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Da tentativa de bloquear a eleição de Ratzinger aos rumores sobre a saúde de Bergoglio. Os segredos de dois conclaves que vieram a público

Alguns cardeais que se opunham à eleição de Ratzinger tentaram criar um "impasse" nas votações. O episódio foi confirmado por Francisco, que no conclave que o elegeu viu serem espalhados rumores.

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A notícia apanhou o Vaticano de surpresa. Um cardeal tinha quebrado o voto de segredo a que se comprometera num conclave, escrevendo e partilhando com a imprensa um diário com as suas notas pessoais sobre o que aconteceu dentro e fora da Capela Sistina até à eleição de Bento XVI. “Esta tarde, tomei um quarto na Casa de Santa Marta. Pousando as minhas malas, tentei abrir as persianas, pois o quarto estava escuro, mas era impossível (…) tinham sido fechadas. É o isolamento do conclave“, escreveu o cardeal anónimo na abertura do diário. Nas suas páginas, descrevia-se uma tentativa para bloquear a eleição do à época cardeal Joseph Ratzinger, que viria a ser confirmada no ano passado pelo Papa Francisco, o único que pode conceder aos eleitores uma autorização especial para falar sobre o processo.

Durante um conclave os cardeais eleitores não podem ter qualquer contacto com o exterior. Do mesmo modo, o mundo não pode alcançá-los. Para lá das persianas fechadas, não há televisão ou rádio, telemóveis ou redes sociais. O objetivo é que, na escolha do futuro Papa, não estejam sujeitos a qualquer influência externa: devem ter em vista apenas Deus no momento de decidir.

“É proibido aos Cardeais eleitores revelar, a qualquer outra pessoa, notícias que, direta ou indiretamente, digam respeito às votações.”
Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis

Para isso contribui também uma segurança apertada. São utilizados sistemas de interferência na Capela Sistina — onde decorrem as votações —, que é revista de uma ponta à outra para garantir que não estão escondidos dispositivos de captação de vídeo ou som. “A razão pela qual desejamos proteger aqueles [que votam] é porque este não é apenas um processo democrático. Este é um processo que é humano, mas cada um deles é chamado também a apresentar os seus pensamentos diante de Deus. … Isto não é apenas quem obtém mais votos ou politiquice”, sublinhou ao Washington Post o reverendo Mark Morozowich depois das fugas de informação sobre o conclave de 2013.

Devido a todas estas precauções, “sabemos muito mais sobre a eleição, digamos, de 1549 do que sobre a eleição de 2013”, considerou Frederic J. Baumgartner à revista Time. O autor do livro Behind Locked Doors: A History of the Papal Elections (em português, Por trás de portas fechadas: uma história das eleições papais) lembra a documentação — diários, relatórios, números de cédulas — que até então existia e permitia saber parte do que tinha acontecido. Assim nos chegaram histórias como a do conclave de 1378, que elegeu dois Papas, ou o de 1605, que levou a um confronto físico entre os eleitores que apoiavam dois cardeais diferentes.

Apesar do secretismo, alguns episódios acabam mesmo por ser tornados públicos. Desde curiosidades sem nenhum impacto, como o que os cardeais comem durante o conclave — na primeira noite, em 2013, as freiras prepararam “refeições de sopa, esparguete, pequenas almôndegas e vegetais cozidos, noticiou o Corriere della Sera — ao número de votos que cada cardeal tem, que deveria ser secreto. Sabe-se, por exemplo, que Bento XVI alcançou 84 votos no último escrutínio e que, oito anos depois, Jorge Bergoglio, que assumiu o nome Francisco, foi eleito com entre 85 a 90 votos.

O conclave em que tentaram “usar” o cardeal Bergoglio contra Ratzinger

“Quando, lentamente, o andamento das votações me fez compreender que, por assim dizer, a guilhotina teria caído sobre mim, comecei a ter vertigens.” A revelação foi feita por Bento XVI a um grupo de peregrinos alemães sobre o conclave de 2005 em que foi eleito. O Papa explicou que inicialmente pediu a Deus “Não me faças isto!”, mas acabou por render-se: “As vias do Senhor não são confortáveis, mas nós não somos criados para o conforto.” Deixou de fora, sem surpresa, os detalhes sobre o que se passou na Capela Sistina. Mas isso não impediu que cinco meses depois da eleição se viesse a saber que Jorge Bergoglio, que viria a ser seu sucessor, foi “usado” por um grupo de cardeais para tentar bloquear a votação.

É preciso recuar até à tarde de 18 de abril de 2005, em que os 115 cardeais eleitores — apenas os que têm menos de 80 anos podem votar — caminhavam em lenta procissão até à Capela Sistina. Tirando duas exceções, todos os conclavistas estavam a participar pela primeira vez numa eleição papal, uma particularidade fruto do pontificado de S. João Paulo II ter sido um dos mais longos da história da Igreja Católica. Um deles era o próprio Joseph Ratzinger, que, enquanto cardeal Decano, presidia ao Colégio Cardinalício e teria o dever de confirmar a escolha do Papa, sendo que era tido como o principal papabili.

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▲ A entrada dos cardeais eleitores na Capela Sistina, onde decorrem as votações para eleger o novo Papa

Gamma-Rapho via Getty Images

A primeira votação do conclave decorreu sem percalços. Os votos começaram a ser contados pelas 19h, depois de o último cardeal eleitor, o italiano Attilio Nicora, depositar o voto na urna em cima do altar e regressar ao seu lugar, numa das longas mesas dispostas de cada lado da capela. Um hora depois os votos já tinham sido contados e queimados e fumo negro irrompia pela chaminé da Sistina, sinal universal para os milhares de fiéis e centenas de jornalistas que aguardavam na Praça de São Pedro: ainda não havia Papa.

O que ninguém soube naquela noite, à exceção dos cardeais eleitores, foi o resultado do escrutínio. Só foi conhecido em setembro de 2005, apesar da proibição inscrita no documento que rege o conclave: “É proibido aos Cardeais eleitores revelar, a qualquer outra pessoa, notícias que, direta ou indiretamente, digam respeito às votações.”

A informação foi avançada pela revista italiana Limes. No artigo, do jornalista Lucio Brunelli, era citado o diário de um cardeal não identificado — e assim permanece até hoje. Nas páginas, a que Brunelli teve acesso “graças à relação de confiança” de vários anos com essa fonte, lia-se que Ratzinger, que durante mais de duas décadas foi braço direito de João Paulo II, obteve nessa noite 47 votos, Jorge Bergoglio dez, seguido de muito perto pelo arcebispo emérito de Milão, Carlo Maria Martini, com nove.

“Estavam a usar-me, mas nas minhas costas já estavam a pensar em propor outro cardeal.”
Papa Francisco

“A verdadeira surpresa do primeiro escrutínio é o cardeal argentino Bergoglio”, escreveu Brunelli, amplamente citado pela imprensa internacional. O jornalista contava, citando o cardeal anónimo, que existia um grupo relutante em votar em Ratzinger. “Um grupo cujo núcleo base é constituído por Karl Lehmann, presidente da Conferência Episcopal Alemã, e Godfried Danneels, arcebispo de Bruxelas, e que inclui um grupo significativo de cardeais americanos e latino-americanos, bem como alguns cardeais da Cúria Romana”, referia o diário.

Num artigo de 2009, que juntava o relato do autor do diário e subsequentes entrevistas com outros conclavistas, a Limes trazia uma reconstrução mais pormenorizada do processo para eleger o 265.º Papa. Notava que, nas horas seguintes à votação do dia 18, os apoiantes de Ratzinger concentravam-se no bloco de indecisos — já que havia cerca de 30 votos dispersos — e os seus opositores formavam um bloco em torno de Bergoglio.

O texto, também assinado por Brunelli, notava que era quase impossível que o jesuíta sucedesse a João Paulo II e que o objetivo dos cardeais era “criar um impasse” que levasse à “retirada da candidatura de Ratzinger.” Na altura, as regras ditavam que para um conclavista ser eleito precisaria de dois terços dos votos mais um, ou seja, teria de ter o apoio de 77 dos 115 cardeais. Teoricamente, o bloco que se opunha a Ratzinger teria de congregar 39 votos em torno de Bergoglio.

O aviso de Bergoglio, que votou em Ratzinger: “Não brinquem com a minha candidatura”

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▲ Bento XVI sucedeu a S. João Paulo II como Papa

Corbis via Getty Images

Quando, a 19 de abril, os cardeais se reuniram na Capela Sistina para o segundo dia os resultados, segundo o diário, mostraram uma aproximação entre o argentino e o alemão: Ratzinger com 65; Bergoglio com 35. Na ronda seguinte, na mesma manhã, os dois blocos tornavam a crescer: Ratzinger com 72 e Bergoglio com 40. “Ele mal ultrapassa, mas ultrapassa, o limite que torna a eleição de Ratzinger matematicamente impossível. Se os apoiantes do arcebispo de Buenos Aires decidissem resistir indefinidamente, elevando as barricadas para 40, o cardeal alemão poderia alcançar um máximo de 75 votos”, explicava Brunelli. Só ao fim de 33 votações, se o impasse se mantivesse, passaria a ser necessária uma maioria simples.

O jornalista relata, com base no diário, que depois disso os apoiantes de Ratzinger multiplicaram os contactos junto de cardeais sul-americanos, enquanto do outro lado crescia um otimismo cauteloso sobre o bloqueio, mas infundado, como ficaria provado pelos resultados do último escrutínio: Ratzinger com 84; Bergoglio com 26. “A matemática diz-nos que todos [os votos] foram para o cardeal alemão. Não sabemos quais os cardeais e com que motivações, na quarta votação, decidiram retirar o voto no cardeal argentino para o oferecer ao decano do Sagrado Colégio. Talvez simplesmente pensassem ser inapropriado almejar um impasse prolongado, com o risco de uma cisão séria, na ausência de uma alternativa real e convincente a Ratzinger”, sugere.

"Não brinquem com a minha candidatura porque agora mesmo vou dizer que não vou aceitar. Deixem-me ficar por aqui."
Papa Francisco em declarações ao jornalista espanhol Javier Martínez-Brocal

O próprio Bergoglio, já como Papa, traria um pouco mais de luz sobre o assunto, rejeitando que “quase” foi eleito e afirmando que foi “usado” por colegas cardeais que queriam evitar a eleição de um Papa que não fosse italiano. A revelação foi feita ao jornalista Javier Martínez-Brocal, do espanhol ABC, e surge no livro “O Sucessor”, publicado em 2024.

O pontífice confirmou que a ideia de um grupo de cardeais seria bloquear durante vários dias a eleição de Ratzinger, criando um impasse que levasse o cardeal alemão a afastar-se e permitisse aos conclavistas por detrás do plano escolher um terceiro nome. “Estavam a usar-me, mas nas minhas costas já estavam a pensar em propor outro cardeal. Ainda não tinham chegado a acordo sobre quem, mas já estavam prestes a lançar um nome”, contou. “Se tivessem continuado a votar em mim, ele não teria conseguido atingir os dois terços necessários”, disse ainda, referindo-se à terceira votação que lhe deu 40 votos.

▲ O papa emérito Bento XVI e o Papa Francisco

L'OSSERVATORE ROMANO/EPA

Francisco apercebeu-se do esquema e avisou um cardeal — o colombiano Darío Castrillón — que não contassem com ele. “Não brinquem com a minha candidatura porque agora mesmo vou dizer que não vou aceitar. Deixem-me ficar por aqui”, revelou o Papa, que assumiu ele próprio ter votado no alemão. Sem um candidato alternativo para a votação da tarde de dia 19, o movimento anti-Ratzinger dispersou, descreve o jornalista Javier Martínez-Brocal no seu livro.

Pelas 18h45, nas tradicionais vestes brancas, o já Papa Bento XVI aparecia na varanda da Basílica de São Pedro, assumindo-se como um “simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor.” Era o início de um pontificado de oito anos, que terminou com a sua abdicação, em 2013 — o primeiro Papa a fazê-lo em quase 600 anos.

Por trás do conclave que elegeu o primeiro papa jesuíta, latino e Francisco — e o primeiro não europeu em 1.272 anos

Quando o conclave de 2013 começou a Igreja Católica ainda recuperava do choque da abdicação de Bento XVI. “O Papa acaba de quebrar um tabu ao romper com vários séculos de prática”, comentava com os jornalistas o cardeal André Vingt-Trois, arcebispo de Paris, descrevendo a decisão como um “ato libertador para o futuro.” Sem possibilidade de votar na eleição papal para escolher o seu sucessor, foi a partir da televisão que, do Castelo Gandolfo, o Papa emérito assistiu à entrada dos conclavistas na Capela Sistina. Depois do Mestre de Cerimónias dar a ordem “Extra Omnes” (“Todos Fora”) e as câmaras do Vaticano se desligarem ficou pela primeira vez, desde 1978, cortado dos acontecimentos de um conclave.

▲ O Papa Francisco foi eleito a 13 de março de 2013

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As medidas de segurança foram, mais uma vez, apertadas. Foi instalado um sistema de interferência de última geração, o Faraday Cage, e tomou-se uma medida adicional: não usar um sistema de amplificação de som dentro da Capela Sistina. Isto porque, segundo foi noticiado, um membro da Guarda Suíça em funções junto à capela ouviu em 2005 em alguns momentos o que estava a ser dito, especialmente durante as contagens de votos — apesar de também estar abrangido pelo segredo absoluto.

O conclave terminaria com um “acceto” de Jorge Bergoglio — “embora eu seja um pecador” —, que praticamente esteve ausente das listas de papabilis da maior parte dos jornais. Mas para os eleitores no interior da Capela Sistina a hipótese rapidamente se tornou clara, revelaria o cardeal argentino Leonardo Sandri. “São coisas que vemos chegar”, disse à correspondente argentina do Vaticano Elisabetta Piqué, autora da biografia Francis: Life and Revolution (Francisco: Vida e Revolução). Tanto que, depois do primeiro escrutínio, lhe deixou um aviso: “Prepare-se, meu amigo.” Também não o poupou durante as votações, em que apontava discretamente com a mão para Bergoglio, que acenava que ‘não’ com a cabeça.

“Prepare-se, meu amigo”, disse o cardeal argentino Leonardo Sandri a Bergoglio.

À semelhança de 2005, os resultados das votações acabaram por ser conhecidos, apesar de as contagens variarem. No livro de 2014, a jornalista de La Nación mencionava 25 votos para Jorge Bergoglio. Já o marido, o vaticanista Gerard O’Connell — são ambos amigos de Bergoglio, que jantou na casa deles antes do início do conclave — falava em 26 votos. O que parece certo é que ficava atrás do arcebispo de Milão, Angelo Scola, que teria alcançado 30 votos e já era tido antes do conclave como um dos potenciais sucessores. Ainda assim, Bergoglio foi a “grande surpresa”, descreveu O’Connell no The election of Pope Francis, an inside account of the Conclave that changed history (A eleição do Papa Francisco: um relato interno do conclave que mudou a história). Conta, aliás, que teriam sido 27 votos se um dos cardeais não se tivesse enganado e escrito “Broglio.”

O jornalista da revista America nunca apostaria em algo tão sério como a eleição de um Papa — recusou até dar sugestões quando questionado pelo filho que queria apostar a dinheiro. No entanto, estava convencido de que o argentino seria o escolhido. Para essa crença contribuiu uma confidência que um cardeal lhe fez, sob a condição de que não a publicasse até muito depois da eleição: no dia 11 de março, véspera do conclave, um grupo de apoiantes de Bergoglio esteve reunido.

O encontro, relata no livro, aconteceu no apartamento do Vaticano do cardeal Attilio Nicora e contou com mais de uma dezena de conclavistas que tinham mostrado intenção de votar no arcebispo de Buenos Aires e conheciam outros que pensavam na mesma linha. Tais reuniões não são raras, explica no livro: “A partir de agora e até à abertura do conclave é provável que cardeais falantes de italiano, inglês, francês, alemão, espanhol e português respetivamente se reúnam em pequenos grupos, à porta fechada, em apartamentos dos cardeais, colégios ou casas religiosas pela cidade [de Roma] enquanto procuram identificar os candidatos que serão mais adequados para este momento na história.”

Os rumores sobre a saúde de Bergoglio que ganharam fôlego num almoço em Santa Marta

A manhã do dia 13 de março trouxe mais dois escrutínios. No primeiro o cardeal argentino alcançou 45 votos (Scola 38; Ouellet 24; O’Malley 4), segundo a contagem de O’Connell, 50, na de Piqué. No segundo chegou aos 56 (Scola 41; Ouellet 14), diz o primeiro, com a vaticanista argentina a falar numa proximidade com os 77 necessários para ser eleito.

▲ Durante o conclave surgiram rumores sobre a saúde do à época cardeal Jorge Bergoglio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A escolha parecia iminente, mas era tempo de uma interrupção. Antes de regressar à Casa de Santa Marta, onde todos os conclavistas ficam alojados, Scola ficou para trás com um conjunto de cardeais italianos que o estavam a apoiar. O arcebispo de Milão parecia não ter interesse em continuar e aconselhou mesmo que votassem em Bergoglio, apesar dos cardeais não o terem ouvido. “Eles não queriam que ele atirasse logo a toalha”, diz O’Connell no livro de 2019, que tem por base várias entrevistas.

Durante o almoço começariam a circular rumores sobre a saúde do arcebispo de Buenos Aires. Isso mesmo foi confirmado pelo cardeal Óscar Maradiaga, um dos que apoiava abertamente Bergoglio, cinco anos depois. “Não posso dizer o que aconteceu dentro da Sistina durante o conclave, mas posso relatar isto: quando a figura do arcebispo de Buenos Aires começou a emergir como um possível novo Papa, eles começaram a mover-se para parar o plano de Deus. Alguém que estava a apoiar outro cardeal papabili espalhou em Santa Marta a palavra de que Bergoglio estava doente, de que não tinha um pulmão”, escreveu no prefácio do livro Tutti Gli Uomini di Francesco (Todos os Homens de Francisco), do vaticanista Fabio Marchese Ragona.

Maradiaga explicou que, depois de falar com outros cardeais, ganhou “coragem” e decidiu perguntar diretamente a Bergoglio, que ficou “muito surpreendido com a questão”. O futuro Papa respondeu que estava bem e que para lá de uma dor ciática e de ter sido operado quando era jovem por causa de cistos no pulmão não tinha problemas de saúde sérios. “Foi um verdadeiro alívio: o Espírito Santo, apesar dos obstáculos, estava a apontar para a pessoa certa.”

"Quando o nome de Bergoglio foi pronunciado pela 77.ª vez "houve um suspiro coletivo -- um aliviar de tensão, como o ar a sair de repente de um balão a esvaziar-se. Os cardeais levantaram-se e aplaudiram."

Esse não foi o único rumor a circular. No seu livro, Gerard O’Connell relata o episódio em que um eleitor se aproximou do cardeal Lehmann e afirmou que Bergoglio tinha estado em conluio com a ditadura militar na Argentina (1976-1983). “O diabo também está ativo durante um conclave”, comentou um cardeal com o correspondente do Vaticano semanas depois da eleição. A mesma fonte revelou que, nesse almoço de quarta, um conclavista o tentou dissuadir de votar em Bergoglio, acusando-o falsamente de lidar mal com um caso de abusos.

Na última votação, à medida que os votos iam sendo contados, poucas dúvidas restavam de que o eleito seria Bergoglio, que segundo o relato de um cardeal, rezava o terço com um rosário entre as mãos. Quando o nome de Bergoglio foi pronunciado pela 77.ª vez “houve um suspiro coletivo — um aliviar de tensão, como o ar a sair de repente de um balão a esvaziar-se. Os cardeais levantaram-se e aplaudiram”, relatou Austen Ivereigh no capítulo “Conclave” da sua biografia do pontífice (“Francisco, o Grande Reformador: os caminhos de um papa”). Segundo cardeais ouvidos por O’Connell, o argentino chegou aos 85 votos, de acordo com Piqué alcançou 90. “Acho que não havia ninguém na sala que não tivesse os olhos húmidos”, resumiu o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque, ao Good Morning America.

Ao final da tarde do dia 13, às 20h13, Francisco apareceu na varanda da Basílica de São Pedro e cumprimentou os milhares de fiéis com um simples “boa noite.” Depois disso, rejeitando a limusina papal, regressou no mesmo autocarro com os seus eleitores para a casa de Santa Marta. O cardeal William Wuerl relatou à imprensa que entrou na sala de jantar como em todas as outras vezes no conclave, cumprimentando os eleitores e sentando-se. Durante o jantar avisou-os: “Que Deus os perdoe por aquilo que fizeram”, afirmação que o cardeal Dolan refere ter “deitado a casa abaixo.”

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