A estratégia do Chega para as eleições autárquicas não se desvia nem um milímetro com a cambalhota no calendário político: os candidatos autárquicos, mesmo os que já são deputados e tinham sido escolhidos para desafios locais, não só se mantêm na corrida a essas eleições como podem vir a estar novamente nas listas à Assembleia da República. Nada os impede, pelo contrário.

Até ao momento, são onze os deputados que o partido oficializou como candidatos a câmaras municipais um pouco por todo o país. E há mais para vir. Contudo, a antecipação das eleições legislativas não vai alterar a lista de deputados à Assembleia da República e André Ventura deverá querer manter a equipa que apresentou no Parlamento, com um ou outro ajuste, naturalmente.

Para Pedro Pinto, secretário-geral do Chega e um dos responsáveis pela escolha dos candidatos autárquicos, “não faz sentido nenhum” perder candidatos autárquicos por causa das legislativas antecipadas e, no mesmo sentido, não considera necessário que deixem de ir nas listas à Assembleia da República só porque já estavam escolhidos para as eleições locais que se seguem.

Ao Observador, argumentando que estas “eleições são completamente diferentes” uma da outra, o líder parlamentar do Chega recordou que “a conjetura política mudou num mês”, que já havia “candidatos apresentados” para as autárquicas, desde logo alguns deputados, e assegurou que estes (e todos) “vão continuar”. “Não vamos andar para trás”, remata.

Pedro Pinto explica que “quem está nas listas autárquicas não vai deixar de estar nas listas a deputado por causa disso”, acrescentando que “até pode deixar [de estar] por outras razões”, mas nunca por uma repetição de candidaturas.

[Já saiu o segundo episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

Tal como manda a lei das incompatibilidades, o que pode acontecer é um deputado do Chega abdicar do cargo na Assembleia da República para se dedicar à presidência de uma Câmara Municipal — cenário que seria positivo para um partido que, após um crescimento abrupto nas últimas eleições legislativas, procura uma implantação a nível local, através de autarquias.

A decisão do partido é diferente daquela que tem o PS, onde vários candidatos a câmaras municipais decidiram não avançar  para Assembleia da República, como é o caso de Alexandra Leitão, cabeça de lista dos socialistas a Lisboa, ou Ana Abrunhosa, a candidata do PS à Câmara Municipal de Coimbra. Tal como o Observador avançou, Pedro Nuno Santos deve mesmo fixar uma regra sobre estes casos, mas a expectativa é que o movimento possa pegar naturalmente.

Alexandra Leitão e Ana Abrunhosa põem-se fora das listas de deputados. PS deve fixar regra

Ventura chamou deputados para serem candidatos

Aliás, a aposta de deputados do Chega nas listas às autárquicas surgiu do próprio André Ventura. Como o Observador explicava aqui, o presidente do Chega deixou claro que ia precisar de toda a gente e que os deputados iam ser chamados para ir às autárquicas, independentemente do tipo de desafio.

Havia quem alertasse, já nessa altura, que Ventura poderia perder nomes importantes da bancada, designadamente elementos do seu círculo político mais próximo, se conquistasse resultados para governar autarquias — o que, apesar do crescimento substancial do Chega, não será um objetivo fácil.

Ainda assim, e e este é o racional na origem da escolha de Ventura, os deputados são as figuras mais conhecidas do partido e apresentá-los nas autárquicas pode abrir boas perspetivas para a eleição de muitos vereadores por todo o país. Ventura sabe que tem deputados que podem permitir um bom resultado.

Depois de vários erros de casting admitidos nas últimas eleições autárquicas, o Chega apertou os critérios de seleção para candidatos autárquicos, pediu documentos que atestassem a inexistência de dívidas e os registos criminais, à semelhança do que já tinha feito nas legislativas. Ventura já reconheceu que este esforço suplementar não permite uma bancada imaculada (como se viu no caso de Miguel Arruda), mas existe a convicção de que diminuem os riscos possíveis.

Candidatura a Belém em risco

Além de ter atirado as autárquicas para o segundo lugar das prioridades, as legislativas antecipadas também estragaram os planos de André Ventura no que a uma candidatura presidencial diz respeito. Depois de ter avaliado a hipótese Gouveia e Melo (e de ter recuado porque nem na direção do Chega o almirante era unânime), o presidente do Chega resolveu avançar para uma recandidatura a Belém.

Agora, tudo está mais imprevisível. O líder do Chega já veio reconhecer que com a queda do Governo “o cenário mudou” e o “contexto” passou a ser “outro”, desde logo porque considera que a responsabilidade enquanto líder do partido é ser “o cabeça de lista do Chega às eleições legislativas”.

“O primeiro objetivo, o grande objetivo, o objetivo mais importante de um partido, é transformar o país, alterar o país”, disse Ventura, concluindo que “isso se consegue maioritariamente por via da composição do Parlamento”. Assim, deixou no ar a possibilidade de acabar mesmo por desistir da candidatura a Belém, já que está “muito focado em ser primeiro-ministro”. Se não o fizer, terá de protagonizar duas campanhas eleitorais em cerca de sete meses.