Índice
Índice
Um apagão que dura há quatro dias, 585 protestos em mais de 185 cidades, mais de 500 mortos e 10 mil detidos. É este o balanço mais recente de duas semanas de protestos no Irão, feito pela Human Rights Activists News Agency (HRANA), organização sediada nos Estados Unidos. Sem qualquer fim à vista, as manifestações contra o regime do Ayatollah Ali Khamenei ameaçam prolongar-se. Em resposta, os Estados Unidos ameaçam intervir. “O Irão está à procura de LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos a ajudar!!!”, escreveu Donald Trump este sábado nas suas redes sociais.
Esta é a apenas a mais recente declaração do Presidente norte-americano numa série de alertas que tem deixado ao regime iraniano. No início do ano, chegou mesmo a escrever que os Estados Unidos estão “preparados, armados e prontos a avançar”. A ameaça militar não é vazia. Afinal, há apenas meio ano, Washington bombardeava o programa nuclear iraniano, no âmbito da “Guerra dos 12 Dias” entre Irão e Israel. Desta vez, a intervenção militar é apenas uma alternativa na longa lista que chegou às mãos do chefe de Estado.
“Estamos a olhar para algumas opções muito fortes”, declarou Trump este domingo, a bordo do avião presidencial. Essas várias opções têm vindo a ser discutidas em Washington nos últimos dias, mas a administração norte-americana irá reunir-se esta terça-feira para as discutir formalmente, avançou o Wall Street Journal. À volta da mesa, estarão os nomes mais pesados da chefia política e militar: o Presidente, o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine. A reunião não deverá terminar com uma decisão definitiva, mas esta não deverá tardar. Afinal, é preciso aproveitar a “janela de ação” para poder atuar, como caracterizou um responsável norte-americano ouvido pelo Politico. O descontentamento do povo iraniano com o regime ajuda a justificar a ação de Washington que, ainda assim, tem de ser bem pesada.
Ataque militar: o equilíbrio entre danificar o regime e não causar “impactos civis enormes”
Há um ano e meio, Donald Trump fazia campanha eleitoral sob a promessa de não envolver os Estados Unidos em mais conflitos armados e focar-se na política interna, para “Fazer a América Grande Outra Vez”. À data, pouco no seu discurso fazia prever que a ameaça de um ataque militar no Médio Oriente pudesse soar tão séria. Contudo, chegado 2026, o Presidente não só já bombardeou o Irão, como acabou de realizar uma outra intervenção militar, bem-sucedida na leitura de Washington, contra a Venezuela. Mas cada caso é um caso e mesmo que a administração norte-americana decida avançar com uma operação militar esta pode ter várias formas.
▲ O escalar de tensões acontece meio ano depois de os EUA terem intervindo na guerra entre Irão e Israel
ABEDIN TAHERKENAREH/EPA
Ataque limitado a alvos militares (ou civis)
No cenário de um ataque militar, a opção mais “simples” é a de um ataque cirúrgico a alvos estratégicos — muito semelhante ao que aconteceu em junho do ano passado. Na lista de opções a apresentar ao Presidente, contam-se ataques a alvos não militares em Teerão, como infraestruturas de energia e telecomunicações controladas pelo regime, avançou o New York Times, citando responsáveis norte-americanos. Contudo, caso Trump decida escolher esta opção, o mais provável é que o alvo seja a Guarda Revolucionária Islâmica ou as autoridades policiais — ou seja, um alvo militar — escreve o Politico, que também cita um responsável norte-americano.
Como em todas as opções, esta abordagem tem algumas limitações. Neste caso, é necessário encontrar o equilíbrio entre um ataque demasiado forte que provoque “impactos civis enormes” — motivo pelo qual um alvo militar seria preferível — e um ataque significativo o suficiente para afetar o regime e contribuir para o fim da repressão e violência que tem sido relatada nos protestos, violência à qual os Estados Unidos dizem querer pôr fim.
Em qualquer um dos casos, soma-se uma outra desvantagem, que também está a ser ponderada, segundo o Wall Street Journal: a possibilidade de um ataque militar norte-americano poder ser utilizado como “propaganda” pelo regime contra a interferência estrangeira e para exaltar o papel de Teerão como único garante da segurança do povo iraniano contra ameaças externas.
Derrubar a liderança política
Atacar um país, derrubar o seu líder, contribuir para a transição democrática. Foi este o projeto traçado para um ataque na Venezuela e que agora pode servir também de exemplo no Irão. Porém, em vez de derrubar, o ataque teria como alvo matar o Ayatollah. Além disso, os Estados Unidos definem como objetivo desta ação apoiar os manifestantes e não derrubar o regime. Por estes motivos, e pelo extenso leque de limitações, a hipótese de um ataque contra a cúpula do regime é mais improvável do que a de um ataque cirúrgico.
Em primeiro lugar, uma campanha desta dimensão exigira mais tempo de preparação, já que, neste momento, os Estados Unidos não têm nenhum porta-aviões a funcionar como base na região. O USS Gerald R. Ford, que habitualmente se encontra no Mediterrâneo e funcionaria como base, foi deslocado para o Mar das Caraíbas em preparação para o ataque à Venezuela. O pedido de mais tempo terá sido feito expressamente pelos responsáveis do Comando das Forças Armadas norte-americanas no Médio Oriente, por quererem preparar as tropas na região para um possível ataque, adiantou o New York Times.
▲ A hipótese de lançar um ataque para matar o Ayatollah parece improvável
Anadolu via Getty Images
A preparação das tropas na região é feita também em antecipação a uma outra desvantagem: a capacidade de Teerão retaliar contra um ataque norte-americano — como, aliás, já ameaçou que faria. Opções não faltam. O Irão pode responder com ataques contra tropas norte-americanas, infraestruturas regionais de energia ou até contra Israel, o principal aliado dos EUA na região. Em caso de resposta iraniana, Trump ameaçou que “os atingiria em níveis como nunca foram atingidos antes”. Mas essa hipótese também não é ideal, pois pode arrastar os Estados Unidos para um conflito mais prolongado no Médio Oriente — meses depois de o Presidente ter declarado que alcançou a paz na região, na sequência da assinatura do acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza.
Por último, mesmo que o ataque fosse bem-sucedido na eliminação do Ayatollah, isso abriria porta a um cenário de enorme incerteza. “Dada a ausência de uma liderança na oposição, este ataque alcança sucesso operacional, mas não estratégico”, avalia Danny Citrinowicz, analista no Institute for National Security Studies, à CNBC.
Opções “não cinéticas”: ciberataques, espionagem e gestos “simbólicos”
Neste momento, a maior parte das opções que estão a ser apresentadas ao Presidente “não são cinéticas”. A garantia foi dada ao Axios por um responsável dos Estados Unidos com conhecimento das reuniões que estão a decorrer entre a Casa Branca e o Pentágono. Ou seja, a lista de opções é muito longa e há muitas estratégias que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar antes de chegarem à necessidade de recorrer à força militar. Publicamente, a porta-voz da Casa Branca afirmou, como noutras ocasiões, que o Presidente não vai excluir a utilização de ataques aéreos.
A mais falada destas opções “não cinéticas” é o envio de terminais Starlink para o Irão, de forma a contornar o apagão e permitir o acesso à Internet, numa demonstração de solidariedade com os manifestantes. O próprio Donald Trump confirmou que esta opção está a ser discutida quando disse este fim de semana que “talvez fale com Elon Musk“. “Vou falar com ele assim que acabar isto com vocês”, declarou aos jornalistas, a bordo do avião presidencial, numa referência ao dono da Starlink e antigo membro da sua administração.
Outra opção seria a de anunciar a deslocação de um porta-aviões para a região, de forma a aumentar a pressão militar sobre o regime, mas sem avançar com um ataque, escreve o Axios. A hipótese traz à memória as primeiras etapas da operação norte-americana contra a Venezuela e a deslocação do USS Gerald Ford para o Mar das Caraíbas, em novembro do ano passado, semanas antes da operação que derrubou Nicolás Maduro.
▲ Os EUA dizem querer apoiar a luta dos manifestantes iranianos contra o regime
Middle East Images/AFP via Getty
Esta estratégia inclui ainda outras duas opções, mais tradicionais: um ataque cibernético e a aposta em missões de contra-informação, avançaram vários meios norte-americanos, sem apresentar qualquer detalhes sobre que alvos particulares teriam estas missões. Contudo, se a opção de um ataque militar parecia exagerada, a opção de uma estratégia cibernética parece insuficiente. A administração está a considerar a hipótese de uma ação meramente “simbólica”, depois de repetidas ameaças, desmoralizar manifestantes que procuram uma mudança de regime em Teerão, avançou o Wall Street Journal.
A “primeira opção”: a via diplomática, à mesa das negociações ou com o peso das sanções
“A coisa mais esperta que eles podiam ter feito — que era verdade há dois meses e é verdade agora — era ter negociações reais com os Estados Unidos sobre o que precisamos de ver no que toca ao seu programa militar.” As palavras foram deixadas na semana passada pelo vice-Presidente JD Vance, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca. A par das ameaças de Donald Trump, o seu número dois não excluía a hipótese de Teerão e Washington regressarem à mesa das negociações.
Esta segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão mostrou-se disponível para avançar com esse passo — sem nunca baixar a guarda contra as ameaças de um ataque militar. “Não somos belicistas, mas estamos preparados para a guerra. E também estamos preparados para negociações, mas negociações justas, com direitos e respeito mútuo”, declarou Abbas Aragchi durante uma reunião com os embaixadores no país em que acrescentou que os canais de comunicação entre os dois países continuam abertos.
A hipótese de a tensão entre os Estados Unidos e o Irão ser resolvida pela via diplomática já tinha sido avançada por Trump na véspera, quando anunciou que tinha sido contactado pelos líderes iranianos com esse propósito. Já esta segunda-feira, a porta-voz da Presidência, Karoline Leavitt, garantiu que “a diplomacia é sempre a primeira opção”. Ainda assim, a disponibilidade de ambas as partes para a diplomacia não é suficiente para apagar da mente do Presidente as restantes hipóteses. “Talvez tenhamos de agir antes de uma reunião“, declarou no domingo, a bordo do Air Force One.
A somar-se aos ataques militares, cibernéticos e híbridos, no baralho de Donald Trump há ainda uma outra opção, no campo da diplomacia: a aplicação de sanções. Podem ser novas sanções a novas figuras, apertar as sanções já existentes ou visar setores específicos como a energia ou o setor financeiro, mas todas deverão ser discutidas esta terça-feira, avançou a CNN. As sanções têm a mesma limitação de outras alternativas: o facto de serem insuficientes para travar o regime do Ayatollah.
▲ Uma mudança de regime não é declarada pelos EUA, mas é equacionada pelos analistas
NEIL HALL/EPA
Consideradas todas as estratégias, a lista é longa, mas de fora fica a hipótese de uma invasão. Em nenhuma situação haverá soldados norte-americanos em solo iraniano, escrevem vários meios de comunicação norte-americanos. Esta indicação — somada à improbabilidade de os EUA tentarem “decapitar” o regime iraniano — parecem apontar que o objetivo norte-americano imediato no Irão não é uma mudança de regime. Isso mesmo foi dito esta segunda-feira pelo embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, onde as movimentações são seguidas com máxima atenção pelo Governo de Telavive.
Contudo, alguns analistas consideram que mesmo que esse não seja um objetivo declarado ou a curto prazo de uma ação no Irão, a possibilidade tem de ser equacionada. “[A administração Trump] não está necessariamente desejosa de destruir o regime”, declarou Matt Gertken, estratega geopolítica na BCA Research, à CNBC. A realidade muda de figura se os protestos internos e a intervenção externa danificarem o regime “de forma tão significativa que os Estados Unidos entendem que não podem desperdiçar a oportunidade de intervir e forçar uma mudança de regime”, rematou.