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PSP afirma que combate ao tráfico e consumo tem tido "efeitos positivos". Em 2024, foram detidos 145 suspeitos de tráfico e posse de droga. Câmara de Lisboa tomou medidas para travar o consumo, mas autoridades queixam-se que não resultaram
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PSP afirma que combate ao tráfico e consumo tem tido "efeitos positivos". Em 2024, foram detidos 145 suspeitos de tráfico e posse de droga. Câmara de Lisboa tomou medidas para travar o consumo, mas autoridades queixam-se que não resultaram

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

PSP afirma que combate ao tráfico e consumo tem tido "efeitos positivos". Em 2024, foram detidos 145 suspeitos de tráfico e posse de droga. Câmara de Lisboa tomou medidas para travar o consumo, mas autoridades queixam-se que não resultaram

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Avenida de Ceuta, o "novo Casal Ventoso" onde o tráfico e o consumo "estão descontrolados". "Se as drogas acabassem amanhã, matava-me hoje"

A droga a céu aberto é um "problema antigo" nesta parte de Lisboa, mas nos últimos anos agravou-se. Câmara admite "preocupação", mas para quem ali vive e trabalha não é suficiente: "É degradante".

Este artigo contém linguagem e imagens que podem ferir susceptibilidades e alguns nomes foram alterados para proteger a identidade dos visados, a pedido dos próprios

Ricardo está irrequieto e tem as mãos a tremer. Coça os braços de forma frenética enquanto abre e fecha os olhos, esbugalhados. Acabou de consumir cocaína e heroína. Tem 55 anos, “anda nisto” desde os 18 e gasta “150 euros por dia” em droga. Mas o dinheiro, gaba-se, não é problema: “Ganho muito mais que isso, sou advogado”. E não pretende deixar o vício: “Se as drogas acabassem amanhã, matava-me hoje”. José, de 65 anos,  fumou “as primeiras ganzas” aos 16, por influência do tio. Já esteve “de cana” em Marrocos e foi sem-abrigo em Lisboa. Depois de experimentar de tudo um pouco, e por causa de vários problemas de saúde, “só já” consome heroína. “Acabei de dar na dita”, conta de forma despreocupada. Sérgio também fumou heroína há minutos. Com a voz a arrastar, explica que ficou viciado em morfina depois de uma lesão sofrida no exército, “há muitos anos”. Não tardou até começar “em coisas mais pesadas”. Mas descreve-se como “um drogado muito esquisito”.

As três histórias cruzam-se no Bairro da Quinta do Loureiro, na Avenida de Ceuta, em Lisboa, uma zona onde o tráfico e o consumo de droga são um problema antigo — e que, de acordo com os presidentes das Juntas de Freguesia de Campo de Ourique e Alcântara, tem vindo a agravar-se nos últimos anos. Ao circular pela Avenida de Ceuta, saltam à vista os “acampamentos” improvisados numa zona de mato, à beira da estrada. É fácil encontrar dezenas de pessoas a fumar ou a injetarem-se dia e noite na rua, no passeio, em vãos de escada ou dentro de carros. De um ponta à outra do bairro, e ao longo da parte da Avenida que circunda a zona residencial, o chão está repleto de seringas, juntamente com bocados de prata queimada e outros objetos usados para o consumo. Há partes da rua onde cheira a fezes. E há crianças a viver e a brincar ali.

O problema do tráfico e consumo de droga a céu aberto levou mesmo a Câmara de Lisboa a intervir. No início de 2024, a autarquia instalou grades à volta dos viadutos pedonais, onde os toxicodependentes se concentravam a consumir, removeu veículos abandonados da rua, também utilizados para o consumo, e reforçou a limpeza e a iluminação.

Mas, um ano depois, quem ali vive e trabalha garante que o problema não ficou resolvido — apenas “escondido”.

Há seringas e utensílios usados no consumo em todo o Bairro da Quinta do Loureiro e ao longo da Avenida de Ceuta

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Estou farto disto, é uma vida tóxica. Mas ainda não estou preparado para sair”

Num dos extremos do Bairro da Quinta do Loureiro, na zona do antigo Casal Ventoso, fica a Associação Ares do Pinhal, um centro que abriu em 2021 e dá apoio a toxicodependentes. Lá dentro, podem fazer o chamado “consumo assistido”, com recurso a seringas limpas e sob a supervisão de enfermeiros e psicólogos, tomar banho, trocar de roupa, tomar uma refeição ou simplesmente beber um café e conviver. É lá que estão Ricardo, José e Sérgio. Acabaram de sair das salas de consumo, uma prática frequente ou mesmo diária para muitas das 3.000 pessoas inscritas no centro sob a alçada da Câmara de Lisboa.

Ouça aqui a reportagem do Observador no Bairro da Quinta do Loureiro

8h. Tráfico de droga. PSP dá “atenção especial” à Avenida de Ceuta

Os três que contaram as suas histórias ao Observador foram encontrados num dia descrito como “calmo” pelo staff do centro. São vidas diferentes que se cruzam ali, naquele espaço.

Ricardo, advogado, 55 anos. Consome desde os 18
“Não tenho vergonha de ser doente. Estou nisto desde os 18 anos, tenho 55. Comecei a usar há muito tempo. Gasto muito dinheiro, 150 euros por dia. Mas ganho mais que isso, como advogado. Não preciso de roubar para consumir. Consumo cocaína e heroína, às vezes MD e também álcool. Consumo todos os dias, mas nem sempre venho aqui ao centro. Quando não venho, consumo em casa ou no meu escritório de advogados. Há pessoas que querem deixar a droga, eu não. Uma vida das 9h00 às 17h00 não é para mim. Se não houvesse drogas amanhã, matava-me hoje. Sou casado há 22 anos, tenho quatro filhos e nunca faltou nada em casa. A minha família sabe. A minha mulher nunca me deu a escolher entre ela ou a droga, porque sabe que eu escolheria a droga. A parte má da situação são os meus filhos, que também sabem. Essa é a parte má. Mas é o que é. Com os drogados, aprende-se que as pessoas são filhas da p…, como todas, mas lá fora são mais dissimuladas.”

José, 65 anos, reformado. Consome desde os 16
“Hoje vim ao centro consumir heroína. Só já posso consumir heroína, cerca de 5 euros. Tive um AVC recentemente e tomo 24 comprimidos todos os dias para regular ‘a máquina’ (coração) e, por isso, tive de reduzir a quantidade de drogas. Comecei a fumar umas ‘ganzas’ com 16 anos, na altura em que a erva vinha de Angola. A pessoa que me deu a experimentar foi o meu tio. Experimentei as drogas todas. Tive sempre curiosidade para ver o efeito destas substâncias em mim. Aos 24 anos, fui para Marrocos. Foi um erro. Tinha acabado de comprar droga num bairro. À saída, um grupo de pessoas confrontou-me com espadas. Queriam matar-me. Tinha uma arma. Matei dois a tiro. Apanhei 20 anos de cana, cumpri 17. Saí no dia 14 de agosto, de chinelos de praia. Não tinha nada. Quando voltei a Portugal, fui parar à rua. 14 anos sem-abrigo. Continuei a consumir, sobretudo álcool. Entretanto, o meu pai também faleceu, por causa do álcool. Venho aqui ao centro desde que abriu. Criei uma amizade com as pessoas. Às vezes nem venho fumar a dita droga, venho conviver, tomo o pequeno-almoço, vejo televisão. O tempo vai passando. Vivo sozinho e muitas vezes estou só comigo próprio. Os serviços sociais (da Câmara de Lisboa) deram-me uma casa há seis anos. A minha vida resume-se assim.”

Ricardo, trabalhador de armazém, 55 anos. Consome desde os 28
“Há pessoas aí na rua que não têm consideração nenhuma. Sacam da prata, injetam-se. Este centro é importante para evitar isso. Venho aqui há três anos, uma vez por dia, todos os dias. Saio do trabalho de manhã e passo por aqui. Consumo heroína. Costumo dizer que sou um drogado muito esquisito: não fumo charros, não fumo coca, não meto drunfos, não bebo álcool. É só mesmo heroína. E nunca ando acompanhado, é sempre sozinho. Consumo aqui, ou em casa, ou nas casas de banho públicas, só para aliviar o corpo. Comecei a consumir aos 28 anos, quando saí do exército. Porque é que comecei a consumir? Isso é muito complicado, dava uma novela. Fiz oito missões fora do país, na última fiquei ferido. Estive três meses em coma. Na recuperação deram-me morfina. Uma coisa levou à outra. Neste momento, não planeio deixar a droga. Sim, estou farto disto, é uma vida chata. Levo duas vidas: uma civil e outra tóxica. Só quem realmente importa sabe que consumo droga. É um conflito. Mas, para sair, a ambição tem de vir de dentro e sinto que não estou preparado. Vou mentir a mim próprio para quê? O futuro só a Deus pertence.”

Enquanto os três falam com o Observador, continua o “entra e sai” da Associação Ares do Pinhal. O centro está dividido por salas de consumo. A maior, logo à entrada, tem um espaço amplo, para permitir a intervenção dos profissionais de saúde em caso de overdose. E também uma porta direta para a rua, caso seja preciso chamar uma ambulância. Pode receber oito pessoas em simultâneo. Outra sala, ao lado e mais pequena, é dedicada ao consumo de crack. Há ainda uma terceira sala, para quem quer consumir heroína e crack. Estas duas últimas são autênticas “estufas”. Têm um sistema de ventilação, face ao fumo intenso que circula no interior. Todas têm janelas de vidro, para permitir ver o que se passa no interior.

Há quem injete seringas no braço, entre os dedos das mãos e até nas virilhas, com os genitais à mostra. Para tal, os toxicodependentes pedem seringas esterilizadas e prata limpa aos profissionais da Ares do Pinhal, que prontamente fornecem o material.

O centro oferece kits compostos por material limpo, para garantir um consumo seguro
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A maior sala permite um consumo mais "individualizado". O espaço é amplo para poder permitir a intervenção de profissionais de saúde, em caso de overdose
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Os toxicodependentes injetam-se sob a supervisão dos profissionais do centro
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Nas outras salas, é consumida heroína ou crack. É preciso ventilação face ao acumular de fumo
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“O enfermeiro vai ao encontro da pessoa, tenta perceber que substância vai consumir e qual o material necessário. O kit tem duas seringas, uma carica para colocar a substância, um filtro, um cítrico para fazer a dissolução e duas toalhitas para fazer a higienização do local do corpo”, explica Roberta Reis, coordenadora da Ares do Pinhal.

A droga, adquirida na rua, é consumida num ambiente social e descontraído. Os profissionais do centro, em conversa com o Observador, comparam mesmo estes espaços a um “café”, onde é possível fazer um “consumo seguro e social”. As salas são frequentadas na grande maioria por homens, portugueses. Há também cidadãos estrangeiros. Alguns não falam português nem inglês e comunicam por gestos.

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“Abrimos aqui (Bairro da Quinta do Loureiro) por razões óbvias. Desde a década de 1950, é uma zona onde o tráfico e o consumo de substâncias tem vindo sempre a aumentar”, explica ao Observador Hugo Faria, coordenador geral da Associação Ares do Pinhal. “Em 2021, estimávamos ter 300 registos ao fim do ano. Tivemos 1.300. Hoje temos cerca mais de 3.000”, enfatiza.

Num dia, o centro recebe em média 170 pessoas, faz 250 consumos assistidos, dá 90 refeições e fornece outros serviços, como consultas médicas ou de assistência social. “É uma estrutura necessária nesta área de Lisboa“, conclui Hugo Faria.

Apesar do centro, o consumo continua a ser feito na rua. Por vezes, mesmo ao lado do local de apoio aos toxicodependentes. O presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique lembra que a zona do antigo Casal Ventoso tem problemas com droga há décadas e fala num “barril de pólvora que explodiu” durante a pandemia da Covid-19 — altura em que, de acordo com Hugo Vieira da Silva, o tráfico e o consumo a céu aberto começaram a ser mais visíveis. “A altura da pandemia foi um período muito esquizofrénico. Veio desequilibrar ainda mais as pessoas que já tinham tendência a consumir”, explica o autarca eleito pelo PS, em declarações ao Observador.

Foi nesta altura que o consumo na rua aumentou, sobretudo debaixo dos viadutos ou nas paragens de autocarro, com a consequente instalação de tendas e acampamentos improvisados à beira da estrada e na zona de mato que rodeia a Avenida de Ceuta.

O autarca de Alcântara confirma: “Na altura, causou alarme social. Quem por ali passava via seres humanos num estado de degradação”. Davide Amado, também eleito pelo PS, lembra que a Avenida de Ceuta é há muitos anos uma zona de Lisboa com tendência para o tráfico e consumo de droga e confirma que a situação se tem agravado nos últimos anos.

É perante este contexto que a Câmara de Lisboa decidiu agir, com várias medidas no terreno. O destaque foi a instalação de grades à volta dos viadutos pedonais. Mas, de acordo com Roberta Reis, coordenadora da Associação Ares do Pinhal, o problema não ficou de todo resolvido.

“A nível visual as medidas tiveram efeito. As pessoas saíram dali. Mas, para nós, teve um efeito contrário: os toxicodependentes deixaram de ser vistos na Avenida de Ceuta e passaram mais para cima, para as colinas. Estão mais escondidas, em locais que não são seguros para nós irmos lá. Simplesmente se mudou o problema de sítio”, lamenta a especialista.

O presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique tem a mesma opinião. “A intervenção resolveu o problema pontual, mas manteve-se o problema global. Foi meramente relocalizado e escondido”, critica Hugo Vieira da Silva. “O problema do tráfico e consumo passou ainda mais para as traseiras dos prédios do bairro”, alerta. “O que aconteceu foi a dispersão do problema”, acrescenta o presidente da Junta de Freguesia de Alcântara.

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É neste ambiente que uma menina, com casaco cor de rosa e mochila a condizer, dá a mão ao pai enquanto os dois descem as escadas que vêm do Casal Ventoso. Trocam palavras, sorridentes. Cá em baixo, em plena luz do dia, há um homem com feridas nas mãos e com a pele a saltar dos pés, inchados. Está sentado, curvado, com o rosto escondido. Acabou de injetar uma seringa suja no braço direito. E começa a contorcer-se. Do outro lado da rua, numa espécie de beco onde ainda há poucas horas tinham passado duas carrinhas da PSP, cerca de uma dezena de pessoas também consome drogas, a céu aberto. A criança, com uns seis anos, passa por ali, indiferente. Ou pela inocência própria da idade ou talvez pelo hábito.

Quem ali vive e trabalha confirma que, apesar da gravidade da situação, este ambiente acabou por se tornar “natural”. É o caso de Paulo Seco, que nasceu e cresceu no Casal Ventoso. Para fugir ao mundo da droga e do crime, dedicou-se ao desporto. Abriu uma academia de boxe no centro do Bairro do Loureiro, para incentivar os mais jovens a seguirem o mesmo caminho. Fala numa “luta difícil” e que nunca vai acabar.

Paulo Seco, nascido e criado no Casal Ventoso, lamenta o estado a que o bairro chegou. Abriu um ginásio para tirar o mais novos da rua, mas fala numa "luta difícil"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Vejo-os a céu aberto a fazerem tudo e mais alguma coisa, a injetarem-se à porta de nossa casa. Não gosto de ver. Há aqui crianças. O problema é que nos habituamos. Chegas a um ponto em que normalizas uma situação que não pode ser normalizada”, reconhece, em tom de auto-crítica.

Câmara de Lisboa admite “preocupação” e destaca intervenções no terreno, PSP garante que está a dar “atenção especial” à Avenida de Ceuta. 145 suspeitos de tráfico e posse de droga foram detidos em 2024

A PSP revela que está a dar “uma atenção elevada e especial” à zona da Avenida de Ceuta, em Lisboa e garante que as operações de combate ao tráfico e consumo de droga “tem surtido efeitos positivos”.

Em resposta enviada ao Observador, a PSP adianta que, só em 2024, através da Divisão de Investigação Criminal deteve, em 2024, no Casal Ventoso e Avenida de Ceuta, 74 suspeitos por tráfico de estupefacientes. Através da 4.ª Divisão Policial, foram detidos 71 suspeitos por tráfico e posse de estupefacientes na mesma zona”. Ou seja, ao todo, foram detidos 145 suspeitos.

Ouça aqui o “Onde Pára o Caso?”, dedicado à intervenção da Câmara de Lisboa na Avenida de Ceuta:

A avenida de Lisboa onde há droga a céu aberto dia e noite: “Se não atuarmos agora, caminhamos a passos largos para um novo Casal Ventoso”

A PSP fala em “inúmeras intervenções” e explica que “tem adotado uma estratégia de presença policial constante e visível”. Nesta resposta, pode ler-se também que os agentes envolvidos nas operações têm “desmantelado barricadas improvisadas, compostas por madeira, ferro e outros materiais volumosos, colocadas nos acessos” dos prédios para dificultar as operações policiais.

A PSP conclui que as operações no terreno “têm contribuído para a redução do consumo e do tráfico de estupefacientes, embora reconheça que uma diminuição mais drástica depende de uma intervenção pluridisciplinar, envolvendo diversas entidades no plano autárquico, da saúde e da segurança social”.

A Câmara Municipal de Lisboa também garante que está atenta ao evoluir da situação na Avenida de Ceuta e afirma que o combate ao tráfico e consumo de droga é “uma prioridade”, afirmando que está a “desenvolver medidas concretas para minimizar o impacto deste problema, tanto na vida dos moradores como na área da saúde pública”.

Na resposta enviada ao Observador, a autarquia liderada por Carlos Moedas (PSD) assegura que tem transmitido esta “preocupação” à PSP e destaca o trabalho feito em colaboração com associações e entidades como a Ares do Pinhal, a Médicos do Mundo ou a Crescer.

A zona de mato ao lado da Avenida de Ceuta é utilizada para consumo a céu aberto e são visíveis da estrada "acampamentos" improvisados

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A Câmara de Lisboa destaca ainda várias intervenções feitas na zona da Avenida de Ceuta, como “ações de higiene urbana, limpeza e recolha de resíduos de consumo, desmatação das áreas florestadas e requalificação dos espaços públicos”. Ainda assim, a autarquia não faz um balanço da intervenção feita em 2024, como solicitado pelo Observador.

Luís esteve preso nos Estados Unidos por “cocaine trafficking” e largou a droga pela mulher: “O programa da metadona salvou a minha vida”

O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), sob alçada da Câmara Municipal de Lisboa, também lembra que esta é uma “zona sensível” há várias décadas e que tem obrigado a uma “estratégia concertada de intervenção”.

O ICAD destaca o aumento do número de pessoas em “situação de sem abrigo devido, em grande medida, a uma crise da habitação”. Por outro lado, “fruto de um desinvestimento progressivo e transversal” em várias respostas sociais e da saúde, “aumentaram as dificuldades de resposta adequada às necessidades emergentes, pondo em causa a manutenção e necessário reforço de uma estratégia concertada e intersectorial na abordagem aos comportamentos aditivos e dependências”, acrescenta a resposta enviada ao Observador.

O instituto refere-se, neste caso, ao facto de o horário das carrinhas de metadona, em Lisboa, ter começado a ser reduzido para metade por falta de verbas, em 2024. O Programa de Substituição em Baixo Limiar de Exigência, financiado em parte pela Câmara Municipal de Lisboa, é visto pela Associação Ares do Pinhal como crucial para o acompanhamento e recuperação de toxicodependentes viciados sobretudo em heroína.

A associação tem atualmente duas carrinhas: uma opera na zona da Avenida de Ceuta e na Praça de Espanha, a outra foca-se na parte oriental de Lisboa, em áreas como Santa Apolónia, Bela Vista e Lumiar.

“É uma primeira porta de entrada para um tratamento mais prolongado”, destaca Hugo Faria, coordenador geral da Associação Ares do Pinhal, em conversa com o Observador.

O enfermeiro José Carlos, da Associação Ares do Pinhal, é o responsável pela distribuição de metadona, numa das unidades móveis do centro
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Os toxicodependentes inscritos no programa da metadona deslocam-se à carrinha para procederem ao tratamento
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

E é na Praça de Espanha, no centro de Lisboa, que conhecemos Luís, de 55 anos. Hoje reformado, foi para os Estados Unidos “em bebé”, pelo que fala português com um sotaque “americano”.

“Estou neste programa da metadona há 20 e tal anos. Venho aqui todos os dias. Salvou a minha vida. Andei uns três anos na droga e acabei com isso. Estive nos Estados Unidos 32 anos. Estive preso por ‘cocaine trafficking and’ cumpri 12 anos e 6 meses de uma pena de 15 anos. Quando saí, fui expulso do país e voltei a Portugal em 1998. Foi cá que conheci a minha mulher. Eu estava picado. Ela nunca tocou na droga. Olhei para ela e pensei ‘esta mulher não merece isto e vou acabar já agora’. E acabou. Nunca mais toquei em drogas. Consumia ‘heroin’ e ‘cocaine’, mas nunca mais voltei e graças ao programa da metadona. Salvou a minha vida.”

É uma das várias pessoas que o Programa de Substituição em Baixo Limiar de Exigência ajuda diariamente. Foi criado em 1997, no âmbito da reconversão do bairro do Casal Ventoso, em 1997. Para além do fornecimento de metadona, são também feitos rastreios a doenças como VIH, tuberculose ou sífilis. É também garantido um acompanhamento médico e psicológico aos utentes.

Em cerca de uma hora, numa manhã de dia de semana, a carrinha foi visitada por cerca de duas dezenas de pessoas, inscritas no programa. José Carlos, enfermeiro, é o responsável por distribuir a metadona, uma substância utilizada sobretudo no tratamento dos toxicodependentes de heroína. O serviço é feito do interior da carrinha para o exterior. “O acompanhamento é muito importante e a dosagem é adequada à situação de cada um”, explica ao Observador. “É bom sinal se continuarem a vir. É um apoio importante, porque muitas vezes não têm mais nada”, destaca o especialista.

Carolina e Madalena andam pelo bairro a apanhar seringas: “Não é um trabalho perigoso: eles têm respeito por nós e sabem que estamos aqui para o bem deles”

Voltamos ao Bairro da Quinta do Loureiro, no centro da Avenida de Ceuta. É hora de almoço e, por agora, o centro está fechado para limpeza e higienização. Volta a abrir ao início da tarde. Nesta altura, aumenta o consumo na rua. Há pessoas deitadas no chão, à vista de quem passa de carro na estrada, ou dentro de carros, em filas que chegam às dezenas. Há quem faça o consumo sob abrigos improvisados, com cartões ou sacos de compras. Mas também há quem esteja a consumir à vista de quem por ali passa.

É neste contexto que intervêm Carolina Pedroso e Madalena Silva, duas jovens que trabalham na Associação Ares do Pinhal. Todos os dias, pela hora de almoço, aproveitam a “pausa” para fazerem uma ronda pelo bairro e recolherem seringas do chão e material utilizado para o consumo. Tudo o que é recolhido, com recurso a uma pinça, é inserido no interior de um balde de resíduos médicos.

“Hoje até não está muito mau”, comentam entre elas. Todos os dias, numa hora, e “a andar nas calmas”, chegam a apanhar do chão “entre 200 a 300 seringas”. Falam num trabalho de extrema importância, visto que há crianças a circular por ali.

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Pelo caminho, vão cumprimentando pessoas que estão a consumir. “Boa tarde, Joana. Estás bem? Precisas de alguma coisa?”, pergunta Carolina a uma mulher que está sentada no passeio, com a cara tapada, a injetar-se. “Não queres ir lá ao centro comer qualquer coisa?”, pergunta Madalena a outro toxicodependente que acaba de sair de um carro, após consumir.

Qual é a zona mais prioritária do bairro?
“Esta ponte pedonal é sempre a prioridade. É um local de passagem da comunidade, nomeadamente crianças. Como podem ver, há muitas seringas no chão.”

E fazem sempre a mesma ronda, ou vão variando?
“Temos várias rotas, depende dos dias. Mas fazemos este trabalho todos os dias, às vezes várias vezes ao dia.”

Não têm medo? Isto não pode ser perigoso?
“Não. Nós já conhecemos as pessoas. Elas também têm afinidade e respeito por nós. Percebem que estamos aqui para o bem delas e para as ajudar. Acho que gostam de nós e respeitam-nos. Não sentimos que seja perigoso, de todo.”

Carolina Pedroso também se recorda bem do impacto inicial da Câmara de Lisboa no terreno. “Este sítio aqui debaixo da ponte, antigamente, estava sempre cheio de pessoas a consumir”, diz, apontando para as grades instaladas pela autarquia no ano passado. “Foi positivo do ponto de vista visual. Mas continua a haver muito consumo aqui no meio do mato e é mais perigoso para nós irmos para lá”, lamenta.

A jovem, que trabalha para o centro há cerca de um ano, indica que “o consumo tem vindo a aumentar”. “Não tenho dados concretos, mas é a impressão que me dá”, acrescenta.

Entretanto, a ronda chega ao fim. Carolina Pedroso e Madalena Silva recolheram cerca de 30 seringas e outro material utilizado para o consumo, como prata e caricas. Este material é bem visível ao longo de todo o bairro, tanto na estrada, como no passeio, como na zona de mato. E é preciso cuidado ao circular por ali. “Se formos picadas acidentalmente, temos de ir logo para o hospital”, explica Madalena Silva.

Um novo Casal Ventoso? Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique pede intervenção urgente

O Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, onde fica o Bairro da Quinta do Loureiro, pede mais medidas o mais rápido possível. Em entrevista ao Observador, Hugo Vieira da Silva pede uma “resposta concertada” entre juntas de freguesia, autarquia, Governo e autoridades policiais.

“Acho que ainda não estamos perante um novo Casal Ventoso, mas estamos a caminhar para lá a passos largos. Estamos a perder o controlo da situação e estamos nos últimos tempos em que é possível atuar. Se não atuarmos agora, rapidamente vamos voltar ao que vimos nos anos 80, 90 e início dos anos 2000”, alerta Hugo Vieira da Silva.

O Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique pede uma “estratégia bem definida” e uma atuação policial mais presente, para dissuadir o tráfico e consumo. Hugo Vieira da Silva, eleito pelo PS, fala em redes bem organizadas, sobretudo compostas por portugueses, e que, por vezes, também envolvem crianças.

Também em entrevista ao Observador, o Presidente da Junta de Freguesia de Alcântara lembra que, há precisamente um ano, enviou uma carta conjunta ao Governo e à Câmara Municipal a alertar para esta problemática. Davide Amado, eleito pelo PS, lamenta a ausência de resposta e também pede mais medidas no terreno para evitar o agravar da situação.

Carlos Moedas e Governo pressionados a enfrentar problema de consumo de droga em Alcântara

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