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Duarte Cordeiro, Jorge Lacão, António Costa, Francisco André e Mariana Vieira da Silva discutem se o líder do PS deve ou não reagir a Rio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Duarte Cordeiro, Jorge Lacão, António Costa, Francisco André e Mariana Vieira da Silva discutem se o líder do PS deve ou não reagir a Rio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tancos: encenações e conspiração num caso que entrou na campanha, obrigou partidos a reagir e azedou as relações entre São Bento e Belém /premium

  • Texto de Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes, fotografia de João Porfírio e André Dias Nobre

PS acredita que nem Marcelo nem Ministério Público estão inocentes na forma como o caso Tancos entrou na campanha. Direita promete não largar assunto, esquerda quer seguir em frente

Naquelas duas horas de quinta-feira, o tempo que durou o encontro de António Costa com startups na Casa do Impacto, havia dois climas distintos na sala do antigo Convento de São Pedro de Alcântara — hoje um dos principais hubs de startups de Lisboa. A distância dos dois ambientes era mesmo quase tão grande como a que separa frades e aquela conversa que ali decorreu sobre empresas emergentes e inovação. No topo da sala, o líder socialista conduzia animado a conversa, ia apontando perguntas num cartão em cima do joelho. Ao fundo da sala, o seu staff agitava-se. Rui Rio tinha marcado uma conferência de supetão e preparava-se para instalar o caso Tancos no meio da campanha.

O assessor de imprensa saiu da sala durante todo o tempo em que Rio esteve a falar, depois regressou. Trocou palavras com a secretária de António Costa, com um dos principais operacionais de campanha, e esperou que a sessão terminasse para avisar o primeiro-ministro, juntamente com Mariana Vieira da Silva (umas das principais conselheiras), Francisco André (chefe de gabinete de Costa) e Duarte Cordeiro (um dos responsáveis máximos da campanha). Deixaram que o socialista acabasse as conversas informais (e até animadas) que ainda tinha com alguns dos empresários e puxaram-no para um canto da sala — com Jorge Lacão a juntar-se ao grupo.

“Rio ultrapassou todas as marcas”

Foi só nessa altura que Costa tomou conhecimento de tudo o que se tinha passado naquelas duas horas. Rio cancelara agenda para convocar os jornalistas para uma sala de hotel e dizer que das duas uma: ou o socialista sabia do encobrimento da investigação ilícita que recuperou as armas de Tancos e isso era mau ou não sabia e era igualmente mau. Sem surpresa, António Costa não gostou. “Rui Rio ultrapassou todas as marcas”, ouviu o Observador de um dos socialistas próximos do líder do partido.

Nesse canto da sala, começou a discussão: falava ou não falava? O que diria? Qual seria o melhor momento? Reagir já? Esperar pelo dia seguinte? O plano inicial era que Costa não falasse naquele dia, apesar de durante a tarde ter sido formalizada a acusação de Tancos e o seu ex-ministro da Defesa ter emitido um comunicado. Sobre a acusação, mantinha a regra de sempre: à justiça o que é da justiça. Já sobre Azeredo Lopes, “aconteceu uma coisa muito chata, na noite passada morreu a mãe dele”, explicava um socialista ao Observador para justificar porque Costa não tocava no seu nome. Edite Estrela, que nessa manhã tinha estado na arruada de Moscavide com Costa, dava nota pública disso no Twitter:

Mas perante o ataque direto de Rio já não havia mais justificações possíveis. Os jornalistas que estão a cobrir a campanha socialista posicionaram-se junto à saída da sala. E não havia hipótese: ou Costa falava ou saía sem nada dizer, virando costas às perguntas. Uma imagem sempre negativa. “Não queríamos a confusão das câmaras ligadas e ele a sair sem falar. Corria-se o risco de uma agitação artificial que não existia”, explica fonte socialista. Ficou rapidamente decidido que para sair dali sem ondas, era preciso dar “uma resposta urgente e com gravidade” a Rui Rio.

Costa viu-se "obrigado" a fazer uma declaração, sem direito a perguntas, sobre as acusações que Rui Rio lhe imputava sobre o caso de Tancos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Encenações e teorias da conspiração

Na caravana socialista existe a convicção de que “Rio estava a montar isto há dois dias”, mais precisamente desde terça-feira à noite, em Faro.

“Amanhã ou depois vamos perceber uma outra encenação, noutro setor, onde também [Governo e PS] estiveram a preparar coisas parecidas”. A frase foi dita assim por Rui Rio e os ouvidos dos jornalistas ficaram alerta. No meio de uma “tertúlia” sobre temas tão diversos, como saúde e carga fiscal, vinha aí outra encenação?

O enigma também não foi imediatamente percebido na caravana socialista, incluindo por António Costa. Mas mais ou menos à mesma hora em que Rui Rio falava, a TVI divulgava uma notícia sobre as escutas do processo de Tancos, onde o major da Polícia Judiciária Militar Vasco Brazão era apanhado a sugerir que “o papagaio-mor do reino” sabia do achamento das armas. A frase foi interpretada como sendo uma referência a Marcelo Rebelo de Sousa.

Nas horas seguintes, tudo se precipitou. O Presidente da República foi rápido a responder, a partir de Nova Iorque: “É bom que fique claro que o Presidente não é criminoso”.

Nas horas seguintes, tudo se precipitou. O Presidente da República foi rápido a responder, a partir de Nova Iorque: “É bom que fique claro que o Presidente não é criminoso”. No mesmo dia, o Expresso acrescentava que Marcelo estava “furioso” com as notícias que estavam a sair da “pré-acusação” do caso Tancos, sabendo-se que o prazo para o Ministério Público divulgar a acusação formal estava prestes a acabar.

Mais: Marcelo estava furioso com quem “estava a montar” uma tentativa de desviar para Belém as atenções de uma acusação judicial que, à partida, beliscaria o Governo e iria incomodar o PS em plena campanha eleitoral. Ou seja, Marcelo queixava-se (bingo!) de uma encenação.

Costa manteve-se em silêncio neste dia. Mas os socialistas olhavam para a “pré-acusação”, como o Presidente chamou à notícia avançada pela TVI, como uma vingança do Ministério Público por causa do processo de nomeação da nova procuradora-geral da República que substituiu Joana Marques Vidal, a preferida por aquele órgão. Parecia ser, aliás, nesse sentido o teor do comunicado divulgado no dia seguinte pelo ex-ministro da Defesa acusado de prevaricação, abuso de poder, denegação de justiça e favorecimento de funcionário.

Azeredo Lopes queixava-se de uma acusação “eminentemente política”, queixava-se de “fugas de informação cirúrgicas” e, sobretudo que essas fugas de informação “se tenham intensificado desde o primeiro dia da campanha eleitoral em curso”, “de forma grosseira e óbvia”.

Quanto à reação estrondosa de Marcelo às notícias — “O Presidente não é criminoso” — incluindo as fontes de Belém, citadas pelo Expresso, em fúria com o envolvimento do Presidente no caso, foram desvalorizadas no círculo do líder socialista. Admitia-se que pudessem não ser uma verdadeira irritação presidencial com o PS, mas antes uma estratégia de Marcelo para que passasse despercebida a extração da certidão do processo de João Cordeiro, ex-Chefe da Casa Militar da Presidência da República.

Um enredo complexo de interesses políticos delicados que o PS já contava que rebentasse a meio da campanha. Mas a cúpula do partido foi-se mostrando tranquila com a acusação. Quando ela foi formalizada, a reação mais repetida foi que “não tem nenhuma novidade” e o que mais “surpreendeu” Costa foi mesmo a atitude de Rui Rio perante o caso e a falta de factos novos.

A notícia que obriga a mudar os guiões de campanha

Tudo isto estava a ser acompanhado com atenção na caravana do CDS. Assunção Cristas não tinha a certeza de que Tancos ia ser um caso de campanha, mas a equipa estava preparada para reagir se algo acontecesse. Quando, na quarta-feira, Marcelo lhe deu dimensão, a líder do partido falaria pela primeira vez a partir do Douro. Objetivo: defender por completo o Presidente da República e deixar o ataque apenas para o governo. Por esta altura, ainda sem muita agressividade. Fonte da campanha explicou ao Observador que o CDS não teve — nessa fase nem em qualquer outra — qualquer “informação privilegiada” sobre o assunto e soube sempre dos “desenvolvimentos pelas notícias“.

Fonte da campanha explicou ao Observador que o CDS não teve -- nessa fase nem em qualquer outra -- qualquer "informação privilegiada" sobre o assunto e soube sempre dos "desenvolvimentos pelas notícias".

Indiferente a teorias da conspiração, a prioridade do CDS parecia ser, nesta altura, a de defender o Presidente e nessa noite o ex-ministro Pedro Mota Soares saiu em defesa de Marcelo, dizendo que “a esquerda” estava a tentar fragilizar o chefe de Estado para que se tornasse numa espécie de “rainha de Inglaterra“.

Na quinta-feira, tudo mudou, para todas as campanhas. De manhã cedo, a comitiva do Bloco de Esquerda fazia a viagem entre Faro e Lisboa de comboio — uma ação de campanha que tinha como objetivo trazer para a agenda mediática as propostas do partido sobre transportes públicos e ferrovia — quando começou a cair em todos os telemóveis a notícia da RTP que dava conta de que o ex-ministro Azeredo Lopes ia ser acusado no processo de Tancos pelos crimes de prevaricação, denegação da justiça e abuso de poder. Catarina Martins, Jorge Costa, Mariana Mortágua e os assessores de comunicação seguiam viagem uns em frente aos outros, com uma mesa no meio, e aquele acabou por se revelar o cenário ideal para, mesmo ali e em plena ação de campanha, fazer uma reunião informal sobre como o caso podia vir a condicionar o dia de campanha.

Nessa quinta-feira, o Bloco de Esquerda tinha três ações programadas: a viagem de comboio, uma visita ao Centro de Saúde da Moita da parte da tarde e um comício à noite no Incrível Almadense. Para as duas primeiras estavam previstas declarações aos jornalistas e seria inevitável que surgissem perguntas sobre o caso. Rapidamente se decidiu que a estratégia seria a mesma do dia anterior: dizer que o desejável era que Tancos não se tornasse um caso de campanha.

Nessa quinta-feira a estratégia do Bloco seria a mesma do dia anterior: dizer que o desejável era que Tancos não se tornasse um caso de campanha

Carlos Barroso/LUSA

A decisão foi tomada em pleno comboio pelo núcleo duro do partido que acompanhava Catarina Martins mas também se fizeram telefonemas a membros do partido que ali não estavam. Um dos destinatários dessas chamadas foi Pedro Filipe Soares, que, além de pertencer à direção do partido e presidir ao grupo parlamentar, acompanhou o caso diretamente na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso Tancos.

“A resposta do Bloco de Esquerda só mudou quando houve factos novos”, explica Jorge Costa ao Observador.“E isso aconteceu cerca de 15 minutos depois de sairmos do comboio”. Foi aí que se conheceu a acusação. O tema entrava com estrondo na campanha e depois de algumas conversas para afinar o discurso, lá chegou a nova posição bloquista: “Se o Ministério Público tiver razão, houve responsáveis políticos que mentiram e isso é grave”, disse Catarina Martins nessa mesma tarde, depois da visita ao Centro de Saúde da Moita.

Não houve pedidos de esclarecimento ao primeiro-ministro, como se viu à direita, nem conclusões sobre os crimes de que Azeredo Lopes é acusado no processo. O foco era outro: as mentiras que responsáveis políticos, nomeadamente o ex-ministro, possam ter prestado à Comissão Parlamentar de Inquérito. Mais do que isso era tresler a acusação. É preciso deixar a justiça funcionar e lembrar que “ninguém está acima da lei”, como referiu também a líder do BE nas mesmas declarações.

Um momento de viragem na campanha do PSD

No PSD, reconhece-se que este pode ter sido um momento de viragem da campanha. Rui Rio estava à espera, e jogou com o que lhe tinha caído no colo — “Se fosse ao contrário, eles [PS] faziam igual ou pior”. Mas era preciso cautela. A comitiva laranja estava em Benavente, numa visita a um arrozal, e nos telemóveis começavam a sair notícias sobre a acusação: Azeredo Lopes estaria acusado de quatro crimes, desde prevaricação a favorecimento passando por denegação de justiça. O PSD iria reagir? “Só quando os factos forem todos apurados”, ouvia o Observador de fontes da direção, assumindo que o PSD iria pegar no tema, sim, e não ia deixar o Governo escapar impune.

A comitiva laranja estava em Benavente, numa visita a um arrozal, e nos telemóveis começavam a sair notícias sobre a acusação: Azeredo Lopes estaria acusado de quatro crimes, desde prevaricação a favorecimento passando por denegação de justiça. O PSD iria reagir? “Só quando os factos forem todos apurados”.

Mas era preciso ler as 500 páginas da acusação. É certo que o teor da acusação já seria genericamente conhecido do núcleo duro do PSD, mas Rui Rio é o crítico-máximo da violação do segredo de justiça e tinha saído dos debates pré-campanha como defendor-máximo da presunção de inocência. Estava na hora de um novo teaser. Depois de dançar “o cavalinho” com a ensaiadora de um grupo local em Santo Estevão, Rio descansou os jornalistas: “Até ao fim do dia perguntem-me o que quiserem sobre isso, mas primeiro tenho de ler a acusação como um todo”. Já deixava escapar, contudo, que iria pegar no assunto com as duas mãos: “Já todos percebemos que este caso não é grave, é gravíssimo”, disse apenas.

Jogar pela antecipação e um erro de avaliação

Assunção Cristas estava a meio da visita à feira de Lamego quando é informada de que tinha sido deduzida acusação contra o ex-ministro Azeredo Lopes. Com a esquerda cautelosa e o PSD mais lento a reagir, o CDS decidiu tomar a dianteira da oposição a Costa.

Se Rio preferiu ler a acusação, a líder do CDS avançou logo. Assunção Cristas acusou o governo de “ilibar criminosos”, pediu responsabilidades políticas ao primeiro-ministro e lembrou que estava agora provado que o CDS tinha razão quando decidiu avançar para uma comissão parlamentar de Inquérito e também quando votou contra as conclusões desse relatório, que ilibavam o executivo. Cristas quis antecipar-se ao PSD e disse às onze da manhã aquilo que Rio só diria perto da hora de jantar: das duas uma, ou primeiro-ministro sabia e deve ser responsabilizado ou não sabia e é incompetente, logo deve ser responsabilizado.

Assunção Cristas estava a meio da visita à feira de Lamego quando é informada de que tinha sido deduzida acusação contra o ex-ministro Azeredo Lopes.

OCTÁVIO PASSOS/LUSA

Ainda a acusação de Azeredo Lopes não tinha saído e já Jerónimo era questionado sobre a hipótese do caso Tancos entrar na campanha. Jerónimo de Sousa dizia que não iria precipitar-se mas que esta não seria uma questão central da campanha. Enganou-se. Algumas horas mais tarde, os assessores do partido informavam os jornalistas que, no final do comício dessa noite em Serpa, o secretário-geral do PCP faria uma declaração à imprensa, sem tempo para perguntas, mas que seria na condição de secretário-geral, completamente fora do âmbito da campanha eleitoral.

No PCP as decisões são tomadas sempre em coletivo e um assunto “de grande relevância”, não seria exceção. Na direção coletiva há membros com valências nas várias áreas, da saúde à justiça, que estão preparados para reagir aos casos que vão surgindo. E foi esse coletivo que decidiu que a declaração sobre a acusação de Azeredo Lopes devia ser feita fora do âmbito da campanha eleitoral. Durante algumas horas assim foi, Jerónimo reagiu apenas na condição de secretário-geral do PCP. Mas o assunto não largaria a caravana da CDU, sobretudo depois da troca de acusações entre PS e PSD, que começaram na conferência de imprensa de Rio.

Os assessores do partido informavam os jornalistas que, no final do comício dessa noite em Serpa, o secretário-geral faria uma declaração à imprensa, sem tempo para perguntas.

TIAGO PETINGA/LUSA

A conferência de imprensa que apanhou de surpresa o PS

Para as 16h30 dessa tarde estava prevista uma visita a uma cooperativa de fruticultores nas Caldas da Rainha, mas  foi adiada e acabou por acontecer de forma discreta e mais rápida do que o previsto. Segundo confirmou o Observador junto da comitiva, a caravana laranja fez um desvio na rota e estacionou num hotel das Caldas para Rio preparar o que ia dizer. Em cima da hora, o PSD reserva uma sala desse hotel e monta um palanque para o líder do partido fazer uma conferência de imprensa. Com Rui Rio estavam os membros da direção que o têm acompanhado de perto na volta da campanha: José Silvano, secretário-geral, Maló de Abreu, vogal da direção e diretor operacional da campanha, e Florbela Guedes, diretora de comunicação. Para além disso, havia contactos constantes com David Justino e com o líder parlamentar, Fernando Negrão.

O PSD reservou uma sala num hotel e monta um palanque para o líder do partido fazer uma conferência de imprensa.

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

À hora marcada, com a comitiva de jornalistas na sala e as televisões a transmitirem em direto, Rui Rio implicava diretamente António Costa no caso de Tancos: “É pouco crível que um ministro não articule aspetos desta gravidade com o primeiro-ministro”. Ou seja, ou Costa sabia e foi conivente, ou não sabia e não tem mão nos seus ministros. Ambas as hipóteses mostram uma “postura política” que não é desejável para a governação. E ambas as hipóteses mostravam, de acordo com o PSD, que Costa devia explicações.

Com o que a campanha social-democrata podia não estar a contar era que António Costa reagisse de imediato. Em Lisboa, depois da surpresa inicial veio a tomada de decisão com o núcleo duro da campanha e Costa alinhou ideias. Ia pelo lado da moralização e pelo ataque de carácter — foi pelo menos assim que leu as palavras do adversário. Ajeitou os colarinhos, puxou pelas bandas do casaco e, antes de se dirigir ao pátio onde falaria aos jornalistas, ainda bebeu um gole de água. A resposta a Rio foi duríssima.

“Até admito que não tenha ouvido bem o que eu disse…”, sugeriu Rui Rio nessa noite, insistindo que o primeiro-ministro só respondeu da forma como respondeu — acusando Rio de estar a inverter a presunção de inocência e a manchar a dignidade da campanha —, porque não quis responder à verdadeira questão “política” que lhe foi colocada.

“A única questão política é Rui Rio ter perdido o debate sobre o resultado destes quatro anos de governação e não ter nada para dizer sobre o futuro do país”, defende fonte próxima de António Costa. No núcleo duro que o acompanha na estrada, o argumento é o de que a questão política foi analisada na Comissão de Inquérito e que Costa respondeu, sendo dispensado de mais explicações. E que na acusação “não há a menor suspeita que o relacione” e “não foi sequer suscitada direta ou indiretamente do ponto de vista judicial”.

Se o assunto perdurar, a linha de argumentação em relação aos ataques que não têm parado de chegar do lado de lá, será esta. A verdade é que, segundo apurou o Observador, o PSD não faz tenção de largar o tema. “Não vamos largar, mas também não vamos escalar, escalar, escalar”, ouve o Observador. Ou seja, deste nível Rui Rio não vai sair: está no plano político, não no plano judicial. Ali acredita-se que a acusação formal do Ministério Público dá força à tese de que o então ministro sabia da encenação do “achamento” das armas, por isso o PSD tem o “direito e o dever”, enquanto “líder da oposição”, de questionar politicamente António Costa sobre se foi ou não informado pelo seu ministro desse facto. “Agora há factos”, diz a mesma fonte.

Contra a polarização, improvisar, desmarcar

A polémica passou a estar centrada em apenas dois homens, Costa e Rio. Na noite da conferência de imprensa de Rio e consequente reação de Costa, Assunção Cristas só tinha na agenda uma sessão sobre o programa em Leiria, mas o CDS percebeu que não podia deixar bipolarizar o debate entre PS e PSD.

De imediato se improvisou uma pergunta da assistência sobre Tancos — que nada tinha a ver com o tema da sessão — para a líder voltar a lembrar que o CDS foi o pioneiro nesta luta e para deixar um soundbite que rivalizasse no plano mediático com luta Costa-Rio. “É uma série da Netflix“, disse.

Mas não chegava. Segundo contou ao Observador um dos membros da equipa, Cristas começou a convocar “por WhatsApp uma reunião da Comissão Executiva” para envolver a cúpula do partido no assunto. Ao mesmo tempo aconselhava-se com o líder parlamentar, Nuno Magalhães, e com os dois deputados presentes na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI): Telmo Correia e António Carlos Monteiro.

Depois da dramatização feita por Rio no dia anterior, com a conferência de imprensa, Cristas seguia-lhe os passos e fazia um anúncio igualmente impactante: para mostrar a importância da decisão, o CDS fez questão de desmarcar a ida à feira de Queluz, em Monte Abraão, e comunicar publicamente que iria haver reunião da direção do partido no Largo do Caldas.

O cancelamento de ações de campanha para dedicar parte do dia a Tancos, como fizeram primeiro o PSD e depois o CDS, nunca esteve em cima da mesa do Bloco de Esquerda. “São ações sobretudo simbólicas, mas nunca considerámos fazê-lo. Mantivemos a nossa agenda e não incluímos isso nos discursos dos comícios porque tínhamos outras oportunidades para falar em público, nomeadamente declarações aos jornalistas”, explicou ao Observador Jorge Costa.

Temos uma campanha estruturada e vamos mantê-la. Nesse sentido, o caso [Tancos] não afetou nada a campanha do Bloco”, diz ainda o dirigente bloquista. Já na CDU, a opção inicial de deixar o assunto de fora tornou-se difícil de manter e Jerónimo-candidato acabou por dizer que era preciso “perceber se o ex-ministro tinha mentido na comissão de inquérito”. A mensagem mantém-se a mesma e a CDU não vai mudar a agenda, mas também não quer que se polarize o tema.

Chegou a hora do taco-a-taco?

É precisamente esse um dos dois ganhos que o PSD acredita ter conseguido com o caso Tancos: bipolarizar a campanha, por um lado, e remeter os supostos parceiros do PS — o BE e PCP — para a “irrelevância”; e pôr o CDS a reboque do PSD, por outro. “A bipolarização é muito positiva, só interessamos nós, os outros ficam irrelevantes”, comenta-se na estrutura de campanha social-democrata. Mais: se o primeiro momento da campanha estava reservado para explicar detalhadamente as propostas do PSD ao eleitorado, depois deste ponto de viragem há quem defenda que é tempo de “elevar a fasquia”. “Rui Rio há mais de um ano que anda a dizer que quando chegarem as eleições vai estar a disputá-las taco a taco com o PS”, comenta uma fonte que acredita que esse momento chegou agora.

“Rui Rio há mais de um ano que anda a dizer que quando chegarem as eleições vai estar a disputá-las taco a taco com o PS”, comenta uma fonte que acredita que esse momento chegou agora.

No CDS, e como admite um membro da equipa de Cristas ao Observador, o partido não vai deixar cair o tema até ao fim da campanha já que este caso “atingiu o coração” da soberania do Estado. A mensagem do CDS sobre o assunto vai-se centrar em três eixos: primeiro, firmar que foi por causa do CDS que este caso foi hoje conhecido (por as conclusões da CPI terem ido para o Ministério Público); segundo, que o primeiro-ministro tem responsabilidade e tem de arcar com as consequências; terceiro, que a esquerda foi cúmplice a “branquear” a falha do governo neste caso. Um trunfo para fragilizar o governo que o CDS não quer deixar escapar.

Imune às discussões inter-campanhas, o PAN tem tentado evitar ao máximo que o caso de Tancos entre na campanha eleitoral. “O tema está a arredar destes dias aquilo que é essencial, que é o debate político sobre as propostas que cada um tem para os próximos anos”, lamentava na manhã de sexta-feira André Silva, durante uma visita à associação Crescer, que apoia toxicodependentes e sem-abrigo em Lisboa.

A rota da campanha não sofreu nenhuma alteração, os compromissos agendados mantiveram-se alheios aos ânimos da campanha e os responsáveis do partido só manifestaram desagrado com o facto de o tema estar a roubar as atenções à defesa dos direitos dos animais e do ambiente — que tem dominado a agenda do PAN. O assunto, aliás, só entrou mesmo no discurso de André Silva devido às perguntas dos jornalistas — o candidato nunca o trouxe espontaneamente a lume.

Já o PS, está a tentar erguer uma barreira higiénica em relação a um caso sensível em que está formalmente implicado um ex-governante de Costa. Prova disso foi o convite feito por Costa a Rui Rio na mega arruada do Porto para que volte à campanha eleitoral, como quem quer fazer esquecer o assunto e chutar para canto toda e qualquer responsabilidade sobre as guerras que Rui Rio imputa ao PS. O objetivo é enterrar Tancos, pelo menos até a campanha terminar.

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