conversão do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, o epicentro deste palco da arte contemporânea, em hotel de cinco estrelas. Fomos conhecer a edição deste ano e a incerteza sobre o futuro.

A Anozero — Bienal de Coimbra já faz parte da história do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Mesmo que o edifício seja convertido em hotel de cinco estrelas, ao abrigo do programa Revive – que concessiona imóveis históricos a privados, com vista à sua reabilitação para fins turísticos —, a marca nele deixada pela arte contemporânea, nas cinco edições que a Anozero leva, está para durar. A convicção é de Carlos Antunes e Désirée Pedro, da direção do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, que organiza a Bienal em parceria com a Câmara Municipal e a Universidade. Neste sábado, arranca mais uma edição, que pode ser a última, se não for assegurada a sua permanência naquele lugar ou garantidas condições “muito exigentes” para mudar de sede, alerta aquela dupla de arquitetos.

A Bienal, que decorre até 30 de junho, tem como tema O Fantasma da Liberdade, a lançar pontes para os 50 anos da Revolução de Abril. De acordo com os curadores, Marta Mestre e Ángel Calvo Ulloa, a presente edição “propõe-se explorar o imaginário da liberdade, da liberdade criativa e as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para disputar, deslocar e habitar esse imaginário”. Mas sobre ela paira também o espectro da incerteza, devido à previsível transformação do seu epicentro, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, num hotel de luxo. Lá iremos. Por agora, percorremos esse Monumento Nacional, que acolhe a maioria das obras, na companhia de Carlos Antunes e Désirée Pedro, para conhecer algumas propostas da Bienal — que, aquando da nossa visita, se encontra em fase de montagem.

O edifício foi erguido no século XVII, num ponto elevado da cidade, a fim de alojar as monjas clarissas que habitavam um mosteiro vizinho, situado numa cota mais baixa e alvo de inundações. Hoje, quem visita aquela construção imponente, lá no alto, encontra marcas de três tempos: o das clarissas, que se viram ali a salvo das cheias do Mondego; o dos militares, que fizeram do Mosteiro quartel; e o da Bienal, que tem atraído dos mais reputados artistas, nacionais e internacionais. Esses tempos cruzam-se, igualmente, no trabalho conjunto de Patrícia Gómez e María de Jesús González. A instalação Seguir siendo. Santa Clara-a-Nova, 1677-2024 tem por base arranques murais, que contam a história do espaço a partir das paredes e dos diferentes materiais. Misturam-se, assim, referências ao aspeto religioso do lugar, à vertente militar (na forma de cabos, tintas plásticas…) e à arte contemporânea (um mural feito numa edição anterior).

Estamos na margem esquerda do Mondego, em Santa Clara, com o rio e o casario encimado pela Torre da Universidade em frente, a mais clássica vista de postal

Maria João Gala / Observador

As peças com que as espanholas Goméz e González se fazem representar foram criadas de propósito para a ocasião. Integram um rol de dez obras comissionadas pela Bienal, no qual se inclui também Estrutura, de Filipe Feijão. Instalada no torreão norte, lembra um edifício em renovação, com ar inacabado e uma escada em caracol que parece não ter princípio nem fim, comenta Désirée Pedro; subjacente está a ideia de que uma obra “é um processo que não acaba”.

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O Mosteiro, com a sua existência de séculos e arquitetura possante, interpela criadores e visitantes, suscita reflexões e sorrisos. Atente-se, por exemplo, na obra da conimbricense Priscila Fernandes, Quantos cavalos são necessários para mudar o mundo?. O que vemos, ao longo de um corredor, são desenhos, em tinta da China, alusivos aos cavalos das estátuas equestres, desvenda Carlos Antunes: “Como se os cavalos das estátuas equestres, figuras neutras que garantem apenas a elegância do cavaleiro, se tivessem libertado do peso do cavaleiro”.

Entre as obras comissionadas pela Bienal conta-se ainda Dislocación, do galego Berio Molina, uma instalação sonora que recorre a buzinas resgatadas de um cemitério de navios, na Índia; hão de tocar duas vezes por dia, em horários aleatórios, como se houvesse uma embarcação a passar por esta cidade sem mar, de modo algo fantasmagórico. Estamos na margem esquerda do Mondego, em Santa Clara, com o rio e o casario encimado pela Torre da Universidade em frente, a mais clássica vista de postal. O som distintivo das buzinas, que se ouve a longa distância, remete para a ideia de viagem, mas também “tem uma dimensão política, de anúncio”, assinala o diretor da Bienal, que compreende exposições, espetáculos, oficinas e outros eventos.

Não Sofra Mais: da exposição ao manifesto

O tema O Fantasma da Liberdade (título de um filme de Luís Buñuel, de 1974) alude à comemoração dos 50 anos da Revolução dos Cravos, por um lado; e ao centenário do Manifesto Surrealista, por outro. É ele o fio condutor das obras, de mais de 40 artistas, de diferentes gerações e nacionalidades, distribuídas por oito espaços: a Sala da Cidade, o Jardim Botânico, o Colégio das Artes, o Pátio das Escolas, a Estação de Coimbra B, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC – Sede e Sereia) e, claro, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. “O edifício é a grande matéria desta Bienal”, diz Carlos Antunes, sentado no antigo refeitório, uma área de perto de 400 metros quadrados, reservada para a obra E lá dentro. Vento., da luso-alemã Susanne S. D. Themlitz.

Uma das marcas distintivas da Anozero prende-se, justamente, com a generosidade das áreas atribuídas aos criadores, observa o diretor, pegando na ideia do curador Agnaldo Farias de que “as bienais são máquinas de fazer desaparecer artistas”. Ele explica: “As bienais são espaços de uma grande especulação, de uma grande concorrência entre artistas, e cada um quer gritar mais alto que o outro, para preservar o seu pequeno território. Nós fazemos exatamente o contrário — a ideia é que os artistas possam ter muito espaço. Isto que vê aqui, ter uma ala com 400 metros quadrados para um artista, não existe em bienal nenhuma”.

O Turismo de Portugal informa que “a utilização do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova para a exibição de instalações da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra: Anozero resultou sempre de autorizações precárias concedidas pelo Estado, para tal efeito, em cada um dos anos em que tal autorização foi solicitada.

Um olhar mais atento e alguma memória das edições anteriores permitem detetar obras que ficaram a fazer parte do cenário. Uma delas pode ser vista, de longe, em letras vermelhas, no exterior do Mosteiro: Não Sofra Mais. Eis a mensagem deixada pelo islandês Ragnar Kjartansson, autor da exposição homónima que ali esteve, entre abril e julho do ano passado. Esse solo show, programação intermédia da Anozero, atraiu cerca de 15 mil visitantes. A expressão Não Sofra Mais — slogan dos rebuçados Dr. Bayard, uma ideia do artista — pode ter múltiplos sentidos, e adapta-se ao contexto da “crise do edifício”, reconhece Carlos Antunes, pondo em cima da mesa o tema da continuidade ou não da Bienal.

A posição de Carlos Antunes é clara desde há muito, mas reitera-a, secundado por Désirée Pedro: a Anozero deve permanecer no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, o seu palco principal desde o início, em 2015. Essa visão é partilhada por pelo menos mais 1628 pessoas, o número de subscritores que reúne, à data da publicação deste artigo, o Manifesto posto a circular em setembro passado, a partir da Bienal de São Paulo. O brasileiro Rubens Mano e o mexicano Luis Felipe Ortega, artistas que participaram em edições da Anozero, foram os autores desse manifesto, em defesa da ligação da Bienal àquele espaço.

No documento, expressa-se “total rejeição à condução de um processo que, surpreendentemente, desconsidera o papel e a importância que a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – Anozero representa para a recuperação simbólica do Mosteiro, para a expansão das experiências culturais em Coimbra e em Portugal e para a afirmação de um espaço de reflexão no circuito internacional das bienais de arte contemporânea”. Foi subscrito por diversas personalidades da cultura e demais esferas da vida pública, e não só. Artistas como Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Ragnar Kjartansson ou José Pedro Croft deixaram a sua assinatura, tal como os arquitetos João Luís Carrilho da Graça, Manuel Mateus e Gonçalo Byrne, ou a diretora e fundadora da bienal Manifesta, Hedwig Fijen. Mas da lista também constam nomes de académicos, empresários, estudantes e mais.

Désirée Pedro e Carlos Antunes, que dirigem o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra desde 2010

Maria João Gala / Observador

“Costumamos dizer que o artista residente desta Bienal é o edifício. Que está sempre. Ele relê as obras, condiciona as obras, lança pistas aos artistas”, salienta Carlos Antunes. Há quem aceite participar por causa do Mosteiro, acrescenta Désirée Pedro, dando o exemplo de Ragnar Kjartansson, que contactaram por e-mail depois de terem ficado “hipnotizados” diante da peça God, no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madrid. “O Ragnar não nos conhecia de lado nenhum. Fomos uns loucos”, recorda Antunes. A ideia inicial era levar a Coimbra um número reduzido de peças, mas o artista quis fazer uma retrospetiva, e até produziu obras novas, seduzido por um “espaço único no mundo”.

Para Désirée, não sobram dúvidas de que o Mosteiro é o grande trunfo da Anozero: “Somos pequenos, o país está polarizado entre Lisboa e Porto, Portugal é a periferia da Europa, portanto, só conseguimos ter determinados artistas cá quando lhes oferecemos o que não há em mais lado nenhum. E o que é? Não é o dinheiro, com certeza. Não são as condições extraordinárias de produção, com certeza. É isto [aponta em redor]. É por isto que conseguimos trazer [a Coimbra] pessoas que nunca vieram a Portugal, a preços altamente simbólicos, e partilhar com a região, a cidade e o país aquilo que não era possível de outra maneira”.

Que alternativa para a Bienal?

O programa Revive foi lançado em 2016, numa iniciativa conjunta dos ministérios da Economia, da Cultura e das Finanças, com o objetivo de dar vida nova a imóveis públicos que, no geral, estavam ao abandono, continuando esse património nas mãos do Estado. O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova fez logo parte do primeiro lote de edifícios a concessionar a privados por um período determinado. No site do Revive, o concurso público relativo à concessão para exploração do espaço surge como estando “a decorrer”. Porém, recentemente, o Diário de Coimbra noticiou que a vencedora do mesmo era a empresa Soft Time, do madeirense Sérgio Aleixo.

Contactado pelo Observador, o Turismo de Portugal confirma que “a concorrente Soft Time concluiu o processo de habilitação, estando agora em curso o procedimento de assinatura do contrato de concessão”; a “fase pré-contratual está assim encerrada”. Já a Câmara Municipal de Coimbra “não tem nenhuma informação oficial ou oficiosa sobre se há algum vencedor do concurso. Apenas sabe que o primeiro classificado desistiu e que iriam ser estabelecidos contactos com o segundo candidato”. Palavras atribuídas ao presidente da autarquia, José Manuel Silva, em resposta às perguntas feitas, via e-mail, pelo Observador.

A direção da Anozero considera o Mosteiro “a grande matéria da Bienal”. Sair dali para fazê-la noutro lugar é uma possibilidade que só se põe caso sejam asseguradas “condições muito exigentes de programação, estabilidade de equipa, estabilidade de reforço financeiro, ocupação [de um espaço] a 365 dias por ano”.

Questionado sobre a possibilidade de esta edição da Anozero ser a última, e sobre se propõe algum espaço alternativo para a mesma, o Turismo de Portugal informa que não tem (assim como o Grupo Revive e o Programa Revive) “qualquer intervenção na preparação, organização ou gestão” da Bienal. Informa que “a utilização do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova para a exibição de instalações da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra: Anozero resultou sempre de autorizações precárias concedidas pelo Estado, para tal efeito, em cada um dos anos em que tal autorização foi solicitada, não titulando a entidade organizadora desses eventos qualquer direito estável de utilização do Mosteiro”.

A Autoridade Turística Nacional ressalva, no entanto, que “as regras do concurso Revive preveem a possibilidade de um espaço delimitado do Mosteiro poder ser utilizado como espaço expositivo da Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra: Anozero no contexto de acordo que possa vir a ser firmado entre a concessionária da exploração do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e a Câmara Municipal de Coimbra”.

No caderno de encargos, lê-se que “o concessionário pode prever um espaço interior de 600 metros quadrados” como polo da Anozero, que, nos moldes atuais, se estende por uma área de 12 mil metros quadrados. “600 metros quadrados é pouco mais do que o refeitório” do Mosteiro, agora ocupado com a obra de uma só artista, nota o diretor da Bienal. Carlos Antunes rejeita a hipótese de a Anozero vir a coexistir, no mesmo espaço, com um hotel de luxo, ficando reduzida. Para o diretor da Anozero, trata-se de realidades incompatíveis, seria condenar o projeto à irrelevância. “Chegar a este ponto foi um percurso de enorme investimento. Andar para trás é uma rampa descendente, e muito rapidamente nos vamos tornar irrelevantes. Ora, para quê? Mais vale acabar em glória, como a Ava Gardner, não é?”, questiona, com humor.

“A ‘grande matéria’ da Anozero é a qualidade dos artistas e da arte contemporânea, não uma ruína barroca, que, sendo esplendorosa, não pode continuar a degradar-se”, diz José Manuel Silva

Maria João Gala / Observador

A autarquia, parceira da iniciativa, tem outra perspetiva. “A Câmara Municipal de Coimbra entende que a área do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova prevista para a Bienal é compatível com exposições e programação com escala e relevância que a Bienal tem tido, em conjunto com outros locais da cidade”, defende o presidente, José Manuel Silva. “A Bienal desde o seu início utiliza vários espaços da cidade como espaços de exposição, o mesmo acontecendo este ano, em que a Bienal se estende, para além do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, à Sala da Cidade, ao Pátio das Escolas, à Estação de Coimbra-B, entre outros espaços que integram a programação convergente.”

Já a direção da Anozero considera o Mosteiro “a grande matéria da Bienal”. Sair dali para fazê-la noutro lugar é uma possibilidade que só se põe caso sejam asseguradas “condições muito exigentes de programação, estabilidade de equipa, estabilidade de reforço financeiro, ocupação [de um espaço] a 365 dias por ano”, esclarece Carlos Antunes. Para logo concluir: “Acho que isto não vai acontecer. Portanto, é muito provável que a Bienal acabe. Não queremos que nos acusem de ter feito finca-pé e de ter transformado isto numa birra. Volto a dizer: achamos que deve ser aqui, com toda a convicção. Se nos quiserem criar uma alternativa, então qual é essa alternativa?”

Tal impasse já põe em risco a programação vindoura, segundo Désirée Pedro. “A nossa programação implica um solo show para o ano, e uma Bienal. Temos esse compromisso com o Estado, em 2026. Já devíamos estar a tratar do solo show no início deste ano. E estivemos até agora a pedir para alguém nos dizer o que vai ser feito, porque temos de tomar uma decisão”, conta. Acrescenta que já há uma artista internacional escolhida, mas o convite só pode ser feito quando houver garantias em relação ao espaço.

“A ‘grande matéria’ da Anozero – Bienal de Coimbra é a qualidade dos artistas e da arte contemporânea, não uma ruína barroca, que, sendo esplendorosa, não pode continuar a degradar-se continuamente”, contrapõe José Manuel Silva. “Coimbra orgulha-se do seu património, mas não das suas ruínas. Recentemente visitada, a Bienal de Malta, que ocupa 18 diferentes espaços, não decorre em nenhum edifício em ruínas.”

Perante o risco de a Anozero deixar de se realizar, por questões de localização, a mais antiga universidade portuguesa manifesta o seu “total” compromisso com a mesma, garantindo que “tudo fará para que a Bienal continue a crescer e a afirmar-se no panorama artístico internacional”.

O autarca eleito pela coligação Juntos Somos Coimbra assegura que “a Câmara Municipal de Coimbra já tem reservado um espaço alternativo/complementar para 2025, de semelhante dignidade e dimensão, caso se revele necessário, e que será revelado oportunamente”. Quanto à programação prevista para abril do ano que vem, adianta, sem concretizar: “Já está garantido um espaço alternativo/complementar para o solo show de 2025, de grande dignidade, de enorme volumetria e valor patrimonial e profundamente enraizado na história de Coimbra”.

Em resposta ao contacto do Observador, a Universidade de Coimbra, parceira de organização, faz saber que “tem sempre cedido espaços paradigmáticos para serem palco da Bienal”, disponibilizando nesta edição, pela primeira vez, “o espaço icónico do Pátio das Escolas para acolher uma instalação de Yonamine Amajah”. “É inequívoco que o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova tem um impacto notável na própria conceção da Bienal. A ser necessária uma alternativa para epicentro artístico da Bienal, terá obviamente de ter uma força comparável”, refere, através do Gabinete de Imprensa.

Perante o risco de a Anozero deixar de se realizar, por questões de localização, a mais antiga universidade portuguesa manifesta o seu “total” compromisso com a mesma, garantindo que “tudo fará para que a Bienal continue a crescer e a afirmar-se no panorama artístico internacional”. E quanto às dificuldades manifestadas pela direção para executar a programação acordada até 2026, neste cenário de incerteza? “O desfecho final do programa Revive não é ainda conhecido e o solo show não tem as mesmas exigências de espaço que a Bienal. Ainda assim, estão já a ser equacionados espaços alternativos, com um perfil convergente com o desejado”, informa.

Luz e inclusão em tempos adversos

Voltando ao Mosteiro e à sua cerca, o diretor da Bienal recusa a ideia de que esteja ao abandono, a ruir. “Este espaço já não está devoluto e abandonado; é a sede da mais importante bienal ibérica, reconhecida por outras pessoas. A questão, agora, é escolher entre a sede de uma bienal internacional, com capacidade de gerar riqueza, e um hotel de cinco estrelas”, assevera.

"Num momento tão difícil para o mundo, num nome tão premonitório como O Fantasma da Liberdade, a Bienal tornou-se luminosa"

Maria João Gala / Observador

Carlos Antunes não duvida: “O que está em causa é uma luta entre uma visão neoliberal do mundo, de privatização; e uma luta por quem acredita que o mundo pode ser um lugar de inclusão. Isto é especialmente relevante num momento em que o mundo se tornou num lugar de descrença. O futuro era uma coisa que nos animava a todos e, pela primeira vez na história da humanidade, nos últimos 50 anos, o futuro é um lugar assustador. E um lugar sem esperança é um lugar de privatizações, é um lugar de condomínios fechados, é um lugar de ricos de um lado e pobres do outro. Esta nossa luta ambiciona reconstruir o mundo como um lugar de esperança, um lugar que inclui todos”.

As dúvidas quanto ao futuro da Anozero não beliscam, ainda assim, a presente edição, assegura o diretor: “Acho que nunca houve uma Bienal tão luminosa como esta edição, até do ponto de vista concreto: pela primeira vez, os corredores estarão abertos, entrará luz; há som de pássaros, com uma instalação de Robert Filliou, no corredor; as árvores que a Susanne [S. D. Themlitz] traz também convocam o retorno da natureza a este espaço… Num momento tão difícil para o mundo, num nome tão premonitório como O Fantasma da Liberdade, a Bienal tornou-se luminosa. Isso é muito bonito, porque podíamos, num momento particularmente soturno, acentuar essa dimensão de um mundo sem esperança. E a arte faz o contrário”.

“Enquanto aqui estivermos, fazemos o que temos de fazer”, repete várias vezes Carlos Antunes. “E o que é preciso fazer é continuar a lutar para que este edifício seja um lugar de inclusão. Se não for este edifício, que seja outro, com condições reforçadas, como um lugar de inclusão.” O acesso à Bienal é, mais uma vez, gratuito. “Há pessoas muito pobres, em Santa Clara. Os nossos vizinhos. Eles passam a vida a vir aqui. Isso não seria possível, se tivessem de pagar”, aponta Désirée Pedro.

“O que nos interessa é este contexto urbano, esta cerca monástica que tem um enorme potencial de pensar o mundo e pode ser uma interface que liga uma cidade mais monumental a uma cidade mais esquecida, permitindo-se hoje ser um lugar de liberdade que nunca pôde ser, pelas circunstâncias do seu destino", diz Carlos Antunes.

A dupla de arquitetos recorda que a Bienal nasceu na sequência da classificação da Universidade, Alta e Sofia como Património Mundial pela UNESCO, como “um plano de acção para a cidade, mais do que uma festa [que acontece] de dois em dois anos”. O casal — junto também no Atelier do Corvo — considera que o património edificado “só tem sentido se for vivido” e realça o peso que tem na Bienal a arquitetura dos edifícios: o Mosteiro e os outros, do Jardim Botânico da Universidade à Sala da Cidade, municipal. “Eles não são um pavilhão neutro que muda todos os anos, com paredes de pladur. Eles repetem, têm uma permanência que interpela e reinterpreta as próprias obras”, diz Carlos Antunes.

O diretor da Anozero reforça, no entanto, que, sendo a Bienal um programa de ação para Coimbra, o ideal seria fazê-lo “sempre a partir deste microcosmos que é o Mosteiro e a sua cerca”. “O que nos interessa é este contexto urbano, esta cerca monástica que tem um enorme potencial de pensar o mundo e pode ser uma interface que liga uma cidade mais monumental a uma cidade mais esquecida, permitindo-se hoje ser um lugar de liberdade que nunca pôde ser, pelas circunstâncias do seu destino. Porque era uma cerca monástica, necessariamente fechada; porque era um quartel, necessariamente fechado”, conclui.

 
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