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Ilustração: Teresa Dias Costa

Ilustração: Teresa Dias Costa

Como Diana e Iuri mataram Amélia Fialho “de forma escabrosa e com requintes de barbárie” /premium

O tribunal deu como provado que Diana planeou com Iuri matar a mãe adoptiva e condenou-os a 24 e 23 anos de prisão. O casal deixou um longo rasto de provas, num crime descrito como "maquiavélico".

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Iuri Mata é o primeiro a aparecer nas imagens de videovigilância da bomba de combustível. Na caixa, faz uma compra que paga com cartão multibanco: cinco litros de gasolina. Logo de seguida, dirige-se à bomba, enche um garrafão de cinco litros com o combustível e abandona o local. Pouco depois, aparece Diana Fialho, a sua mulher. Também ela se desloca à caixa e faz uma compra, mas que paga com dinheiro: um isqueiro. Feito isto, a jovem de 23 anos sai, experimenta o isqueiro e segue caminho, até desaparecer no limite até onde as câmaras videovigilância conseguiam filmar.

O corpo da professora Amélia Fialho, mãe de Diana, já estava no carro, estacionado não muito longe dali. O casal transportou-o na bagageira, enrolado na manta da sua cadela, a Princesa, até um terreno agrícola em Pegões, no concelho do Montijo. Lá chegados, depositaram o corpo junto ao quilómetro 38.5, da Estrada Nacional 4. Regaram-no com gasolina e atearam fogo. Depois, viraram costas ao incêndio e, a partir da ponte Vasco da Gama, atiraram para o rio Tejo os óculos de Amélia, a carteira já sem os documentos e a arma do crime: um martelo. Concluído o plano, regressaram a casa, no Montijo, sem esperar que, dali a menos de uma semana, os inspetores da Polícia Judiciária (PJ) lhes batessem à porta para os deter e que, dali a menos de dez meses, fossem condenados pelo homicídio da professora: Diana Fialho a 24 anos de prisão — e impedida de ter acesso a qualquer herança — e Iuri Mata a 23 anos de prisão.

Na porta da casa onde Amélia Fialho foi morta há uma imagem de Nossa Senhora de Fátima (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não foi um acidente, nem um momento de desespero, sustentou o Ministério Público. Dias antes do crime, o casal pesquisara na internet caminhos de terra batida — onde poderiam depositar o corpo — e medicamentos que colocassem Amélia num sono profundo. O tribunal não teve, aliás, dúvidas de que houve uma premeditação — sobretudo depois de ter tido acesso à peritagem informática dos telemóveis e de um computador de ambos. O homicídio foi o desfecho de tempos conturbados no seio familiar: discussões constantes por causa da relação amorosa entre Diana — que Amélia adotara quando era ainda criança — e Iuri, muito por causa do facto de a professora os sustentar financeiramente, e agressões que chegaram a levar Amélia a apresentar queixa à polícia. Matá-la seria uma forma de ficar com a herança da professora — que, tantas vezes, devido aos maus tratos que sofria da filha, ameaçou deixar à Casa do Gaiato, voltando assim ao testamento que tinha desde 1998 e que revogou 15 anos depois, para benefício de Diana Fialho.

O dia escolhido para encetar o plano foi 1 de setembro de 2018, um sábado — o fim de semana antes do arranque do ano letivo e um dia depois de uma forte discussão entre mãe e filha. Eram 21h00 e a família, como em qualquer outro dia, reuniu-se à mesa de jantar na casa que os três habitavam, no Montijo. Enquanto comiam, Amélia era observada discretamente pela filha e pelo genro. Sem saber, ia ingerindo uma bebida na qual já estava dissolvido o medicamento que a iria pôr a dormir rapidamente.

O dia escolhido para encetar o plano foi 1 de setembro de 2018 — o fim de semana antes do arranque do ano letivo e um dia depois de uma forte discussão entre mãe e filha.

Quando a professora caiu em sono profundo, o casal atingiu violentamente o crânio de Amélia com um martelo, provocando a sua morte. Quando foi assassinada, a mulher, de 59 anos, estava deitada ao lado da cadela, que também ali tinha adormecido — o que acabou por fazer com que o casal optasse por embrulhar o corpo na manta do animal. Ambos transportaram o cadáver pelo elevador do prédio, do quinto andar até à garagem onde estava o carro que usaram para concluir o plano.

No regresso a casa, apenas Diana e Iuri sabiam o que tinha acontecido. Amigos, vizinhos e colegas de trabalho de Amélia julgavam que a professora estava bem de saúde e que iam voltar a vê-la na segunda-feira. O casal sabia que, mais tarde ou mais cedo, todos iam dar por falta de Amélia. E já à espera disso tinha delineado uma segunda parte do plano: espalhar uma versão diferente do que realmente tinha acontecido, que manteria em segredo aquela noite de sábado. Um segredo que, porém, durou muito pouco.

O casal transportou o cadáver pelo elevador do prédio, do quinto andar até à garagem (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Assim que o corpo de Amélia foi encontrado, na quarta-feira, quatro dias depois do crime, a PJ precisou de apenas mais 36 horas para descobrir e deter Diana Fialho e o marido. As provas eram demasiadamente evidentes e a investigação chegou ao seu relatório final em poucos meses. Em fevereiro, o Ministério Público deduziu a acusação — apenas cinco páginas chegaram para expor o segredo — e o casal começou a ser julgado cinco meses depois. Cerca de uma dezena de testemunhas foi ouvida e, mesmo em plena greve dos funcionários judiciais, o julgamento ficou concluído em apenas três sessões: 4, 9 e 12 de julho. A rapidez foi até contestada pelos advogados, ao verem negados os requerimentos que tinham feito. “Não vejo necessidade de ver o julgamento ser prolongado por muito mais tempo”, apontou o juiz presidente, Nuno Salpico.

Do sangue no quarto ao martelo atirado ao Tejo. 36 horas para deter a filha e o genro da professora

O desaparecimento de fachada. “Como é que chegamos às coisas dela?”

Para que a versão do desaparecimento se tornasse credível, fazer uma participação às autoridades era indispensável. No dia seguinte ao crime, domingo, o casal dirigiu-se à PSP para formalizar queixa, acompanhado por uma professora reformada e amiga de Amélia. Dez meses depois, essa amiga recordou o momento na sala de audiências. Explicou ao juiz que foi a jovem de 23 anos quem falou. Iuri estava ao pé delas e nada dizia. Só fora da esquadra é que o rapaz disse uma frase que recordou na segunda sessão do julgamento: “Se ela tiver mesmo desaparecido, agora como é que chegamos às coisas dela?”.

Amélia Fialho era professora de Física e Química na Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O casal não perdeu tempo a chegar “às coisas” de Amélia. Na segunda-feira, Diana e Iuri foram ao encontro de Sílvia Vilelas, cuja filha era inquilina de Amélia, num apartamento que lhe tinha arrendado no Montijo. Era Sílvia, que trabalha numa lavandaria, que pagava a renda da filha. “A dona Amélia deslocava-se todos os meses ao apartamento. No início era sozinha, mas, um ano antes do crime, ia acompanhada pela Diana e depois também pelo Iuri. E a Diana chegou a ir cobrar a renda sozinha”, explicou ao juiz, na primeira sessão do julgamento. Naquele mês, Diana e Iuri apareceram para comunicar o desaparecimento da mãe e deram a entender que queriam a renda mais cedo, embora não lha tivessem pedido. “Para uma mãe desaparecida, não estava muito afetada”, afirmou a testemunha.

Nessa noite, Diana Fialho anunciou nas redes sociais que a mãe tinha desaparecido. Na publicação, explicava que a mulher de 59 anos tinha sido vista pela última vez entre as 21h00 e as 22h00 do dia 1 de setembro — dia em que cometera o crime. “Avisou que iria sair e desde então que não temos notícias dela. O telemóvel encontra-se desligado e não há meio possível de contacto”, lia-se na publicação onde dava conta que já tinha participado o desaparecimento à PSP.

Ao longo das horas e dias seguintes, Diana Fialho foi respondendo a outros utilizadores que iam comentando a publicação: agradecia a quem lhe dava força e se disponibilizava a ajudar no que fosse preciso; dava mais pormenores sobre o alegado desaparecimento a quem a questionava —”A minha mãe jantou em casa comigo e o meu marido e depois avisou que iria sair depois do jantar, mas não sabemos onde nem com quem”, escreveu —; e prometia a vários professores e colegas da mãe que havia de passar pela escola — “Muito agradecida, amanhã a ver se passo na escola para falar com a Direção”, escreveu também.

"A minha mãe jantou em casa comigo e o meu marido e depois avisou que iria sair depois do jantar, mas não sabemos onde nem com quem”
Diana Fialho no Facebook

E assim fez. Diana Fialho apareceu na escola dias depois e foi recebida por professores e funcionários preocupados e dispostos a ajudá-la. Tinha sido, aliás, através da publicação de Diana que muitos professores ficaram a saber do desaparecimento. Maria Sousa, professora de Física e Química, tal como Amélia, admitiu ao juiz que achou “muito estranho” o texto da publicação “porque falava da mãe no passado e dizia coisas que a Amélia nunca faria na vida”. “Nós conhecíamos as rotinas dela”, disse a testemunha na primeira sessão do julgamento. Quando Diana foi à escola, as suspeitas aumentaram. Foi pedir ajuda, mas com alguma frieza. “Como é que a arguida foi capaz de ir à escola, sabendo o que tinha feito?”, perguntou.

Da adoção ao homicídio. O caso da morte de Amélia Fialho, a professora assassinada pela filha no Montijo

O corpo encontrado que estragou o plano. “Estranhei como é que podia ter lá um fogo”

A PJ de Setúbal começou a investigar o desaparecimento na quarta-feira, quando o objetivo da investigação ainda era encontrar Amélia viva. É que, embora os bombeiros tivessem sido chamados para apagar um fogo já na madrugada de domingo, não se aperceberam que, entre as chamas, estava um corpo. Na quarta-feira, o dono do terreno foi surpreendido por uma chamada da GNR que queria saber se o homem teria estado a fazer uma queimada. Nuno Caseiro só ali ficou a saber que tinha havido um incêndio nas suas terras. “Tinha o terreno todo lavrado. Estranhei como é que podia ter lá um fogo”, testemunhou em tribunal. O proprietário dirigiu-se ao terreno naquele mesmo dia. Assim que chegou, percebeu logo que na zona queimada estava um corpo e ligou para a GNR.

A inspetora Fátima Mira testemunhou na primeira sessão do julgamento (Ilustração da sala de audiência de Teresa Dias Costa)

Ilustração: Teresa Dias Costa

Fátima Mira, inspetora da PJ de Setúbal, estava de prevenção nesse mesmo dia, na secção de homicídios, quando recebeu a informação de que um cadáver tinha sido encontrado carbonizado. “Tratava-se de uma pessoa adulta, de baixa estatura, que podia ser do sexo feminino. Vi que a área tinha sido ardida por ação humana. Tinha sido utilizado um acelerante, fiz recolha do cadáver analisado e que coincidia com um desaparecimento na zona“, contou logo na primeira sessão do julgamento. Com a certeza de que o corpo era o de Amélia, o rumo da investigação passou a ser outro: encontrar os autores do crime. Mas mesmo antes de o corpo ter sido encontrado, os investigadores já tinha detetado alguns elementos que os levaram a suspeitar da filha e do genro da professora.

Na quinta-feira, o caso começou a chamar a atenção da comunicação social. A polícia não tinha ainda divulgado que o corpo de Amélia Fialho tinha sido encontrado e rádios, jornais e televisões noticiavam ainda o desaparecimento. Naquela manhã, Diana Fialho, que também não tinha sido informada acerca do cadáver, chegou mesmo a dar uma entrevista à CMTV. Nela, contou que a mãe tinha saído de casa com o telemóvel e a carteira, depois do jantar. Diana e o marido teriam até ouvido “a porta da bater”, mas não viram Amélia a sair nem sabiam, por isso, como é que ela estava vestida. “Vimos a chave do carro em cima da mesinha”, disse, acrescentando que também o casal tinha saído de casa naquela noite e, quando regressaram, não foram “verificar se ela estava a dormir”. “A nossa preocupação foi no domingo ao almoço porque, às 9h00 da manhã, ela vai sempre à missa e não voltou”, disse ainda, acrescentando que tentaram telefonar-lhe, mas o telemóvel estaria desligado. De seguida, teriam feito algumas buscas e começaram a distribuir panfletos.

[Recorde a entrevista que Diana Fialho deu à CMTV, sobre o alegado desaparecimento da mãe]

Pouco depois da entrevista, Diana e Iuri foram surpreendidos. A campainha de casa tocou e do outro lado estavam os inspetores da PJ — entre eles, Fátima Mira. Assim que entrou na casa, sentiu um “cheiro muito ativo a incenso”. “Na varanda, havia roupa e sapatos com um cheiro predominante a lixívia”, disse, acrescentando que encontraram ainda sangue, visível a olho nu, nos sapatos e na t-shirt de Iuri. No “teto, no corrimão, numa máquina de costura” e na bagageira do carro havia vestígios de sangue. Uma vez realizados os exames, foi permitido concluir que o sangue era humano. Os documentos da vítima também foram encontrados, enrolados em papel higiénico, no autoclismo. “Recolhemos equipamentos informáticos e telemóveis”, continuou a testemunha, na primeira sessão do julgamento. O casal colaborou e forneceu a password do computador aos inspetores, que viriam a encontrar as pesquisas que tinham sido feitas. Diana e Iuri foram detidos e levados para interrogatório.

A confissão e as suspeitas antigas. “Ela de antemão já sentia medo”

Iuri “estava arrependido, na altura”, continuou a contar a inspetora e, por isso, confessou e colaborou com as autoridades, acompanhando a polícia numa espécie de reconstituição. Revelou que o objeto contundente que tinha provocado a morte de Amélia era um martelo. Levou os inspetores à bomba de gasolina onde adquiriram a gasolina e o isqueiro. E, depois, contou que a arma do crime, os óculos e a carteira de Amélia foram arremessados para o Rio Tejo, da ponte Vasco da Gama — onde também levou os inspetores. Esses objetos nunca foram recuperados — a PJ apenas calcula que estarão no rio, devido às declarações do próprio Iuri.

Amélia vivia com a filha e o genro num bloco de apartamentos no Montijo (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já sabiam como o crime tinha acontecido. Faltava o porquê — o que também rapidamente perceberam. Segundo a inspetora, o móbil do crime foi o dinheiro e património de Amélia, que tinha ameaçado revogar o testamento onde deixava tudo a Diana. Maria Sousa, a professora que testemunhou, recordou que, quando estava mais em baixo, Amélia “dizia que ia mudar o testamento e isso assustava a Diana“. “No início, quando [Diana e Iuri] se juntaram, faziam tudo certinho. Ajudavam a Amélia e aí ela mudou o testamento, deixando tudo a Diana. Nos últimos dias antes da morte, insatisfeita, ameaçou mudar o testamento”, contou Maria Sousa, explicando que “a Amélia é que os sustentava” e que o casal exigia “uma mesada fixa”.

Depois de toda a informação dada pelo arguido, a polícia começou a recolher informação junto dos vizinhos e amigos de Amélia e rapidamente percebeu que a relação entre Amélia e a filha era conflituosa e que Amélia “dizia que tinha sido agredida fisicamente” por Diana, explicou a inspetora. “Vimos depois que havia uma denúncia na PSP do Montijo feita por Amélia contra a Diana, em 2014″, disse ainda Fátima Mira. O que foi confirmado pela testemunha que se seguiu: Vítor Paiva, diretor da PJ de Setúbal. Ouvido durante breves minutos na primeira sessão do julgamento, o diretor disse ainda que já desconfiavam “de que algo como crime” teria acontecido a Amélia, ainda durante a fase do alegado desaparecimento, uma vez que aí já sabiam dos conflitos entre mãe e filha.

O crime parece não ter sido surpresa para ninguém. No tribunal, Maria Sousa recordou que Amélia “às vezes tinha nódoas negras e, com os olhos um bocadinho chorosos, dizia que tinha sido em conflito com a filha”. “Nestes últimos meses, antes de ela falecer, não era aquela Amélia. Estava mais triste, mais fechada. A alegria dela tinha desaparecido. Tinha dores aqui, tinha dores ali, andava a tomar umas coisas”, contou, adiantando que Amélia chegou a chamá-la “à noite para ajudar num episódio em casa, com a filha. Tinha havido uma grande discussão e tinha sido agredida fisicamente pela Diana”. De acordo com a professora, Amélia costumava dizer: “Se algum alguma coisa me acontecer, pensem logo que os autores possam ser eles”, referindo-se à filha e ao genro. “Ela de antemão já sentia medo”, assegurou perante o coletivo de juízes.

O apartamento onde Amélia Fialho vivia com a filha e o genro, no Montijo (FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR)

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

A investigação seguiu. Em fevereiro, ambos foram acusados de um crime de homicídio qualificado e outro de profanação de cadáver. Em maio, depois de a advogada de Diana Fialho, Tânia Reis, ter requerido abertura de instrução — fase facultativa em que um juiz de instrução criminal decide se o processo segue para julgamento — o juiz de instrução Carlos Delca decidiu avançar para julgamento, considerando que seria “mais provável a condenação dos arguidos do que a sua absolvição“. O que acabou por acontecer.

O julgamento (quase) em silêncio. “Tínhamos a esperança que assumissem outra humildade”

Dez meses depois do crime, Diana e Iuri sentavam-se no banco dos réus. Mal a arguida entrou na sala de audiências do tribunal, pela primeira vez, uma mulher loura e chorosa chamou por ela: “Mana”. Ainda algemada, a jovem de 23 anos olhou para a irmã biológica — que não via há 18 anos, desde que foi separada dos pais biológicos e acabou por ser adotada por Amélia — e mostrou um sorriso que mal fez mexer os lábios. Foi assim, impávida, que se manteve ao longo das três sessões do julgamento. Diana Fialho só perdeu a postura, no intervalo da primeira sessão, quando se virou para trás e disse à irmã: “Eu não fiz nada”. Depois, começou a chorar, voltou a ser algemada e levada pelos guardas prisionais. Mas o casal não mostrou arrependimento — o que não contribuiu para que a pena fosse atenuada —, nem sequer quis prestar declarações sobre o crime. Diana e Iuri apenas falaram sobre o seu dia-a-dia na prisão e responderam a algumas perguntas sobre outros temas.

Iuri, o aluno brilhante que se licenciou em Contabilidade com notas 20 e que está a ser julgado pelo homicídio da sogra

Iuri começou por contar que, na cadeia, não tem ocupação profissional e que é visitado pela mãe, tia e irmã. Algo confirmado pela mãe, Orlanda, num testemunho emocionado: “Visito-o duas vezes por semana e sempre lá estarei, até Deus me dar forças. Muitos amigos o vão ver”. Iuri disse que, quando estudava, ganhava uma bolsa de 250 euros e, quando acabou o curso, estagiou em dois gabinetes de contabilidade — não ganhou mais de 100 euros por um mês de estágio. “Antes de conhecer a minha sogra, antes disto tudo, trabalhei como lojista”, disse, acrescentando que trabalhou como operário fabril durante três meses, ainda no ano 2018, ganhando 350 euros por mês.

Depois, falou Diana. Contou que, desde novembro, faz tapetes de Arraiolos na cadeia e que em março fez mesmo um contrato, por não ter outros meios de subsistência. Explicou aos juízes que, ao longo da sua vida, recebeu, por duas vezes, acompanhamento psiquiátrico: aos 14 anos e quando a avó, mãe de Amélia, morreu. “Sofri muito porque a relação com a minha avó era muito boa. A minha mãe estava sempre a trabalhar e foi com a minha avó que eu aprendi tudo. A minha avó faleceu praticamente nas minhas mãos”, disse. Diana acrescentou ainda que, aos 18 anos, foi-lhe diagnosticada outra depressão. “Na altura não estava a conseguir acabar o curso e tinha a autoestima muito em baixo”, explicou.

Os advogados dos arguidos (à esquerda) e o procurador da República (à direita), durante o julgamento (Ilustração da sala de audiência de Teresa Dias Costa)

A ausência de uma confissão foi algo lamentado pelo procurador da República, Jorge Moreira da Silva. “Tínhamos a esperança de que os arguidos tivessem feito uma introspeção, quase um ano passado, e que assumissem outra humildade perante os factos”, admitiu, nas alegações finais do julgamento, durante as quais pediu penas de 25 anos — “ou muito próximo disso”. “Mas isso [a confissão] não aconteceu”, lamentou. Ainda assim, as provas recolhidas pelos investigadores e as mais de dez testemunhas ouvidas foram suficientes para que o tribunal os condenasse por um crime que, segundo o representante do Ministério Público, passou “para além do que é o padrão médio de um homicídio” e representou“a ingratidão humana mais profunda que se possa conceber”.

A acusação falou num crime cometido “de forma escabrosa, maquiavélica e com requintes de barbárie”. O tribunal concordou.

MP: Diana e Iuri mataram Amélia “de forma escabrosa, maquiavélica e com requintes de barbárie”

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