Júlio Pimentel segue apressado pelas ruas de Carregais. Ao lado, o rio Mondego já tomou muito mais do que o espaço que lhe é natural ocupar e continua a subir. Júlio dirige-se para a sua casa, uma das mais vulneráveis à subida do caudal. “Tenho de ver como aquilo está”, atira, enquanto tenta segurar o guarda-chuva, que mal resiste ao vento e à chuva forte que continuam a fustigar a região Centro.
Júlio está preocupado mas não em excesso. Afinal de contas, precaveu-se para este cenário. Desde as grandes cheias de 2001 que se vem preparando para a subida do caudal do Mondego. Construiu um muro de contenção à volta de casa e comprou uma bomba de drenagem para evitar que a água inunde o quintal e o terreno por detrás da vivenda de dois andares onde vive com a família.
“Tive de mandar pôr esta comporta”, diz, enquanto mostra o muro que separa a sua propriedade de um terreno baldio, agora invadido pelo Mondego. Só desde terça-feira, quando começou a chover com maior intensidade em Coimbra, a água tinha subido 80 a 90 centímetros, garante Júlio Pimentel, embora ainda estivesse longe de galgar o muro. Num anexo onde guarda alguma maquinaria (agora colocada a salvo da subida do rio), Júlio mostra a marca onde a água já chegou em 2019, quando rebentou parte do dique do Mondego.
Quando o caudal do rio já estava a colocar à prova a resistência do dique que bordeja o Mondego durante quilómetros a jusante de Coimbra, na pequena aldeia de Carregais, o maior receio era que acontecesse uma nova cedência este ano. Ao final da tarde, o receio (e os avisos insistentes das autoridades) confirmaram-se: parte do dique colapsou, em Ponte dos Casais, mas na margem direita — numa zona sem habitações, inundando campos agrícolas.
Em Carregais, grande parte da população decidiu ficar
Na manhã desta quarta-feira, quando o Observador visitou a freguesia de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades (uma das zonas parcialmente evacuadas pelas autoridades e a que pertence Carregais), algumas estradas junto ao Mondego estavam já cortadas. A estrada que dá acesso à casa de Júlio Pimentel continuava transitável. Ainda assim, grande parte das casas tinham sacos de areia à porta para evitar a entrada da água.
Júlio colocou também proteções junto às portas da vivenda. Ainda foi abordado pela Proteção Civil e por elementos da junta de freguesia no sentido de deixar a habitação mas não o fez. “Estamos bem aqui. As portas estão protegidas, está controlado”, garante.
▲ Júlio construiu um muro de contenção à volta de casa e comprou uma bomba de drenagem para evitar que a água inunde o seu terreno.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Na mesma rua, Irene Mendes também não acatou as recomendações das autoridades para abandonar a casa. “Não quis sair, tenho o primeiro andar mesmo que isto suba”, diz a moradora, lembrando o “mar” em que a aldeia se transformou em 2001, as últimas grandes cheias na bacia do Mondego. “Foi em janeiro, o dique não aguentou, morreram cavalos até”. Desta vez, Irene acredita que a fé ajudará a população. “Deus é grande e vai fazer tudo pelo melhor”, acredita, acrescentando que, pelo que sabe, a maior parte da população decidiu ficar e não seguir as recomendações de evacuação.
Ainda assim, as sete zonas de concentração e apoio à população criadas pela Câmara de Coimbra receberam entre 150 a 200 pessoas, disse ao Observador Carlos Tavares, comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Coimbra, reconhecendo que houve resistência da população em deixar as casas.
“Há sempre alguma resistência, as pessoas não gostam de abandonar aquilo que lhes custou a construir”, frisa, antevendo que as pessoas que escolheram ir para os abrigos poderão ter de permanecer nesses espaços (pavilhões ou escolas) durante “dois ou três dias”. “Estamos a jogar com os caudais e os caudais têm vindo a aumentar”, explica. Embora não tenha dados, o responsável adianta que a maior parte das pessoas que saiu das casas nas zonas ribeirinhas inundáveis acabou por se refugiar em casa de familiares ou amigos ao invés de ir para os abrigos.
Caudal do Mondego atingiu níveis críticos. Dique “portou-se bem”, mas acabou por ceder parcialmente
Esta terça-feira, quando a Agência Portuguesa do Ambiente alertou os presidentes de Câmara que o dique do Mondego corria o risco de ceder, foi montada uma operação de evacuação das zonas ribeirinhas mais vulneráveis — que abarcou uma área onde residem cerca 3.500 pessoas, das quais 2.800 a 3.000 no concelho de Coimbra, 300 a 500 habitantes do concelho de Soure e 80 a 100 em Montemor-o-Velho. “Há o risco de colapso do dique e por isso tínhamos feito o planeamento de zonas de evacuação”, disse a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, ao Observador, comparando tal situação à “explosão de uma bomba”.
Depois de 15 dias de chuva ininterrupta, e com a barragem da Aguieira (com uma quota acima dos 85%) obrigada a debitar água, também para encaixar a precipitação que se seguiria, o caudal do Mondego atingiu esta quarta-feira níveis críticos. A meio da manhã, aproximava-se já do nível de segurança, com quase 1.800 metros cúbicos de água a passarem a cada segundo pela Ponte-Açude. Ao início da tarde, a medição da Proteção civil municipal apontava já para os 2.050 metros cúbicos, mais do que a capacidade de resistência do dique (que fora construído para conter a água até aos 2.000 metros cúbico/segundo). “A obra está a portar-se muito bem”, dizia Carlos Tavares, escassas horas antes de acontecer uma rotura em Ponte dos Casais.
Pela manhã desta quarta-feira, João Simões já antevia uma rotura do dique precisamente naquela zona. Numa espécie de posto de comando improvisado que tem montado em casa, na localidade de São Martinho do Bispo, João, que é formado em Proteção Civil, acompanha atentamente o que vai acontecendo. Mantém contacto direito com amigos e a comunidade da zona através das redes sociais, vai monitorizando o caudal do Mondego e acompanhando as notícias. “Há uma primeira zona de rebentamento no centro hípico e uma outra por baixo do viaduto da A1 na quinta da Giralda porque há fissuras nos blocos e a argila começa a sair”, dizia o ex-radialista, notando que o risco estava concentrado na margem direita do Mondego. “Devemos estar preocupados mas não acho que a situação seja perigosa aqui”. João e a mulher também se recusaram a deixar a casa. “Nasci aqui. Daqui ninguém me tira. Para me levarem têm de me prender”, sublinha.
▲ João Simões sentado à secretária do seu "posto de comando".
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Esta quarta-feira, o primeiro-ministro Luís Montenegro alertou que pode haver mais roturas do dique do Mondego. Já a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, sublinhou que a rotura do dique em Ponte de Casais está a provocar uma cheia lenta na direção de Montemor-o-Velho, cuja malha urbana poderá agora estar em risco. “O trabalho mais urgente é monitorizar os dois diques que estão a proteger as casas de Montemor-o-Velho para não haver galgamentos de rio para a malha urbana”, sublinhou.
Rio Ceira galgou margens e inundou Cabouco
Para além das descargas da barragem da Aguieira, o avolumar do caudal do Mondego tem uma outra causa, há muito conhecida e que muita gente vai repetindo: o rio Ceira. O maior afluente do Mondego não tem qualquer “travão”, como diz um popular ao Observador. Ao contrário do rio que atravessa a cidade de Coimbra — que é regulado por três barragens (Aguieira, Fronhas e Raiva) —, o rio Ceira corre sem qualquer controlo. Ainda antes de desembocar na margem esquerda do Mondego, passa, num leito estreito, pela localidade de Cabouco, que esta quarta-feira teve de ser parcialmente evacuada.
▲ A localidade de Cabouco viu o caudal do rio subir muito depressa e ao final do dia já estava parcialmente inundada.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Ao final da manhã, os bombeiros Sapadores de Coimbra cortaram a estrada de ligação a Tapada (que atravessa o Ceira) e estavam a tentar sensibilizar os moradores a saírem, à medida que o nível da água subia de forma veloz. “Estamos a tentar que saiam, mas não é fácil”, diz um dos elementos da corporação, depois de ter estado vários minutos à conversa com uma idosa, que, apesar de já ter parte do quintal da moradia alagado, quis ficar. “Estão habituadas a esta situação”, assume. Apesar de não ser raro o Ceira galgar as margens naquela localidade, este ano tal já aconteceu por quatro vezes, diz ao Observador Juliana Neves, que mora numa zona mais elevada de Cabouco.
Depois das primeiras evacuações e da cedência do dique, está prevista a retirada de mais pessoas em novas zonas de Coimbra: em São Martinho de Árvore, Quimbres e São João do Porto também já se bate às portas para convencer as pessoas a evitar a subida do Rio Velho, afluente do Mondego. Em Coimbra, os rios não deverão acalmar tão cedo.
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