O BCE está “a chegar ao fim do ciclo de política monetária”, afirmou nesta quinta-feira Christine Lagarde, num sinal – mais claro do que é habitual na francesa – de que a autoridade monetária está a ficar sem espaço para mais descidas de juros. Com a taxa dos depósitos em 2%, é provável, mas não é certo, que as taxas de juro possam descer mais uma vez até ao final do ano. Mas essa possível última descida, caso se confirme, virá só depois do verão.

Após oito cortes consecutivos na taxa de juro, que a levaram do “pico” de 4% para os atuais 2%, a presidente do BCE preparou terreno para que no próximo mês de julho as taxas de juro sejam mantidas no mesmo nível.

Será, com toda a probabilidade, a chamada “pausa” que há muito se especula sobre quando poderia vir: “Cortámos [a taxa de juro em] 25 pontos-base e, com este corte, acreditamos que estamos numa boa posição para navegar as condições de incerteza que estão diante de nós”, afirmou Christine Lagarde, tomando a liberdade de fugir ao guião que estava no comunicado oficial e que, como tem sido regra, dizia que o BCE “não se compromete com qualquer decisão futura”.

O comentário, que foi lido precisamente como o BCE a comprometer-se com uma decisão futura (a “pausa” em julho), fez o euro subir e reaproximar-se da marca dos 1,15 dólares, cerca de 15% acima da quase paridade (um por um) a que as duas moedas eram transacionadas nos mercados cambiais no início deste ano.

Euro subiu quase 15% face ao dólar desde o início do ano. FONTE: TradingEconomics

Quando o BCE divulgou as projeções macroeconómicas atualizadas, indicou que a inflação poderá baixar até aos 1,6% no próximo ano (o que já ficaria desconfortavelmente abaixo do objetivo de 2%). Uma inflação tão baixa poderia levar o BCE a baixar mais os juros, para tentar estimular o ritmo de subida dos preços – tanto que, nesse momento, os participantes do mercado de taxas de juro tenham passado a assumir uma maior probabilidade de haver não um mas, sim, dois cortes da taxa de juro até ao final do ano.

Assim que Christine Lagarde começou a falar, porém, o cenário inverteu-se rapidamente e os mercados chegaram ao ponto, durante a conferência de imprensa, de nem sequer considerar muito provável que haja uma (única) nova descida dos juros até ao final do ano. Isto porque Lagarde relativizou a previsão de inflação baixa em 2026, atribuindo-a aos preços da energia e à valorização do euro. No final, os mercados recentraram as suas apostas na perspetiva de mais um corte, provavelmente em setembro.

Euribor (a seis meses) pode baixar para entre 1,8% e 1,9%

“O corte da taxa de juro desta quinta-feira não terá sido o último, mesmo que os comentários de Christine Lagarde deem a entender que é limitado o espaço para mais cortes“, afirmou Carsten Brzeski, economista-chefe do banco holandês ING, em nota de análise às decisões do BCE desta quinta-feira. Aliás, “tendo em conta a decisão e o discurso de Lagarde, as revisões em baixa das previsões do BCE para o crescimento e inflação e a reação em alta do euro, há espaço para mais uma descida de taxas, ainda este ano“, complementou Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros, em comentários partilhados com o Observador.

O especialista prevê, assim, que “o final de ciclo de descidas poderá, mesmo, acontecer nos 1,75%“, ou seja, apenas mais um corte de 25 pontos-base.

Taxa Euribor (a seis meses) tem seguido de forma próxima a nível de juros do BCE. FONTE: Euribor-rates.eu

As implicações disso para as prestações do crédito à habitação, nas taxas variáveis, é que “as Euribor tenderão a continuar a cair ao longo do ano, mas a um ritmo lento“, afirma Filipe Garcia, estimando que o indexante a seis meses poderá caminhar para um nível “entre 1,8% e 1,9%” até ao final do ano.

Esse indexante, ao qual estão ligados 38% dos créditos à habitação em Portugal, baixou nesta quinta-feira para 2,046%.

Tarifas dos EUA podem fazer baixar a inflação na zona euro, diz BCE

A perspetiva de um fim próximo no ciclo de descidas foi reforçada pelo facto de Lagarde também ter dito que não exclui que o BCE venha a melhorar as perspetivas de crescimento na zona euro, embora tenha afirmado minutos antes que os riscos económicos “pendem para o lado negativo” – ou seja, é mais provável que surpreendam pela negativa do que pela positiva.

A presidente do BCE afirmou, na descrição que fez das perspetivas macroeconómicas, que as tarifas de Donald Trump e o euro mais elevado irão tornar mais difícil a vida das exportadoras. Por outro lado, o setor dos serviços está a registar menor procura – incluindo por parte do mercado doméstico.

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O problema é que, nesta fase, o BCE não sabe quais são as tarifas que vão entrar mesmo em vigor, tendo em conta que as “tarifas recíprocas” de Trump estão suspensas, para já, até julho. Para tentar simular o que pode acontecer, os economistas do BCE fizeram um estudo que concluiu que se as tensões comerciais se agravarem nos próximos tempos, isso irá criar pressões negativas para o crescimento e, também, para a inflação – sim, as tarifas podem fazer acelerar os preços nos EUA, têm dito vários economistas, mas o impacto na zona euro será o contrário, afirma o BCE.

Por outro lado, caso se aliviem as tensões comerciais – como, por exemplo, a possibilidade de a UE chegar a um acordo com Trump para evitar a entrada em vigor das tarifas –, então isso poderá impulsionar o crescimento e, “em menor medida”, a inflação. Esta é a conclusão das simulações feitas pelos economistas do BCE.

Saída do BCE para WEF? "Não me irão ver pelas costas tão cedo", diz Lagarde, vestida com as cores da bandeira suíça

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Logo no início da sessão de perguntas e respostas, Lagarde foi questionada sobre o seu futuro e sobre se era verdade que esteve a preparar uma saída antecipada do BCE para ir para o Fórum Económico Mundial (uma ideia revelada pelo antigo presidente, Klaus Schwab).

Começando por responder que o seu futuro pessoal “é menos importante” do que o futuro da zona euro e da política monetária do BCE, Lagarde garantiu que “não me vão ver pelas costas em breve“.

Christine Lagarde preparou saída do BCE antes do fim do mandato para liderar Fórum Económico Mundial, diz fundador Klaus Schwab

“Posso afirmar muito firmemente que sempre estive e continuo a estar determinada a completar o meu mandato”, garantiu a francesa, que curiosamente escolheu para esta conferência de imprensa um casaco de cor vermelha e blusa branca, ao centro – as cores da bandeira da Suíça, onde alegadamente teria já um apartamento luxuoso à sua espera para trabalhar no Fórum Económico Mundial (WEF, na sigla original).

Neste ambiente de indefinição global, o cenário macroeconómico do BCE, apesar de tudo, teve um tom moderadamente otimista. “Embora a incerteza em torno das políticas comerciais deva pesar sobre o investimento empresarial e as exportações, especialmente a curto prazo, o aumento do investimento público em defesa e infraestruturas apoiará cada vez mais o crescimento a médio prazo”, afirmou o BCE.

Por outro lado, “os rendimentos reais [ajustados à inflação] mais elevados e um mercado de trabalho robusto permitirão às famílias gastar mais”. “Juntamente com condições de financiamento mais favoráveis, isto deverá tornar a economia mais resiliente a choques globais”, afirmou a autoridade monetária, reiterando a previsão de um crescimento de 0,9% em 2025 na zona euro (acelerando, depois, para 1,1% no próximo ano).

“No atual ambiente geopolítico é ainda mais urgente tomar medidas orçamentais e estruturais para tornar a economia da zona euro mais competitiva e resiliente”, afirma Christine Lagarde, destacando a criação da união dos mercados de capitais e dos produtos de poupança/investimento – a missão dada a Maria Luís Albuquerque na Comissão Europeia.

Investimento na bolsa “tem risco de perda, depósitos têm tido certeza de perda”, avisa Maria Luís Albuquerque