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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

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"Desilusão", "desorganização" e muito choro. Millie Bobby Brown esteve na Comic Con e o caos também /premium

Houve quem chegasse às 6h30 para poder comprar um autógrafo e a fila encheu o recinto. No fim, os 2 mil lugares para ver a estrela de "Stranger Things" voaram e uma multidão ficou sem a ver.

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“Queremos entrar! Queremos entrar!”, gritavam os fãs. Eram 14h15 e tinham fechado as portas para o Golden Theatre, o palco principal da Comic Con 2019, que decorreu este fim-de-semana no Passeio Marítimo de Algés. Millie Bobby Brown, atriz da série “Stranger Things”, ia falar com Nuno Markl 15 minutos depois. Temperatura: cerca de 30 graus. Sombra: quase nenhuma. Uma hora antes, era difícil perceber onde terminava a fila. Muitos furavam para tentar ganhar uns lugares, outros sentavam-se no chão, e quase todos se queixavam. “Sabe se vamos poder entrar?”, perguntavam-nos. “Somos jornalistas…”, respondemos. “Então diga à organização que isto é uma vergonha”.

Quando as portas fecharam, já agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) evitavam que acontecesse algo no meio de uma multidão daquela dimensão — e começavam os cânticos de protesto. Depois, começou o que se ouviu durante as duas horas seguintes: o choro de adolescentes. Ainda que no final também tenha havido choro feliz (bastante) de quem conseguiu pagar 50 euros para ter um autógrafo e uma fotografia com a vedeta. Ao Observador, a organização defende-se da confusão, dizendo: “A Comic Con não é um espetáculo da Millie Bobby Brown, é um evento de quatro dias com diversos conteúdos e diversos temas. Ninguém adquire um bilhete para a Millie Bobby Brown”.

A fila e a antecipação: “Conseguimos entrar?”

13h00. Faltava uma hora e meia para começar o evento com Millie Bobby Brown. O objetivo do Observador era ouvir a conversa da atriz com o comediante Nuno Markl, mas às 11h00 esse objetivo já tinha mudado quando, acertadamente, se percebeu que não ia dar para entrar na tenda gigante. No fim da fila, começámos a falar com quem tinha a esperança de ver a estrela.

A cerca de 400 metros da entrada, ainda a mais de meio da fila, Rosa Maria, de 73 anos, estava com um guarda-chuva a proteger-se do sol. Estava na Comic Con para fazer companhia à neta, de 11 anos, que veio do Porto só para conhecer Millie Bobby Brown. “Já estive noutra fila, não consegui comprar os autógrafos”, conta. “Não estávamos bem esclarecidas e quando fomos para a fila, estava muito grande”. Rosa e a neta, Clara Ramos, tinham chegado ao recinto às 11 da manhã (as portas abriram às 10hoo). “Comprei o bilhete nos CTT e não há nenhuma informação sobre isto [das filas para ver a atriz]”, desabafava. “Acho que nesse ponto devíamos ser melhores esclarecidos”, dizia. E quanto a uma reclamação? “Não vou fazer nada, é assim. A experiência fica para o próximo ano saber o que é”.

À entrada do Golden Theatre vários fãs amontaram-se ainda na esperança de entrar no recinto (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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Andámos poucos metros e, na fila principal — por esta altura já se tinham formado duas e a confusão fez com que muita gente que chegou antes ficasse para trás — estava Ana e Joaquim Eusébio, a filha, de 14 anos, e o pai, de 41, nada satisfeitos. Vieram de propósito de Paredes, na região do Porto, “no autocarro da Comic Con”, diz Joaquim. “Saímos às 6 da manhã”. Mal chegaram, tentaram ainda ir para uma outra fila que houve durante a manhã, na loja oficial da Comic Con, para comprar a possibilidade de pedir um autógrafo à atriz — 20 euros — e uma fotografia — 30 euros. Com um sol abrasador a iluminar o recinto, assumiam com tristeza: “Não conseguimos”. “Criaram uma segunda fila, está um bocado mal organizado. Estávamos aqui nesta fila, fizeram outra”, insistiam, dizendo que a experiência deste domingo foi só “esperar para nada conseguir”.

Vários visitantes ficaram várias horas sentados ao sol para tentarem entrar no local onde a atriz ia falar (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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Mesmo à frente, Ricardo Santos viu o microfone do Observador e quis falar: “A organização tem dito zero. Para saber informações tenho de perguntar a jornalistas”. A filha, de 9 anos, fã da série “Stranger Things”, já começava a perceber que não devia conseguir entrar no recinto e perguntava: “Acha que conseguimos entrar?”.

Seguimos para mais perto da entrada do lado esquerdo, que tinha a fila mais comprida que estávamos a seguir. A confusão começava. A fila, que no fim ainda estava como indiana, no início estava o Texas. As pessoas amontoavam-se e os desabafos e críticas começavam a ser mais intensos. Faltavam cinco minutos para as duas da tarde. 

Ana Louseiro, de 47 anos, protegia-se do sol com um guarda-chuva e uma pala. “A minha filha de 11 anos está ali à sombra, estou aqui por ela”, diz. Tinha chegado às 10h30 e, com a confusão, acabou por ficar mais perto da entrada. “De manhã fomos tentar comprar os autógrafos e já estavam esgotados”. Mal chegaram, “uns polícias disseram: não vale a pena, não vão conseguir”. Contavam ainda que “não há forma de fazer uma fila ordenada e a organização devia ter antecipado esta situação”. Ao mesmo tempo falavam de “desilusão”: “Já se passaram duas conferências e estão a amontoar-se mais pessoas, vou escrever no livro de reclamações”, prometia Ana.

A fila que se dividiu em duas. Esteve desde manhã e a maioria das pessoas não entrou (ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR)

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Pouco à frente estava Vasco Duarte vestido como Steve Harrington, outra das personagem da série “Stranger Things”. Com apenas 9 anos, conseguiu recriar ao pormenor a farda da geladaria da personagem interpretada pelo ator Joe Keery. “Viemos da zona de Mafra e é a minha primeira Comic Con”. Assumia que “vinha ver uns youtubers e banda desenhadas”, mas queria tentar a sorte para ver Eleven, a personagem de Millie Bobby Brown, ao vivo. Contudo, como disse, “isto [a fila] não anda”. A mãe, Cláudia Duarte, de 44 anos, confessava: “Sabemos que há um número limite, mas já nos deviam ter informado, há cada vez mais pessoas a passar à frente”.

Quase às 14h15, alguns agentes da PSP colocavam-se à porta do Golden Theatre e percebia-se que ninguém na fila ia entrar.

A televisão gigante para quem ficou do lado de fora — que era pequena e não tinha som

Assim que fecharam as lonas da entrada para a tenda do Golden Theater o ambiente ficou bastante tenso. A PSP evitava que as pessoas entrassem, mas os empurrões na entrada do lado esquerdo aumentavam e começaram os berros: “Queremos entrar! Queremos entrar!”. Muitos fãs perceberam que não iam conseguir o que queriam e, no outro canto, onde estava outra entrada (que deveria ser uma saída mas também tinha uma grande fila), um ecrã gigante mostrava o que acontecia dentro do auditório. No entanto, ainda nada de Millie.

“Estou muito insatisfeita, deviam ter feito como nos festivais de verão em que está tudo realmente ao ar livre, era uma boa solução”, diz uma fã. Graças ao microfone do Observador, várias pessoas queriam queixar-se, enquanto outros gritavam e empurravam contra as lonas fechadas. Mal começou a contagem decrescente de 10 segundos no ecrã gigante, a única esperança para os fãs verem a atriz, acalmou-se um pouco o ambiente.

Havia um ecrã à porta da tenda do Golden Theatre, mas o som era pouco audível (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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Com o sol quente, viu-se no ecrã Millie Bobby Brown a entrar em palco. Contudo, mal foi possível ouvir o que disse. Do auditório vinham sons de júbilo e palmas às reações da conversa entre Bobby Brown e Markl; do lado de fora, quem não tinha conseguido entrar fazia questão de vaiar: “buuuhh!”.

Ironicamente, algumas fãs tinham o nariz com sangue — é uma coisa da série “Stranger Things”, em homenagem a Eleven –, mas em três casos que vimos, devido ao calor, houve quem ficasse realmente assim e viam-se paramédicos da organização no meio das pessoas. Mais tarde, ao Observador, duas dessas paramédicas contaram que tiveram de assistir algumas pessoas.

Vários jovens tentaram apanhar o momento em que Millie Bobby Brown passou para a tenda dos autógrafos (ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR)

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Perto das 15h00 eram já poucos os fãs — em comparação com os que estiveram à espera — que viam as imagens do ecrã gigante que na verdade se revelava pequeno. Muitos visitantes insatisfeitos ainda tentavam falar com alguns seguranças em redor e pediam justificações. Uma visitante diz até: “Vou fazer um abaixo assinado para pedir o dinheiro de volta”.

Naquele sítio já não havia muito para ver. Estava ali o ecrã com a atriz e o comediante português, mas o som não facilitava. A comoção tinha acalmado, mas havia outra etapa para quem queria ver Millie Bobby Brown: a fila dos autógrafos.

A reação de quem conseguiu um autógrafo ou “as lágrimas de felicidade das adolescentes”

O cenário para a fila dos autógrafos — que aconteceram numa tenda mais pequena ao pé do palco em que Millie falou com Markl — também foi de confusão. Apesar de apenas poder estar na fila quem de manhã cedo conseguiu pagar 20 euros pelo autógrafo ou, também, 30 euros por uma fotografia, nada foi simples. Pessoas empurravam-se nas entradas da tenda para, ao longe, tentarem capturar uma imagem à atriz com o smartphone. Quem tinha o recibo para ter o autógrafo, apertava-se para poder entrar.

Do que presenciámos, todos os visitante com um comprovativo de pagamento para poder ter um autógrafo conseguiram-no. Apesar de ainda existir comoção, quem não tinha este papel que dava acesso ao contacto mais direto possível na Comic Con com a atriz começou a dispersar. Alguns fãs choravam porque perceberam aí, já às 16h00, que não iam, de todo, conseguir ver Bobby Brown: “Estivemos nas filas para nada”. Mas também havia quem chorasse de felicidade.

Madalena Brandão e Maria do Carmo Sottomayor pediram à atriz para assinar um boneco da Eleven e a capa de um iPhone SE (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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Madalena Brandão e Maria do Carmo Sottomayor, ambas com 15 anos, foram duas das fãs que conseguiram conhecer a atriz. Visivelmente contentes, eram a antítese do que se passava em redor. Não conseguiram comprar uma fotografia para a atriz assinar, mas tiveram o desejado autógrafo num boneco de merchandising da série e na capa do iPhone de Maria.

Já Leonor Riba, de 14 anos, era o retrato da maioria das fãs que conseguiu tudo e que chegou bastante cedo ao evento para ter o autógrafo de Millie Bobby Brown: chorava, mas de alegria. Orgulhosamente e com as amigas, mostrava a fotografia assinada ao Observador. À volta, muitos fãs iam-se embora do recinto por não terem conseguido o que queriam.

Uma fotografia autografadas pela atriz (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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“A Comic Con não é um espetáculo da Millie Bobby Brown”, disse o responsável do evento

Sobre esta situação, Paulo Rocha Cardoso, presidente da Comic Con Portugal, falou por volta das 17h30 com Observador: “Estivemos sempre preparados para organizar isto da melhor forma possível”. “Hoje, sem exceção, os planos e todo o programa decorreu na normalidade”, continuou. Sobre a frustração e crítica dos visitantes, justificou: “Houve uma afluência imensa ao auditório desde o início e várias pessoas quiseram guardar lugares dentro do auditório. Isto criou problemas com as pessoas que estavam afetas ao local. Não podemos obrigar as pessoas a sair dos painéis”. Ressalvando que “é extremamente importante trazer estes talentos a Portugal”. E argumentou: “A Comic Con não é um espetáculo da Millie Bobby Brown, é um evento de quatro dias com diversos conteúdos e diversos temas. Ninguém adquire um bilhete para a Millie Bobby Brown”.

“Hoje vai estar aqui o Joaquim de Almeida, [a banda do filme] Variações, temos outros painéis com exclusividades. Temos imensos conteúdos que estão a acontecer. Ninguém adquiriu bilhete especificamente para um conteúdo”, reiterou. Sobre a possibilidade de devolverem o dinheiro a quem se sentiu enganado, o responsável máximo pelo evento respondeu: “Para nós, não é possível de uma forma sensata não estarmos a evidenciar todos os conteúdos. Não é um evento para um espetáculo em particular. Queremos que as pessoas estejam extremamente satisfeitas”. E continuou: “Iremos responder às questões de todas as pessoas que se sentiram defraudas”. Contudo, voltou a dizer: “Não comercializámos bilhetes para o auditório, comercializamos bilhetes para o espetáculo na sua plenitude”.

Vários elementos da PSP estiveram no local (ANDRÉ DIAS NOBRE/OBSERVADOR)

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Apesar de assumir que “a Comic Con Portugal está sempre numa contínua melhoria”, defendeu-se dizendo que “dentro do auditório as pessoas estavam a ser informadas para estarem confortáveis, mas outro diversos conteúdos estavam a acontecer”. E afirmou também: “Temos muitos pais com muitas crianças que sentiam que os seus filhos deviam ter prioridades. Eu tenho filhos, sei o que é ter essa sensação”.

Quanto a correções para estas situações não voltarem a acontecer, disse: “Se verificarmos efetivamente que existem situações a mudar, na próxima edição iremos atuar nesse sentido. Temos visto todas as edições e é o que tentamos fazer. Nunca é a nossa intenção defraudar expectativas”.

"O próprio talento indica o número de autógrafos que quer dar. Eles indicam qual o valor que será comercializado. Tentámos que tudo esteja dentro da normalidade. É uma operação muito muito grande. Temos de pedir compreensão. É difícil isto que estou a pedir. Tenho sempre uma expectativa de estar com um talento"

“Gostamos cada vez mais de trazer este tipo de talentos que atrai multidões porque as pessoas gostam”, disse ainda. No entanto, assumiu: “Somos reféns da própria indústria”. E continuou: “O próprio talento indica o número de autógrafos que quer dar. Eles indicam qual o valor que será comercializado. Tentámos que tudo estivesse dentro da normalidade. É uma operação muito muito grande. Temos de pedir compreensão. É difícil isto que estou a pedir. Tenho sempre uma expectativa de estar com um talento”.

Até ao momento da publicação deste, ainda não havia número oficial de visitantes este ano na Comic Con 2019. Questionado sobre qual o número de lugares disponíveis para ver a atriz e quantos autógrafos foram vendidos, a organização também não deu mais informações.

A Comic Con Portugal terminou este domingo e começou na última quinta-feira. Entre os convidados estiveram Millie Bobby Brown, ator português Joaquim de Almeida ou o intérprete do feiticeiro Wong, dos filmes de Dr. Estranho, o britânico Benedict Wong.

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