“2022, 2024 e, agora, 2025. E vão três“. Entre sorrisos, Mário Centeno admite que a crise política “melhorar, não melhora” as perspetivas de crescimento. Na leitura do governador do Banco de Portugal, nas interrupções governativas anteriores a economia mostrou ter “condições de resiliência” – e o Banco de Portugal está confiante de que o mesmo voltará a acontecer, tanto que até subiu em uma décima a projeção de crescimento para este ano, face ao que tinha previsto em dezembro. O pior impacto, admite o Banco de Portugal, poderá vir das tarifas de Trump (e respetiva retaliação) que podem roubar quase um ponto percentual ao ritmo de crescimento da economia nacional.
O maior otimismo do Banco de Portugal relativamente ao crescimento em 2025 fica aquém do crescimento que o ministro das Finanças previu – 2,5%, “se a economia não sofrer nenhum choque económico externo”. Para Mário Centeno e para o Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, o Produto Interno Bruto (PIB) português deverá crescer um pouco menos – 2,3% – uma melhoria de uma décima face aos 2,2% previstos em dezembro (que também decorre do crescimento em 2024 mais forte do que o previsto).
Fonte: Banco de Portugal
A décima de crescimento a mais em 2025 o Banco de Portugal tira-a, depois, em 2026, apontando-se para um crescimento de 2,1% (e não 2,2%, como antes se previa). “O crescimento económico em 2025–26 beneficia do alívio das condições financeiras [descida dos juros] e tem subjacente uma aceleração da procura externa e uma execução dos fundos europeus mais concentrada agora em 2026″, analisa o Banco de Portugal.
Consumo deu impulso à economia no final de 2024. Agora está a inverter o rumo
↓ Mostrar
↑ Esconder
Tal como o INE já tinha indicado a 30 de janeiro, a atividade económica em Portugal teve um grande impulso no quarto trimestre de 2024, crescendo 1,5% em cadeia após 0,2% no trimestre anterior. “A aceleração foi notória no consumo privado (a taxa em cadeia passou de 0,8% para 2,9%), mas as exportações de bens e serviços também recuperaram (de -0,2% para 0,7%), enquanto o investimento (incluindo em existências) se reduziu (em 6%, após um aumento de 4,5% no terceiro trimestre)”, refere o Banco de Portugal.
O supervisor financeiro acrescenta que “o aumento do consumo refletiu a aceleração significativa do rendimento disponível no quarto trimestre (variação em cadeia estimada de 5%), em resultado sobretudo das alterações ao IRS com efeitos retroativos ao início do ano que foram refletidas em tabelas de retenção específicas em setembro e outubro e ao pagamento do suplemento extraordinário de pensão em outubro”. No seu conjunto, calcula o Banco de Portugal, “estas medidas de política orçamental representaram um aumento de cerca de 2.000 milhões de euros no rendimento das famílias (equivalendo a quase 4% do rendimento trimestral)”.
No entanto, neste primeiro trimestre de 2025, “o rendimento disponível nominal deverá reduzir-se 1,2% — revertendo parcialmente o aumento do quarto trimestre — e refletir-se numa retração do consumo privado, já corroborada pelos indicadores de conjuntura disponíveis”. “O consumo privado deverá ser também condicionado no segundo trimestre pelo impacto da redução prevista nos reembolsos do IRS, resultante das menores retenções na fonte ocorridas em setembro e outubro de 2024”, acrescenta o Banco de Portugal.
O abrandamento mais pronunciado da economia vem depois, porém. Em 2027, o PIB deverá desacelerar para 1,7%, prevê o Banco de Portugal, uma projeção menos otimista que “resulta em larga medida do fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”. No horizonte mais imediato, o Banco de Portugal admite que “o consumo e o investimento poderão beneficiar de um aumento da confiança, mas a sua concretização exige uma redução da incerteza interna e externa“.
Crise política prejudica perspetivas económicas? “Melhorar, não melhora…”
O Boletim Económico (trimestral) divulgado nesta quinta-feira trabalha com dados económicos obtidos até ao dia 10 de março, precisamente a véspera do chumbo da moção de confiança que ditou o colapso do governo de Luís Montenegro. Também por isso não há qualquer referência às eleições antecipadas no relatório – mas Mário Centeno não fugiu à pergunta dos jornalistas, na conferência de imprensa, sobre se a crise política poderia prejudicar as perspetivas económicas do País.
“Melhorar, não melhora“, respondeu Mário Centeno, acrescentando que “os agentes económicos adoram previsiblidade, estabilidade e capacidade de projetar o futuro”.
O governador do Banco de Portugal lembrou que “a variável que mais sofre com a incerteza é o investimento” e, embora não devamos “subjugar os processos democráticos à economia”, “temos de compreender que a situação de que beneficiamos neste momento, com um crescimento acima do potencial e um quadro previsível de estabilidade financeira, se estes pilares forem afetados por esta incerteza a situação pode tornar-se mais complexa”.
Eleições antecipadas podem trazer recondução? Centeno diz ter "grande tranquilidade"
↓ Mostrar
↑ Esconder
O cenário de eleições antecipadas pode tornar mais provável, se o PS vencer as eleições, que Mário Centeno seja reconduzido – já que foi noticiado, antes da crise política, que Joaquim Miranda Sarmento não estaria a pensar nomear Centeno para um segundo mandato no Banco de Portugal. Questionado sobre este tema, nesta quinta-feira, o governador diz que essa, “felizmente”, não é “uma decisão que dependa” de si.
“Não há nenhum comentário que eu possa fazer além de reiterar os que tenho feito, com grande tranquilidade, no sentido de dizer que o que estamos e eu estou a fazer no Banco de Portugal é desempenhar as funções da melhor forma que eu sei”, indicou Centeno.
“Nesse sentido, quando e quem tiver de fazer a avaliação, irá fazê-lo”, acrescentou.
No dia em que revelou que não irá avançar com uma candidatura presidencial (em 2026), Mário Centeno tinha dito que trabalha com o “objetivo” de ser reconduzido no Banco de Portugal. “Nunca desempenhei as minhas funções para passar com 10”, afirmou o governador, em entrevista à RTP.
Mário Centeno repetiu a mensagem que já tinha transmitido numa conferência bancária na semana passada, voltando a citar Fernando Pessoa quando escreveu: “Não sei o que o amanhã trará”. E, tal como em conferências de imprensa anteriores, o governador do Banco de Portugal também voltou a alertar para o risco de o Governo – seja ele qual for – tomar medidas de estímulo pró-cíclico, isto é, aproveitando folgas que se geram em períodos bons para assumir compromissos, por exemplo na despesa, em vez de criar “almofadas” para quando o ciclo se inverter.
“É importante prepararmo-nos para eventuais alterações desta situação cíclica, porque sabemos que as economias têm flutuações e é preciso estar preparado para quando elas existirem”, afirmou o governador do Banco de Portugal.
Tarifas de Trump podem tirar quase 1% ao crescimento económico português
Se a “incerteza interna” não parece, pelo menos para já, afetar muito negativamente as previsões feitas pelo Banco de Portugal, os economistas salientam, porém, que “os riscos adversos em torno da projeção para a atividade acentuaram-se e prevalece uma incerteza elevada sobre a evolução da economia mundial“.
“Para além dos fatores de risco já existentes — relacionados com a invasão militar da Ucrânia pela Rússia e os conflitos no Médio Oriente — surgiram novos fatores, com destaque para as alterações na orientação de política geoestratégica e comercial nos EUA. A materialização destes riscos pode conduzir a subidas de preços das matérias-primas, disrupções nas cadeias de abastecimento, menor crescimento do comércio mundial e variações cambiais marcadas, com impacto desestabilizador sobre a atividade”, afirma o supervisor no Boletim Económico.
“Não é bluff”. Trump tem economia para suportar a “dor” de “ir até ao fim” nas tarifas
O Banco de Portugal salienta que um “indicador global de incerteza das políticas económicas atingiu valores próximos dos máximos históricos no início de 2025, o que por si só poderá limitar o crescimento da atividade mundial“, uma “incerteza [que] pode levar os agentes económicos a adiar ou cancelar decisões de investimento, a aumentar a poupança por motivos de precaução ou a exigir prémios de risco mais elevados, reduzindo o preço dos ativos e aumentando os custos de financiamento”.
Em concreto, porém, o supervisor admite que a “materialização de um cenário de aumento de tarifas pelos EUA às importações da UE, envolvendo retaliação e aumento da incerteza/redução da confiança, teria um impacto negativo relevante na atividade económica em Portugal“. Tanto quanto é possível fazer estimativas sobre estas matérias complexas, o Banco de Portugal fez uma simulação que admite que se Trump lançar, mesmo, tarifas de 25% contra a Europa (e a Europa retaliar na mesma medida), o impacto negativo para o crescimento português pode aproximar-se de um ponto percentual no crescimento do PIB.
[Já estreou “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]
“A perspetiva de um aumento das tarifas à importação de bens da UE pelos EUA implica riscos em baixa para o crescimento das exportações de bens, em particular de setores com maior proporção de empresas expostas a este mercado”, assinala o Banco de Portugal no Boletim Económico, acrescentando, também, que “o impacto negativo de um maior protecionismo no comércio mundial deverá sobrepor-se a eventuais oportunidades que processos de reorientação dos fluxos de comércio para localizações com maior proximidade geográfica e institucional possam trazer à economia portuguesa”.
Sendo os EUA o principal parceiro comercial extracomunitário de Portugal, com um peso das exportações de bens que representou 2% do PIB em 2023, o impacto será negativo, incluindo em 2026 (o Banco de Portugal estima um impacto negativo de 0,4% no PIB em 2026, para depois haver uma ligeira recuperação e um impacto positivo de 0,2% em 2027).
Tarifas de Trump podem tirar quase 1% ao crescimento económico português, estima o Banco de Portugal
“Embora o comércio externo português ocorra na sua maioria no mercado da União Europeia, onde não existem barreiras tarifárias, a efetivação de novas medidas protecionistas por parte dos EUA e o agravamento das barreiras ao comércio a nível global constitui um risco importante e exigirá uma adaptação por parte das empresas e das políticas públicas“, defende o Banco de Portugal no Boletim Económico.
Mário Centeno concluiu que este “é um impacto indesejável, não necessário“, afirmou Mário Centeno, advogando que “este tipo de guerras comerciais não levarão a economia mundial no bom sentido”. “Mas é um cenário que está à nossa frente”, rematou.