Agora já é oficial: com António José Seguro a apresentar a sua candidatura presidencial, num auditório cheio de figuras do PS mas sem nenhuma representação da direção atual, já há um socialista (e logo um ex-líder) assumidamente na corrida a Belém. Em tempos de sede vacante no PS, para José Luís Carneiro e os seus mais próximos o ideal será deixar o processo correr “naturalmente”, tentando não criar clivagens pelo menos até às eleições autárquicas. Mas a consciência de que tudo pode encaminhar-se para que o PS acabe mesmo por dar o seu apoio a Seguro está cada vez mais presente entre os socialistas que deverão fazer parte da próxima direção do partido.
Segundo apurou o Observador, existe uma convicção entre carneiristas: o mais desejável — falta saber se é praticável — será deixar o processo das candidaturas presidenciais, que não nascem dos partidos, ir correndo sem intervenção oficial do PS (também por isso José Luís Carneiro insistia em entrevista, esta semana, que o seu foco está nas eleições autárquicas, cada vez que era questionado sobre as presidenciais). O objetivo é não criar tensões antes de umas eleições que, ao contrário das presidenciais, ainda animam o PS, na esperança de conseguir contrariar parte da hecatombe que sofreu a 18 de maio.
Assim, o ideal para a próxima direção seria só assumir uma posição definitiva a partir de outubro. Mas, entre as figuras próximas de Carneiro vai-se também assumindo que, a apoiar alguém, o mais “natural” seria que o PS desse o seu respaldo a António José Seguro — se se confirmar que é o único socialista na corrida, ainda para mais um antigo secretário-geral, seria difícil de justificar (mesmo com os profundos e conhecidos anticorpos que gera no PS) que os socialistas se recusassem a apoiá-lo. Ainda assim, existiria sempre o risco de comprar uma guerra interna com os costistas numa fase muito delicada para o partido e para afirmação de Carneiro.
“Não vamos ter condições para não apoiar um antigo líder”, considera uma fonte próxima de Carneiro, fazendo as contas à corrida: existem muitas dúvidas de que Augusto Santos Silva, muito próximo do ex-ministro da Administração Interna, tenha condições para avançar, embora o próprio insista que nenhuma das candidaturas até agora conhecidas “preenche os pré-requisitos” para avançar em direção a Belém; António Vitorino continua sem se pronunciar publicamente, depois de o Observador ter escrito que continuava em reflexão; e se o independente António Sampaio da Nóvoa avançar poderá “ter quem quiser” com ele, mas nunca o apoio oficial do partido (especialmente quando já existe um militante e ex-líder na corrida).
A pressão pública começou a ser mais forte esta quarta-feira, com Manuel Alegre a vir não só declarar o apoio a António José Seguro, mas também a incitar o PS a fazer o mesmo — e rápido. “O Partido Socialista deve pronunciar-se a favor da candidatura de António José Seguro, que é o socialista que até agora se apresentou e que está em condições de disputar a segunda volta”, disse ao Público. “Lanço um apelo ao Partido Socialista para que não demore mais tempo, para que não pactue com uma situação de ajustes de contas pessoais e que não esteja à espera de declarações de mera intenção.”
▲ Carneiro com Alegre na apresentação da sua candidatura à liderança do PS
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Direção atual em silêncio. Ninguém ouviu o discurso?
Do lado da atual e cessante direção de Pedro Nuno Santos — que até tinha chegado a lançar publicamente o nome do antigo secretário-geral, quando as movimentações para a sua candidatura já eram notadas no partido –, não se ouviu qualquer reação à apresentação da candidatura de Seguro.
“Não ouvi” ou “não vi”, foram dizendo ao Observador vários dos atuais dirigentes socialistas, que fazem questão de mostrar que não têm grande interesse ou curiosidade pelo discurso do antigo líder. Entre pedronunistas, mas sobretudo costistas, a animosidade é evidente e nem o facto de Seguro ser até agora o único socialista que assume a vontade de avançar e tentar ‘roubar’ Belém à direita — depois de 20 anos com Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa em Belém — convence boa parte do partido.
Do lado dos apoiantes de Carneiro, deixa-se um alerta semelhante ao de Alegre: os “ajustes de contas pessoais” podem deixar o PS ainda mais longe de um regresso a Belém, numa altura em que Henrique Gouveia e Melo segue à frente nas sondagens e um PS dividido poderia reduzir ainda mais as hipóteses de um socialista disputar a corrida. “Quem são eles para definir os pré-requisitos de um candidato?”, atira um socialista que considera “natural” a opção por apoiar Seguro.
Outro apoiante de primeira hora de Carneiro confirma que “nesta fase” o futuro líder do PS (e único candidato) “não vai dar nenhum sinal” sobre presidenciais (a não ser que a isso seja obrigado), nem deverá fazê-lo “antes de outubro”. Depois disso, a pressão continuará. “Julgo que Seguro será o candidato único da esquerda democrática. O PS acabará por ir atrás”, sentencia este destacado socialista, resumindo o sentimento de muitos dos socialistas que não comungam do sentimento anti-Seguro.
O que é certo, como já se previa, é que os anticorpos existem e que alguns dos ataques mais violentos têm partido daquela que foi, até agora, a direção do PS (Mariana Vieira da Silva, por exemplo, veio dizer que não conhece “nenhuma ideia” ou posição política de Seguro, e defendeu que este não foi bem sucedido a unir o PS nem quando era secretário-geral).
É por isso que deste lado do PS, que até há pouco tempo defendia publicamente a posição de Pedro Nuno Santos sobre os socialistas precisarem impreterivelmente de apoiar um candidato socialista e de finalmente voltarem a Belém, rompendo o domínio presidencial de décadas da direita, estas eleições já se vão dando por perdidas. Há quem sugira que o PS deve “fazer-se de morto” e apostar apenas nas autárquicas, focando-se nas áreas urbanas e tentando reconquistar capitais de distrito para fazer uma importante prova de vida pós-legislativas.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Seguro com apoios no PS, mas rejeita “amarras”
Mesmo entre quem assume que Seguro não é o seu “género” de candidato e critica o currículo (e “história de vida”) supostamente insuficiente do antigo líder, há uma série de constatações que se vão fazendo, à medida que o tempo passa e que só Seguro se chega à frente, ao lado dos também assumidos candidatos Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e Mariana Leitão.
“António Vitorino já não tem espaço… As pessoas já não gostam de gente que nunca mais chega”, sentencia um destacado socialista, notando que Seguro já tem consigo a “máquina partidária” — alguns presidentes de federação do PS ou dirigentes locais, por exemplo — e que já conseguiu ir conquistando apoios de figuras que querem fugir tanto à opção Gouveia e Melo como à opção Marques Mendes.
De resto, o cenário na candidatura de António José Seguro, lançada este domingo a partir das Caldas da Rainha (onde vive), foi claro: muitos socialistas, mas nenhum da atual direção. Nas filas da frente sentavam-se nomes como Francisco Assis ou Álvaro Beleza (que já disseram que estranharão se o PS não apoiar o seu antigo secretário-geral), João Soares (que tem denunciado o que diz ser uma “campanha de bullying” no PS contra Seguro), Maria de Belém, Alberto Martins, Carlos Zorrinho, ou Adalberto Campos Fernandes.
Já Seguro fez questão de tentar livrar-se a todo o custo, precisamente, dos rótulos partidários: falou numa candidatura “livre”, sem “amarras”, “apartidária”, afastou-se do percurso da política “tradicional” (embora o tenha percorrido desde a JS até ser líder do PS) e fez questão de dizer que esta é uma candidatura para todos. Nos tempos que correm, em que não ser político parece ser um potencial trunfo eleitoral, o candidato nem sequer quis pedir o apoio do PS nem colar-se ao partido, fazendo precisamente o discurso contrário — e usando curiosamente o passado tenso da guerra com António Costa no PS para lançar o maior soundbite da tarde: “Afastei-me quando podia dividir, agora volto para unir“.
Já para o PS a história é diferente: se Seguro até pode beneficiar de ser visto como um candidato fora da lógica dos partidos — ou até rejeitado, em parte, pelo seu –, o PS passou o último ano a garantir que não seguiria a lógica de António Costa nos tempos de Marcelo Rebelo de Sousa (apoiar tacitamente ou até incentivar as candidaturas do Presidente da República, sem dar apoio a figuras da sua área política) e que daria prioridade a um esforço para voltar a ver um socialista em Belém.
Na moção de José Luís Carneiro, já se dava um passo atrás: do perfil estabelecido por Pedro Nuno Santos, que falava em “experiência internacional” parecendo referir-se a António Vitorino e passou a pedir um candidato com “mundividência”, Seguro estabeleceu na sua moção que quer apoiar um genérico “estadista”. Essa personalidade deverá ter um desempenho “suprapartidário, isento, moderado e conciliador, com que todas e todos os portugueses se possam identificar”, situando-se no espaço moderado que o centro-esquerda representa.
Também nas ações que o PS deve tomar Carneiro passou a ser mais recuado: não fala em apoiar forçosamente um candidato, mas pôr os órgãos a “apreciar e pronunciar-se” sobre “as candidaturas ou intenções de candidatura apresentadas pelas cidadãs e pelos cidadãos” do centro-esquerda. A de Seguro está apresentada. Falta saber se nos próximos meses Carneiro decidirá que esta é a candidatura que preenche o requisito que tem enunciado — preservar a “união” do PS — e se, como se acredita agora entre carneiristas, o “natural” acabará por ser um apoio ao antigo, e divisivo, antigo líder.