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Um pequeno grupo de civis está no meio da rua a observar uma operação de agentes federais. Um civil, de casaco castanho e gorro de cor escura, aproxima-se dos agentes. Na mão erguida, tem um telefone: está a gravar a cena. Depois, aproxima-se e tenta ajudar uma pessoa, caída no chão à frente dos agentes, a levantar-se. Os agentes agarram-no e atiram-lhe gás pimenta. Segue-se um momento de confusão e um dos agentes afasta-se, com uma arma na mão. Nos segundos seguintes, são disparados dez tiros contra o civil, que acabou por morrer. Alex Jeffrey Pretti foi a segunda vítima mortal das operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) na cidade de Minneapolis.
As imagens do momento rapidamente correram os Estados Unidos e o mundo na manhã do passado sábado e a resposta da administração norte-americana foi rápida. A secretária do Departamento de Segurança Nacional, Kristi Noem, disse que Pretti “abanava” um arma e pretendia atacar os agentes de autoridades. O conselheiro presidencial Stephen Miller chamou-lhe “potencial assassino”. Ao longo do fim de semana, os meios de comunicação norte-americanos mostraram os vários ângulos do incidente e analisaram-no ao detalhe. As imagens mostram o que parece ser a arma de Pretti a ser carregada por um dos agentes, mas em nenhum momento o enfermeiro de 37 anos é visto a erguê-la contra os agentes.
A dissonância entre as imagens virais e a narrativa utilizada pela administração não foi bem recebida por Donald Trump. Em privado, durante esse fim de semana, ter-se-á queixado que as reações dos seus oficiais foram “insensíveis“, avançou o Axios, citando uma pessoa com quem o Presidente terá desabafado. Ao mesmo tempo que via as imagens da morte de Pretti e as declarações da sua administração a passar na televisão, o chefe de Estado começou a receber telefonemas de políticos republicanos, que apelavam a uma mudança de estratégia. Um dos telefonemas foi o de Lindsey Graham, um dos senadores mais próximos de Trump, que o terá alertado para a necessidade de “desviar a narrativa dos tiroteios”, descreveu uma pessoa com conhecimento da chamada ao Wall Street Journal.
▲ A morte de Alex Pretti terá sido a gota de água que levou Trump a mudar de estratégia
CRAIG LASSIG/EPA
“O Presidente ficou obviamente preocupado com o que viu durante o fim de semana. Ele sempre foi excecionalmente bom a ler a perceção pública e percebeu que isto não foi bem gerido“, argumentou um conselheiro do Presidente à NBC News. Ou, nas palavras mais simples de outro conselheiro ao Axios: “Está tudo uma merda e o POTUS [sigla em inglês para Presidente dos Estados Unidos] soube que tinha de desfazer a merda”. Com este objetivo em mente, assim que a nova semana começou, Trump agiu. Primeiro, telefonou ao seu “czar das fronteiras” e ainda na segunda-feira de manhã anunciou que Tom Homan ia seguir para Minneapolis, onde passaria a coordenar as operações das agências federais.
Várias fontes próximas da administração, ouvidas pela imprensa, realçam que a escolha de Homan é relevante. Isto porque o “czar” defende uma abordagem mais ponderada daquela que tem sido utilizada por Kristi Noem, com quem terá alguma fricção. Noem é agora pressionada para abandonar o cargo e os democratas ameaçam mesmo avançar com um processo de destituição. Porém, Trump recusou a sua saída e garantiu que o passo atrás em Minneapolis não significa o fim das operações. “Eu não acho que é uma retirada. É um bocadinho de mudança”, ponderou esta terça-feira, numa entrevista à Fox News.
A abordagem “metódica” e cirúrgica de Homan em vez da exibição de poder de Bovino e Noem
Na passada segunda-feira, surgiu nas redes sociais do ICE uma publicação que destoava das restantes, que são principalmente declarações do Presidente e fotografias e listas de crimes das pessoas que a agência vai detendo. Nas duas imagens publicadas, veem-se os agentes do ICE a fazer uma ligação direta entre dois carros no meio de um parque de estacionamento coberto de neve. A legenda explica que os agentes viram um homem com “problemas no carro” e se disponibilizaram para ajudar, com a ajuda de “outro membro da comunidade”.
A NBC News descreve a publicação como um reflexo da narrativa que a administração se esforça por promover, que mostra um lado mais “suave” do ICE, que contrapõe os relatos de alegados comportamentos abusivos por parte dos agentes que têm sido feitos pelos manifestantes de Minneapolis. O envio de Tom Homan para Minneapolis é um pilar essencial deste esforço.
▲ O "czar das fronteiras" defende uma abordagem mais metódica e operações cirúrgicas
FRANCIS CHUNG / POOL/EPA
“A narrativa mudou porque houve um incidente de tiroteio e isso muda tudo. Trump está enviar Homan para o Minnesota com o objetivo de recentrar [a operação] no lado da fraude”, declarou um conselheiro do Presidente ao mesmo canal. A fraude é uma referência ao caso de desvio de fundos federais por supostas creches geridas por membros da comunidade somali de Minneapolis, que foi denunciada no final de 2025, mas que é apenas o caso mais recente numa longa lista de casos de gestão indevida de fundos federais que remontam, na sua maioria, à pandemia de Covid-19.
A presença de Homan é relevante pois a sua visão sobre como aplicar as políticas migratórias é diferente da que tem sido implementada até aqui. O “czar” prefere uma abordagem mais “metódica“, focada na detenção de imigrantes que tenham registo criminal ou ordens finais de deportação, descreveram pessoas próximas de Homan ao Wall Street Journal. Na prática, isto traduz-se em operações mais demoradas, mas em que as detenções são feitas de forma cirúrgica a alvos cuidadosamente selecionados.
Esta nova abordagem — que as pessoas ouvidas pela imprensa apontam que vai começar a ser utilizada em Minneapolis — é muito diferente da que se tem visto até aqui. Isto porque Kristi Noem e o seu braço direito, Corey Lewandowski, são parciais a outro tipo de operações, mais alargadas, em que os agentes federais exibem o seu poder nas ruas, numa tentativa de deter o máximo possível de imigrantes sem documentos, independentemente de terem ou não registo criminal. Em Minneapolis esta abordagem teve resultados particularmente violentos por ter sido aplicada por Gregory Bovino, o responsável da Guarda Fronteiriça.
Devido às diferenças no treino da Guarda Fronteiriça e do ICE (os primeiros são mais treinados em cenários mais violentos) e à preferência pessoal de Bovino por uma abordagem mais confrontacional, a entrada em cena da Guarda Fronteiriça em Minneapolis foi visível em imagens de grandes grupos de agentes armados de cara tapada a andar nas ruas. Um membro da administração, citado pelo Axios, critica esta tática que resultou, diz, em múltiplos confrontos não com imigrantes, mas com cidadãos norte-americanos.
▲ A atitude confrontancional de Bovino e o treino da Guarda Fronteiriça motivaram incidentes violentos
Anadolu via Getty Images
Homan tem outras qualidades que jogam a seu favor nesta situação. O “czar” tem currículo na área, já que antes foi diretor do ICE. À Fox News, Trump elogiou a sua capacidade de dialogar com líderes locais — em Minneapolis há cerca de dois dias, Homan já se reuniu com o governador do Minnesota e o autarca de Minneapolis —, uma qualidade confirmada por um responsável de imigração, que trabalhou na agência durante as administrações de Barack Obama e Donald Trump, e que ressalvou que essa capacidade o consolidou como uma figura “com alguma credibilidade” nos dois espectros políticos.
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As críticas da Fox News, os avisos dos aliados e o “pêndulo da opinião pública”
No domingo à tarde, Donald Trump deu uma entrevista ao Wall Street Journal em que, pela primeira vez, Trump admitiu dar um passo atrás nas políticas de imigração e nas operações na cidade de Minneapolis. Mas a entrevista também foi a primeira vez que muitos conselheiros ouviram falar sobre essa possibilidade, segundo os próprios revelaram depois, sob anonimato, ao jornal.
O New York Times destaca que as mudanças de direção de Donald Trump são raras, já que o Presidente não gosta de ceder e mostrar fraqueza. Contudo, em casos extremos, Trump tira a temperatura à opinião pública ligando a televisão no seu canal de eleição, ou abrindo o seu jornal preferido. Ora, tanto na Fox News, como no New York Post, a mensagem era a mesma: “É altura de desescalar em Minneapolis, Sr. Presidente“, como escreveu o jornal. Esta cobertura noticiosa das operações na cidade levaram Trump a concluir que a sua ação “parecia caótica e não forte”, relataram fontes conhecedoras ao Wall Street Journal.
Mas as críticas não vieram apenas dos meios de comunicação. Depois da morte de Alex Pretti, intensificaram-se as declarações de políticos republicanos. Este coro incluia vozes mais moderadas e críticas de Trump, como Lisa Murkowski ou Susan Collins, mas também alguns dos aliados mais próximos do Presidente, como Lindsey Graham, o senador Ted Cruz da Florida ou o governador Greg Abbott do Texas. Contudo, neste segundo grupo, as palavras foram menos uma crítica e mais um alerta para o Presidente. Os republicanos terão alertado Trump que a morte de duas pessoas tinha desviado o foco do que dizem ser os sucessos da dura política de imigração implementada por Trump há um ano, depois de vencer as eleições com essa mesma promessa.
A “ansiedade” destes políticos, como descreve o Wall Street Journal, é explicada, em parte, pelo distanciamento dos eleitores com as ações atuais do ICE e pelo risco de alienarem eleitores do Partido Republicano em ano de eleições intercalares. Um inquérito conduzido pelo YouGov para a The Economist entre os dias 23 e 26 de janeiro (ou seja, antes e depois de Pretti ter sido morto) revela de 55% dos norte-americanos têm “muito pouca confiança no ICE”, um número que sobe para 67% entre eleitores independentes, que não estão inscritos em nenhum partido. Outro inquérito, do IPSOS para a Reuters conduzido de 23 a 25 de janeiro, conclui que 58% dos norte-americanos acha que os agentes do ICE foram “longe demais”, o que corresponde a cerca de 6 em cada 10 eleitores independentes.
“Tornar a fronteira segura e remover pessoas que são uma ameaça ou têm registo criminal é senso comum e popular. O que os eleitores estão a ver agora vai além desse mandato, e como resultado, o pêndulo da opinião pública está a recuar”, analisou Kristen Soltin Anderson, especialista em sondagens do Partido Republicano, ao Washington Post.
No grupo de vozes críticas, conta-se ainda um tradicional aliado do Partido Republicano e de Donald Trump: os defensores do direito de porte de arma. Esta terça-feira, de visita a um restaurante no Iowa, Trump criticou o facto de Alex Pretti carregar um arma. “Eu não gosto que ele tivesse uma arma. Eu não gosto que ele tivesse dois carregadores cheios. São muitas coisas más”, declarou o Presidente. Em resposta, políticos e ativistas defenderam o direito a andar armado, mesmo num protesto, e recusaram as críticas ao facto de Pretti andar com a arma oculta, uma vez que isso é permitido no estado do Minnesota. As declarações da administração, acusaram, põem em risco a Segunda Emenda da Constituição, que consagra esse direito.
Na direção contrária às críticas, Trump protagonizou uma aproximação ao governador do Minnesota, Tim Walz, e ao autarca de Minneapolis, Jacob Frey, tendo conversado pelo telefone com os dois. Os políticos do Minnesota já tentavam estabelecer contacto com a Casa Branca há vários dias para apelar a uma desescalada, mas as chamadas só aconteceram na passada segunda-feira. Terminados os telefonemas, que Trump classificou como “muito bons”, o Presidente pareceu realmente estar disponível para dar esse passo atrás.
▲ Debaixo de fogo, Kristi Noem terá dito que apenas implementou medidas de Trump e Miller
WILL OLIVER / POOL/EPA
A troca de acusações dentro da administração que levou Stephen Miller a retratar-se
“Andem sempre com o telemóvel. E se virem o ICE no vosso bairro, tirem o telefone e gravem um vídeo”. O apelo foi feito aos habitantes de Minneapolis por Tim Walz,numa declaração pública dias depois da morte de Renee Good. Pelas imagens e vídeos que circulam diariamente, o conselho tem sido seguido à risca pelos manifestantes. O objetivo, disse Walz, é criar um “banco de provas para acusações posteriores” dos agentes federais que atuam na cidade. Porém, no caso da morte de Alex Pretti, o facto de haver tantos vídeos do momento que permitiu reconstituir ao detalhe o incidente acabou por ter outras consequências e colocou Kristi Noem debaixo de fogo.
Imediatamente depois de Alex Pretti ter sido baleado, a agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), uma agência irmã do ICE sob a alçada do Departamento de Segurança Nacional, informou a administração federal dos detalhes do incidente e, em Washington, trabalhou-se numa reação ao mesmo, descreveram seis fontes com conhecimento do processo ao Axios. A reação foi fortemente moldada por Stephen Miller, o conselheiro de Trump que é considerado o “cérebro” da sua política de imigração, acrescentaram as mesmas fontes.
“Miller ouviu ‘arma’ e soube qual seria a narrativa: Pretti tentou ‘massacrar’ polícias“, descreveu uma das pessoas que tomou conhecimento da reunião para elaborar o comunicado à imprensa. E foi essa mesma reação, anteriormente descrita, que acabou por ser classificada por Trump, em privado, como “insensível”. Noem, enquanto líder do Departamento de Segurança Nacional, começou a ser pressionada para apresentar a demissão, tendo os congressistas democratas ameaçado avançar com um processo de destituição — apesar de, neste momento, a bancada democrata não ter dimensão para avançar com o processo, isso pode mudar depois das eleições de novembro.
Debaixo de fogo, Noem — que também terá uma relação tempestuosa com Tom Homan — pediu para se reunir com o Presidente na segunda-feira à noite — e Miller não estava presente, avançou o New York Times. Apesar de, formalmente, Noem estar acima de Stephen Miller na hierarquia da administração federal, a proximidade de Miller a Trump e a sua influência na definição da estratégia de imigração, torna o seu cargo mais valioso. Em privado, terá sido essa a defesa de Noem. “Tudo o que fiz, fiz por ordem do Presidente e do Stephen”, ter-se-á queixado a uma pessoa que partilhou o comentário com o Axios.
▲ Stephen Miller, um dos arquitetos da atual política de imigração, admitiu que pode ter havido quebras de protocolo
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Miller defendeu-se, atirando as culpas para a CBP — agência sob a alçada de Noem — que, na manhã de sábado, transmitiu as informações a Washington. A Casa Branca indicou à agência que deveria entrar em cena para “criar uma barreira física entre as equipas de detenção e os disruptores” e não para deterem eles mesmos os imigrantes sem documentos, detalhou Miller num comunicado citado pela CNN. “Estamos a avaliar se a equipa da CBP podia não estar a seguir o protocolo“, acrescentou, num grande passo atrás das suas declarações iniciais sobre Pretti.
Contudo, o jogo de passa culpa dentro da administração pouco afeta Donald Trump. Apesar da pressão, múltiplos meios de comunicação garantem que nem Miller nem Noem estão de saída. “Trump é assim, ele até gosta que as pessoas compitam entre elas. Ele acha que torna o produto final melhor”, disse um responsável da administração ao Axios, referindo-se diretamente à relação de Noem com Homan. Independentemente das fricções internas e da redefinição da estratégia, a Casa Branca faz questão de relembrar que o objetivo da administração Trump, em Minneapolis e em qualquer outra cidade dos Estados Unidos, continua a ser o mesmo de há um ano: “Implementar a agenda do Presidente, proteger o povo americano e deportar imigrantes ilegais criminosos”.